Matt Cameron anuncia saída após 27 anos no Pearl Jam

Para surpresa dos fãs do grupo, o Pearl Jam anunciou nesta segunda-feira, 7, no Instagram, a saída de Matt Cameron, que ocupou o posto de baterista da banda por 27 anos. O motivo não foi divulgado e o comunicado não deu detalhes sobre o futuro substituto. “Muito amor e respeito a Jeff, Ed, Mike e Stone por me convidarem para a banda em 1998 e por me darem a oportunidade de uma vida, repleta de amizades, talento artístico, desafios e risadas”, escreveu Matt, de 62 anos.

O Pearl Jam descreveu o baterista como quem “impulsionou os últimos 27 anos de shows ao vivo e gravações de estúdio do Pearl Jam”. Matt ingressou no PJ após o fim oficial do Soundgarden, banda que junto com o Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains foi referência do movimento grunge. Trabalhou com o Smashing Pumpkins, mas optou pelo Pearl Jam ao participar da turnê do álbum Yield (1998), entrando na banda de Seattle como membro fixo.

Em boato de 2023, o jornal britânico The Sun especulou que Cameron tocaria com o grupo Foo Fighters após a morte do baterista Taylor Hawkins, mas John Freese ocupou a vaga – e foi demitido em maio deste ano.

Cameron ainda deixou um recado para os fãs, dando a entender que não vai se aposentar dos palcos. “Sou eternamente grato à equipe, à equipe técnica e aos fãs do mundo todo. Tem sido uma jornada incrível. Há mais por vir. Agradeço a todos do fundo do meu coração.”

O Pearl Jam citou os grupos que Matt integrou antes de se juntar ao Pearl Jam, entre eles o Soundgarden, e dando a entender que a saída foi amigável.

“De um dos nossos primeiros heróis musicais nas bandas Skinyard e no poderoso Soundgarden, a tocar em nossas primeiras demos em 1990, Matt Cameron tem sido um músico e baterista singular e verdadeiramente poderoso. Ele impulsionou os últimos 27 anos de shows ao vivo e gravações de estúdio do Pearl Jam. Foi um capítulo profundamente importante para o nosso grupo e lhe desejamos sempre tudo de bom. Sentiremos muita falta dele e ele será para sempre nosso amigo na arte e na música. Te amamos, Matt”.

O último show da banda com Matt Cameron aconteceu em 18 de maio, parte da turnê Dark Matter, homônima do 22º disco da banda. O Pearl Jam está na ativa desde 1990 e já teve seis bateristas diferentes, sendo Matt o que ficou por mais tempo no grupo. Ao longo dos anos, Matt Cameron manteve o respeito do público e da crítica, além de ajudar a moldar o som da banda em turnês e álbuns. A saída, ainda sem maiores explicações, encerra um dos ciclos mais duradouros da formação da banda e do próprio rock atual.

É tempo de buscar soluções

POR GERSON NOGUEIRA

Não se afobe, não, que nada é pra já. É o que diz a letra sensacional de “Futuros Amantes”, obra-prima de Chico Buarque. Cabe como luva na situação vivida pelo Remo, que tem pontuação de G4 e faz excelente campanha na Série B, mas sofre com os maus modos da torcida, aborrecida com o empate em casa diante do Cuiabá.

A explosão de fúria de parte do Fenômeno Azul, sábado à noite, no Mangueirão, chamou atenção diante de tudo que o time já conseguiu neste Brasileiro. Com 24 pontos em 15 rodadas disputadas, o Remo está no mesmo patamar de equipes que tinham essa pontuação no ano passado e conseguiram o acesso à Série A.

É óbvio que são dados sem peso científico. Campeonatos nunca são iguais e é possível que a equipe não alcance o objetivo pretendido, mas os números conspiram a favor. Cabe observar ainda que a situação segue amplamente favorável ao Remo, que se posiciona entre os cinco melhores times da competição desde as primeiras rodadas.

O espanto de jogadores e comissão técnica com a revolta da torcida é compreensível. O time não teve uma grande atuação diante do Cuiabá, mas o desempenho foi satisfatório no 1º tempo, quando poderia ter chegado ao gol em três oportunidades. O problema é que o rendimento da segunda etapa, porém, ficou abaixo da produção habitual do Remo.

Durante o 2º tempo, pela primeira vez desde o empate com o Volta Redonda, o Leão não conseguiu transformar posse de bola e domínio territorial em situações de gol. O goleiro do Cuiabá, que foi decisivo na primeira parte do jogo, não foi incomodado em nenhum momento nos 45 minutos finais.   

Sem repertório para furar a retranca do Cuiabá, o Remo agiu como qualquer equipe limitada faria. Ficou cruzando bolas na área à espera de uma falha acidental que levasse ao gol. Não houve iniciativa criativa para romper a marcação. A presença de Felipe Vizeu no ataque não ajudou em nada, apenas aumentou o número de jogadores na área.

Antônio Oliveira não tem tempo a perder na busca de soluções para o dilema criativo. Encontrar um meia habilidoso e articulador é o primeiro passo. Régis poderia ser esse jogador, mas fisicamente não é confiável. 

Jaderson é indispensável, mas vive sobrecarregado com outras funções em campo, inclusive defensivas. Falta um armador para conduzir o time, principalmente em circunstâncias desfavoráveis. Por sorte, a janela de transferências abre na quinta-feira, 10. (Foto: Samara Miranda/Ascom Remo)

Fluminense está pertinho da grande final

Com a força de jogadores experientes, como Fábio, Tiago Silva e Germán Cano, e a categoria de John Arias, o Fluminense entra em campo contra o Chelsea pronto a continuar fazendo história. É uma luta até desigual, pois o time inglês é um dos mais ricos do mundo, mas o Tricolor vem se notabilizando por desafiar os incrédulos.

O esquema armado por Renato Gaúcho é até simplório. Uma zaga que marca firme e não tem vergonha de dar chutão. Um meio-de-campo operário e diligente. O ataque é rápido e letal. Tudo isso guarnecido por um goleiro que virou lenda. Fábio, aos 44 anos, caminha para ser eleito o melhor do Mundial de Clubes, com méritos – só Neuer o ameaça.

Caso consiga conter os avanços do Chelsea e equilibrar o jogo físico, o Flu tem chances de continuar surpreendendo. Ninguém pode duvidar da força de um time que se alimenta dos desafios que surgem pela frente.

