A frase do dia

“NENHUM jornalista da grande mídia se pergunta como 1 senador que ganha R$ 35 mil por mês quitou quase R$ 6 milhões em apenas 36 meses? Até 2022 não havia NENHUM REGISTRO da atuação dele como advogado ou em nenhum outro emprego. Se a PF investigar, VAI ACHAR!!”.

Demétrio Reis, no X

Por que o idoso Ruy Castro ataca a velhice de Lula

Por Moisés Mendes, no DCM

Ruy Castro tem 76 anos e se mantém há décadas como cronista da Folha por preservar a plenitude da sua capacidade de fazer jogo duplo e refletir sobre platitudes. Ruy Castro é o caso clássico do sujeito que vive do que já foi, mas é assim também que se vive.

Seu talento de cronista vai se sustentando na poupança do seu passado. Mas ninguém irá questionar a capacidade de Ruy Castro de chegar à velhice atacando Dilma, como fez ao lado dos golpistas, de ser anti-Lula (o que é um direito dele) e de ser agora militante de um etarismo raso.

Ao comparar Lula a Biden, insinuando que Lula é um idoso sem condições de se reeleger, ele não sugere que esqueceu a própria idade. O que não esconde é que se alinhou aos ‘jovens’ de extrema direita que vão bater em Lula para que os brasileiros o vejam como se fosse um Biden. Castro deve se achar forever young.

Numa abordagem cordial, poderia ser dito que o cronista foi cruel com o maior líder político brasileiro desde Getúlio, que era chamado de ‘o velho’, mas carinhosamente. Por que enfatizar no artigo que Lula já teve câncer?

Ruy Castro virou mais um tio-avô do zap, desses que cantam o hino para pneus e inspiram muito do que ele escreve. Seu texto o habilita a ser o líder do ataque à idade de Lula, para que, com sua reputação, puxe outros apitos e acorde as hienas bolsonaristas. Faz o jogo do fascismo, não para atacar um idoso, mas para tentar interditar Lula.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O que Castro acaba revelando é que Lula é temido exatamente pela lucidez de quem chegou aos 78 anos. A velha direita engolida pela extrema direita fica desconfortável ao ver que Lula não envelhece, nem mental nem fisicamente. Eles achavam que Lula sairia da cadeia para fazer jardinagem com Janja.

A crônica de Ruy Castro é uma contribuição aos esforços para ressuscitar o bolsonarismo mais repulsivo. O jornalista reforça na velhice as ideias e as ações da mesma turma do golpe, das milícias civis e militares, da grilagem, do garimpo, das rachadinhas e do PL do estupro, para atacar um homem que continua ativo e lúcido governando o país.

Ruy Castro não precisava reconhecer que Lula passa a ser exemplo de vitalidade para outros idosos. Nem admitir que gente com a idade de Lula produziu obras monumentais, em qualquer área.

Mas não precisava depreciar o tempo de vida de Lula com argumentos do bolsonarismo e do trumpismo, quando se sabe que o problema de Biden não é a idade, mas a comprovada confusão mental.

A aparente confusão de Castro é outra. Ele teme que Lula seja inspirador de velhices em todas as frentes, na vida anônima dos comuns, nas artes, nas escolas, na política, no jornalismo.

Castro teme os idosos que continuam ativos e dignos e não se dobram aos fascistas de todas as idades. Assuma seus 76 anos e pare de babar para a extrema direita, Ruy Castro.

Publicado originalmente no “Blog do Moisés Mendes”

(A obra de Ruy é admirável. Como cronista e biógrafo está entre os melhores do Brasil. O posicionamento político, porém, nem sempre acompanha o talento natural para a escrita. A pinimba com Lula e o PT é antiga e conhecida, mas desta vez extrapolou os limites do respeito)

Rock na madrugada – Bob Dylan, “Knockin’ On Heaven’s Door”

POR GERSON NOGUEIRA

Com a luxuosa participação de Tom Petty & Heartbreakers como banda de apoio, Bob Dylan fez um registro grandioso para o filme-concerto Hard to Handle, durante sua turnê australiana em 1986. A fina sintonia entre o bardo e a banda liderada por Petty já vinha de longa data e fica espelhada na interpretação de um dos maiores clássicos do rock.

