CBF suspende 2 rodadas da Série A em função da tragédia climática no Rio Grande do Sul

Na noite desta quarta-feira, 15, a CBF anunciou a suspensão da sétima e da oitava rodada da Série A do Brasileirão 2024. A decisão vem após o pedido da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) e de 15 clubes pela paralisação do campeonato, em decorrência das fortes chuvas que alagaram o Rio Grande do Sul. Os clubes em questão pediram a suspensão foram: Atlético-GO, Atlético-MG, Athletico-PR, Criciúma, Cruzeiro, Cuiabá, Botafogo, Bahia, Juventude, Vitória, Fluminense, Fortaleza, Grêmio, Internacional e Vasco.

Abaixo, na íntegra, a nota da CBF:

Nos últimos dias, o Brasil se viu radicalmente afetado por uma tragédia ambiental sem precedentes na história, que impactou diretamente milhões de pessoas no Estado do Rio Grande do Sul e, por conseguinte, o futebol praticado no Brasil.

Nesse sentido, não se pode olvidar que o esporte e a sociedade caminham concomitantemente, não podendo se separar ainda mais em um momento tão difícil para a população brasileira.

Sendo assim, a CBF, como entidade nacional de administração do desporto, se solidariza com cada vítima desse evento catastrófico, ressaltando que está empreendendo todos os esforços, no âmbito nacional e internacional, que estão ao seu alcance para colaborar com o povo gaúcho nessa drástica crise através de ações e iniciativas, sem prejuízo de outras que ainda serão desenvolvidas, caso necessário.

Desse modo, após consultar os 20 clubes participantes da Série A do Campeonato Brasileiro e receber o pedido de 15 equipes pela suspensão da competição até o dia 27 de maio, a CBF reitera o compromisso público assumido de transparência e diálogo pela atual gestão e suspende as rodadas 7 e 8 do certame.

A entidade também comunicou que está mantida a reunião do Conselho Técnico Extraordinária da Série A, marcada para o dia 27 de maio. De acordo com a CBF, os clubes irão deliberar “sobre aspectos técnicos das competições bem como a situação de registro e transferência de atletas, questões jurídicas com relação aos acessos às competições internacionais como Libertadores, Sul-Americana e Mundial de Clubes e questões de direitos de transmissão e patrocínios”.

medida vale apenas para a Série A do Campeonato Brasileiro. As demais competições seguem sem alteração – a exceção são as partidas dos times gaúchos, que estão suspensas até o dia 27 de maio.
A tragédia causada pelas fortes chuvas no Rio Grande do Sul trouxeram um debate sobre a paralisação do Campeonato Brasileiro. Num primeiro momento, foram suspensos apenas os jogos das equipes do Sul que disputam a Série A. 
Entretanto, no último fim de semana, a entidade emitiu um ofício aos clubes para que se posicionem de maneira formal e com urgência a respeito da paralisação do campeonato. A iniciativa foi tomada após a solicitação do Ministério do Esporte, também por ofício, pela interrupção do temporária das rodadas em função da tragédia no Rio Grande do Sul.
A partir daí, a maioria dos clubes, como já visto acima, se mostrou favorável a paralisar o Campeonato Brasileiro. Nesta quarta-feira, 15, a CBF oficializou a decisão de suspender as próximas duas rodadas da competição. De acordo com o último balanço da Defesa Civil, 149 pessoas morreram em decorrência das enchentes no Rio Grande do Sul. Além disso, 108 estão desaparecidas e 806 estão feridas.

A tropa de choque do negacionismo ambiental no Congresso Nacional

Torcer, sinônimo de esperançar

POR GERSON NOGUEIRA

Sair de casa para assistir um jogo de futebol à noite é uma prova de destemor, principalmente para quem mora mais longe, e representa um exercício de amor – ao clube e, em última análise, ao futebol. É justamente o que uma multidão irá fazer hoje para acompanhar o PSC na jornada contra o Goiás. Sim, é um torcedor desconfiado, após quatro rodadas sem vencer, mas é sempre uma alma esperançosa porque afinal torcer é sinônimo do verbo esperançar.

Para encarar o alviverde goiano, vice-líder da Série B (com 10 pontos), o Papão tem algumas armas. A mais afiada é o baixinho Esli García, um venezuelano simpático e driblador, insinuante com a bola nos pés. Tem se revelado um exímio finalizador. Marcou os dois únicos gols do time no Brasileiro.