Doc sobre Wright espanca os fatos

Quem viu desavisadamente o documentário “Homens de Preto” no Sportv sobre José Roberto Wright, deve ter tomado um susto. A narrativa é distorcida para restaurar a imagem do árbitro mais polêmico da era moderna no Brasil. Wright é unanimidade nacional em lambanças que sempre ajudavam um clube mais poderoso, quase sempre o Flamengo.

Galvão Bueno, Casagrande, Raul, Arnaldo Cézar Coelho e outros pintaram Wright como uma espécie de Pelé da arbitragem. Um troço constrangedor. Autoritário, metido a xerife, ameaçava jogadores e tentava aparecer mais do que os craques.  

A partida válida pela Libertadores em 1981, no Serra Dourada, em Goiânia, ficou marcada historicamente pela expulsão de cinco jogadores do Atlético-MG, o que garantiu a vitória do Flamengo por W.O. Saiu acusando os jogadores de terem estragado a partida. Reinaldo foi o único a dizer que Wright meteu a mão no Galo, e meteu mesmo.

Apitou também Fluminense x Bangu, na decisão do Carioca de 1985, e voltou a ser o protagonista na condição de larápio – pelo menos na avaliação da torcida banguense, até hoje ressentida com a desastrosa atuação. O Bangu fez 1 a 0, o Flu virou e, nos acréscimos, o zagueiro Vica agarrou Cláudio Adão na área. Pênalti claro, que Wright não deu.

Em 1982, por iniciativa da Globo, ele topou apitar com uma escuta presa ao corpo – sem que os jogadores soubessem – para retratar o que rolava em campo durante um Flamengo x Vasco. Exibicionismo, covardia e grosseria explodindo em transmissão nacional, impunemente.

O bizarro documentário do Sportv parece ter sido pensado para relativizar os absurdos que recheiam a trajetória do juiz, dourando sua biografia. Pior que tudo foram os elogios do repórter Tino Marcos, que teve a pachorra de louvar “a bravura” de Wright na ameaça a jogadores em campo. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 08)

Democracia brasileira sofreu sucessivos golpes sob Bolsonaro, diz Eugênio Bucci

O jornalista Eugênio Bucci analisa movimentos antidemocráticos em livro sobre trajetória golpista do governo Bolsonaro

Por Andrea DiP, Ricardo Terto, Stela Diogo, Rafaela de Oliveira

No último domingo (29), a Avenida Paulista, em São Paulo, foi palco de mais um ato que pedia a anistia aos condenados pelos ataques do 8 de janeiro de 2023. O evento, chamado de “Justiça Já” e convocado por Jair Bolsonaro, foi o segundo ato realizado na cidade em resposta ao julgamento da tentativa de golpe de Estado, que corre no Supremo Tribunal Federal (STF) e tem o ex-presidente entre os réus. Refletir sobre os anos turbulentos da política brasileira durante o governo Bolsonaro é a proposta do livro Que Não Se Repita – A quase morte da democracia brasileira, do jornalista Eugênio Bucci, lançado agora em 2025 pela editora Seja Breve. No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip conversa com o autor, que retoma de maneira reflexiva alguns dos acontecimentos desses anos, diagnosticando quais foram os erros cometidos e como a sociedade democrática precisa se preparar para que não ocorra novamente e, principalmente, que não haja impunidade contra um Estado democrático de direitos.

Para Bucci, a diversidade ideológica faz parte de uma sociedade democrática, mas não a qualquer custo, como defendem os discursos extremistas. “Não há nenhum problema na existência de propostas de direita, em defesa do mercado, da propriedade privada ou um tensionamento com relação à regulação, isso é até necessário para o debate público.” Afirma, mas acrescenta: “Estamos lidando com projetos cuja intenção declarada é desorganizar, desarticular e destruir o ordenamento democrático […] vislumbra um crescimento do capital que, na visão deles, precisa atropelar uma sociedade que assegure direitos e isso não é aceitável no universo da democracia.”

Leia os principais pontos da entrevista e ouça o episódio completo abaixo.

No início da sua obra Que Não Se Repita – A quase morte da democracia brasileira, você faz um convite à memória imediata, para pensarmos sobre o que foi o governo Bolsonaro. Qual a importância deste livro da memória em tempos dessa tentativa constante de revisionismo histórico que vivemos hoje?

No Brasil, mas de uma forma um pouco mais abrangente no mundo todo, tem sido solicitado e com muita insistência para seguir uma existência em que só existe o presente. É uma espécie de presente totalizante. Isso já foi diagnosticado em diferentes estudos, como o do Marc Augé, um francês que se formou em torno da antropologia, que elaborou um conjunto de ideias interessantes sobre o não-lugar ou o lugar de passagem, um lugar que não é histórico, um lugar que não é identitário. É como estar permanentemente em trânsito. Ao mesmo tempo, esse estado de estar em trânsito, ele empurra o futuro para muito longe e esconde o passado. É como se vivêssemos num presente ampliado, expandido e, ao mesmo tempo, sufocante.

Isso é muito interessante como um traço da cultura porque explica, em boa medida, por que as nossas sociedades têm tantas dificuldades em aprender com o passado, em aprender com a experiência, em elaborar coletivamente, por meio de entendimentos, de diálogos, de divergências. Essa situação aparece agora no Brasil quando a gente muito rapidamente esqueceu o que foi, o que representou o período em que o ex-capitão esteve à frente da presidência da República entre 2019 e 2022.

Durante esses quatro anos se tentou reiteradamente e até de uma forma um pouco desinibida, não disfarçada, minar as bases da democracia no Brasil. E, com este livro, procuro lembrar alguns desses momentos com uma certa contextualização, procurando retomar o que houve naqueles dias para que a gente não repita esse erro como sociedade. Existe um risco muito grande de que esse erro seja repetido.

Recentemente, tivemos o caso de um governador [Romeu Zema, do Partido Novo de Minas Gerais] que disse que se houve ou não ditadura no Brasil durante o período militar é uma questão de interpretação. Isso é muito assustador, porque essa fala exprime com muita nitidez esse estado de viver num trânsito e, ao mesmo tempo, num presente expandido que não consegue se lembrar do passado. Porque a ditadura no Brasil não é uma questão de interpretação, isso é uma questão de fato histórico e essa fala nos coloca como uma sociedade incapaz de diferenciar o juízo de fato do juízo de valor, onde entra a interpretação e a opinião com base nos fatos. Colocar em dúvida um fato histórico é algo muito sério.