Cabe contextualizar as coisas em relação à turnê de 1986. Dylan já era Dylan, mas atravessava um mau pedaço em meados dos anos 80, sofrendo críticas ácidas do público roqueiro enquanto buscava um êxito comercial que insistia em não sorrir para ele.

Lutava para preservar a intensidade criativa das décadas anteriores, mas sua mensagem não gerava impacto. Uma nova safra de herdeiros do rock clássico ocupava todos os espaços. Foi com a ajuda de um grande amigo pessoal, Tom Petty, que o poeta do rock começou a reagir.

A oportunidade de botar o pé na estrada não podia ser desperdiçada. E tudo se encaixou magicamente. Dylan admitiria anos depois a imensa gratidão pelo convite para participar da turnê com Petty e The Heartbreakers. “Tom estava no topo de seu jogo e eu estava no fundo do meu”, escreveu no livro “Chronicles”, de 2004.

Já no livro “Conversations With Tom Petty” (2005), de Paul Zollo, o cantor mostra que via as coisas de maneira diferente, impressionado com o poder de Dylan junto ao público: “Nunca houve uma noite em que o público não estivesse incrivelmente extasiado com a coisa toda”, disse Tom. Um desses momentos de êxtase absoluto ocorreu no final do show, quando Petty se juntou a Dylan para o clássico ‘Knockin’ On Heaven’s Door’.

Lançada em 1973 como single após sua inclusão na trilha do filme “Pat Garrett e Billy the Kid” (vídeo abaixo), de Sam Peckinpah, a música logo se tornou um êxito mundial e colocou Dylan no top 10 em vários países diferentes. Mas é possível dizer, com o distanciamento necessário, que o show na Austrália foi a mais marcante interpretação ao vivo da canção.

Na filmagem, os dois roqueiros entregam não apenas uma versão excepcional da música, mas um atestado da amizade que compartilharam. Petty se comporta claramente como um fã, que deseja dar a Dylan todo o sucesso que tanto merecia. Sem dúvida, foi o choque definitivo para alavancar a carreira do futuro ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.

Papão recarrega as baterias

POR GERSON NOGUEIRA

O ex-santista Juan Cazares é o nome mais reluzente desta nova leva de reforços anunciados pelo PSC para aproveitar a curta janela de contratações na Série B. É o mais caro também, superando os salários de seis dígitos de Robinho e Quintana, campeões do elenco nesse quesito. Fontes do clube revelam que, apesar do nome forte, o contratado aceitou reduzir a pedida.

Em campo, a tendência é que Cazares assuma um lugar ainda carente na formação da equipe. Com um jogo de imposição no campo adversário, tem faltado ao Papão mais qualidade na construção de jogadas ofensivas, o que provoca um recuo excessivo do centroavante Nicolas.

Justamente por isso, o artilheiro da temporada talvez seja o maior beneficiado com a presença do equatoriano, que ao longo da carreira provou ser um meia agressivo e habilidoso, especialista na condução de bola.

Ao lado de Juninho, que terá com quem dialogar nos movimentos de transição, Cazares deve funcionar como o chamado pulo do gato do PSC para encarar as próximas 25 rodadas da competição, desde que passe longe dos encantos das baladas belemenses.

A questão é que, desde a passagem pelo Atlético-MG, de 2016 a 2020, Cazares não conseguiu se firmar. O início foi fulgurante, chegando ao River Plate antes dos 20 anos. No Galo, viveu seu melhor momento, com dribles e passes perfeitos. Fez 41 gols, incluindo vários em cobrança de faltas.

Caso tenha pelo menos um lampejo desse período, coisa que não mostrou no Santos, pode ser de grande utilidade aos bicolores em meio à crise técnica desta Série B.

Sócrates vive: Raí brada contra a ultradireita

“Conheço bem a extrema direita, o que eles fazem de melhor é mentir. No Brasil, vivemos um pesadelo. Quatro anos de misoginia, quatro anos de homofobia, preconceito”.