Gols bonitos, próprios de quem conhece o ofício. Contra o Botafogo-SP, driblou dois marcadores, chamando para dançar e disparou um chute certeiro, pelo alto. A bola resvalou no travessão e entrou.

Diante do Mirassol, domingo passado, foi dele o gol de honra bicolor. Recebeu passe de Nicolas, avançou com a bola e disparou um tiro certeiro, sem ângulo. Outro lindo gol.

Pena que nem todo mundo reconheça o talento e a fina qualidade do repertório de Esli. A comissão técnica do PSC não acompanha o entusiasmo da torcida pelo atacante. Lembrando aqui que o torcedor é aquele ser que conhece como poucos as verdades do futebol.

Desde a disputa do Campeonato Paraense, Esli já se destacava com as arrancadas e dribles desconcertantes. A vesguice de alguns não permitiu entender que a torcida caiu de amores por ele justamente porque é um malabarista com a bola nos pés. Houve quem dissesse que o encantamento vinha do fato de Esli ser baixinho, assim todo pequenino.

Quanta miopia. Esli é um jogador que encarna como poucos o sentimento de amor pelo futebol cultivado nas arquibancadas. Torcedor não curte muito o chamado jogador tático, que os técnicos adoram exaltar pela eficiência e obediência rígida às orientações.

A galera gosta de quem sabe fintar, dar o traço e levar a bola ao destino final. Em resumo, curte mesmo é o jogador subversivo, que rompe a marcação a golpes de pura habilidade. Esli tem essas virtudes. Até algum tempo atrás, isso era privilégio de brasileiros, mas a Venezuela mostra que também tem seus moleques bons de bola.

A esperança do Papão diante do Goiás passa pela criatividade de Esli e a técnica de Juninho. Ambos nunca foram escalados como titulares, mas têm sido responsáveis pelos melhores momentos do time no campeonato. Tomara que hoje ambos possam jogar por mais tempo. (Foto: Jorge Luis Totti/Ascom PSC)    

Série A: omissão e egoísmo dificultam paralisação

As enchentes continuam a fazer estragos no Rio Grande do Sul. A tragédia ambiental que castiga o Estado natal de Érico Veríssimo é uma das mais implacáveis de todos os tempos, matando pessoas e desabrigando milhares de famílias. Um impacto de dimensões incalculáveis na vida de todos os gaúchos.

Em sã consciência, ninguém pode ficar indiferente ao sofrimento das vítimas desse desastre climático, nem mesmo os negacionistas de sempre, ruidosos defensores de teorias amalucadas e que não aceitam como lógica a reação da natureza a tantas agressões.

O futebol, parte importante da vida brasileira, também sofre o impacto do que ocorre no Sul principalmente através das dificuldades dos clubes que disputam a Série A – Internacional, Grêmio e Juventude. Os jogos dessas equipes foram adiados até que a situação se normalize.

Há, porém, uma pressão no sentido de paralisar o Campeonato Brasileiro por duas ou três semanas como forma de reduzir o prejuízo técnico aos clubes gaúchos, que justificadamente apontam um desequilíbrio na disputa da competição.

Atlético-MG, Atlético-PR, Atlético-GO, Botafogo, Criciúma, Cruzeiro, Cuiabá, Fluminense, Fortaleza, Grêmio, Inter, Juventude e Vasco apoiam a paralisação. Bahia, Corinthians, Bragantino, São Paulo e Vitória estão em cima do muro. Flamengo e Palmeiras são contra a ideia de parar.

A postura do Flamengo não surpreende ninguém. Seu presidente, Rodolfo Landim, foi o primeiro a exigir o retorno das competições em plena pandemia da Covid-19, em 2020, quando milhares de pessoas morriam no país. Chegou a conseguir impor sua vontade no Campeonato Carioca.

Empatia zero com o sofrimento de milhões de pessoas. Afinal de contas, que mal causaria ao campeonato uma parada de três semanas? Sendo que isso seria compensado nos meses subsequentes, se necessário avançando com os jogos até dezembro. A CBF, omissa como sempre, se esconde atrás da burocracia e não toma a atitude que também lhe cabe.

Apoio do torcedor será (de novo) decisivo para o Leão

Como reflexo imediato da primeira vitória no Brasileiro, os pouco mais de 5 mil torcedores presentes ao Baenão para o jogo Remo x Floresta devem se multiplicar por três no próximo domingo (19), para o confronto com o Tombense. Mais três pontos em disputa e o torcedor tem perfeita consciência do seu papel como força auxiliar.