Temos visto também a extrema direita ganhando cada vez mais espaço no mundo, como pessoas, inclusive jovens, elegendo governos ultraconservadores, racistas e xenófobos, como no caso do Trump e do crescimento da popularidade do partido extremista da Alemanha, o AfD (Alternativa para a Alemanha). Como você avalia esse momento que estamos vivendo?

Eu tenho tentado dedicar alguma atenção para esse tipo de coisa, porque isso tem uma relação muito direta com o comportamento dos meios de comunicação e do ambiente comunicacional. Isso tem a ver com as plataformas sociais, tem a ver com a maneira como a desinformação vai triunfando. É indissociável o sucesso das propostas da extrema direita, do sucesso das técnicas pelas quais a desinformação está triunfando. Uma coisa é produto da outra.

Durante um tempo, houve uma certa jogada de aparência pela qual o Facebook e outras plataformas diziam que apenas abriam canais para que as pessoas se comunicassem. Com a eleição de Donald Trump, pela segunda vez, conduzida à Casa Branca, nos Estados Unidos, vários desses mega-empresários desse campo das big techs saíram do armário. Desceram do muro e assumiram abertamente em falas, em discursos, em pronunciamentos que não deixam dúvidas, que estão ao lado de Donald Trump. Aquilo que existia de uma concessão, ainda que hipócrita, das boas maneiras das repúblicas democráticas, caiu por terra.

Mark Zuckerberg, dona da Meta, Facebook, Instagram, é também do WhatsApp, falou num pronunciamento amplamente difundido pelos próprios meios da sua organização que é preciso combater a regulação, que eles chamam de censura. Sendo que a regulação das big techs é uma tarefa necessária para as democracias do mundo todo. Também temos um temos outro barão das big techs, Elon Musk, prestando reverências ao Trump, partidarizando toda a ação empresarial das big techs e filiando essa ação empresarial à causa da extrema direita antidemocrática. Então eu vejo uma associação necessária e indisfarçável entre o ambiente da comunicação que nos levou à desinformação e o crescimento ou recrudescimento dessas propostas antidemocráticas com viés de extrema direita e os seus líderes.

Não há nenhum problema, para uma sociedade democrática, a existência de propostas de direita, em defesa do mercado, da propriedade privada ou do tensionamento com relação à regulação. Tudo isso faz parte do nosso universo de debate público. Não existe nenhum inconveniente nesse tipo de coisa, mas agora nós estamos lidando não com projetos de direita, mas com projetos extremistas, uns chamam de radicais, projetos que são antidemocráticos, cuja função e cuja intenção declarada é desorganizar, desarticular e destruir o ordenamento democrático. Um ordenamento que gera direitos, constrói direitos e amplia direitos. Essa extrema direita antidemocrática vislumbra um crescimento do capital que, na visão deles, precisa atropelar uma sociedade que assegure direitos.

Então, vem junto com essa proposta a concepção de que não vai ter comida para todo mundo mesmo, não vai ter conforto para todo mundo mesmo, que parcelas expressivas da população terão que ser descartadas, terão que ser jogadas no lixo, que a dignidade humana não pode ser obstáculo para a acumulação de capital e assim por diante. Isso não é democrático, isso não é aceitável no universo da democracia. Por isso que eu procuro fazer essa distinção. Nada contra uma proposta que a gente chamaria classicamente de direita, de conservadora, nada contra o liberalismo econômico, mas tudo contra a tentativa organizada de solapar os fundamentos da sociedade democrática. E é isso que vem acontecendo.

Ano que vem a gente tem eleições no Brasil. Você acha que, com o Bolsonaro inelegível, a extrema direita, essa extrema direita antidemocrática perde força ou o bolsonarismo está consolidado para além de Jair Bolsonaro?

Eu sou um estudioso da comunicação social, da informação e um observador da cultura. Nesse sentido, eu posso dizer que tenho tido contato com certos sinais que mostram que a sanha da extrema direita antidemocrática não está superada. Eu posso dar um dos indícios, nós vemos que a informação não é suficiente para resolver o monstro da desinformação. Por mais que sejam franqueados os acessos à informação e à verdade factual, conhecida, verificada, testada mil vezes, a fúria da desinformação não arrefece. E isso mostra que há pulsões não resolvidas e não canalizadas para uma esfera pública democrática. Podemos identificar aí ressentimento, que é algo que também escapa do meu campo de estudo.

Mas o fato é que essa fúria permanece e ela está um pouco à espera de um novo aventureiro que venha aí e comece a acenar para essa fúria com sinais de que vai acabar com a elite da política e tudo mais, e isso tem dado resultados. Então eu vejo o ano de 2026 com enorme preocupação. Há um esgotamento parcial, provavelmente, da representatividade do Estado Democrático de Direito. Vamos ver como isso poderá ou não ser capitalizado por alguma liderança aventureira. É possível, mas vamos ver.

Rock na madrugada – Oasis, “Live Forever”

POR GERSON NOGUEIRA

A volta do Oasis marcou o fim de semana do rock, trazendo um bonito tributo dos irmãos Gallagher a Diogo Jota, craque do Liverpool e da seleção de Portugal, que morreu tragicamente no início da semana. Nos acordes finais de “Live Forever” (Viver para Sempre), surge no telão a imagem do meia-atacante com a camisa 20 às costas, para delírio dos fãs que acompanhavam o show de abertura da turnê de retorno do Oasis, em Cardiff (País de Gales), na sexta-feira (4) à noite.

A música foi uma escolha perfeita para a homenagem póstuma. “Live Forever” é do álbum Definitely Maybe, de 1994. Os versos falam da vontade de viver com intensidade, de experimentar a liberdade e se manter imortal através das experiências e da própria arte:

“Talvez eu não queira saber realmente/Como seu jardim floresce/ Eu apenas quero voar/ Ultimamente, você sentiu a dor? Numa manhã de chuva/ Como se estivesse molhado até o osso. Talvez eu queira apenas voar/ Eu quero viver, não quero morrer”.

Após uma interrupção de 16 anos que parecia definitiva, a banda de Manchester mostrou-se revigorada, tocando com energia uma sequência generosa de hinos, como Cigarettes and Alcohol, Wonderwall, Supersonic, Champanhe Supernova, Morning Glory Live Forever e Slide Away – enquanto 75 mil fãs vibravam, cantando e bebendo muita cerveja. Canções importantes ficaram de fora da setlist, atestando a impressionante produção dos manos Gallagher no Oasis.

