Mitos e enganos olímpicos

POR GERSON NOGUEIRA

Os atletas brasileiros estão se comportando nas Olimpíadas absolutamente dentro das expectativas para um país que não é potência olímpica. Alguns lamentam e reclamam, sempre de quatro em quatro anos. Nos três anos de intervalo, os críticos olímpicos ignoram a necessidade de apoio a políticas públicas direcionadas ao esporte.

Quando se observa que o programa Bolsa Atleta existe há apenas 20 anos – foi instituído em 2005, no primeiro governo Lula –, é possível ter a exata dimensão do pouco que o esporte olímpico teve antes disso.

Da atual equipe brasileira nos Jogos de Paris, formada por 277 atletas, 247 fazem parte do Bolsa Atleta e 77 do Bolsa Pódio, programa instituído no governo de Dilma Rousseff em 2013. E há quem reclame, desavisadamente, como o desinformado apresentador Marcos Mion.

Com ar choroso, ele gravou um vídeo lamentando que os atletas brasileiros se desculpem após insucessos nas Olimpíadas. Afirma, enganosamente, que a média de ganhos de um atleta olímpico no Brasil é de R$ 2 mil – o Bolsa Atleta paga, em média, mais de R$ 6 mil.

As emissoras de TV que transmitem competições costumam omitir essa ajuda exponencial que o governo federal dá aos atletas. Parece proposital, por várias motivações e interesses, o que acaba gerando uma cadeia de ignorância acerca das fontes de apoio ao esporte no país.

Os próprios atletas silenciam sobre as bolsas que recebem, talvez pelo receio de dificultar a captação de patrocínios junto às empresas, embora a Lei 12.395/11 permita que tenham outros patrocínios, o que propicia que consigam mais uma fonte de recurso para suas atividades.

Sob o governo Lula, em 2023, as bolsas tiveram expressivo reajuste depois de quatro anos de congelamento na gestão de Jair Bolsonaro, que também extinguiu o Ministério do Esporte, cancelou o edital do Bolsa Atleta e vetou auxílio emergencial para atletas durante a pandemia de Covid-19.

Pela tabela atual da Bolsa Atleta, os atletas olímpicos recebem entre R$ 3.437,00 a R$ 16.629,00, dependendo do nível de desempenho e das chances de conquista olímpica em cada modalidade.

Ganha mais quem tem melhores resultados a apresentar ao longo da carreira. Desde que a categoria Pódio foi incorporada ao Bolsa Atleta, em 2013, foram beneficiados 815 atletas, com 2.605 bolsas concedidas, configurando um investimento de R$ 347 milhões.

É, portanto, um suporte expressivo e raro, que nem todos os países concedem. Claro que muito ainda precisa ser feito, inclusive quanto à mudança de mentalidade e investimentos, mas é desonesto negar o que já existe em termos de apoio aos atletas.  

Medina, Marta e as pachecadas da mídia brazuca

A cena de Marta dando pontapé na cabeça de uma adversária, ontem, no jogo entre Brasil e Espanha, chocou não apenas pela violência do lance, mas pelo posicionamento da camisa 10 no time brasileiro. Ela estava na defesa, dando chutão e ajudando a enfrentar o bombardeio espanhol.

O time de Artur Elias parecia uma equipe de 3ª divisão enfrentando um time de primeira linha. E olha que a Espanha estava poupando várias titulares. Enquanto o Brasil passava maus pedaços, a mídia reagiu com condescendência, passando pano para a ruindade da seleção.

A crítica é fundamental quando exercida construtivamente, mas é deletéria quando é substituída pelo elogio gratuito e despropositado. Depois da partida, uma mesa-redonda na ESPN se dedicou a relativizar o fracasso, deixando de dimensionar a importância do torneio olímpico.

Afinal, daqui a três anos, tem uma Copa do Mundo no Brasil. Portanto, é legítimo cobrar evolução técnica de um time que tem sido tratado como prioridade. Há investimentos e estruturação da modalidade, o que inclui os certames estaduais e nacionais.

Narradores, repórteres e comentaristas adquiriram um cacoete que muitas vezes atrapalha, pelo excesso de oba-oba. Começou com o voleibol, cujos times sempre foram tratados com infantilismo adulatório. “Meninas e meninos do vôlei”, gritava Galvão Bueno lá nos primórdios.

Aos berros, os locutores seguem tratando veteranos desse mesmo jeito, prática que se estende ao futebol feminino, mesmo que Marta já tenha 38 anos. Judô, natação e surfe não merecem o mesmo tratamento. Justo seria acriançar apenas as equipes de ginástica rítmica e skate.

São ganchos que buscam agradar um público receptivo a esses truques apelativos. O problema é que alguns atletas parecem incorporar essa síndrome de Peter Pan, com efeitos quase sempre nocivos.

Sorte de Gabriel Medina, protagonista da cena mais icônica das Olimpíadas até agora, pairando sobre as ondas da Polinésia Francesa com o dedo para cima. Pouco badalado, faz uma Olimpíada de altíssimo nível. O mesmo vale para o mesatenista Hugo Calderano, que avançou às quartas, sem ser zicado pela turma do pachequismo midiático.