Raí, ídolo do São Paulo e do PSG, irmão mais novo do Dr. Sócrates, referiu-se desse modo à experiência vivida no Brasil durante os quatro anos de Bolsonaro no poder. O craque foi demoradamente aplaudido durante o discurso pronunciado na quarta-feira, em Paris, às vésperas da eleição

O ex-jogador de 59 anos tem cidadania francesa e completou, recentemente, um mestrado em políticas públicas numa prestigiada universidade do país europeu. Esclarecido e politizado, Raí sempre se destacou por posicionamentos progressistas.

A manifestação reuniu milhares de pessoas no centro da capital francesa e foi convocada para protestar contra o avanço da ultradireita francesa. Antes de Raí, Thierry Henry e Mbappé já tinham se manifestado, alertando principalmente os jovens para os riscos do extremismo fascista.

(Antes da Eurocopa, o craque francês Kylian Mbappé chamou a atenção ao se manifestar politicamente contra a ultradireita, algo raro entre jogadores, e convocar jovens a participarem da eleição.)

Afirmações políticas lúcidas como as de Raí costumam causar urticária nos conservadores brasileiros, incluindo boa parte da mídia esportiva, historicamente refém de pensamentos retrógrados, visão neofascista e nenhum compromisso com as liberdades democráticas.

Viva Raí! Salve Dr. Sócrates!

Dorival copia Zagallo, mas o time não honra o passado

Vai muito além da simples homenagem de Dorival Júnior, usando um agasalho idêntico ao que Zagallo usava na fatídica Copa do Mundo de 1998, aquela que ficou marcada pela cara-branca de Ronaldo antes da grande final. Claro que há respeito pela história do Velho Lobo na Seleção, mas os esquemas de marketing e faturamento vêm à frente.

A peça integra uma linha retrô recém-lançada pela Nike, fornecedora de material esportivo da Seleção, que celebra o Mundial da França. Junto com o casado, também foi relançada a camisa de jogo do Brasil, com opção de personalização do nome e número de Ronaldo Fenômeno.

Apesar do sucesso nas redes sociais, a utilização do agasalho chama atenção por conta das altas temperaturas de Los Angeles, Las Vegas e Santa Clara, cidades que receberam os jogos da Seleção na primeira fase.

A questão é que Nike e CBF decidiram que Dorival era o cara certo para servir como “manequim” para o agasalho, devido a uma certa semelhança física com Zagallo, pelos cabelos brancos e os óculos.

Ficou no ar um aspecto conceitual que não combina com as lembranças que o país do futebol tem daquele Mundial, visto como zicado e traumático pelo incidente com Ronaldo. A expectativa é que isso sirva para aumentar a aproximação entre torcida e seleção. Tenho cá minhas dúvidas.

É mais provável que o tal casaco seja um modo esperto e lucrativo de celebrar o longevo contrato entre as partes, que só se encerra na Copa 2026, completando 30 anos de vínculo. Enfim, tudo a ver com gulodice da CBF.

Obviamente, o plano marqueteiro só dará certo se a trôpega Seleção de Dorival conseguir avançar na Copa América.

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 05)

Uma Seleção carente de futebol

POR GERSON NOGUEIRA

A atuação fraca do meio-de-campo brasileiro atrapalhou o início promissor contra a Colômbia, com direito a um lindo gol de falta que a Seleção não fazia há tempos. A forte briga física no meio favoreceu o estilo mais duro dos colombianos. Bruno Guimarães, João Gomes e Paquetá não conseguiram levar vantagem e o time sofreu com isso.

Rodrygo é a cabeça pensante do time, a única, e por isso mesmo foi marcado implacavelmente pelos defensores e não conseguiu executar a transição. Vinícius Jr., vigiado por até dois colombianos, pouco produziu, mas a falta sofrida por Bruno Guimarães abriu o caminho para o gol.

Escolhido para a cobrança, Raphinha bateu no capricho, aos 12 minutos, acertando o ângulo esquerdo de Vargas e botando o Brasil em vantagem. Apesar da vantagem, o time não conseguiu acertar a saída para o ataque, esbarrando sempre no forte bloqueio colombiano.  