Os músicos que integram o Oasis nesta turnê de 40 shows são o veterano Paul “Bonehead” Arthurs, guitarrista da formação original e presente até 1999; Gem Archer, guitarrista que entrou justamente na vaga de Bonehead e ficou de 1999 até o fim; Andy Bell, baixista, que tocou com a banda desde 1999 e com Liam Gallagher no Beady Eye; e o baterista Joey Waronker, que nunca integrou o Oasis, mas trabalhou com Beck, R.E.M. e Roger Waters.

O show começou com “Hello”, do refrão “it’s good to be back” (é bom estar de volta), emendando com “Acquiesce” – uma das poucas músicas do grupo com vocais divididos entre Noel e Liam Gallagher. A letra diz “we need each other” como um claro chamado à reconciliação.

“Legal por nos aturar ao longo dos anos”, agradeceu Liam, antes da última canção da noite, Champagne Supernova. “Nós damos muito trabalho, eu entendo”, admitiu, num raríssimo momento de humildade.

A Oasis Live ’25 vai percorrer vários países e chega ao Brasil em novembro para dois shows em São Paulo, nos dias 22 e 23, no estádio do Morumbi, encerrando a turnê.

(Com informações da Rolling Stone, BBC e da Folha de S. Paulo)

Retranca atrapalha o Leão

POR GERSON NOGUEIRA

O Remo ficou devendo pelo menos um golzinho ao seu torcedor, que encheu as arquibancadas do Mangueirão, no sábado à tarde. Mais de 21 mil pessoas compareceram e só se animaram no 1º tempo, quando o time de Antônio Oliveira partiu com tudo em busca do gol, mas esbarrou na má organização das jogadas e na afobação no momento de finalizar. A falta de um meia criativo pesou bastante.

A melhor chance coube a Luan Martins aos 23 minutos. Ele desviou de cabeça um cruzamento de Sávio. Cabeceio de almanaque, de cima pra baixo. A bola tocou no chão e foi no ângulo, mas o bom goleiro Mateus Pasinato saltou e conseguiu evitar o gol, tocando para escanteio.

O Cuiabá ameaçou somente uma vez no jogo inteiro. Aos 32 minutos, após escanteio, um cabeceio do atacante Alisson Safira foi salvo em cima da linha pelo volante Pedro Castro. Ficou nisso. O time de Guto Ferreira não queria se expor e deixou claro que o empate lhe bastava.

Pedro Rocha perdeu uma grande chance ao receber livre na intermediária. Avançou com a bola nos pés, mas demorou a bater e acabou travado pelo volante Alan quando ia finalizar em direção ao gol.  

Outro bom momento ofensivo do Remo foi a arrancada de Marrony rumo à área do Cuiabá, aos 45’. Ele foi derrubado e Sávio cobrou a falta com perfeição, mas a bola bateu no travessão e voltou.

Melhor jogador azulino na primeira etapa, deslocando-se por todos os lados do ataque, Marrony teve outras três participações agudas, mas saiu lesionado no intervalo e isso ajuda a explicar a brutal queda de movimentação do Leão na etapa final.   

Quem viu o Remo mandar no jogo ao longo dos primeiros 45 minutos deve ter tomado um susto com a confusa distribuição do time no 2º tempo. A entrada de Felipe Vizeu no lugar de Marrony enfraqueceu o ataque. Encaixotado entre os zagueiros, o centroavante não conseguiu jogar.

Sávio foi peça importante nas subidas pelo lado esquerdo e nos cruzamentos, mas a bola não chegou em condições de aproveitamento para Pedro Rocha e Adailton (que substituiu Janderson), os que mais se deslocavam dentro da área do Cuiabá. No meio, Pavani entrou no lugar de Pedro Castro, mas ficou distante de Jaderson, que não repetiu atuações anteriores nas ações de apoio.

Sem criação no meio-campo, o Remo alugou o campo de defesa do adversário, mas não sabia o que fazer com a posse de bola, a não ser repetir cruzamentos e chutes descalibrados. A bola batia no muro e voltava. 

A rigor, não houve nenhuma chance de gol, situação amplificada pelo antijogo em larga escala do Cuiabá, exposto no rodízio de faltas, além da forte retranca. 

A torcida saiu frustrada, mas o resultado mantém o Remo no primeiro pelotão, agora ocupando a 5ª colocação com a mesma pontuação do Avaí (4º).

Papão arranca belo empate em Floripa

Cheio de desfalques importantes – Rossi, Garcez e Edilson – o Paysandu arrancou um empate em 0 a 0 contra o Avaí, em Florianópolis, no sábado à noite. Foi a quarta partida sem derrota sob o comando de Claudinei Oliveira – que ganhou 10 dos 14 pontos do time na Série B.

Com um esquema montado para não perder, o PSC conseguiu resistir bem à pressão do melhor ataque da Série B, com boa presença do goleiro Gabriel Mesquita. No 1º tempo, Marlon ainda fez uma finalização perigosa, mas o time recuou e não se aventurou mais no ataque.

Depois de perder o atacante Diogo Oliveira, que sentiu um incômodo em campo, o técnico Claudinei Oliveira trocou o volante Ronaldo Henrique pelo ala Bryan Borges, mas não alterou a maneira de jogar. Mesmo mantendo a posse de bola, o Avaí não conseguiu criar grandes chances.

Para um time que entrava em campo já derrotado, a mudança é da água pro vinho. O resultado foi excelente, mantendo a invencibilidade de Claudinei (três vitórias e um empate) e colocando o PSC na 17ª colocação. Não há dúvida: a confiança adquirida deixou a má fase pra trás.   

PSG vence o Bayern e consolida favoritismo

No fim de semana que marcou a volta triunfal do Oasis aos palcos do rock – com uma tocante homenagem ao atacante Diogo Jota, que morreu em trágico acidente –, a Copa do Mundo de Clubes apresentou mais dois jogaços: PSG e Bayern de Munique, talvez o mais aguardado confronto do torneio. Vitória francesa por 2 a 0, sendo que o time de Luis Enrique ainda teve dois expulsos na reta final do confronto.

Dembélé e Doué foram magistrais e o PSG é um time cada vez mais encantador. Disputado palmo a palmo, o jogo só não foi melhor que a virada do Al Hilal contra o Manchester City, de Pep Guardiola, sem dúvida o jogo mais empolgante da Copa até aqui.