Fogueira de vaidades contamina ambiente no Papão

Coincidência ou não, bastou uma derrota em casa para que o ambiente interno do PSC se revelasse um autêntico paiol de pólvora. O primeiro sinal foi dado pelo lateral Edilson, que após o jogo com o Novorizontino disse que, para voltar a vencer, o Papão precisa resolver “problemas internos”.

Horas depois, surgiu a informação de que o técnico Hélio dos Anjos teria procurado a diretoria para pedir a saída do executivo Ari Barros, na base do “ou eu ou ele”. Não seria a primeira vez. Em 2020, Hélio entrou em choque com o então executivo Felipe Albuquerque.

Presidente à época, Ricardo Gluck Paul criticou a postura do treinador e decidiu demiti-lo, prestigiando Albuquerque. Hélio saiu disparando contra o executivo e o próprio mandatário do clube.

Nesse retorno ao Papão, Hélio não havia tido nenhum conflito sério, mas a desavença com Ari Barros chega no pior momento possível, após uma sequência de duas derrotas e antes de dois compromissos difíceis na Série B, contra Vila Nova (fora) e Santos, em Belém.

A diretoria tem a obrigação de agir para estancar o problema. Não se pode esquecer que, em meio à fogueira de vaidades, só quem tem a perder é o clube.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 01)

Rock na madrugada – Fleetwood Mac, “Oh Well”

POR GERSON NOGUEIRA

Registro do Fleetwood Mac da era Peter Green em apresentação ao vivo no programa “Monster Music Mash”, da rede BBC, em 1969. Apesar do sucesso junto aos roqueiros mais devotos – Slash acaba de gravar um cover da canção em seu novo disco solo -, “Oh Well” não estourou como merecia. Pertence à seleta galeria do blues-rock, quase no mesmo nível de “Black Dog”, clássico do Led Zeppelin.

Festejado guitarrista, Peter Green foi fundamental na chamada primeira encarnação do Fleetwood Mac, mas teve a carreira abreviada pelo consumo de drogas e problemas sérios de saúde. Para parte da mídia inglesa, Green foi o melhor guitarrista britânico dos anos 1960 – e ele foi contemporâneo da trinca Eric Clapton/Jimmy Page/Jeff Beck.

BB King, lenda do blues, afirmou certa vez que Green “tem o tom mais doce que eu já ouvi. Ele foi o único que me fez suar frio”. Mick Fleetwood, em entrevista à Associated Press, disse que Peter Green merece a maior parte do crédito pelo sucesso da banda.

“Peter foi perguntado por que batizou a banda de Fleetwood Mac. Ele disse: ‘Bem, você sabe que eu pensei que, talvez, eu continuasse em algum momento e queria que Mick e John (McVie) tivessem uma banda’. Fim da história, que explica o quão generoso ele era”, contou Mick, que também descreve Green como um grande virtuose da guitarra.

Green era tão fundamental para a banda, que nos primeiros anos era chamada de Peter Green’s Fleetwood Mac. Um pouco antes, em 1966, substituiu Clapton no Bluesbreakers de John Mayall e depois seguiu carreira com o Mac. Em 1971, deixou a banda após aprofundar os problemas com drogas. Em 1977, foi internado numa clínica psiquiátrica. Morreria, aos 73 anos, em julho de 2020.

O Fleetwood Mac sobreviveu muito bem sem ele, sob a liderança de Mick e John McVie. Mudou de estilo e flertou com o country rock e até com o som progressivo, sempre com muito sucesso.

Venezuela: espírito da Lava Jato baixou na mídia

Mídia se baseou em apenas uma prova, tão duvidosa quanto uma delação da Lava Jato: uma pesquisa da Edison Research

Por Luis Nassif

Não adianta. Nos momentos decisivos, entre fazer jornalismo ou fazer política, a mídia não vacila: e vê-se novamente o estupro do jornalismo pela política.

Shakespeare tem um poema clássico, “O estupro de Lucrécia”, a casta Lucrécia, por Tarquínio, o último rei de Roma. Para criar um fato político que derrubasse o cruel e sanguinário Tarquínio, Lucrécia se suicida. E o clamor popular derrubou Tarquínio, o Soberbo, o último rei de Roma.

A única diferença do caso venezuelano, é que a Lucrécia local, Maria Corina Machado, está longe das virtudes da castidade.

Vamos aos precedentes:

  1. A oposição venezuelana é dominada pela ultradireita. Tem ultradireita histórico golpista, como se testemunhou a tentativa frustrada de derrubada de Hugo Chávez e da entronização, na presidência do país, de Guaidó, o breve.
  2. A ultradireita mundial tem histórico de levantar dúvidas sobre as eleições que perde, para fomentar a revolta popular. Vide caso Trump, Bolsonaro e Aécio Neves.
  3. Por sua vez, o regime de Maduro se sustenta no Exército e em forças populares. E está longe de ser um modelo de governança

Ontem, no programa TVGGN 20 horas, no canal do GGN no Youtube, entrevistamos a jornalista Vanessa Martina Silva, que estava em Caracas e acabara de fugir de manifestações violentas estimuladas por Maria Corina. Segundo ela, a fúria dos manifestantes faria 8 de Janeiro parecer uma festa.