A luta acirrada pela bola no meio e nos lados não favorecia a Seleção, que errou passes além da conta, principalmente com Paquetá na tentativa de acionar os atacantes. Pelos lados, as limitações de Wendell e Danilo não permitiam ao time avançar e utilizar melhor Vini Jr. e Raphinha.

Mesmo com baixa intensidade ofensiva, a Colômbia chegava a ameaçar. Como no lance do cruzamento de James Rodríguez para o cabeceio e o gol de Sánchez. O VAR entrou em cena para errar feio. A linha foi traçada em relação ao atacante que não fez o gol. O autor do cabeceio estava centímetros atrás, em posição legal.

O 1º tempo era confuso, mas o Brasil vencia. Até que deixaram Córdoba manobrar à frente de três marcadores e ele acionou o lateral Muñoz, livre na direita, para chutar e empatar. Um pouco antes, Vini Jr. reclamou pênalti que o árbitro não viu, nem o VAR revisou.  

Na etapa final, Dorival Júnior decidiu tirar Rodrygo, justamente o maior talento do time nas ações construtivas. É verdade que o camisa 10 não havia dado um chute a gol, mas era um escape interessante pelos lados. Sem ele, Vini Jr. ficou ainda mais isolado e sem apoio.

A necessidade de vencer para garantir a primeira colocação no grupo D tornou-se um fator de pressão sobre um time já atormentado por atuações pouco convincentes. A impotência para criar jogadas era confundida com acomodação. No fundo, prevaleceu mesmo a carência de bom futebol.

O Brasil era caótico em meio à ajustada marcação dos colombianos. Falhas nos passes à entrada da área e desacerto no posicionamento se encarregaram de deixar a Seleção exposta a riscos, como aos 36 minutos, quando Luis Díaz cruzou para Borré, que bateu por cima.

Dorival botou um volante a mais, mas a mexida foi inútil porque a Seleção marcava mal. A insistência com toques laterais no campo de defesa atraía ainda mais o time colombiano, sempre mais organizado.

No finalzinho, Endrick e Douglas Luiz entraram, fazendo com que a formação se tornasse ainda mais amalucada, com Raphinha deslocado para a lateral esquerda. Essa descaracterização do esquema inicial deixou o time sem forças para pressionar. Atuação ruim, que deixa preocupações, principalmente porque o próximo adversário é o Uruguai.

Chiliques de Dorival revelam frustração com jogo ruim

Após o jogo, Dorival Júnior saiu em direção ao árbitro reclamando de um suposto pênalti no lance final da partida. Pode até ter ocorrido alguma infração, mas o Brasil saiu devendo muito. Na sétima apresentação sob o comando do novo treinador, a Seleção não mostra nem lampejos de competitividade e poderio ofensivo.  

As reclamações lembraram um pouco aqueles chiliques típicos de Zagallo, a quem Dorival vem homenageando com o uso do mesmo agasalho que o Velho Lobo usava nos anos 90. Normalmente sereno, o técnico questionou muito a arbitragem, mas as queixas não escondem a baixa produção.

Somente Marquinhos admitiu que a atuação foi fraca e frustrante, reconhecendo que a Colômbia tem um bom time – invicto há 27 jogos. A verdade é que o Brasil não chegou à Copa América como favorito, está abaixo de times como Uruguai, Colômbia e Argentina.

A campanha evidencia isso: uma vitória e dois empates. Em outros tempos, o Brasil normalmente atropelava. Com grandes jogadores, as coisas eram mais fáceis. Desta vez, os bons são raros – e o mais importante deles, Vinícius Jr., levou o amarelo e não joga contra a Celeste Olímpica.

A redescoberta de Pavani no esquema 3-4-3

Os últimos jogos do Remo têm reabilitado Giovane Pavani, que antes da chegada de Rodrigo Santana chegou a ser hostilizado pela torcida em função das fracas atuações. A confiança do técnico e a adoção do novo sistema de jogo (3-4-3) fizeram bem ao meio-campista.

