A busca da modernidade não será tarefa fácil. Bastou levantar a bandeira para trazer de volta os piores vícios do sistema Globo
Por Luis Nassif
Duas manifestações graúdas das Organizações Globo não abrem margem a dúvida: ela colocou seus veículos a serviço de Eduardo Cunha, Arthur Lyra e de seu pupilo Hugo Motta. É o que se depreende da decisão de colocar o Jornal Nacional a serviço de Motta, em uma reportagem ultrajante; e um editorial no jornal, criticando as críticas contra o Congresso.
Há questões que comportam dissidências, visões divergentes de opiniões. Jamais a defesa do Congresso Nacional, depois que se apossou do orçamento público montando uma verdadeira máquina de corrupção.
Não se tenha dúvida: se defende a apropriação do orçamento pelo Congresso, defende igualmente sua aplicação, através das emendas parlamentares. Ou seja, endossa e defende o mais pernicioso modelo de corrupção política já desenvolvido em muitas e muitas décadas.
Por outro lado, poucas vezes vi um Fernando Haddad tão disposto para a luta quanto agora. Ontem, na saída da sessão do NDB, ele me explicou o estado de espírito:
Meu pai me dizia que, quando alguém te ataca sem motivo, o primeiro passo para a reação é dar-lhe motivo.
E não poderia haver motivo civilizatório mais nobre. Pela primeira vez, na história, o PT assume a bandeira da justiça tributária como bandeira de luta.
De fato, nos governos Lula, jamais se arranhou a questão tributária. O aumento das cotações de commodities, especialmente no segundo governo, forneceu recursos à vontade, tanto para atender às políticas sociais, quanto para garantir os privilégios do andar de cima.
Agora, chegou a hora da verdade.
A busca da modernidade não será tarefa fácil. Bastou levantar a bandeira para trazer de volta os piores vícios do sistema Globo, para ressuscitar João Dória e para apresentar o moleque Hugo Motta como herói da raça.
Mas, pelo menos, começa a ser dado um mínimo de identidade econômica ao governo Lula.
O próximo passo será a disputa de narrativas sobre as medidas. O bordão, em favor dos super-ricos, e a acumulação de riqueza é o passo prévio para o aumento do investimento.
Não é o caso dos modelos de financeirização. Trata-se de um acúmulo estéril, que serve apenas para o chamado consumo conspícuo, para a internacionalização do capital e para manobras de arbitragem.
Há muito tempo, o país não exibia indicadores macroeconômicos tão favoráveis. E aí? Qual o espírito do pequeno, médio e grande empresários, com as limitações impostas pelos juros? Qual o estado de espírito da população sem um projeto de futuro, e sendo bombardeada diuturnamente pelo pessimismo militante da mídia? E com a estabilidade atual podendo ser atropelada por qualquer novo solavanco do dólar?
O início da reconstrução passa por um norte, um plano de metas ou o nome que se dê, que aponte o futuro. Será a única maneira de enfrentar essa inacreditável arco do atraso que volta a ser montado com o eixo Cunha-Motta-Globo-Centrão.
“Direita faz vídeo de IA de Lula ‘bêbado’ no G7, mente sobre cobrança de IPVA de bicicletas, ameaça ministros do STF: ‘Sabe usar as redes’. Esquerda vai pra cima dos deputados que votam tudo contra o povo: ‘Ah, vamos moderar esses ataques aí, gente…’.”
Quando a Copa do Mundo de Clubes começou era unânime a opinião de que os times brasileiros precisavam se classificar na primeira fase para dar por cumprida seu papel na competição. Todos conseguiram passar com méritos para as oitavas, mas Fluminense e Palmeiras foram além e avançaram até as quartas de final, ambos com desempenho acima do esperado para a competição.
O Flu era o menos cotado, sendo por isso mesmo colocado sempre como quarta força entre os brasileiros. Renato Gaúcho e seus comandados conseguiram subverter a lógica e a desconfiança para chegar fortes ao confronto com o surpreendente Al-Hilal, nesta sexta-feira (16h).
A classificação tricolor foi a mais empolgante dos times nacionais, credenciando o time para a sequência da competição. Superou a Internazionale, vice-campeã da Europa, jogando bem e buscando o ataque. Cabe dizer que as pitonisas da mídia ficam devendo um mea-culpa ao Flu e a Renato, subestimados o tempo todo nas análises.
Renato, por sinal, carrega há tempos a imagem depreciativa de técnico-boleiro, rótulo que estigmatizou a carreira de outros treinadores – Joel Santana, Andrade e Jair Pereira são bons exemplos desse grupo de profissionais. Apesar da facilidade de convívio com os jogadores, Renato é visto como um técnico das antigas, sem preparo ou conhecimento tático.
Já o Palmeiras de Abel Ferreira chegou à Copa bem avaliado, cotado pelos afobados de sempre como finalista do torneio, assim como o Flamengo. Até aqui a equipe paulista cumpre uma trajetória satisfatória, embora menos espetacular que a do Flu.
Com um dos elencos mais caros do continente, o Palmeiras vai encarar o Chelsea (às 22h), que na primeira fase foi derrotado pelo Flamengo. A diferença é que os ingleses evoluíram e chegaram bem cotados às quartas de final.
Avalio que, apesar da empolgação do Al-Hilal, o Fluminense tem mais possibilidades que o Palmeiras de chegar às semifinais.
Baixas no elenco voltam a incomodar o Papão
Nos tempos de Luizinho Lopes, o PSC chegou a ficar com 12 jogadores entregues ao departamento médico, obrigando o treinador a levar apenas cinco opções para o banco de suplentes. Claudinei Oliveira sente na pele o peso dessa situação, tendo oito atletas vetados para o jogo de amanhã contra o Avaí, em Florianópolis. Sorte dele é que o elenco ficou mais encorpado com a recente contratação de 10 reforços.
