Dica gastronômica: a tradição da cunhapira

Por Olívia Fraga, d’O Estado de S. Paulo

O fruto do tucumanzeiro perfuma e colore a canhapira, um tipo de feijoada marajoara feito com carne de boi, de porco e vinho de tucumã. Não é de se encontrar fácil. O prato está à beira do desaparecimento na Ilha do Marajó, onde surgiu. O chef Paulo Martins (morto em 2010), em suas pesquisas gastronômicas, tentava promover seu resgate. Ele tentou divulgar a canhapira, registrando seu preparo em cadernetas e imagens para que fizesse parte do livro Culinária Marajoara, publicado postumamente. A feijoada dos marajoaras, redescoberta por Martins, estava adormecida nos arquivos de Martins, até suas filhas a encontrarem perdida em um arquivo de computador, descrita em um capítulo incompleto do livro que acabou não saindo.

“Tem gente em Belém que nunca ouviu falar em canhapira”, conta a filha Daniela Martins, também chef, que assumiu o restaurante Lá em Casa. “Eu mesma só fui saber o que era quando encontrei a receita perdida, no computador do papai.”

Ocorre com a canhapira algo que parece ser o destino de toda a cultura amazônica: nota em documento histórico, tema de trabalho acadêmico. Está em poder do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro o primeiro registro que descreve ‘como se faz e como se come’ a canhapira “na Ilha Grande de Joannes” (antigo nome da Ilha do Marajó), datado do século 18.

Por adensamento da população – e carência de gosto popular pelo que é de sua terra – o marajoara deixou de comer canhapira. O foco de resistência é Cachoeiro do Arari, município de 20 mil habitantes, que preserva de forma oficial o passado da ilha: o Museu do Marajó também não quer deixar a canhapira morrer e promove encontros festivos, oferecendo o prato os visitantes.

Dona Jerônima Barbosa, da Fazenda São Jerônimo, costuma servir canhapira (ou cunhapira) vez ou outra. Aprendeu com a mãe, mas diz que encontrar o prato nas redondezas é raríssimo. “Só vejo nas fazendas distantes, nos lugares em que dá muito tucumã. Nas cidades ninguém mais faz. Imagina, aqui ninguém mais gosta nem da cuia…”, conta ela. O termo “cunhapira” parece ter se restringido ao preparo da feijoada com peixes secos, de mar e de rio.

Jerônima já viu e experimentou canhapira com todo tipo de carne, mas gosta de fazer com a de sol. “Moqueio, refogo com folha do cipó do alho, maniçoba, e apuro bem com o vinho do tucumã, em fogo baixo”, explica a cozinheira. No Alto Rio Negro, ainda sobrevive a quinhapira, cozido de peixe com tucupi, pimentas-de-cheiro e caruru. (Foto: PAULO SANTOS)

7 comentários em “Dica gastronômica: a tradição da cunhapira

  1. Uma verdade: a Canhapira corre um sério risco de se perder na memória culinário-cultural do Marajó. Muitos dos Marajoaras mais jovens sequer ouviram falar da iguaria. Até entre a juventude Cachoeirense é possível perceber que a tradição vem se esvaindo. Há muitos anos passados fui apresentado à Canhapira, na Fazenda Cuieiras, em Cachoeira do Arari, pela pranteada Dona Madá, marajoara autóctone, que a preparou e serviu, no capricho, para satisfazer minha curiosidade despertada pela leitura de Dalcídio Jurandir. A propósito, aqui em Belém, há um casal de irmãos, Cachoeirenses da velha guarda, Glória e Carlos Franco, que freqüentemente preparam este calórico prato. Pena que nem sempre presenteiam os seus cunhados nem como uma modesta porção. Fica aqui o protesto.

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  2. Gerson, certa vez tentei experimentar a tal Cunhapira (ou Canhapira, como me foi apresentada) lá em Soure, na casa de um compadre.
    Sou apaixonado por toda e qualquer comida paraense, aliás, sempe faço questão de experimentar pratos exóticos de qualquer lugar que venha a conhecer. Detalhe: eu “remo” legal um prato de comida.
    Mas, francamente, achei a gororoba extremamente… Vá lá, exótica! Não gostei. Talvez pela presença do Tucumã, que acho uma fruta de última.
    Também não tenho coragem de encarar o tal caldo de Turu, e nem pensar em enfiá-lo goela abaixo, cru e cheio de lama.
    Ser paraense é ótimo, mas exige uma certa coragem… rs.

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  3. Se e para falar de comida, então falarei também! Pessoal, quem tiver a oportunidade de ir um dia em Tucuruí, procurem o restaurante com este nome: To tom tim, poís lá e servido um excelente Tucunaré no saco. Uma verdadeira delicia do nosso estado do Pará! Mais para começar, peçam primeiro um delicioso tira gosto de JATUARANA, que e o famoso peixe de cachaceiro de Tucuruí, pois ele peixe e muito gostoso, é um peixe bem parecido à pratiqueira, porém muito mais gostoso.
    Pois e pescado por lá mesmo, à beira do rio Tocantis…..tudo de bom, é para acompanhar tudo isso, para quem BEBE, peça para o mineiro o propietário, uma SCKOL, que ele tem lá chamada de canela de pedreiro, pois à garrafa vem branca de tão gelada…uma boa dica para o Cláudio Santos, que gosta de apertar uma zinha né???? huhauahuahauahuahaua

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    1. Ei André, sou freguês do “Tô-Toon Tim” e do Tucunaré no saco. Sempre que vou a Tucuruí a trabalho dou uma meia sola por lá. Mas, excelente mesmo é o Filhote na chapa lá do CRT. Nada igual em termos de sabor.
      O que também não abro mão é traçar uma Caranha (espécie de Piranha do Tocantins) frita ou assada na casa de algum amigo da vila residencial… Claro, sempre acompanhado de cerveja gelada e nessas horas meu velho violão dá um auxílio luxuoso que cê nem imagina… rs.

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      1. Verdade Soeiro, o filhote é um otimo peixe, feito de qualquer maneira. Mais eu ainda não tive à oportunidade de comelo feito na chapa.
        Mais costumo comer, sempre que posso esse delicioso peixe da nossa região! Mais o Tucunaré, é uma delicia pescalo no lago de tucuruí, é ainda comelo depois da pescaria. Não tem preço!!!!

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