Versátil, capaz de executar todas as funções do setor central do time, Pavani rapidamente se adaptou ao esquema e passou a ter destaque como encarregado da condução de bola rumo ao ataque.

Saiu-se satisfatoriamente nessa missão contra São Bernardo, Ypiranga e Ferroviário. Revezando na função com Paulinho Curuá, aproveita para se aproximar do ataque quando dispõe de espaço livre.

As iniciativas têm dado certo, incluindo as tentativas de finalização, como no gol diante do Ferroviário, quando surgiu entre os zagueiros para desviar de cabeça para o fundo das redes.

Com esforço e regularidade, o volante/meia está mostrando utilidade num time refém das limitações do elenco. Para Rodrigo Santana, a redescoberta de Pavani é a melhor notícia possível para ajustar o meio-campo. Para os próximos confrontos, o papel executado por Pavani será fundamental na briga pela classificação. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 03)

O preço da dignidade: escravizar uma pessoa no Brasil custa apenas R$ 4.115,98

Por Bianca Pyl e Marcelo Soares – Intercept_Brasil

Em 2023, o Ministério do Trabalho e Emprego encontrou 3.190 pessoas em condições análogas à escravidão em todos os estados do país. Os empregadores flagrados pagaram R$ 12,8 milhões aos trabalhadores. Ao todo, no ano, foram 707 operações realizadas para coibir esse crime, sendo que em 345 houve flagrante de trabalho escravo. 

Esses dados foram anunciados como um recorde do estado – e são mesmo. Desde 2009, o Brasil não resgatava tantas pessoas submetidas à escravidão contemporânea. Mas, por trás dos números superlativos, há um resultado degradante: ainda sai barato escravizar no Brasil.

No ano passado, os empregadores flagrados pagaram uma média de R$ 4.115,89 por pessoa escravizada em verbas rescisórias. Isso equivale a pouco mais de três salários mínimos. 

Um valor muito baixo para quem cometeu uma violação de direitos humanos, um crime que vai muito além da esfera trabalhista – e sequer dá conta do que o trabalhador perdeu durante o tempo de serviço. 

Trabalhador da fruticultura que manuseia agrotóxicos e fertilizantes exibe feridas pelo corpo. Foto: Tatiana Cardeal/Divulgação Papel Social.

Desde 1995, quando o governo brasileiro criou grupos móveis de fiscalização de combate ao trabalho escravo, 63.516 trabalhadores foram retirados de condições análogas à escravidão. E os empregadores pagaram um total de R$ 146.196.587,83 em verbas rescisórias no momento da fiscalização, de acordo com os dados do Ministério do Trabalho e Emprego.

Os valores das rescisões estão disponíveis no site do MTE desde 2000, quando o salário mínimo valia R$ 151. As quantias dos anos anteriores não estão disponíveis. 

Atualizando os dados de cada ano pela inflação, os empregadores teriam pago o equivalente a R$ 321 milhões desde o início. Isso dá uma média de R$ 5.736,82 – 4,3 salários mínimos – por trabalhador no período.

Além das verbas rescisórias, os trabalhadores resgatados têm direito a três parcelas de seguro-desemprego, pagos pelo Ministério do Trabalho, no valor de um salário mínimo.

“Por que esses trabalhadores têm que ter como base dos seus direitos um salário mínimo?”, questiona Gildásio Silva Meireles. Ele foi submetido a condições degradantes de trabalho em uma fazenda no Maranhão, em 2005. 

Trabalhador da cadeia produtiva do café. Foto: Tatiana Cardeal/Divulgação Papel Social.

Hoje, trabalha com vítimas de trabalho escravo no Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia, no Maranhão, e não vê a situação melhorar. Muitos trabalhadores acabam sendo resgatados pela fiscalização mais de uma vez porque a situação após o flagrante não muda. 

“O que o trabalhador ganha não é o suficiente para sustentar a família durante muito tempo e, como geralmente ele não tem uma profissão [fixa], ele se submete novamente ao risco de ser escravizado”, explica.