De qualquer maneira, entre os ausentes estarão atletas considerados titulares – Rossi, Benítez, Quintana, Matheus Vargas e Edilson – que fazem falta em jogo tão importante para o Papão, com destaque para Rossi, referência técnica e principal liderança do elenco.
Claudinei deve manter o mesmo time que derrotou a Ferroviária. É interessante que o novo Papão terá pelo menos seis dos jogadores recém-contratados: Thalison, Ronaldo Henrique, Anderson Leite, Diogo Oliveira, Vinni Faria e Denner. Não poderá contar com Maurício Garcez, talvez o principal reforço da última janela, que por acordo contratual não pode enfrentar o Avaí, seu ex-clube.
Com 13 pontos conquistados (9 deles sob o comando de Claudinei), o PSC busca diante do Avaí vencer a primeira partida fora de casa e ampliar a invencibilidade na competição. A meta neste momento é pontuar para escapar da zona de rebaixamento.
Botafogo e Saldanha unidos pela eternidade
Quis o destino que Botafogo e João Saldanha estivessem conectados até no calendário. Nascido em 1º de julho de 1894, ainda com a denominação de Club de Regatas Botafogo, o Glorioso de conquistas imortais e craques em profusão, teve em Saldanha um de seus mais apaixonados torcedores. Além de sócio, João Sem Medo honrou as cores alvinegras como técnico.
Saldanha nasceu em 3 de julho de 1917, morrendo em 12 de julho de 1990. Jornalista brilhante, ele dirigiu o Brasil nas Eliminatórias Sul-Americanas montando a base do time que viria a ser tricampeão na Copa do México, em 1970, já sob o comando de Zagallo, ex-jogador e técnico botafoguense.
Salinas sedia 4ª fase dos Jogos Abertos do Pará
A quarta fase da XIV edição dos Jogos Abertos do Pará (Joapa), regional Rio Caeté, foi aberta ontem à noite, no ginásio Zeca Faustino, em Salinópolis, nordeste paraense. A competição prossegue até domingo (6), reunindo 502 atletas de seis municípios – Bragança, Ourém, Primavera, Santarém Novo, São João de Pirabas e Salinópolis.
Torneios de basquetebol, futsal, futebol de areia, vôlei e tênis de mesa agitam a cidade neste começo de férias. O Joapa é hoje a maior competição de esporte amador do Estado, envolvendo os 144 municípios em 10 etapas regionais, visando fortalecer o esporte como fator de inclusão social.
O evento premia com o Troféu Eficiência o município que alcançar o melhor desempenho nas etapas regionais e estadual.
(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 04)
Para surpresa de quase ninguém, o Jornal Nacional da Rede Globo saiu em defesa dos mais ricos e do Congresso Nacional, que estão sendo alvos de críticas após o Senado e a Câmara dos Deputados derrubarem decretos do presidente Lula que aumentavam o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Internautas criticaram parlamentares e a expressão “Congresso da mamata” ficou entre os assuntos mais comentados nas redes sociais.
Na apresentação, a jornalista Renata Vasconcellos começa dizendo: “Uma campanha disseminada em redes sociais com ataques diretos ao Congresso Nacional está provocando preocupação de políticos e analistas”. “O pedido de moderação em defesa do respeito entre os poderes e da convivência democrática de diferentes correntes políticas”, continuou.
Colunista do 247, Hildegard Angel comentou sobre o tema. “Curioso, o JN pede ‘moderação’ aos que reclamam nas redes sociais contra o Congresso, que aprova aumentos de salários deles próprios, da conta de luz, aprova o trabalho 6×1, o PL do Licenciamento Ambiental (praticamente um libera geral), aprova emendas sem prestar contas. Agora, não vejo o JN se horrorizar com a enganação do povo por Brasil Paralelo, revista Oeste, Jovem Pan, CNN, redes sociais e ele mesmo. Esse filme, já vimos”.
Outro perfil na rede social X afirmou que o JN deu uma “clara demonstração de assessoria de imprensa dos ricos” e disse que a “mobilização popular nas redes contra o Congresso tem tirado o sono da direita”.
governo do presidente Lula (PT) defende a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) como uma medida essencial para preservar programas sociais e evitar restrições orçamentárias que prejudiquem os serviços públicos. Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o decreto busca corrigir distorções tributárias em setores que atualmente não contribuem adequadamente com impostos sobre renda.
Entre as principais mudanças estão o reajuste das alíquotas da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL): empresas de apostas eletrônicas (bets) teriam aumento de 12% para 18%, e as fintechs, de 9% para 15%, equiparando-as aos bancos convencionais.
Além disso, o texto propõe a tributação de Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), atualmente isentas do Imposto de Renda. Apesar da resistência legislativa, o governo já havia publicado uma Medida Provisória (MP) em junho, aumentando impostos sobre apostas e investimentos isentos — uma demanda do Congresso. A MP também inclui um corte de R$ 4,28 bilhões em despesas obrigatórias para 2024. Como contrapartida, o Executivo reduziu o impacto do decreto do IOF, mas a proposta foi rejeitada pelos parlamentares.
Dos 142 fazendeiros listados no dossiê “Agrogolpistas”, apenas 18 foram responsabilizados em inquéritos do 8 de janeiro; fazendeiro paranaense preso por depredar prédios públicos foi defendido por Sérgio Moro
Por Bruno Stankevicius Bassi e Tonsk Fialho – De Olho nos Ruralistas
Nos dois anos que se seguiram ao 8 de janeiro, a Justiça brasileira responsabilizou criminalmente 898 réus. Desse total, 527 foram condenados após prisão em flagrante dentro de prédios públicos e na Praça dos Três Poderes ou nos acampamentos ilegais em frente dos quartéis do Exército.