O Real derrotou o Borussia por 3 a 1, com grande facilidade inicial, mas permitindo uma tentativa final de reação dos alemães. Não havia mais tempo, mas Dortmund conseguiu cravar uma despedida digna.

Amanhã, o surpreendente Fluminense de John Arias encara o Chelsea de Palmer na semifinal. Pelo que apresentaram diante do Palmeiras, os ingleses estão mesmo a fim de chegar à decisão, mas o fator transpiração é também o ponto forte do Tricolor. Parada equilibrada. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 07)

Folha, Globo e Estadão partem para o chilique coletivo contra a justiça tributária

Campanha bem-sucedida para ricos pagarem mais impostos é tratada como “ataque”: começou a ladainha de que o “nós contra eles” divide o Brasil. 

Governo Lula embarcou em uma campanha dura, mas respeitou os limites.
Foi o suficiente para mídia corporativa e parte da classe política pedirem moderação. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Por João Filho – Intercept_Brasil

Dominado pelo Centrão e pelo bolsonarismo — leia-se direita e extrema-direita —  o Congresso segue empenhado em continuar sabotando o governo. O objetivo é claro: fazer Lula sangrar até o final do mandato e abrir um caminho eleitoral para a candidatura de Tarcísio de Freitas. Os presidentes da Câmara e do Senado rasgaram um acordo com o governo e, na calada da noite, lideraram a derrubada do decreto que aumentava o IOF — um imposto para os mais ricos. 

A manobra foi flagrantemente inconstitucional. A Câmara, em acordo com o presidente do Senado, lançou mão do PDL (Projeto de Decreto Legislativo) para anular o decreto presidencial que garantiu o aumento do imposto. O PDL é um instrumento para ser usado exclusivamente quando o Executivo usurpa a competência do Legislativo, o que não foi o caso. O governo tem a prerrogativa de aumentar a alíquota de imposto. 

Nunca o parlamento teve tanto poder. Com a chave do cofre nas mãos — leia-se orçamento secreto — os congressistas da oposição, que são ampla maioria, sentem-se à vontade para fazer o que quiser com o governo. É uma espécie de parlamentarismo informal. O velho jogo da governabilidade do Executivo não existe mais. Lula divide o governo com partidos e não ganha apoio deles no Congresso.

Trata-se de uma sabotagem sobretudo à democracia, o que não chega a ser novidade, afinal de contas estamos falando de um grupo formado essencialmente por golpistas e simpatizantes de golpistas.   

Acuado e de mãos atadas, o governo decidiu reagir em duas frentes: a jurídica, acionando o STF para reverter a derrubada do decreto; e a política, levando um debate sobre justiça tributária para a opinião pública. 

Antes mesmo do governo entrar com a ação no STF, Ciro Nogueira, que foi um dos articuladores da derrubada do decreto, lançou uma ameaça velada: “Se recorrer ao STF, vai ser pior para o país”. 

E não foi só a oposição que se indignou, a grande imprensa também correu para proteger os ricos de pagarem mais impostos. O governo passou a ser acusado por aumentar a tensão política, como se recorrer ao judiciário diante de uma flagrante inconstitucionalidade não fosse absolutamente legítimo. 

No campo político, governistas passaram a compartilhar vídeos gerados por inteligência artificial que chamam o Congresso Nacional de “inimigo do povo” e apelidam o presidente da Câmara de “Hugo Nem Se Importa”. 

A campanha foi um sucesso nas redes sociais, animando a militância e furando a bolha das esquerdas. Foram críticas duras, incisivas, mas dentro dos limites que se espera do embate político dentro de uma democracia. Nos vídeos não há golpes abaixo da cintura, baixarias, ameaças ou ataques pessoais. 

Mas não foi assim que oposicionistas e os bonitões da grande imprensa encararam. Iniciou-se um chororô — ou “mimimi” como eles gostam de falar —  desproporcional, como se o parlamento e a democracia estivessem sendo vítimas de ataques virulentos. 

A reação soa como piada, já que caminhamos para quase uma década de violência massiva por parte do bolsonarismo contra os poderes constituídos. Os vídeos compartilhados nesta semana são brincadeira de criança perto da virulência das mamadeiras de piroca dos golpistas. A reação afetada da imprensa e dos bolsonaristas é o cúmulo do ridículo.

A defesa dos ricos e a possibilidade de eleger o queridinho Tarcísio de Freitas fez a imprensa se alinhar quase que inteiramente aos golpistas. Editoriais e colunistões têm se dedicado a criticar a reação do governo, que até então andava meio cabisbaixo, sem um mote político e parecia fadado a caminhar para o fracasso eleitoral em 2026. Isso mudou e a imprensa que quer eleger Tarcísio não gostou. 

Começou a velha ladainha de que o discurso do “nós contra eles” divide o Brasil. É uma crítica velha, surrada, que traz embutida a demonização da prática política — a mesma que criou o ambiente para o surgimento do bolsonarismo. 

Durante a semana, Estadão, Folha e O Globo lançaram editoriais com duras críticas ao governo e em defesa de Hugo Motta e do Congresso. Com um título quase infantil — “Lula não gosta da iniciativa privada” — o editorial do Estadão ofereceu um prato cheio para os bolsonaristas ao ressuscitar a imagem do Lula populista e malvadão contra os ricos. 

Já a Folha debochou do mote da luta de classes: “[Lula] ​​decidiu, com a ajuda de aliados e militantes, transformar sua tentativa de elevar um imposto numa cruzada heroica contra opressores poderosos dos brasileiros desvalidos.” O editorial do O Globo partiu para o malabarismo retórico ao dizer que o aumento do imposto dos super ricos vai acabar prejudicando os mais pobres também. 

Como se sabe, os editoriais são espaços de opinião dos barões da imprensa, que são super ricos, e, portanto, nada mais natural que sejam usados para defender seus próprios interesses. Mesmo assim, impressiona a cara de pau. 

Absolutamente nenhum dos editoriais cogitou sequer a hipótese da derrubada do decreto de aumento do IOF ser inconstitucional. A ação é vista como inconstitucional por 10 entre 10 juristas sérios, mas na imprensa ela é tratada como legítima e necessária. O jornalismo morreu e o que prevalece é a opinião dos super ricos que comandam a imprensa corporativa.

