No fim de semana passado, Javier Milei veio fugir do serviço em uma conferência de golpistas em Santa Catarina, a Cpac Brasil. Em seu discurso, o presidente argentino declarou que o socialismo é uma filosofia baseada na inveja e no ressentimento. Disse isso para gente como o deputado Mário Frias, ex-ministro da Cultura de Jair, um ator fracassado que sempre invejou os talentosos; para adeptos de Olavo de Carvalho, cuja vida foi um longo episódio de choro porque os filósofos profissionais não o reconheciam como um dos seus; para discípulos de Paulo Guedes, assombrado pelo ressentimento diante dos economistas da PUC-RJ que de fato conseguiram implementar um plano econômico bem sucedido.
Nos intervalos da palestra, os bolsonaristas puxavam refrões contra o cara que lhes venceu na última eleição e contra o juiz que não lhes deixou continuar no poder depois que tiveram menos votos que o mesmo cara. Enfim, todo populista precisa de uma elite contra a qual o povo honesto deve se insurgir. Como a extrema direita puxa o saco de todas as elites reais, precisa inventar elites imaginárias, formadas, sei lá, pelos atores da Globo, pelos professores de humanas, pelos alunos cotistas.
Durante o evento, Milei recebeu de Bolsonaro a medalha “triplo I”: “imorrível, imbrochável e incomível”. Faltou “inelegível”. Para lhe explicar o que queria dizer “incomível”, Eduardo Bolsonaro virou seu traseiro na direção do presidente da Argentina. Até Milei pareceu constrangido, e isso não é pouco. Estamos falando de um político que ia nos programas de TV argentinos contar que fazia sucesso em orgias porque dominava a técnica de chegar ao orgasmo sem ejacular.
Não, não é o tipo de coisa que eu gostaria de ouvir de políticos. Mas sejamos honestos, se alguém tivesse ensinado o procedimento ao Jair, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro teriam sido um pouco melhores nos últimos anos. O governador Tarcísio de Freitas foi escalado para listar as realizações do governo Bolsonaro. Na falta de exemplos reais, citou a transposição do São Francisco, feita por Lula (e por seu então ministro Ciro Gomes), e o Pix, criado pelos funcionários do Banco Central.
Tarcísio poderia aproveitar e sugerir aos presentes que aprendessem a usar o Pix: a família Bolsonaro, em especial, parece ter uma forte preferência por comprar imóveis em dinheiro vivo. Por algum motivo, os emissários de Bolsonaro que venderam as joias sauditas nos Estados Unidos também tentavam evitar o sistema bancário.
Se você se interessou pela CPAC Brasil, sugiro que assista ao vídeo da reunião de 30 de novembro de 2022 no Congresso Nacional em que os mesmos deputados bolsonaristas que discursaram em Santa Catarina pediam golpe abertamente. Na plateia, caminhoneiros que fecharam estradas pedindo golpe, líderes dos acampados em frente aos quartéis e um dos terroristas que tentou explodir o aeroporto de Brasília na véspera de natal de 2022.
A Cpac Brasil foi isso, uma reunião de turma do golpe fracassado de 2022. Foi um lembrete de como essa gente continua solta, livre para planejar o próximo golpe, enquanto vota mal sobre coisa séria no Congresso Nacional. Uma vergonha para o Brasil e para a Argentina.
O escândalo de espionagem descoberto pela Polícia Federal, que ficou conhecido como ‘Abin paralela’, não surgiu do nada. Não veio do vácuo. Para entender como a estrutura do estado brasileiro foi usada para vigiar e atacar inimigos políticos de Jair Bolsonaro, é preciso voltar no tempo — e reconhecer que o esquema não é filho bastardo, muito menos paralelo.
Em primeiro lugar, é necessário olhar com seriedade para a Agência Brasileira de Inteligência — ainda que o próprio órgão não tenha se dado ao respeito. Criada em 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a Abin surgiu para tornar o serviço de inteligência brasileira um órgão civil.
Àquela altura, o Serviço Nacional de Informações, a estrutura de espionagem da Ditadura Militar, supostamente havia sido extinta há quase dez anos, em 1990, na gestão de Fernando Collor. Mas, na verdade, o SNI não tinha acabado — só mudado de nome, alocado provisoriamente na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência.
Como escrevi numa reportagem do Intercept Brasil no final de 2023, enquanto estava na SAE, no primeiro mandato de FHC, a estrutura de espionagem seguia a todo vapor. Na ocasião, revelei que atividades partidárias do PT, viagens de Lula e movimentos como o MST eram alvo de uma arapongagem sistemática.