À exceção dos oito militares presos no curso das operações Contragolpe e Tempus Veritatis, os golpistas do 8 de janeiro são, em sua maioria, “peixes pequenos”. No rol de condenados nota-se a ausência de empresários que ajudaram a financiar não somente os acampamentos e os bloqueios rodoviários, mas também a conspiração golpista dos generais.
A falta de responsabilização de fazendeiros e donos de empresas agropecuárias que forneceram apoio logístico e financeiro ao golpe é um dos pontos centrais do relatório “Agrogolpistas“, lançado ontem (25) pelo De Olho nos Ruralistas. O estudo identificou 142 nomes ligados ao agronegócio entre os indiciados em comissões parlamentares de inquérito ou na Operação Lesa Pátria, da Polícia Federal, e os investigados por órgãos estaduais, pelas polícias civil e militar e pelos Ministérios Públicos estaduais.
Uma evidência dessa impunidade vem do relatório da CPMI do 8 de Janeiro, do Senado, que destacou o papel central dos caminhões estacionados no Quartel General (QG) do Exército, em Brasília. Os veículos serviam de palanque, auxiliavam no trânsito de mantimentos e simbolizavam a força do movimento, que ameaçava “parar o Brasil”.
Esses empresários da logística são também fazendeiros, um dado crucial que passou ao largo de boa parte das análises publicadas à época. Eles respondem por 91 das 142 entradas na lista: 64% dos nomes consolidados neste relatório. Quantos deles foram responsabilizados criminalmente por esse motivo? A resposta devastadora é: nenhum.
FAZENDEIRO PRESO É EXCEÇÃO ENTRE AGROGOLPISTAS
Os únicos empresários condenados presentes na lista consolidada no relatório “Agrogolpistas” são aqueles flagrados durante os atos terroristas de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. É o caso do fazendeiro paranaense Jorginho Cardoso de Azevedo, condenado a 17 anos de prisão por participar da invasão e depredação de prédios públicos na Praça dos Três Poderes.
Defendido por Moro, Jorginho de Azevedo foi preso por invadir Palácio do Planalto. (Foto: Reprodução/STF)
Azevedo conta com o apoio de um político famoso: o senador Sérgio Moro (União-PR). Em setembro de 2024, o ex-juiz da Lava Jato usou sua conta no Instagram para criticar o tempo de pena concedido ao conterrâneo. Ele disse que intercederia junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de transferi-lo ao regime semi-aberto para tratar “graves problemas de saúde”.
Na postagem, Moro comparou a situação ao caso da esquartejadora Elize Matsunaga: “O agricultor Jorginho de Azevedo deve ficar na cadeia por 17 anos, enquanto a assassina do ex-dono da Yoki cumpre em liberdade uma pena de 16 anos e três meses”. Em abril de 2025, Alexandre de Moraes autorizou a mudança para prisão domiciliar.
O que Sérgio Moro não diz é que Azevedo foi identificado pela CPI dos Atos Antidemocráticos, da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), como um dos contratantes de ônibus usados para levar manifestantes a Brasília. Não se trata, portanto, de um simples patriota, um “vândalo de passagem”.
Os indiciados nas comissões parlamentares — tanto do Senado quanto da CLDF — não integram a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) que definiu os seis núcleos golpistas no julgamento no STF. Também não foram processados os empresários listados na lista de donos dos caminhões flagrados no QG do Exército.
RELATÓRIO LISTA 18 FAZENDEIROS INDICIADOS POR 8 DE JANEIRO
A lista de 142 empresários do agronegócio consolidada no estudo “Agrogolpistas” se baseia exclusivamente em nomes implicados legalmente nas fontes oficiais. Nomes mencionados apenas em relatórios de inteligência, como o da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), divulgado pelo portal Congresso em Foco, não foram incluídos. Salvo as exceções: aqueles que também foram indiciados em outros processos relativos ao golpismo no Brasil.
Antônio Galvan, de camisa branca, acompanha Braga Netto em visita a usina de etanol. (Divulgação/Inpasa)
É o caso de Antônio Galvan, que presidiu a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) durante a era Bolsonaro. Responsável pela radicalização ideológica da organização, ele aparece junto a outros sete líderes do setor — entre presidentes de sindicatos rurais e dirigentes das Aprosojas regionais — que foram investigados na CPMI do 8 de Janeiro, no Senado.
Datado de 10 de janeiro de 2023, dois dias após a tentativa de golpe, o relatório da Abin aponta o Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA) como articulador, pelo menos desde 2021, de manifestações golpistas. O papel do MBVA e sua relação com o general Walter Braga Netto é o tema central do terceiro capítulo do relatório. Candidato a vice-presidente em 2022, Braga Netto é o “pai” do plano Punhal Verde e Amarelo — que pretendia assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Além desses dirigentes, o núcleo do 8 de janeiro conta com cinco fazendeiros que foram alvos de busca e apreensão no inquérito na Operação Lesa Pátria. São eles: José Ruy Garcia, vereador de Inhumas (GO); Fernando Junqueira Ferraz Filho, primo do prefeito de Leopoldina (MG); Luciene Beatriz Ribeiro Cunha, pecuarista de Uberaba (MG); e Geraldo Cesar Killer, de Bauru (SP), com quem foram apreendidos US$ 142 mil em espécie.