Os empregadores, além disso, não são penalizados e voltam a cometer o mesmo crime. “Eles pagam uma multa pequena, ficam com o nome na justiça durante muitos anos esperando o julgamento, enquanto isso não acontece e ele continua agindo da mesma maneira”, relata Meireles.

A agropecuária é a atividade econômica com mais casos de resgate de trabalhadores –, com 27% do total, segundo os dados do MTE. Era essa a atividade da propriedade em que Meireles foi resgatado.  

Meireles contou ao Intercept que, na fazenda, a água que ele e seus colegas bebiam era a mesma que o gado, os porcos e outros animais consumiam. “É aquela água de igarapé, e desce todas as fezes e sujeira dos animais. O trabalhador tinha que coar a água para beber e para cozinhar”.

Pela manhã, era servido um café puro e, às vezes, com farinha de puba, extraída da mandioca. No almoço era só arroz com feijão. “Se o trabalhador tivesse sorte, ele achava alguma caça no meio do mato e fazia o preparo para se alimentar”, lembra.

Meireles prefere não revelar o nome da propriedade e do empregador que o submeteu a condições análogas à escravidão por medo de represálias. Ele e outros empregados faziam a limpeza manual do pasto, o chamado “roço de juquira”. 

Trabalhadores da cadeia produtiva do gesso. Foto: Vitor Shimomura/ Divulgação Papel Social.

“Era eu e mais 15 pessoas. Fiquei cinco meses trabalhando e resolvi denunciar a situação. Lá tinha pessoas que estavam há dois, três e até cinco anos, e não conseguiam sair”, relata. 

Para escapar da fazenda e fazer a denúncia, Meireles se articulou com alguns trabalhadores e conseguiu levantar dinheiro para fugir, em um momento de distração na fazenda. Percorreu 230 km do município de Santa Luzia, onde ficava a propriedade, até o Centro de Defesa dos Direitos Humanos em Açailândia. Chegando lá, esperou até que um grupo móvel de fiscalização do MTE aparecesse.

“Só que passaram-se 30 dias e o grupo móvel não apareceu e eu fiquei preocupado com a situação dos companheiros que tinham ficado na fazenda”, conta. Então, decidiu voltar. “Eu inventei que tinha ido para lá encontrar uma moça e fiquei na casa dela durante 30 dias. Eu fui muito pressionado e ameaçado”.

Mais 30 dias se passaram e a fiscalização não apareceu, então Meireles decidiu fugir novamente para reforçar a denúncia. A fiscalização ainda demorou mais três meses para ir até a fazenda e resgatar o grupo de trabalhadores. 

No final das contas, o fazendeiro não foi preso e os trabalhadores receberam só as verbas rescisórias. “Eu entrei com um processo por danos morais em 2005 que só saiu no ano passado, recebi um valor baixo, mas aceitei pela precisão que estava passando no momento”, lamenta. Os outros trabalhadores do grupo não entraram na Justiça Trabalhista.

Após a ação, Meireles decidiu trabalhar no Centro de Direitos Humanos que o ajudou. “Eu decidi lutar com todas as minhas forças para combater o trabalho escravo. Hoje em dia eu faço treinamentos, formações com os trabalhadores. Eu também tenho acompanhado alguns trabalhadores que foram resgatados”.

Vale reforçar que trabalho escravo não é uma mera infração trabalhista, como a bancada ruralista e o ex-presidente Jair Bolsonaro costumam defender. 

O crime está previsto no art. 149 do Código Penal e define trabalho análogo ao escravo como aquele em que as pessoas são submetidas a jornadas exaustivas, a trabalhos forçados, condições degradantes e são impedidas de deixar o local de trabalho por conta de dívida contraída com empregador ou por ameaça e coerção. 

A lei prevê pena de reclusão por dois a oito anos e multa, além da pena correspondente por violência. Dificilmente, porém, são aplicadas penas mais duras do que a cobrança de verbas rescisórias. 

POR QUE AS VERBAS RESCISÓRIAS SÃO BAIXAS?

Conversamos com Lucas Reis, auditor fiscal do trabalho que atua nas fiscalizações de combate ao trabalho escravo, para entender por que esses valores pagos aos trabalhadores são tão baixos. 

