A frase do dia

“NENHUM jornalista da grande mídia se pergunta como 1 senador que ganha R$ 35 mil por mês quitou quase R$ 6 milhões em apenas 36 meses? Até 2022 não havia NENHUM REGISTRO da atuação dele como advogado ou em nenhum outro emprego. Se a PF investigar, VAI ACHAR!!”.

Demétrio Reis, no X

Por que o idoso Ruy Castro ataca a velhice de Lula

Por Moisés Mendes, no DCM

Ruy Castro tem 76 anos e se mantém há décadas como cronista da Folha por preservar a plenitude da sua capacidade de fazer jogo duplo e refletir sobre platitudes. Ruy Castro é o caso clássico do sujeito que vive do que já foi, mas é assim também que se vive.

Seu talento de cronista vai se sustentando na poupança do seu passado. Mas ninguém irá questionar a capacidade de Ruy Castro de chegar à velhice atacando Dilma, como fez ao lado dos golpistas, de ser anti-Lula (o que é um direito dele) e de ser agora militante de um etarismo raso.

Ao comparar Lula a Biden, insinuando que Lula é um idoso sem condições de se reeleger, ele não sugere que esqueceu a própria idade. O que não esconde é que se alinhou aos ‘jovens’ de extrema direita que vão bater em Lula para que os brasileiros o vejam como se fosse um Biden. Castro deve se achar forever young.

Numa abordagem cordial, poderia ser dito que o cronista foi cruel com o maior líder político brasileiro desde Getúlio, que era chamado de ‘o velho’, mas carinhosamente. Por que enfatizar no artigo que Lula já teve câncer?

Ruy Castro virou mais um tio-avô do zap, desses que cantam o hino para pneus e inspiram muito do que ele escreve. Seu texto o habilita a ser o líder do ataque à idade de Lula, para que, com sua reputação, puxe outros apitos e acorde as hienas bolsonaristas. Faz o jogo do fascismo, não para atacar um idoso, mas para tentar interditar Lula.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O que Castro acaba revelando é que Lula é temido exatamente pela lucidez de quem chegou aos 78 anos. A velha direita engolida pela extrema direita fica desconfortável ao ver que Lula não envelhece, nem mental nem fisicamente. Eles achavam que Lula sairia da cadeia para fazer jardinagem com Janja.

A crônica de Ruy Castro é uma contribuição aos esforços para ressuscitar o bolsonarismo mais repulsivo. O jornalista reforça na velhice as ideias e as ações da mesma turma do golpe, das milícias civis e militares, da grilagem, do garimpo, das rachadinhas e do PL do estupro, para atacar um homem que continua ativo e lúcido governando o país.

Ruy Castro não precisava reconhecer que Lula passa a ser exemplo de vitalidade para outros idosos. Nem admitir que gente com a idade de Lula produziu obras monumentais, em qualquer área.

Mas não precisava depreciar o tempo de vida de Lula com argumentos do bolsonarismo e do trumpismo, quando se sabe que o problema de Biden não é a idade, mas a comprovada confusão mental.

A aparente confusão de Castro é outra. Ele teme que Lula seja inspirador de velhices em todas as frentes, na vida anônima dos comuns, nas artes, nas escolas, na política, no jornalismo.

Castro teme os idosos que continuam ativos e dignos e não se dobram aos fascistas de todas as idades. Assuma seus 76 anos e pare de babar para a extrema direita, Ruy Castro.

Publicado originalmente no “Blog do Moisés Mendes”

(A obra de Ruy é admirável. Como cronista e biógrafo está entre os melhores do Brasil. O posicionamento político, porém, nem sempre acompanha o talento natural para a escrita. A pinimba com Lula e o PT é antiga e conhecida, mas desta vez extrapolou os limites do respeito)

Rock na madrugada – Bob Dylan, “Knockin’ On Heaven’s Door”

POR GERSON NOGUEIRA

Com a luxuosa participação de Tom Petty & Heartbreakers como banda de apoio, Bob Dylan fez um registro grandioso para o filme-concerto Hard to Handle, durante sua turnê australiana em 1986. A fina sintonia entre o bardo e a banda liderada por Petty já vinha de longa data e fica espelhada na interpretação de um dos maiores clássicos do rock.

Cabe contextualizar as coisas em relação à turnê de 1986. Dylan já era Dylan, mas atravessava um mau pedaço em meados dos anos 80, sofrendo críticas ácidas do público roqueiro enquanto buscava um êxito comercial que insistia em não sorrir para ele.

Lutava para preservar a intensidade criativa das décadas anteriores, mas sua mensagem não gerava impacto. Uma nova safra de herdeiros do rock clássico ocupava todos os espaços. Foi com a ajuda de um grande amigo pessoal, Tom Petty, que o poeta do rock começou a reagir.

A oportunidade de botar o pé na estrada não podia ser desperdiçada. E tudo se encaixou magicamente. Dylan admitiria anos depois a imensa gratidão pelo convite para participar da turnê com Petty e The Heartbreakers. “Tom estava no topo de seu jogo e eu estava no fundo do meu”, escreveu no livro “Chronicles”, de 2004.

Já no livro “Conversations With Tom Petty” (2005), de Paul Zollo, o cantor mostra que via as coisas de maneira diferente, impressionado com o poder de Dylan junto ao público: “Nunca houve uma noite em que o público não estivesse incrivelmente extasiado com a coisa toda”, disse Tom. Um desses momentos de êxtase absoluto ocorreu no final do show, quando Petty se juntou a Dylan para o clássico ‘Knockin’ On Heaven’s Door’.