Quem fecha o grupo é Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da Aprosoja-MS e alvo da 26ª fase da Lesa Pátria. Ele é investigado por organizar comboios com ônibus e caminhões rumo a Brasília, além de estimular bloqueios de rodovias na região sul do estado. Um combo completo.
| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de pesquisa do De Olho nos Ruralistas. |
O Remo cumpre campanha de briga pelo acesso no Campeonato Brasileiro. São 23 pontos conquistados em 14 rodadas, que garantem o 5º lugar na classificação. Muitos desses pontos tiveram a decisão contribuição de Pedro Rocha, jogador que chegou ao Remo como aposta depois de uma temporada apenas razoável na Série A 2024 defendendo o Criciúma.
O atacante marcou oito gols na Série B, liderando a tábua de artilheiros da competição com três gols de vantagem sobre o segundo colocado. A performance surpreende porque supera amplamente o desempenho dele no Campeonato Paraense. E chama atenção porque Pedro Rocha sempre se destacou mais jogando como atacante de lado.
Aliás, com base no que exibiu no Parazão, marcando quatro gols, Rocha não despertou grandes expectativas na torcida azulina. Ao lado de Felipe Vizeu, outra contratação do Remo com vistas à Série B, ele teve participação discreta na campanha vitoriosa dos azulinos no Estadual.
Ao ser anunciado como reforço, poucos acreditavam no ponta revelado no Grêmio-RS. Depois de passar pelo futebol internacional, Rocha voltou ao Brasil e defendeu Flamengo, Atlético-PR e Fortaleza. Em 2023, ficou parado por oito meses devido a uma lesão no joelho. Recuperado, atuou pelo Criciúma, mas não marcou gol durante o Brasileiro.
O atual momento já iguala a melhor fase da carreira de Pedro Rocha, em 2016, quando despontou no Grêmio e gerou até convocação para a Seleção Brasileira. O mais relevante é que os gols vieram em consequência do bom rendimento coletivo da equipe, ainda sob o comando de Daniel Paulista.
Um esquema simples e objetivo, baseado em avanços pelos corredores laterais e marcação forte no setor defensivo, permitiu ao Remo frequentar o G4 e permanecer invicto até a 11ª rodada do Brasileiro.
Mesmo com limitações no setor de criação, sem um meia-armador de qualidade e golpeado pela ausência de Jaderson por cinco rodadas, o ataque vem funcionando bem, tendo Pedro Rocha como destaque maior.
Os reforços anunciados ontem pelo Remo – os volantes Cantillo e Nathan Camargo e o zagueiro Kawan – podem ser determinantes para que o time ganhe mais força e poder de criação, o que certamente irá permitir que o artilheiro aumente sua marca na competição e contribua para o projeto azulino de busca pelo acesso à Série A.
Marlon cresce no embalo da retomada do Papão
É fato que sob o comando de Claudinei Oliveira o PSC mudou da água pro vinho, começando pela atitude determinada em busca das vitórias e a arrancada de recuperação que tirou o time da lanterna do campeonato. Um jogador em particular foi muito beneficiado com a troca de direção técnica: Marlon, que voltou inclusive a fazer gol depois de longo jejum.
A evolução técnica do atacante tem tudo a ver com a transformação operada no PSC. Marlon nem titular costumava ser desde que Márcio Fernandes foi substituído por Luizinho Lopes. Virou opção no banco de reservas e, quando aparecia na equipe, era atuando em posições estranhas, como ala direito e meia de ligação.
As atuações confusas começaram a se repetir e a torcida, como sempre ocorre nesses casos, caiu matando. A insatisfação aumentava com os resultados negativos e alguns jogadores começaram a alvejados. Marlon entrou nesse combo e chegou a ser vaiado dentro da Curuzu.
O que vem ocorrendo é um processo de reabilitação. Mesmo ainda escalado em funções variadas, ele vem recuperando a confiança, talvez por perceber que o comando técnico também confia nele.
Desde a estreia de Claudinei, diante do Botafogo-SP, Marlon se transformou em peça obrigatória nas escalações, começando sempre as partidas. Foi assim no Re-Pa e também na emocionante vitória sobre a Ferroviária, quando marcou o gol de empate, tirando o time do sufoco num momento crucial da partida. Lembrou os bons tempos do Marlon artilheiro, decisivo nas ações dentro da área.
Sinal claro de que os ventos sopram favoravelmente a ele, para o importante confronto de sábado com o Avaí, em Florianópolis, já não há dúvida quanto à presença de Marlon na estrutura ofensiva do time, como atacante pelos lados ou parte do quadrado de meio-campo.
Fenômeno Azul lidera ranking de público na Série B
Os números referentes a público no Campeonato Brasileiro da Série B confirmam a grandeza das torcidas paraenses, depois de 14 rodadas disputadas. Turbinado pela boa campanha, o Remo lidera o ranking da competição e o PSC é o 4º colocado. O Leão tem um total de 192.080 pagantes e média de 27.440 pagantes, seguido por Atlético-PR (160.857 pagantes e média de 20.107), Coritiba em 3º (134.571 – 22.429) e Paysandu em 4º lugar, com 111.936 pagantes e média de 15.991.
O Criciúma aparece em 5º lugar no ranking de torcidas, com público total de 66.559 e 8.320 de média. O líder Goiás aparece em 6º lugar, com 49.883 pagantes e média de 7.126. O CRB é o 7º, com 48.853 de público total e média de 6.979, seguido por Avaí (45.767 – 6.538), Vila Nova (43.495 – 6.538) e Chapecoense (33.453 – 4.779).
Fica claro que a opção do Remo por mandar jogos no estádio Jornalista Edgar Proença foi fundamental para atestar a força de sua torcida.