Mas a defesa mais aguerrida e ostensiva de Hugo Motta e do Congresso foi feita no Jornal Nacional da última quinta-feira. Com uma reportagem de quase 7 minutos, o jornal deu amplo espaço para o Centrão e bolsonaristas se defenderem e chamou os vídeos divulgados pelo governo de “ataques”. 

Hugo Motta e o Congresso foram tratados como vítimas de uma ofensiva violenta por parte de Lula e do governo. Assim como os editoriais dos jornalões, o Jornal Nacional também omitiu a flagrante inconstitucionalidade da ação do Congresso. Fica parecendo que só é inconstitucional quando é do interesse da Globo. 

Como bem disse o jornalista Lúcio de Castro, o Jornal Nacional fez um “editorial disfarçado de matéria” jornalística em “defesa da escumalha que sequestro o Congresso”. Toda a reportagem tem um tom de indignação contra o governo, como se ele agisse sob um espírito antidemocrático. Mais uma vez estamos diante do cúmulo do ridículo. É como se até semana passada a nossa democracia vivesse na mais absoluta ordem e tranquilidade.

Vendo a escalada da tensão entre os poderes, o STF buscou a conciliação. Ignorou a flagrante inconstitucionalidade do PDL do Congresso e anulou  todos os decretos, tanto o do governo, quanto o do legislativo. O ministro Alexandre de Moraes chamou o embate entre Executivo e Legislativo de “indesejável” e que ele contraria a Constituição, que prega a harmonia e independência dos Poderes. 

Para mediar a paz, o STF propôs uma reunião de conciliação entre Lula e Alcolumbre, representante do Congresso. A decisão do STF é equivocada do ponto de vista jurídico, mas pode ser compreensível do ponto de vista político. 

Não cabe ao tribunal fazer cálculos políticos, mas sabemos que não é assim que a coisa funciona na prática. O fato é que os decretos do governo são constitucionais, os da oposição não. Entre fazer valer a Constituição e diminuir a tensão entre os Poderes, o tribunal optou pela primeira opção. Um grave erro ao meu ver.

Em resumo: o governo está tentando resolver minimamente a disparidade tributária entre ricos e pobres. O aumento do IOF seria tímido e nem de longe resolveria essa desigualdade. Isso bastou para deflagrar um imenso chilique coletivo dos representantes dos super ricos no parlamento e na imprensa. 

É uma gente que tem ganhado todas as disputas nos últimos anos e não está acostumada a perder. O governo, que até então buscava conciliar de todas as formas, resolveu reagir e botar o bonde do embate político na rua. E começou a marcar pontos com a opinião pública. 

Resta saber se o governo terá fôlego para manter esse embate político e eleitoral até 2026 e como o consórcio pró-Tarcísio — formado por grande imprensa, Centrão e bolsonarismo — continuará reagindo. O STF colocou a bola no meio campo, zerou o placar e quer quer os dois times se entendam antes da bola rolar novamente. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. 

Arraial do Pavulagem e a gentrificação simbólica da capital

A cultura enlatada e o Boi de vitrine: o caso do Pavulagem e a gentrificação simbólica de Belém

Por Marcelo Bastos, no Facebook

Nos últimos anos, a cidade de Belém tem assistido a um fenômeno silencioso, porém brutal: a transformação da cultura popular em produto turístico domesticado. O Arraial do Pavulagem, outrora expressão viva do povo, virou vitrine para patrocínio, palanque eleitoral e selfie de influencer. E isso não é acaso. Trata-se da velha lógica do capital engolindo o simbólico e cuspindo enfeites de plástico. Pierre Bourdieu já nos alertava: a cultura, quando perde sua autonomia e se submete aos mecanismos de distinção e mercado, deixa de ser campo de resistência para virar espaço de consagração simbólica das elites (BOURDIEU, 1983).

Não se trata aqui de negar a importância do Arraial ou sua história. Pelo contrário. Ele nasceu das ruas, da juventude, do enfrentamento à caretice cultural e ao apagamento das tradições amazônicas. Mas o que se vê hoje é um espetáculo padronizado, embalado para exportação, com roteiro aprovado por edital. O povo continua lá, mas na borda. No centro do cortejo, está a indústria do entretenimento, não mais a expressão autêntica do brincar de boi. Como dizia Adorno, “a indústria cultural não produz arte, mas mercadoria estética para o consumo conformista” (ADORNO & HORKHEIMER, 1944).

Essa gentrificação cultural — onde práticas comunitárias são apropriadas, esvaziadas de conflito e revendidas como experiência — não é exclusiva de Belém. Mas aqui ganha contornos graves. Porque se vende como “resgate da tradição”, quando na verdade mascara a exclusão. Os ribeirinhos, os negros, os trabalhadores da periferia, os mestres da cultura popular continuam sem palco, sem patrocínio e sem voz. Enquanto isso, DJs, designers de som e socialites culturais dividem a cena no Arraial gourmetizado da Cidade Velha.

A crítica não é moralista. Não se trata de dizer que cultura deve ser pura, ou que tradição não possa dialogar com o novo. Trata-se de reconhecer que há uma luta de classes simbólica em curso. Quando se retira o boi do bairro e se instala num palco cercado de tapumes com patrocinador estatal, o que se tem não é difusão cultural, é domesticação. É a conversão do sagrado em estética de evento. É a morte lenta da cultura viva.

A Escola de Frankfurt nos ensinou que a cultura de massa serve, sobretudo, para anestesiar. Ela transforma o diferente em familiar e o insubmisso em decoração. O Pavulagem, enquanto cortejo de rua, era espaço de tensão, improviso e invenção popular. Hoje, é peça de calendário oficial. Cabe na agenda do prefeito, no feed da influencer e no edital do banco estatal. Mas não cabe mais no coração do povo que dançava sem crachá, sem permissão e sem drone.

É curioso que, ao mesmo tempo em que o Arraial cresce como fenômeno midiático, outros folguedos somem. Cadê os cordões de pássaros? Cadê os bois de matriz quilombola? Cadê os mestres anônimos das margens dos igarapés? Silenciados. Porque não se enquadram na lógica do espetáculo. Porque não têm figurino Instagramável. Porque não servem à nova elite progressista que governa a cultura com sorriso de marketing e lógica de mercado.