Mas, além do apoio incondicional de sua torcida, o Remo terá que fazer adquirir uma consistência que não mostrou até agora. O jogo contra o Floresta escancarou os muitos problemas de organização e posicionamento. Por muito pouco, o limitado time cearense não aprontou dentro do Baenão.

É curioso observar que, nem mesmo os pequenos milagres que o técnico Gustavo Morínigo conseguia assim que assumiu o comando, alterando o time (para melhor) no 2º tempo, se repetem mais. A escalação é sempre uma montanha-russa, um festival de surpresas.

O caminho natural é escolher os melhores e fazer com que se entrosem. Sem isso, o Remo será sempre um time vulnerável, correndo risco de derrotas mesmo jogando diante de seu torcedor. Mais do que nunca, é hora de minimizar os erros.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 15)

A água em fúria

Por Heraldo Campos

O município de Ribeirão Preto, localizado na região nordeste do Estado de São Paulo, com
uma população de mais de 600 mil habitantes, é abastecido totalmente pelas águas
subterrâneas do Aquífero Guarani. Porém, essa região outrora chamada de a “Califórnia
Brasileira” devido, principalmente, à sua pujança no agronegócio também apresenta seus
crônicos problemas relativos a água.
1

Será que os questionamentos feitos há quase duas décadas atrás continuam atuais? O gerenciamento desse reservatório subterrâneo melhorou ou piorou?

“Nos últimos dias de hoje, muito tem se falado de que as águas superficiais seriam a saída para
suprir o déficit do abastecimento populacional por causa do comprometimento das águas
subterrâneas, seja pela elevada retirada provocando rebaixamento dos níveis d’água ou pela
sua qualidade colocada em xeque, como consequência das possíveis fontes de contaminação. É aí que começa a aparecer, como uma tábua de salvação para alguns grupos, o decantado Rio Pardo.

As águas do Rio Pardo, de qualidade duvidosa, não são a solução como alguns lobbies preconizam, principalmente em época de crise ou de falta de água para o abastecimento público. Muito embora despoluir e preservar nossos rios deva ser também nossa preocupação constante, Ribeirão Preto já se abastece das águas subterrâneas do Aquífero Guarani há várias décadas. Este sistema sim, que faz parte do metabolismo urbano de Ribeirão Preto, é que deve ser mais bem compreendido e, consequentemente, gerenciado.

Como de certa forma esse gerenciamento já vem sendo feito, para que suas ações sejam levadas a um bom termo necessariamente devem passar pelo incentivo de alguns pontos cruciais: uma política de manejo, incluindo a recuperação de poços abandonados e adaptação de poços para observação do nível d’água; a otimização do tempo de bombeamento dos poços profundos; um plano de reserva para águas captadas do Aquífero Guarani; a diminuição das perdas na rede de distribuição e uma estratégia de implantação de hidrômetros, com bônus para os usuários do sistema que não ultrapassem um limite máximo necessário.” [1]

E com relação aos diferentes atores que atuam na gestão do aquífero, em que cenário trabalham hoje? É muito diferente de quase vinte anos atrás?
“Mas, nos dias de hoje, não é preciso ser um Kafka para que se tenha conflito interior diante do
cenário complexo e muitas vezes nebuloso, quando se trata da proteção e da utilização sustentável das águas subterrâneas desse reservatório. Os prognósticos relacionados ao rebaixamento dos níveis destas águas pelo excesso de retirada por meio dos poços e aos riscos devido à fragilidade das rochas frente às cargas de contaminantes potenciais existem há algum tempo. São trabalhos técnicos que necessitam de uma ação política, mas que na maioria dos casos terminam “esquecidos’’ nos escaninhos da burocracia. Nestes casos, pode até acontecer que alguns documentos técnicos, produzidos por instituições de pesquisa e mesmo pelas universidades, acabem “engavetados” por causa dos conteúdos existentes.