(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 03)
Isolado na artilharia do Campeonato Brasileiro da Série B, o atacante Pedro Rocha brilhou mais uma vez e garantiu a vitória do Remo sobre o Athletic com dois gols na 14ª rodada da competição. Com os 3 pontos, o Leão chegou à quinta colocação, igualando a pontuação do Avaí, que fecha o G4. E essa não foi a primeira vez que o goleador do clube marcou mais de um gol numa partida nesta edição da Série B. Em seu primeiro jogo como mandante no Brasileirão, o Remo venceu o América-MG pelo placar de 2 x 0 e os dois gols foram anotados pelo camisa 32.
Com os 8 gols marcados ao longo da competição, Pedro Rocha conseguiu ajudar o Leão a conquistar 12 pontos dos 23 registrados na tabela. Mais da metade dos pontos foram conquistados pelo trabalho coletivo da equipe que proporcionou ao atacante colocar a bola na rede, somando pontos importantes pro clube na tabela de classificação. Os 12 gols anotados em 2025 igualam sua melhor marca na carreira, registrada em 2016 pelo Grêmio. A expectativa é que o recorde seja superado ao longo da Série B.
Na temporada 2025, Rocha tem 26 jogos e 12 gols marcados. No Brasileirão, são 14 jogos e 10 participações diretas a gol. Os números na competição nacional chamam atenção do mercado, mas o atleta garante foco total no clube e união do grupo pra colaborar da melhor maneira possível nessa nova fase do Remo, com sua nova comissão técnica que agora conta com o português António Oliveira no comando.
Os gols, que selaram a primeira vitória azulina fora de casa tiveram um valor simbólico: encerraram um jejum pessoal de mais de 30 dias e quatro partidas, recolocando o camisa 32 como principal referência ofensiva do time. Pedro Rocha se isolou na artilharia da competição nacional, agora com oito gols, três à frente do vice-artilheiro.
“Nosso grupo é forte e confiamos no poder da equipe pra conquistarmos as vitórias que precisamos pra fazer o Remo subir na tabela. Meu momento individual é fruto do trabalho coletivo da equipe e agradeço aos meus companheiros pela entrega e confiança nos treinos e jogos. Espero que eu possa contribuir ainda mais com gols, mas, principalmente, que o Remo vença e continue somando pontos”, disse o goleador.
“Caramba, nessas duas últimas semanas a imprensa já ressuscitou o Aécio, o Ciro, o Temer, e agora ninguém menos que o João Dória!! Essa campanha de marketing da nova temporada de Walking Dead está superando todas as expectativas”.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou nesta terça-feira (1º/7), que o Governo Federal recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de uma Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC), para preservar a prerrogativa do presidente da República em editar atos relacionados à política tributária. A declaração foi dada em uma coletiva de imprensa, na sede da Advocacia-Geral da União, em Brasília (DF).
Por meio da ação, a AGU busca restabelecer o Decreto Presidencial nº 12.499/2025 que alterou as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e teve seus efeitos suspensos pelo Decreto Legislativo nº 176/2025, com a aprovação do Congresso Nacional.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, explicou que o ajuizamento da ação é fruto de uma ampla e estrita análise técnica-jurídica dos atos à luz da Constituição Federal e da própria jurisprudência da Corte. “A avaliação técnica dos nossos advogados, e que foi evidentemente submetida ao presidente da República, foi que a medida adotada pelo Congresso Nacional acabou por violar o princípio da separação de Poderes”, disse. “Nós temos uma grande preocupação de que a condução da política econômica e tributária seja preservada como uma atribuição própria do Poder Executivo Federal e que há, neste momento, um grande esforço do Governo Federal para produzir um volume significativo de medidas aptas à promoção da justiça fiscal, da justiça social com a responsabilidade fiscal que a sociedade nos exige”, acrescentou.
Messias lembrou que cabe privativamente à União instituir imposto sobre “operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários”. Afirmou, ainda, que o decreto presidencial alterou as alíquotas dentro dos limites e condições estabelecidos pela própria Constituição Federal e que o Congresso Nacional só pode sustar atos do poder Executivo, de natureza regulamentar, em caráter excepcionalíssimo, de modo restritivo e mediante a flagrante e a patente inconstitucionalidade. “De outra forma, é dizer: tendo o decreto do presidente da República preservado a sua integridade, não poderia prevalecer, evidentemente, o decreto legislativo que o susta”.
Messias ressaltou, por fim, que o Governo Federal tem trabalhado para retomar a normalidade institucional e que o diálogo entre os Poderes é fundamental. “Temos trabalhado intensamente, em diversas frentes, para estabelecer um diálogo interinstitucional saudável, republicano, transparente, em benefício da sociedade, em benefício da coletividade”, disse. “De nenhuma maneira, de nenhuma forma, nós estamos, neste momento, colocando em xeque, digamos assim, a interação sempre bem-vinda e necessária com o Congresso Nacional. É muito importante que nós tenhamos as condições de preservar integralmente as competências do chefe do Poder Executivo. A democracia brasileira necessita fundamentalmente que os Poderes possam ser independentes, embora todos nós tenhamos a condição de trabalhar pela harmonia entre os Poderes”, disse. “, concluiu.
Por Demétrio Vecchioli e Francisco Amorim – Intercept_Brasil
A epidemia das bets já faz filhos botarem limite de tela nos pais no Brasil. Thiago, de 9 anos, levou a sério essa responsabilidade. Fingia que ia para o quarto brincar e, sorrateiramente, aparecia de volta na sala, para checar se Roberto, 39 anos, não havia pegado o celular escondido.