Se naquele período, mesmo democrático, a estrutura era instrumentalizada para fins políticos, com a criação da Abin as coisas pioraram. Muito pressionado, FHC admitiu que o serviço de inteligência voltasse ao guarda-chuva dos generais, vinculando a nova Abin à antiga Casa Militar, basicamente um escritório militar dentro da Presidência da República.
O cenário fica ainda pior com o golpe contra Dilma Rousseff. Em uma de suas primeiras ações, Michel Temer transformou a Casa Militar no Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, e o elevou ao status de ministério. Como ministro-chefe, nomeou o general Sérgio Etchegoyen (foto), então chefe do Estado-Maior do Exército. O militar, então, passou a ter papel-chave no governo.
Com a caneta na mão, Etchegoyen semeou as condições ideais para um escândalo de espionagem. Uma de suas principais medidas foi um decreto que instituiu a Política Nacional de Segurança da Informação. O texto abriu espaço para contratações sem concorrência pública com base na “ameaça à segurança nacional”.
Dessa forma que a Abin pôde contratar, sem transparência ou licitação, o First Mile, software israelense utilizado para monitorar a localização de seus alvos – e usado de forma massiva no governo Bolsonaro. Mas não foi só esse o legado de Etchegoyen para a erosão democrática causada pela devassa na privacidade dos brasileiros.
Foi o general que levou ao GSI, ainda em 2017, um dos principais protagonistas do escândalo de espionagem bolsonarista: Giancarlo Gomes Rodrigues, sargento do Exército com quem havia trabalhado junto no Estado-Maior do Exército em 2015 e 2016.
Uma portaria publicada no Diário Oficial da União em agosto de 2017 mostra a autorização do então comandante do Exército, o general Eduardo Villas-Bôas, ao pedido de Etchegoyen para que Giancarlo passasse a integrar os quadros do GSI de Temer. Agora, como revelou a PF, sabemos que Giancarlo é peça-chave no escândalo de espionagem bolsonarista: foi quem sugeriu um tiro na cabeça de Alexandre de Moraes.
Longe dos holofotes, Etchegoyen não foi o único que passou longe das investigações da PF e do debate público sobre os crimes da Abin. Seu sucessor no GSI, o general Augusto Heleno, também não consta no relatório, não é investigado, tampouco foi incomodado nos últimos meses. Ele era, de fato e de direito, o chefe de Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin.
Heleno era uma das pessoas presentes na reunião, também revelada pela PF, em que Bolsonaro e Ramagem discutem como usar a Abin para proteger o senador Flávio Bolsonaro, do PL, das investigações sobre os crimes de rachadinha, em 2019. Em uma das reuniões golpistas de 2022, Heleno sugeriu colocar a Abin a serviço do golpe de estado.
Como os generais que têm escapado da PF, a estrutura de inteligência das Forças Armadas também segue protegida, longe do escrutínio público. Ainda que nunca tenham largado a Abin, os militares não deixaram de investir nos seus próprios centros de inteligência no Exército, na Marinha, na Aeronáutica e no Comando de Defesa Cibernética, que reúne membros das três forças.
É fato: para Bolsonaro, o cerco está fechando. Mas, para os generais que lhe abriram espaço e criaram as condições para um golpe, isso ainda está muito longe de acontecer.
Icônica apresentação dos Stones, no Hyde Park (Londres), em 6 de julho de 1969. O show virou um tributo a Brian Jones, que havia morrido dois dias antes. Brian, um dos fundadores do grupo, havia sido demitido meses antes por Mick Jagger e Keith Richards por comportamento inadequado, faltando seguidamente a ensaios e gravações.
Quando subiram ao palco para tributar Brian, os Stones já tinham um novo integrante: Mick Taylor, jovem virtuose da guitarra. Foi a primeira aparição pública dele com a banda e os solos inspirados provaram que a escolha havia sido acertada.
“I’m Free”, composta por Jagger e Richards, foi lançada inicialmente como faixa de encerramento da versão britânica do álbum “Out Of Our Heads”, em 1965, o terceiro na discografia da banda.
“Sou livre pra fazer o que quero a qualquer hora/Sou livre pra fazer o que quero a qualquer hora/Então me ame, Me abrace, Me ame, Me abrace/Sou livre pra fazer o que quero a qualquer hora/Sou livre pra cantar a minha música sabendo que está ultrapassada”. Uma típica letra do período assumidamente rebelde do grupo, buscando marcar diferenças em relação aos Beatles.