Isso tudo é um prato cheio para que ONGs chapa-branca e consultoras de plantão atuem com
certa desenvoltura nas lacunas dos espaços institucionais, sempre correndo atrás do lucro fácil
e imediatista. Assim, o absurdo ou a loucura que parece ser inicialmente de um universo
particular kafkaniano, começa a ganhar força e determinadas ações específicas no sentido da
gestão pública do recurso hídrico começam a perder posições importantes. Para um cidadão
comum talvez fique difícil entender os diversos atores que atuam neste ambiente cada vez mais
difuso, com princípios éticos nitidamente indefinidos nas relações pessoais do dia a dia.” [2]

Saindo desse ambiente ribeirão-pretano, quase sempre com muito calor, baixa umidade do ar no dia a dia e muitas vezes extremamente seco, distante cerca de 1.400 km dessa região [3], o município de Porto Alegre no Estado do Rio Grande do Sul, juntamente com a quase totalidade dos outros municípios gaúchos, vivem a tragédia das enchentes por causa das chuvas excepcionais que desabaram no território estadual nesse mês de maio de 2024.

As áreas dos territórios municipais que foram arrasadas totalmente, muitas delas situadas em área de transbordamento natural dos rios da bacia hidrográfica onde estão assentadas e ocupadas, devem ser vistas como áreas de risco hoje e facilmente mapeadas em função do grau de destruição causado pelas chuvas em tempos de aquecimento global. Se existirem mapeamentos de áreas de risco e planos diretores municipais anteriores são documentos que
devem servir de referência e acrescidos dos limites das áreas inundadas para futuras tomadas
de decisões.

A realocação de bairros e vilas, embora dura e complexa para a população, deve ser levada em
conta para não serem recuperados ou reconstruídos setores que fatalmente podem estar sujeitos a novos episódios climáticos catastróficos. Obviamente que não devem ser descartadas obras de engenharia, onde forem possíveis, como diques, barragens de contenção, equipamentos de bombeamento, entre outros. Pode ser que o município de Porto Alegre, principalmente no setor que existe o dique que margeia o Rio Guaíba, construído nos anos 70 do século passado, ainda consiga contar com essa imensa obra de engenharia desde que seja reavaliada a sua função e redimensionada para esses novos tempos climáticos.
As áreas limpas dos resíduos da construção civil poderiam servir como áreas de amortecimento
de cheias, auxiliando na recarga dos aquíferos de pouca profundidade, como também ter esse
material processado em usinas de beneficiamento e reutilizado no erguimento de novas moradias.
“Por outro lado, as tragédias das enchentes não são de agora, mas as atuais são mais graves, comprovadamente, por causa das mudanças climáticas que o planeta Terra vem passando. Algumas das causas, principalmente as que provocam enchentes no meio urbano, são conhecidas como: o acúmulo de lixo em vias públicas, a impermeabilização inadequada do solo, a deficiência do sistema de macrodrenagem, a duplicação oportunista de pavimentação asfáltica recobrindo a pré-existente (geralmente de paralelepípedos) e a ocupação desordenada do território municipal pela especulação imobiliária.” [4]
Assim, nesse fubá climático instalado, a comunidade científica tem sido ou foi pouco ouvida ou
as atenções de parte da sociedade e da classe política acabam por ouvir mais os negacionistas climáticos para que o caos perdure a seu favor?
“Sem inteligência social e com a infraestrutura natural destroçada, temos pela frente um longo
caminho para adquirirmos condições de enfrentar a emergência climática e ambiental que estamos atravessando. Temos que ter em mente que isso é apenas um começo. Temos que agir estrategicamente se quisermos encorajar a sociedade a enfrentar os tempos que estão aí e os que advirão.
As universidades são instituições fundamentais para isso. Representam a inteligência estratégica que sobrou em um Estado que está sendo desmontado peça por peça. Sem inteligência social, a sociedade não só fica muito mais vulnerável frente aos impactos adversos dos tempos severos, mas também fica refém da ação de forças externas, sobre as quais não tem controle, como o Exército e empresas privadas.
Tudo conduz para a ideia que nada podemos fazer enquanto sociedade, cada vez mais submetida à inclemência da natureza e ao horror de políticas autocráticas e ignorantes. A Universidade é a esperança possível para desenvolver uma inteligência social que encoraje a sociedade a enfrentar a emergência climática-ambiental do século XXI.” [5]

Para concluir, lembrando que o sistema água subterrânea e água superficial está interligado (a
água vem do céu!), a água em fúria, seja porque é mal gerenciada como no caso do Aquífero Guarani em Ribeirão Preto, ou seja porque não foram respeitadas as várzeas de inundação natural, como aconteceu com boa parte dos municípios gaúchos, tem mandado seus recados e
há tempos. Será que não estamos sabendo ouví-la?