O pai de Thiago perdeu tudo em apostas como o “tigrinho”, inclusive a carreira como gerente de contas em um banco público em São Paulo. Se em casa a força-tarefa para deixá-lo longe das bets deu certo, no emprego ele sempre estava a cliques de conseguir dinheiro para financiar o vício. Roberto tem compulsão por jogos de azar, uma doença que o fez ser afastado pelo INSS, já que não conseguia mais trabalhar.
Dados inéditos obtidos pelo Intercept Brasil indicam que, entre junho de 2023 e abril de 2025, quando as bets começaram a ganhar mais tração no país, o número de auxílio-doença concedidos mensalmente por ludopatia aumentou mais de 2.300% — foram 276 benefícios concedidos no total no período.
Mais de 2.300% — foram 276 benefícios concedidos no total no período.
Os dados revelam um aumento consistente na concessão de auxílios e indicam uma tendência de que esta seja só a ponta do iceberg. Isso porque, além de a possibilidade de obtenção do auxílio ser desconhecida – mesmo em grupos de apoio –, o diagnóstico da doença costuma ser tardio e o reconhecimento de doenças mentais pelo INSS é historicamente deficiente.
Roberto faz parte do perfil mais comum de apostador que passa a receber auxílio. Segundo dados abertos do INSS, dois em cada três beneficiários são homens – 73% do total concedido. Cerca de oito em cada 10 têm idade entre 18 e 39 anos, o que reforça o efeito direto do vício em jogos sobre trabalhadores em idade produtiva.
Faixa etária dos beneficiários de auxílio por ludopatia
Percentual de beneficiários de auxílio do INSS por faixa etária desde 2023
30–39 (44%)
60+ (0,7%)
50–59 (6%)
40–49 (17%)
18–29 (33%)
Nota: dados entre junho/2023 e abril/2025. Idade no momento do deferimento do benefício.
Embora a maior parte dos registros do INSS não informe sobre vínculos familiares, em 7% dos casos o auxílio foi concedido a quem declarou ter ao menos um dependente — ou seja, pais ou mães de família –, o que amplia o impacto social do transtorno. Os dados ainda mostram que a maior parte dos que receberam auxílio estavam empregados.
O custo previdenciário da chegada das bets ao país é, até o momento, um fator desconsiderado no debate público sobre a regulamentação do setor. Na última quarta-feira, 11, uma medida provisória assinada pelo presidente Lula aumentou a tributação federal da receita líquida das bets de 12% para 18%.
O aumento na taxação é destinado à “seguridade social, para ações na área da saúde”, mas, por enquanto, não há regulamentação de como se dará o uso deste dinheiro. No esporte, por exemplo, isso não ocorreu até hoje, um ano e meio depois da aprovação da lei das bets.
A medida tem validade de 90 dias e, para virar lei, precisa ser aprovada pelo Congresso, onde há forte resistência. A federação PP e União Brasil, maior da Câmara, já fechou questão contra ela, o que praticamente impede sua aprovação. A nova tributação de 18% só começaria a valer em outubro.
Enquanto isso, um ano e meio depois de ser sancionada a lei que destina 1% da arrecadação líquida das bets ao Ministério da Saúde, “para medidas de prevenção, controle e mitigação de danos sociais advindos da prática de jogos, nas áreas de saúde”, a pasta ainda não tem nem anunciou qualquer medida. Estimativas indicam que a verba para isso pode chegar na casa de R$ 60 milhões.
Um grupo de trabalho interministerial intitulado “Saúde Mental e de Prevenção e Redução de Danos do Jogo Problemático” foi criado em dezembro, mas só teve a primeira reunião em março. Ele reúne os ministérios da Saúde, Fazenda e Esporte, além da Secretaria da Comunicação, mas não inclui as pastas de Trabalho e Previdência.
Questionamos o motivo de tanta demora, mas o Ministério da Saúde disse apenas que a arrecadação prevista na regulamentação das bets, aprovada em 2024, só começou a ser repassada à pasta em fevereiro de 2025 e que “a definição das ações está em andamento” no grupo de trabalho.
É praticamente o contrário do que houve durante a regulamentação das bets, quando o Ministério da Saúde, inicialmente, foi pouco ouvido. Entre março e setembro de 2024, representantes da Saúde só estiveram em dois dos 209 encontros entre autoridades do executivo federal e agentes privados para tratar da regulação, segundo dados obtidos pela ONG Fiquem Sabendo, especializada em transparência pública.
Ao responder mês passado a um requerimento do deputado federal Capitão Alberto Neto, do PL do Amazonas, sobre as ações de comunicação já feitas para combater a ludopatia, o Ministério da Saúde disse apenas que atendeu solicitações da imprensa e publicou, no Instagram, “as primeiras orientações para a população geral sobre os problemas relacionados com o jogo”.
O Intercept procurou o INSS para comentar sobre o aumento na concessão de auxílios-doença e se alguma medida ou orientação vem sendo adotada em relação aos diagnósticos. Por meio da assessoria de imprensa, o instituto respondeu que o foco está no escândalo dos descontos ilegais em aposentadorias e, por isso, não se manifestará.
Já o Ministério da Previdência Social não respondeu aos nossos pedidos de comentários sobre de que forma está treinando seu corpo técnico para lidar com os casos de jogo compulsivo.
De problema de saúde pública ao custo previdenciário
Dados obtidos pelo Intercept Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, antes da explosão das bets, o número de auxílios-doença concedidos pelo INSS com base apenas no diagnóstico de jogo patológico eram raros e pontuais.