Lançada em 1973 como single após sua inclusão na trilha do filme “Pat Garrett e Billy the Kid” (vídeo abaixo), de Sam Peckinpah, a música logo se tornou um êxito mundial e colocou Dylan no top 10 em vários países diferentes. Mas é possível dizer, com o distanciamento necessário, que o show na Austrália foi a mais marcante interpretação ao vivo da canção.

Na filmagem, os dois roqueiros entregam não apenas uma versão excepcional da música, mas um atestado da amizade que compartilharam. Petty se comporta claramente como um fã, que deseja dar a Dylan todo o sucesso que tanto merecia. Sem dúvida, foi o choque definitivo para alavancar a carreira do futuro ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.

Papão recarrega as baterias

POR GERSON NOGUEIRA

O ex-santista Juan Cazares é o nome mais reluzente desta nova leva de reforços anunciados pelo PSC para aproveitar a curta janela de contratações na Série B. É o mais caro também, superando os salários de seis dígitos de Robinho e Quintana, campeões do elenco nesse quesito. Fontes do clube revelam que, apesar do nome forte, o contratado aceitou reduzir a pedida.

Em campo, a tendência é que Cazares assuma um lugar ainda carente na formação da equipe. Com um jogo de imposição no campo adversário, tem faltado ao Papão mais qualidade na construção de jogadas ofensivas, o que provoca um recuo excessivo do centroavante Nicolas.

Justamente por isso, o artilheiro da temporada talvez seja o maior beneficiado com a presença do equatoriano, que ao longo da carreira provou ser um meia agressivo e habilidoso, especialista na condução de bola.

Ao lado de Juninho, que terá com quem dialogar nos movimentos de transição, Cazares deve funcionar como o chamado pulo do gato do PSC para encarar as próximas 25 rodadas da competição, desde que passe longe dos encantos das baladas belemenses.

A questão é que, desde a passagem pelo Atlético-MG, de 2016 a 2020, Cazares não conseguiu se firmar. O início foi fulgurante, chegando ao River Plate antes dos 20 anos. No Galo, viveu seu melhor momento, com dribles e passes perfeitos. Fez 41 gols, incluindo vários em cobrança de faltas.

Caso tenha pelo menos um lampejo desse período, coisa que não mostrou no Santos, pode ser de grande utilidade aos bicolores em meio à crise técnica desta Série B.

Sócrates vive: Raí brada contra a ultradireita

“Conheço bem a extrema direita, o que eles fazem de melhor é mentir. No Brasil, vivemos um pesadelo. Quatro anos de misoginia, quatro anos de homofobia, preconceito”.

Raí, ídolo do São Paulo e do PSG, irmão mais novo do Dr. Sócrates, referiu-se desse modo à experiência vivida no Brasil durante os quatro anos de Bolsonaro no poder. O craque foi demoradamente aplaudido durante o discurso pronunciado na quarta-feira, em Paris, às vésperas da eleição

O ex-jogador de 59 anos tem cidadania francesa e completou, recentemente, um mestrado em políticas públicas numa prestigiada universidade do país europeu. Esclarecido e politizado, Raí sempre se destacou por posicionamentos progressistas.

A manifestação reuniu milhares de pessoas no centro da capital francesa e foi convocada para protestar contra o avanço da ultradireita francesa. Antes de Raí, Thierry Henry e Mbappé já tinham se manifestado, alertando principalmente os jovens para os riscos do extremismo fascista.

(Antes da Eurocopa, o craque francês Kylian Mbappé chamou a atenção ao se manifestar politicamente contra a ultradireita, algo raro entre jogadores, e convocar jovens a participarem da eleição.)

Afirmações políticas lúcidas como as de Raí costumam causar urticária nos conservadores brasileiros, incluindo boa parte da mídia esportiva, historicamente refém de pensamentos retrógrados, visão neofascista e nenhum compromisso com as liberdades democráticas.

Viva Raí! Salve Dr. Sócrates!

Dorival copia Zagallo, mas o time não honra o passado

Vai muito além da simples homenagem de Dorival Júnior, usando um agasalho idêntico ao que Zagallo usava na fatídica Copa do Mundo de 1998, aquela que ficou marcada pela cara-branca de Ronaldo antes da grande final. Claro que há respeito pela história do Velho Lobo na Seleção, mas os esquemas de marketing e faturamento vêm à frente.

A peça integra uma linha retrô recém-lançada pela Nike, fornecedora de material esportivo da Seleção, que celebra o Mundial da França. Junto com o casado, também foi relançada a camisa de jogo do Brasil, com opção de personalização do nome e número de Ronaldo Fenômeno.

Apesar do sucesso nas redes sociais, a utilização do agasalho chama atenção por conta das altas temperaturas de Los Angeles, Las Vegas e Santa Clara, cidades que receberam os jogos da Seleção na primeira fase.

A questão é que Nike e CBF decidiram que Dorival era o cara certo para servir como “manequim” para o agasalho, devido a uma certa semelhança física com Zagallo, pelos cabelos brancos e os óculos.

Ficou no ar um aspecto conceitual que não combina com as lembranças que o país do futebol tem daquele Mundial, visto como zicado e traumático pelo incidente com Ronaldo. A expectativa é que isso sirva para aumentar a aproximação entre torcida e seleção. Tenho cá minhas dúvidas.

É mais provável que o tal casaco seja um modo esperto e lucrativo de celebrar o longevo contrato entre as partes, que só se encerra na Copa 2026, completando 30 anos de vínculo. Enfim, tudo a ver com gulodice da CBF.

Obviamente, o plano marqueteiro só dará certo se a trôpega Seleção de Dorival conseguir avançar na Copa América.

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 05)