
POR GERSON NOGUEIRA
A adoção do Fair Play Financeiro no futebol brasileiro sempre foi muito mais objeto de discurso moralizante, mas de pouca efetividade. Era uma ideia que surgia sempre como arma de ataque quando o adversário de um grande clube abria o cofre para contratações milionárias. O Flamengo, por exemplo, chiou em relação ao Botafogo e ao Palmeiras.
Diante disso, a situação de passividade foi quebrada pela decisão da CBF de implementar o Fair Play a partir deste ano, de maneira gradativa até 2029/2030. O objetivo é controlar gastos e evitar o endividamento dos clubes. Regras passam a impor limites para a gastança.
O modelo se inspira no sistema europeu, que pune agremiações que gastam mais do que arrecadam. Penas progressivas, inicialmente brandas, serão aplicadas a quem descumprir as regras – advertências, multas, proibição de registro de jogadores (Transfer ban), perda de pontos e rebaixamento.
Tudo sob a fiscalização e o monitoramento de uma agência reguladora independente (NRSF) e uma plataforma unificada (DTMS). Serão pelo menos três janelas de monitoramento – 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro de cada temporada a partir deste ano.
É preciso reconhecer que a nova direção da CBF aproveitou bem o início da gestão, ainda sem o desgaste que normalmente ronda a parte final de mandatos. O lançamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira do Futebol Brasileiro, direcionado às Séries A e B, pretende sanear e dar segurança econômica ao mercado do futebol.
Uma parte fundamental é a atenção às dívidas contraídas com credores, atletas, governo e funcionários. Para funcionar, a CBF terá acesso a todas as transações entre clubes através de registro detalhado em sistema próprio, inclusive quanto à forma de pagamento. Pela primeira vez, todos os contratos firmados entre clubes e atletas serão sistematizados.
Esses registros funcionarão como pré-condição para publicação de contratos no BID. Clubes e atletas podem recorrer à agência reguladora, a qualquer momento, para denunciar eventuais atrasos.
Sistema vai frear a gastança desenfreada
O teto para as receitas dos clubes é de 70%, desde o valor líquido das transferências (descontadas taxas e comissões, por exemplo) e aportes para gastos com salários, encargos, direitos de imagem e amortizações. Quanto à capacidade de endividamento, o valor de curto prazo (vencendo em até um ano) deverá ser inferior a 45% das receitas do clube.
Até 2027 os que violarem a regra serão apenas advertidos. O percentual será aplicado de forma gradual entre 2028 (60% das receitas relevantes) e 2029 (50%) até chegar aos 45% em 2030.
Um ponto de extrema importância: o Fair Play prevê limitação da folha salarial, que não pode exceder o patamar médio dos seis meses anteriores. Diminui o derrame de dinheiro nas janelas de transferências e deve frete a escalada de altos salários. O clube terá que gastar o mesmo ou menos do que foi arrecadado com a venda de atletas.
Balanços e demonstrações financeiras serão entregues até 30 de abril do ano seguinte, acompanhadas de relatório de auditor independente registrado na CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Já o orçamento anual terá de ser apresentado até 15 de dezembro do ano anterior, aprovado pela administração. Essa regra é de caráter apenas educativo.
A Série C terá um monitoramento simplificado, pelo menos nesta fase inicial. Os clubes devem cumprir as regras das dívidas em atraso e apresentar balanços financeiros anuais e auditados.
Cartolagem passa a ser vigiada mais de perto
O Sistema de Sustentabilidade Financeira elaborado pela CBF reserva um espaço para as sanções que devem ser impostas a maus dirigentes, administradores relapsos, empregados ineptos e membros de conselhos ou controladores que utilizem documentos fraudulentos ou enganosos ou participem de atos que violem ou descumpram decisões já definidas.
As sanções incluem: advertência pública, multa, suspensão temporária de exercício de função em clubes de futebol, proibição do exercício de cargos (inexigibilidade) e banimento do futebol. Fica faltando impor punição pecuária a dirigentes que se locupletam do dinheiro dos clubes ou fazem má gestão dos recursos em nome da agremiação.
Bola na Torre
O programa vai ao ar às 22h deste domingo, na RBATV, sob o comando de Guilherme Guerreiro. Em pauta, a preparação dos clubes paraenses para as primeiras competições da temporada. Participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense. A edição é de Lourdes Cezar e Lino Machado.
Punição a invasores só se aplica à Rússia
Ao que tudo indica, a punição que atingiu a Rússia, impedida de participar de competições da Fifa após ter invadido a Ucrânia, não será aplicada aos Estados Unidos, anfitriões da Copa do Mundo 2026. Vida que segue.
(Coluna publicada na edição do Bola de sábado/domingo, 10/11)