Estamos vivendo um tempo em que a estética substitui a ética, e o aplauso substitui o pertencimento. Não basta que a cultura esteja presente — é preciso perguntar: de quem é? Quem a controla? Quem lucra? A gentrificação simbólica é isso: a ocupação dos espaços culturais populares por agentes hegemônicos, sob a retórica da valorização, mas com a prática da apropriação. E isso precisa ser denunciado.

Não se trata de atacar pessoas. O problema não é quem dança o boi com tênis importado. O problema é que o boi virou vitrine, não rito. Virou produto, não processo. A festa do povo virou foto de campanha. A cultura de rua virou contrato. Isso não é tradição. É pastiche. É espetáculo sob controle. É simulacro de um povo que ainda resiste, mas está sendo expulso da própria festa.

Resistir à gentrificação cultural é, hoje, um ato político. É defender que o boi volte para os becos. Que a música saia do palco e volte para os quintais. Que a tradição se reconecte com a vida real, não com o cronograma do marketing institucional. Como diria Adorno, a arte verdadeira é aquela que incomoda, que rompe, que nos tira do lugar comum. E talvez o nosso Pavulagem precise voltar a incomodar, antes que seja tarde.

Em Lisboa, voltamos a ser colônia

Enquanto o povo ocupa o Itaú, o 1% define o futuro no Gilmarpalooza.

Do Intercept_Brasil

Enquanto a elite política, econômica e jurídica do Brasil terminava de assistir suas palestras e se encaminhar para os já notórios jantares e encontros paralelos ao Fórum de Lisboa, do outro lado do Atlântico a Faria Lima teve uma surpresa .

Pedindo taxação dos bilionários, a Frente Povo sem Medo e o Movimento dos Trabalhadores sem Teto, o MTST, ocuparam, na tarde de quinta-feira, 3, o prédio-sede do banco Itaú BBA , no bairro do Itaim, em São Paulo. Nos cartazes, lia-se “hora de bilionário pagar imposto” e “chega de mamata, tributação dos super ricos já”.

“No Brasil, tributar os super-ricos é crucial para reduzir a desigualdade . São lucros e dividendos que seguem intocados, enquanto a maioria trabalha muito e paga caro por tudo”, disse o comunicado dos movimentos.

Eles ocuparam o saguão do prédio, que não foi escolhido à toa: é o mais caro do Brasil . Foi comprado pelo banco no ano passado por R$ 1,4 bilhão. Defensores de vidraça, fiquem tranquilos: nenhum vidro foi agredido durante o ato.

Em Lisboa, o clima era outro. Juízes, desembargadores, procuradores, militares, membros do Executivo e parlamentares, devidamente cercados por lobistas, executivos e empresários discutiram “o mundo em transformação” no Fórum.

O evento, popularmente conhecido como “Gilmarpalooza” , ganhou outro apelido do jornalista Hugo Souza que considera mais preciso: “Gilmar Sutra”, dado a troca-troca despudorado entre público e privado que acontece por ali .

Na mesa de abertura, o ministro do STF Gilmar Mendes chamou a atenção para os riscos que a sociedade enfrenta diante das novas tecnologias. Ele esteve na companhia de Davi Alcolumbre e Hugo Motta, presidentes do Senado e da Câmara, respectivamente, além de outros três professores, e Beto Simonetti, presidente da OAB.

Depois, o evento prestigiou executivos responsáveis por essas mesmas tecnologias, que sentaram à mesa com seus reguladores . Tudo normal.

No mesmo dia, banqueiros discutiram “controvérsias da reforma tributária” com ministros do STJ nos palcos de Lisboa. Depois, o presidente do iFood, Diego Barreto, e a entidade de lobby que representa a empresa e outras como Uber e Amazon, a Abomitec, conversaram sobre “desafios sociais da automação e IA no mercado trabalhista” com Guilherme Caputo, ministro do Tribunal Superior do Trabalho – onde tramitam centenas de ações contra as empresas .

Mas não parou por aí. No dia seguinte, o ex-secretário de estado dos EUA, Mike Pompeo, foi responsável por uma palestra ao lado de Gilmar Mendes e do presidente do banco BTG Pactual, André Esteves, sobre as implicações econômicas da “geopolítica em subterrâneas”.

O republicano aprovou o espaço para bradar contra a China , convocando os latino-americanos para tomarem partido . “Você tem que escolher um lado, e não é entre a China e os EUA. É entre democracia liberal e liberdade ou tirania”, defendeu. “Se não defendermos os valores de dignidade humana, propriedade privada e liberdade, isso vai nos assombrar”, disse Pompeo. A fala dele, ao contrário das outras do palco principal, não foi transmitida pelo YouTube .

As dezenas de debates e mesas reuniram a nata do lobby corporativo, do governo, do Congresso e do Judiciário, em um arranjo cordial que torna difícil distinguir quem é quem . É onde “jabá corporativo e dinheiro público alimenta a corrupção supramagistrocrática. Onde a fome por lobby se junta à vontade de jantar”, como bem definiu o professor da USP Conrado Hubner.

Em seu artigo, Hubner chama atenção para os eventos laterais do fórum – que é onde a mágica do convescote acontece. O BTG Pactual, que teve cinco palestrantes no Fórum neste ano – e é parte em ações no STF – fez um happy hour no ano passado.

Neste, a Associação Latinoamericana de Internet , que representa Google, Meta, X, Amazon e Tiktok, também ofereceu um almoço para poucos no restaurante Adega Tia Matilde , reportou o Estadão. Não é tudo dia em que a nata do lobby possa dividir uma mesa com os juízes, ministros e políticos que julgarão suas causas e formularão sua regulação .

Embora o Gilmarpalooza seja apresentado como um evento de diálogo entre o Brasil e a Europa, na prática é um encontro de brasileiros em solo português. Dos 165 expositores, apenas 11 não eram brasileiros, em números levantados por Hubner. No total, eram 123 homens brancos, 42 mulheres brancas, duas mulheres negras e um homem negro. Nada mais distante da realidade brasileira .

O presidente da Câmara, Hugo Motta, foi convidado para a mesa de abertura do evento. Mas preciso sair pelos fundos. Enquanto ele falava placidamente sobre a reforma administrativa, aqui no Brasil crescia o coro de #Congressoinimigodopovo entoado pelos movimentos sociais em ressonância com a explosão do governo para aprovar a reforma do IR.

Motta, como nosso colunista João Filho escreveu , ligou o “modo Eduardo Cunha” e apunhalou o governo pelas costas, derrubando o aumento do IOF . Como já explicamos , a medida visava taxar o andar de cima da pirâmide social – os super ricos – para ajudar no equilíbrio das contas.