Entre 2015 e 2022, a média anual não passou de 11 benefícios – em 2015, por exemplo, foram apenas dois casos no Brasil inteiro, e no ano seguinte, cinco. A alta começou a ser observada em 2023 e, a partir do segundo semestre de 2024, os registros passaram a atingir com frequência a casa das duas dezenas por mês.
Benefícios do INSS concedidos por UF
Distribuição dos auxílios do INSS por jogo patológico ou mania de jogo e apostas desde 2023
Auxílios concedidos: 51.495mero muito baixo perto do que deveria ser”, analisa o psicólogo Rafael Ávila, da Associação de Proteção e Apoio ao Jogador, precursora, no Brasil, no atendimento a ludopatas.
Ávila, que administra um grupo de Telegram que reúne mais de 1.700 pessoas com propensão à ludopatia ou diagnóstico da doença, diz que a maioria dos trabalhadores nunca foi atrás do auxílio-doença por jogo patológico – e muitos que foram tiveram o pedido recusado.
“Existe uma resistência a dar auxílio a quem tem doença mental. Além disso, as pessoas têm vergonha de falar que são viciadas em jogos. Quando elas procuram um tratamento, muitas vezes é para o sintoma do jogo patológico, como a ansiedade ou a depressão. E aí esse sintoma pode levar ao pedido de afastamento. A pessoa é afastada por estar com depressão, não pelo jogo patológico”, explica.
Ávila pontua que o vício atinge principalmente profissionais autônomos. “O assalariado recebe uma vez por mês e tem uma previsibilidade financeira. Mas quem recebe, por exemplo, R$ 50 na conta várias vezes por dia, não paga suas dívidas com esse valor picado. Então, essa pessoa muitas vezes não vê prejuízo em usar esses R$ 50 para apostar e tentar fazer R$ 1 mil. E é aí que o dinheiro vai embora”, explica.
Gleice Salteiro, psicóloga especialista em atendimento a apostadores, calcula que já atendeu mais de 300 casos e conta que em nenhum deles foi cogitado o pedido de auxílio-doença, mesmo que, entre os pacientes, estejam diversas pessoas que se tornaram incapazes de trabalhar.
“Uma jovem da minha cidade, brilhante, professora de educação infantil, foi trazida pela família, mas recusou tratamento. Hoje está na rua, batendo de porta em porta, pedindo dinheiro. Tem paciente que na hora do almoço começa a apostar e não para mais, e inventa uma ite, como artrite ou gastrite, para não voltar à tarde. Outro fez acordo para sair do trabalho para receber a rescisão e pagar agiota para não morrer”, afirma.
Para a advogada Larissa Matos, pós-doutora em direito do trabalho e uma das autoras do livro Impactos de Apostas Online no Direito do Trabalho, a discussão sobre ludopatia vem sendo ignorada. “As pessoas da área trabalhista, como advogados, Ministério Público do Trabalho e Justiça do Trabalho, não estão preparadas para lidar com isso. É estarrecedor. A gente está há dois anos gritando sobre isso para ver se alguém nos ouve”, destaca ela.
“Você nunca vai estar contente com o que tem”
Dados do Ministério da Saúde também indicam um crescimento do vício em jogos devido às bets. Os atendimentos ambulatoriais via SUS em todo o país, considerando os registros relacionados a doenças classificadas como “jogo patológico” e “mania de jogos de azar”, subiram de 65, em 2019, para 1.292 em 2024.
Vale pontuar que esse aumento foi impulsionado por três estados que concentram volumes expressivos de atendimentos em anos específicos: Rondônia (415 atendimentos em 2022), Roraima (465 em 2023) e Sergipe (692 em 2023). Ainda assim, se desconsiderarmos os anos atípicos, é possível observar um salto do patamar das dezenas para o das centenas no país já em 2023.
“É como cigarro. Todo mundo sabia que era uma coisa que não era boa, mas tinha propaganda a rodo na TV, Marlboro, cowboy. Quando proibiu propaganda, diminuiu o consumo. Hoje bet é legalizada? É, mas fazem uma propaganda muito escancarada, é uma enxurrada, um negócio sem fim”, afirma Roberto, que começou apostando no mercado de ações.
Durante a pandemia, ele se arriscou no chamado day trade, em busca de dinheiro rápido e fácil. Seduzido pelas propagandas das bets, resolveu também tentar a sorte no mercado de apostas esportivas. Colocava R$ 10, às vezes ganhava, noutras perdia, mas nada que impactasse a vida financeira de um gerente de banco.
‘Acabou com todas as reservas da família’
“Até que um dia eu estava conversando com um rapaz e ele falou do Tigrinho. Ele até comentou de gente que jogou o dinheiro do aluguel e eu lembro de pensar: esse negócio não deve ser bom. Um dia tinha lá R$ 80 na conta da bet e resolvi apostar no Tigrinho. Ganhei uns R$ 200. Fui apostando e ganhei R$ 25 mil”, conta.
Roberto, em tese, poderia ter sacado o dinheiro – são muitos os relatos de jogadores que não conseguem sacar o que ganham por entraves causados pelas próprias bets – , mas o primeiro sintoma do vício apareceu: ele seguiu jogando. “Você nunca vai estar contente com o que tem”, afirma. Se foi possível transformar R$ 80 em R$ 25 mil uma vez, por que não tentar de novo? E de novo? Foi o que ele fez. Chegou a ter R$ 120 mil, que logo virou nada. Nunca sacou um real.
No fim do ano de 2023, Roberto não se importou que a esposa e os filhos fossem viajar sem ele. Entrou num mundo em que só existia ele, o celular e as bets. Ficou sem atender ligações até que os irmãos intervieram: foram resgatá-lo e o levaram pela primeira vez a um psiquiatra.