Fontes
[1] “Metabolismo urbano de Ribeirão”. Crônica de Heraldo Campos. Livro eletrônico “Por onde a
água passa: coleção de artigos”.
https://research.ebsco.com/c/7zh5jk/search/results?q=Heraldo+cavalheiro+navajas+sampaio+campos
[2] “Kafka e o Aqüífero Guarani”. Crônica de Heraldo Campos. Livro eletrônico “Por onde a
água passa: coleção de artigos”.
https://research.ebsco.com/c/7zh5jk/search/results?q=Heraldo+cavalheiro+navajas+sampaio+campos
[3] Fac-símile do “Mapa Hidrogeológico do Aqüífero Guarani”.
Campos, H.C.N.S. 2000 a. Mapa hidrogeológico do Aqüífero Guarani. São Leopoldo: Acta Geologica Leopoldensia.

  1. Anexo.
    [4] “As tragédias das enchentes”. Crônica de Heraldo Campos.

https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2024/05/as-tragedias-das-enchentes.html?view=magazine
[5] “Sobre a emergência climática e ambiental no RS”. Artigo de Rualdo Menegat.
https://agirazul.com/arquivos/17815

  • Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976),
    mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da
    USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e
    Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).

Rock na madrugada – The Rolling Stones, “Street Fighting Man”

POR GERSON NOGUEIRA

“Todo lugar eu ouço o som, de pés marchando, garoto/ Pois o verão chegou e a hora é essa para lutar nas ruas/ Mas o que um pobre garoto pode fazer?/ Exceto cantar em uma banda de rock’n’roll/ Porque na cidade sonolenta de Londres/ Não há lugar para um lutador nas ruas!”

Era o dia 17 de março de 1968 quando Mick Jagger, então com 24 anos, resolveu se juntar a uma manifestação na Grosvenor Square, em Londres, para protestar contra a Guerra do Vietnã. O que foi apenas um entusiasmo de momento acabou contribuindo para uma grande canção dos Rolling Stones, Street Fighting Man (Lutador de rua). A gravação de estúdio tem acordes iniciais da guitarra de Keith Richards mesclados com a cítara indiana de Brian Jones.

Protestos ocorriam quase todos os dias no mundo inteiro naquele período, sempre contra a presença norte-americana no Vietnã e a favor das liberdades civis. Foi aí que o rock’n’roll se consolidou como um gênero que representava anseios e insatisfações da geração jovem.

Amigos de Mick, como o jornalista Barry Miles, que encontrou o músico no meio da multidão, disse ao jornal Independent que Jagger “não tinha consciência política” na época: “Ele estava lá porque se sentia zangado e rebelde, mas não tinha como formular isso, dar a esse sentimento qualquer estrutura e, de certa forma, ele estava procurando por algo contra o qual podia se rebelar”.

Outro jornalista, Rich Cohen, confirma em O sol & a lua & os Rolling Stones: Uma biografia (aliás, um livro estupendo), que a participação de Jagger na manifestação não representava uma visão revolucionária, mas o lado artístico de alguém em êxtase – e isso foi magistralmente registrado em Street Fighting Man.

“Para Mick, esse flerte com a dissidência era uma anomalia, um momento de engajamento pontuando uma vida apolítica. Uma estrela do rock é uma figura do status quo. Ela não quer luta, e sim a aura dela. Street Fighting Man não é sobre revolução – é sobre limites”, afirma Cohen.

A letra expõe essa realidade: “O que um pobre garoto pode fazer, exceto cantar em uma banda de rock’n’roll?”, canta Mick. Pelo conteúdo antibelicista, a canção foi censurada nas rádios americanas à época do lançamento – o que apenas aumentou sua popularidade.

Street Fighting Man foi listada, pela revista Rolling Stone, como uma das 500 melhores canções da história. Para Bruce Sprinsgteen, alguns dos versos mais belos do rock estão na música. O lançamento nos Estados Unidos ocorreu em agosto de 1968, enquanto no Reino Unido saiu quatro meses depois, inclusa no álbum Beggars Banquet.

O vídeo é de uma das últimas apresentações da banda antes do tumultuado show em Altamont. O guitarrista Mick Taylor havia substituído Brian Jones, morto poucos meses antes. Abaixo, a versão original, ainda com Brian em cena.