“As verbas rescisórias são todos os direitos que o trabalhador teria se tivesse sido contratado regularmente desde o início do trabalho”, ele explica. Isto é, salário de acordo com piso da categoria, décimo-terceiro, férias, horas extras. Esse valor é calculado pelos auditores fiscais do trabalho no momento do resgate.

“O valor acaba sendo baixo porque, infelizmente, os direitos dos trabalhadores no geral são poucos. Eu defendo que os direitos deveriam ser ampliados, principalmente, em caso de resgate de trabalho escravo”, opina o auditor. 

A fiscalização do Trabalho também aplica multas referentes aos autos de infração por cada descumprimento da legislação. 

Mas o valor é irrisório. No caso de flagrante de trabalho infantil, por exemplo, a multa vai de R$ 416,18 por “menor” até o máximo de R$ 2.080,90. Em 2023, foram 2.564 crianças e adolescentes retirados do trabalho infantil. Questionamos o MTE quanto foi pago de rescisões para cada uma. O órgão afirmou que “não possui banco de dados com informações referentes a valores totais pagos em verbas rescisórias”. 

Uma verba indenizatória pode ser paga via dano moral individual proposto pelo Ministério Público do Trabalho, seja por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta ou via ação civil pública. Porém, isso não acontece em todos os casos e os valores variam muito. Cada procurador analisa de acordo com a gravidade da situação encontrada pela fiscalização.

De acordo com a assessoria de comunicação do Ministério Público do Trabalho, o MPT, em 254 fiscalizações realizadas com a participação do órgão em 2023, foram arrecadados R$ 14,31 milhões em danos morais coletivos e R$ 8,7 milhões em danos morais individuais. O MPT não participa de todas as ações de fiscalização do Ministério do Trabalho, por isso os números são menores.

Não tivemos acesso à quantidade de trabalhadores resgatados nessas operações para saber qual foi a média que cada um recebeu por dano moral.

Ato com Bolsonaro fracassa em Belém e termina com briga de militantes na porta de restaurante

O domingo (30) foi escolhido por Jair Bolsonaro (PL) para um ato público em Belém, mas o resultado ficou muito abaixo das expectativas – cerca de 2 mil pessoas. Além do baixo comparecimento de público, seguidores de Bolsonaro se envolveram em brigas e troca de ofensas na porta de um restaurante onde o ex-presidente seria homenageado em almoço.

A chegada à capital paraense aconteceu às 11h e em seguida foi iniciada a “motociata”, que Bolsonaro inventou durante seu governo. Apesar das chamadas na TV e anúncios na internet, o evento foi considerado um fiasco e as imagens viralizaram na internet.

O objetivo da visita de Bolsonaro, acompanhado da mulher Michelle, era manifestar apoio à candidatura do deputado Eder Mauro (PL) à Prefeitura de Belém nas eleições de outubro.

Em discurso que durou 8 minutos, na Doca de Souza Franco, Bolsonaro elogiou o papel de Eder Mauro na Câmara dos Deputados, como defensor de causas extremistas, mas não fez referência à candidatura a prefeito, o que aumentou as suspeitas quanto a uma desistência do ex-delegado.

Vídeos compartilhados no X, antigo Twitter, mostram o evento esvaziado, com reduzida participação popular. A expectativa de atrair uma grande multidão não se concretizou, gerando constrangimento para os organizadores. (Condenado pelo TSE, Bolsonaro está inelegível por oito anos, mas tem percorrido as capitais para tentar alavancar candidatos do PL).

Depois do ato, apoiadores trocaram insultos e empurrões na porta do restaurante onde haveria um almoço em homenagem a Bolsonaro, em Icoaraci. O deputado Neil (PL), aliado do ex-presidente na Assembleia Legislativa do Pará, foi barrado por ordem de Eder Mauro.

A proibição gerou um tumulto, com amigos de Neil protestando e exigindo que ele participasse do almoço. Nas imagens que circularam nas redes sociais, é possível ouvir os gritos de “entra, entra!”, mas a segurança se manteve inflexível e o deputado não participou do almoço.