POR GERSON NOGUEIRA
“Todo lugar eu ouço o som, de pés marchando, garoto/ Pois o verão chegou e a hora é essa para lutar nas ruas/ Mas o que um pobre garoto pode fazer?/ Exceto cantar em uma banda de rock’n’roll/ Porque na cidade sonolenta de Londres/ Não há lugar para um lutador nas ruas!”
Era o dia 17 de março de 1968 quando Mick Jagger, então com 24 anos, resolveu se juntar a uma manifestação na Grosvenor Square, em Londres, para protestar contra a Guerra do Vietnã. O que foi apenas um entusiasmo de momento acabou contribuindo para uma grande canção dos Rolling Stones, Street Fighting Man (Lutador de rua). A gravação de estúdio tem acordes iniciais da guitarra de Keith Richards mesclados com a cítara indiana de Brian Jones.
Protestos ocorriam quase todos os dias no mundo inteiro naquele período, sempre contra a presença norte-americana no Vietnã e a favor das liberdades civis. Foi aí que o rock’n’roll se consolidou como um gênero que representava anseios e insatisfações da geração jovem.
Amigos de Mick, como o jornalista Barry Miles, que encontrou o músico no meio da multidão, disse ao jornal Independent que Jagger “não tinha consciência política” na época: “Ele estava lá porque se sentia zangado e rebelde, mas não tinha como formular isso, dar a esse sentimento qualquer estrutura e, de certa forma, ele estava procurando por algo contra o qual podia se rebelar”.
Outro jornalista, Rich Cohen, confirma em O sol & a lua & os Rolling Stones: Uma biografia (aliás, um livro estupendo), que a participação de Jagger na manifestação não representava uma visão revolucionária, mas o lado artístico de alguém em êxtase – e isso foi magistralmente registrado em Street Fighting Man.
“Para Mick, esse flerte com a dissidência era uma anomalia, um momento de engajamento pontuando uma vida apolítica. Uma estrela do rock é uma figura do status quo. Ela não quer luta, e sim a aura dela. Street Fighting Man não é sobre revolução – é sobre limites”, afirma Cohen.
A letra expõe essa realidade: “O que um pobre garoto pode fazer, exceto cantar em uma banda de rock’n’roll?”, canta Mick. Pelo conteúdo antibelicista, a canção foi censurada nas rádios americanas à época do lançamento – o que apenas aumentou sua popularidade.
Street Fighting Man foi listada, pela revista Rolling Stone, como uma das 500 melhores canções da história. Para Bruce Sprinsgteen, alguns dos versos mais belos do rock estão na música. O lançamento nos Estados Unidos ocorreu em agosto de 1968, enquanto no Reino Unido saiu quatro meses depois, inclusa no álbum Beggars Banquet.
O vídeo é de uma das últimas apresentações da banda antes do tumultuado show em Altamont. O guitarrista Mick Taylor havia substituído Brian Jones, morto poucos meses antes. Abaixo, a versão original, ainda com Brian em cena.