Sobre o sistema eleitoral venezuelano, diz ela:

  1. Há um fiscal da oposição em cada seção.
  2. Os votos são impressos, facilitando a conferência pelos fiscais.
  3. Depois da contagem, há uma ata, assinada por todos os fiscais.

Portanto, há condições objetivas de conferir se houve fraude ou não.

Até agora, a frondosa árvore de releases da mídia se baseou em apenas uma prova, tão duvidosa quanto uma delação premiada da Lava Jato: uma pesquisa da Edison Research, empresa especializada em monitoramento de redes sociais que se enveredou por pesquisas de boca de urna. Seu histórico é de 6 países: Azerbaijão, Iraque, República da Geórgia, Taiwan, Ucrânia e Venezuela, não por coincidência países de interesse geopolítico direto dos Estados Unidos. A pesquisa apontou a vitória da oposição por inacreditáveis 65 x 35. E só.

Não há um dado mais para comprovar a fraude. Houve um atraso na divulgação dos mapas, segundo a Venezuela, devido a um ataque hacker externo. Mas basta a apresentação dos mapas para se comprovar se houve ou não fraude.

No entanto, todos os veículos soltaram editoriais taxativos, tratando a fraude como fato consumado. Restou a voz do bom senso do ex-embaixador Marcos Azambuja, ouvido por algum canal, que ponderou o óbvio: só vai se saber se houve fraude quando houver a conferência dos mapas. Até lá, um mínimo de precaução antes de qualquer opinião.

Presidente da Alepa participa de reunião do BID com governador do Pará e líderes internacionais

O deputado Chicão (MDB), presidente do Poder Legislativo do Pará, participou de uma reunião com lideranças internacionais no sábado (21), no Museu Emílio Goeldi, em Belém. O encontro marcou o primeiro aniversário do programa Amazônia Sempre, iniciativa estratégica articulada pelo Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O evento contou com a participação do governador Helder Barbalho; da secretária do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen; e do presidente do BID, Ilan Goldfajn.

O presidente da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) acredita que Belém vive um momento de oportunidades únicas de transformação, que ultrapassam as fronteiras territoriais e trarão benefícios para toda a Amazônia. Nesse contexto, o deputado destacou a relevância da colaboração entre as diferentes esferas de governo e a iniciativa privada nacional e internacional, enfatizando a necessidade de políticas públicas integradas e de longo prazo para a região. “Este encontro reflete nosso compromisso coletivo com um futuro sustentável para a Amazônia, onde conservação ambiental e desenvolvimento econômico andam juntos”, afirmou.

O chefe do Executivo estadual, Helder Barbalho, ressaltou a importância da escolha de Belém para o aprofundamento das discussões voltadas para a sustentabilidade, inclusive durante reuniões do G20. O governador agradeceu também a parceria com o BID e o apoio dispensado aos estados da Amazônia, em especial ao Pará, e reforçou a importância do financiamento climático mundial para garantir o futuro do planeta. Helder fez, ainda, um apelo aos Estados Unidos, para que se engaje diretamente e lidere os financiamentos climáticos. “A solução passa por um aporte relevante e histórico na Amazônia, pois investir aqui é investir no futuro de toda a humanidade, de todos os continentes, de todo o planeta”.

Já o presidente do BID discursou sobre as iniciativas do programa Amazônia Sempre, que em um ano aumentou de US$ 1 bilhão para US$ 4,2 bilhões em recursos investidos na região, um aporte de cerca de R$ 25 bilhões. “O BID está comprometido em apoiar o Pará, o Brasil e a Amazônia. Estamos presidindo os bancos de desenvolvimento e vamos divulgar metas conjuntas com os bancos para a COP 30”, declarou Ilan Goldfajn.

Por fim, Janet Yellen ressaltou a importância das reuniões e debates, das estratégias de financiamento e do estabelecimento de metas para os desafios enfrentados pelas comunidades locais. Ela destacou, ainda, a necessidade de articulação dos bancos para investimento e suporte a países em desenvolvimento, e a contribuição dos Estados Unidos para iniciativas de preservação ambiental na região. Janet garantiu o apoio contínuo ao programa Amazônia Sempre.

Programa Amazônia Sempre

A iniciativa do BID tem como o objetivo de ampliar o financiamento, compartilhar conhecimento estratégico para os tomadores de decisões e aumentar a coordenação regional para acelerar o desenvolvimento sustentável, inclusivo e resiliente da região amazônica. O programa conta com a parceria com governos locais, bancos e outros organismos internacionais. Durante a sessão pública, foram apresentados os valores já investidos, as novas estratégias para enfrentar questões cruciais como desmatamento ilegal, transição energética e redução das emissões, e novos aportes voltados ao desenvolvimento econômico sustentável e à conservação ambiental na Amazônia.