A resposta veio do PT, subindo o tom com uma campanha pela “taxação BBB”: bilionários, bancos e apostas. Deu certo . Os vídeos viralizaram. Justiça tributária que chama. A mídia corporativa, que na semana passada falou incessantemente sobre a “derrota” do governo, passou a pedir “moderação” e criticar “os ataques” ao Congresso. O que ataca?

Os movimentos sociais foram organizados para iniciar o Congresso. Um plebiscito popular foi lançado para duas pautas: a taxação dos super-ricos e o fim da escala 6×1 . Os movimentos sociais também marcaram um ato no dia 10 de julho no Masp, em São Paulo.

“Os super-ricos acumulam cada vez mais fortuna, autorizada e influência — vivem em um país feito sob medida para manter seus privilégios” , escreveu a Frente Povo sem Medo sobre a ocupação na Faria Lima.

A um oceano de distância, o Gilmarpalooza agrediu sem maiores incômodos.

Remo joga por um sonho

POR GERSON NOGUEIRA

O Campeonato Brasileiro da Série B é encarado pelo Remo como a oportunidade de obter a ascensão que o clube persegue no cenário nacional. Os investimentos feitos em contratações e mudanças na gestão refletem esse planejamento. A ousadia no posicionamento de mercado buscando reforços de nível de Série A é outro sinal dessa postura.

Até o momento, a campanha é das melhores. O time já frequentou o G4 e se mantém às proximidades da zona de acesso, ocupando a 5ª posição com 23 pontos. O confronto deste sábado (16h) contra o Cuiabá é mais um capítulo dessa ampla mobilização pelo sonho do acesso.

Como mandante, o Remo perdeu apenas uma vez, para o rival PSC na 13ª rodada, mas o desempenho supera outras participações em Brasileiros. No terceiro compromisso desde que assumiu o cargo, o técnico Antônio Oliveira tenta obter a segunda vitória consecutiva, tendo como principal arma um jogador que mudou a cara da partida contra o Athletic.

Jaderson, que voltou a jogar no 2º tempo em São João Del Rey, é o dínamo do time. Desde a lesão que sofreu no Re-Pa, o Remo sofreu com a falta de articulação inteligente. Além de armar jogadas, ele participa também da execução, aparecendo na área para finalizar.

É um jogador taticamente precioso e tecnicamente sem substituto no elenco azulino. O retorno dele representa um sopro de qualidade no meio-campo, com consequências positivas para os jogadores de lado – Janderson e Pedro Rocha – e para as ações pelo centro do ataque.

A única dúvida paira sobre a linha à frente dos zagueiros. Luan Martins, titular desde o Re-Pa, não mostra a força de combate exigida de um primeiro volante e a zaga fica exposta, como no gol do Athletic.

Oliveira teve uma semana para testar alternativas, caso Caio Vinícius não possa atuar plenamente. Em situação normal, o titular absoluto da cabeça-de-área é Caio Vinícius, que pode até reaparecer na equipe.

Para seguir no pelotão de cima, perto ou dentro do G4, o Remo precisa vencer. Terá para isso o apoio maciço do Fenômeno Azul, a torcida que lidera o ranking de público da Série B.

(Foto: Samara Miranda/Ascom Remo)  

Fluminense dribla zebra saudita e avança

O roteiro reservado ao Fluminense no Mundial de Clubes era o de mero coadjuvante, sem lugar entre os gigantes europeus da competição. Com uma campanha empolgante, cujo ponto alto foi a vitória sobre a Inter de Milão nas oitavas, o Tricolor carioca fulminou todas as previsões.

Na sexta-feira, a vítima foi o Al Hilal, zebra saudita que assombrou a Copa ao derrotar o Manchester City de Pep Guardiola. Sem a badalação dos demais times, o Flu chega à semifinal pelos pés de um herói piauiense.

Hércules, que havia fechado o caixão da Inter, fez o mesmo com o Al Hilal. Determinado e raçudo, ele saiu do banco para resolver a parada em momento delicado do confronto. Um predestinado.   

Grandes conquistas precisam de heróis, de preferência sem os véus da fama ou as ilusões do marketing. Hércules simboliza o próprio Fluminense, que precisou avançar por seus próprios méritos, sem jamais merecer a babação de ovo que a mídia brasileira deu a outros clubes.

A tarde de sexta-feira unificou a torcida brasileira, de maneira quase unânime, em torno do Flu. Algo raro no país que adora secar. Será assim na contra o Chelsea, que passou pelo Palmeiras sem exibir futebol confiável. Renato (ou Renight) tem boas chances de se consagrar ainda mais.    

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta o programa, às 23h, na RBATV, com participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Em destaque, a 15ª rodada da Série B. A edição é de Lourdes Cezar e Lino Machado.

Papão tenta ampliar a sequência vitoriosa

O Avaí é o adversário do Papão neste sábado (19h30), em Florianópolis, oferecendo as dificuldades normais de quem enfrenta times catarinenses dentro de seus domínios. Claudinei Oliveira, comandante bicolor, conhece bem o ambiente, pois dirigiu o Avaí em duas oportunidades.

Talvez seja esta a chave para derrotar o dono da casa e ampliar a sequência de vitórias iniciada contra o Botafogo-SP. Com 13 pontos, posicionado na incômoda 19ª colocação, o Papão tem pressa para sair da zona maldita.

Para isso, não pode se contentar em vencer apenas na Curuzu. É preciso que o time mostre solidez também como visitante. Sem a presença de Rossi e Garcez, Claudinei vai manter o meio-campo que funcionou contra a Ferroviária e o ataque que tem Diogo Oliveira como referência.

Possibilidades de vitória existem, mas um empate não seria totalmente ruim. Acumular pontos é parte do esforço de avançar na competição. 

(Coluna publicada na edição do Bola de sábado/domingo, 05/06)

A frase do dia

“A campanha bem sucedida, correta e focada que expõe Hugo Motta, a escória do ‘centrão’, a extrema-direita, Davi Alcolumbre et caterva como sabotadores do erário, do equilíbrio fiscal e do financiamento de políticas públicas que mitigam as injustiças sociais atingiu o alvo. Tem de seguir, queiram ou não queiram os ‘juízes’. Somos madeira de lei que cupim não rói”.

Luís Costa Pinto, jornalista