Só ali a família começou a descobrir no que ele estava metido. “Qualquer celular que ele tinha contato, ele baixava o jogo. Celular da mãe, tablet do filho, foi excluído da família. Ele não dormia, ficava atrás de e-mails para abrir uma conta online para poder jogar. Acabou com todas as reservas da família. Só pensava em como ele faria novas apostas”, conta a advogada Camila Tiemi.
Recaída após volta ao trabalho levou à demissão
Com um laudo médico, Roberto conseguiu o primeiro afastamento pelo INSS. Durante o processo, um perito avalia se a doença afeta o trabalho e se o afastamento é necessário para o tratamento.
“Essa é uma premissa do INSS: a doença impossibilita a pessoa de continuar trabalhando, desenvolvendo seu trabalho da forma correta, e ela precisa se tratar. Para isso, precisa demonstrar que está em acompanhamento, que está doente, mas está se tratando para ser útil no trabalho e prover seu próprio sustento”, explica Kelly Campos, advogada previdenciária que também atuou no processo.
O primeiro auxílio-doença foi concedido a Roberto por três meses, no início de 2024, e depois acabou renovado. Ao fim de seis meses, ele voltou ao trabalho sem estar ainda em remissão dos sintomas – o jogo patológico não tem cura, mas as licenças têm data para começar e terminar, com sua renovação sendo avaliada por peritos do INSS.
De volta ao cargo de gerente de um banco, Roberto seguia, ainda, buscando alternativas para jogar. Entrava nos aplicativos torcendo para receber um bônus, estratégia amplamente utilizada pelas bets para não permitir que os viciados se desconectem — como se dissessem: “faz tempo que você não perde dinheiro aqui, vem perder mais um pouco, estamos com saudades”. Acabou demitido do banco, por justa causa.
No mês passado, a defesa de Roberto conseguiu na Justiça do Trabalho de São Paulo que o auxílio-doença fosse garantido a ele, que segue inapto ao trabalho. “Ele passou por um perito judicial, que verificou a necessidade de afastamento”, relata a advogada Kelly, ressaltando que Roberto pretende ingressar com pedido de reversão da demissão por justa causa.
“As pessoas têm muita vergonha, costumam omitir por causa do julgamento da sociedade. Diferente do consumo do álcool, que afeta como você se apresenta, o vício no jogo não é evidente. Te atrapalha, mas a pessoa continua trabalhando, se arrastando, porque as pessoas desconhecem que você está assim”, analisa Camila.
Demissão por justa causa ainda gera embate jurídico
O caso de Roberto não é isolado. Fabrício também trabalhava em um banco público. O vício em jogos o levou a desviar R$ 1,5 milhão para contas em nome dele e da mãe, sem o conhecimento dela, enquanto atuava como gerente de contas na Bahia.
“No início, eram valores pequenos. Quando ele ganhava, devolvia o dinheiro para os clientes. Mas ele começou a perder e pegar quantias mais vultosas, foi aumentando o valor desviado”, conta a advogada Márcia Martins, criminalista que atuou na banca de defesa dele, que envolve também especialistas em direito trabalhista e previdenciário.
Ao notar que estava sendo investigado, Fabrício tentou o suicídio. A mãe conseguiu impedir e interná-lo. O INSS reconheceu a necessidade de conceder um auxílio-doença, que é pago desde setembro de 2023. No ano passado, foi demitido por justa causa — decisão que sua defesa tenta anular. Fabrício está interditado, mas o tratamento não tem impedido que ele siga tentando apostar e até tirar a própria vida.
“O jogo patológico é semelhante ao alcoolismo. O STF já reconheceu que o indivíduo acometido pelo alcoolismo deve ser enviado para tratamento, e não despedido, e o que a gente quer é que o mesmo aconteça com o jogador patológico”, explica Márcia, reforçando que a defesa pretende provar que Fabrício não tinha capacidade cognitiva e, por isso, deve ser considerado inimputável criminalmente.
A advogada cita dois exemplos. Um deles é de decisão recente do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região, TRT5, que reverteu a demissão por justa causa de um ludopata, funcionário da Caixa Econômica Federal, acusado de desviar cerca de R$ 400 mil do banco.
O outro reforça a linha tênue entre o crime e o jogo compulsivo: um funcionário da Caixa é investigado pela Polícia Federal por desviar R$ 11 milhões – parte do dinheiro teria sido destinada a empresas de apostas. O caso tem sido tratado como associação criminosa, furto qualificado mediante fraude, lavagem de dinheiro e peculato-furto. A possibilidade de jogo patológico não foi considerada, de acordo com a advogada.
“A ludopatia tem sido tratada como questão de caráter. No caso do Fabrício, só faltou o juiz dizer que ele não tem caráter. Um rapaz de 30 e poucos anos, já passou por oito internações, em risco grave de suicídio, mas o que se discute é o caráter”, ressalta a advogada Martins.
A pesquisadora Larissa Matos pontua que o vício em jogo afeta diretamente a percepção da realidade. “As redes se movimentam a partir da captura de dados dos jogadores e direcionam as plataformas. É um ciclo que ele vai se enfiando, adoecendo, até que ele perde sua liberdade de ação e pensamento, sua autonomia vai para o espaço”, afirma.
Segundo ela, empresas têm rompido contratos de trabalho com viciados em jogos considerando o artigo 482 da CLT, que prevê demissão por justa causa por “prática constante de jogos de azar”. Há consenso entre os pesquisadores ouvidos pelo Intercept, porém, que o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana e da proibição de práticas discriminatórias impede a demissão de alguém por estar doente.