
Mês: janeiro 2024
Carnaval se despede de Quinho, intérprete de “Peguei um Ita no Norte”
Aos 66 anos, o cantor Quinho morreu nesta quarta-feira à noite, no Rio de Janeiro, enlutando o mundo do samba. Puxador do icônico enredo “Peguei um Ita no Norte” do Salgueiro, no Carnaval de 1993, Quinho inovou com os chamados ‘cacos’ (futuca, futuca!) de incentivo à escola no meio da apresentação. O desfile daquele ano entraria para a história como o mais espetacular de todos os tempos.
De ritmo irresistível, com o lendário verso “Explode coração na maior felicidade, é lindo o meu Salgueiro contagiando, sacudindo esta cidade”, o samba contagiou o público nas arquibancadas do sambódromo carioca, que cantou do início ao fim junto com Quinho, levando o Salgueiro ao título depois de 17 anos. Além disso, virou um clássico até hoje entoado pelas torcidas nos estádios de todo o Brasil.

Detalhe: Quinho (Melquisedeque Marins Marques) era um apaixonado torcedor do Botafogo e contou, em entrevista após o desfile, que atravessou a Marquês de Sapucaí naquela noite com a camisa alvinegra por baixo do uniforme da escola.
Mais Médicos passou a atender 744 novas cidades em 2023

Balanço do Ministério da Saúde indica que o programa Mais Médicos registrou aumento de 105% no número de profissionais atuando em 2023. Com 28,2 mil vagas preenchidas em 82% do território nacional, 86 milhões de pessoas, segundo a pasta, foram beneficiadas pelo programa. Ao longo desse período, 744 novos municípios passaram a ser atendidos. 

Os números mostram ainda que todos os 34 distritos sanitários indígenas foram integrados ao Mais Médicos. “Um avanço importante diante da desassistência enfrentada por essa população nos últimos anos”, avaliou o ministério. No território Yanomami, o número de profissionais passou de nove para 28. Ao todo, 977 novos profissionais atuam na saúde indígena.
Ainda segundo a pasta, 41% dos participantes desistiram do programa em edições anteriores, “por falta de perspectiva profissional”. “A partir da retomada, em 2023, o Mais Médicos trouxe aos profissionais oportunidade de qualificação e aperfeiçoamento, além de incentivos e benefícios”.
O Mais Médicos é classificado pelo governo federal como uma grande estratégia nacional para a formação de especialistas. A expectativa é que, nos próximos anos, cada equipe de saúde da família passe a contar com um especialista. Atualmente, o país registra mais de 50 mil equipes de saúde da família e mais de 10 mil médicos de família e comunidade.
Redação/Jornal GGN
A frase do dia
“É lamentável que o principal foco das entidades judaicas no Brasil sejam os críticos dos crimes de Netanyahu e não os crimes de Netanyahu”.
Cynara Menezes, jornalista independente e editora do site Socialista Morena
Golpe de 8 de janeiro: “Me queriam preso e enforcado na Praça dos Três Poderes”, diz Moraes

Um dos principais alvos dos bolsonaristas, juntamente com Lula, Alexandre de Moraes conta detalhes dos atos golpistas de 8 de Janeiro e fala do receio de que o movimento se alastrasse pelo país com a adesão das PMs.
Por Plínio Teodoro, na revista Fórum
Um dos principais alvos dos apoiadores de Jair Bolsonaro (PL), juntamente com Lula, nos atos golpistas de 8 de Janeiro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirmou que um dos planos dos bolsonaristas em 8 de janeiro de 2022 era enforcá-lo na Praça dos Três Poderes.
Segundo Moraes, financiadores do acampamento em frente ao Quartel-General (QG) do Exército haviam determinado três destinos para ele, que à época estava em viagem com a família pela Europa.
“Eram três planos. O primeiro previa que as Forças Especiais (do Exército) me prenderiam em um domingo e me levariam para Goiânia. No segundo, se livrariam do corpo no meio do caminho para Goiânia. Aí, não seria propriamente uma prisão, mas um homicídio. E o terceiro, de uns mais exaltados, defendia que, após o golpe, eu deveria ser preso e enforcado na Praça dos Três Poderes. Para sentir o nível de agressividade e ódio dessas pessoas, que não sabem diferenciar a pessoa física da instituição”, disse o ministro em entrevista ao jornal O Globo.
Ele adianta que as investigações confirmam que os golpistas pretendiam forçar a adoção da chamada GLO, a Garantia da Lei e da Ordem, para tentar cooptar as forças armadas a aderirem ao golpe.
“Nas investigações e nos interrogatórios de vários desses golpistas, temos que os discursos nos quartéis onde estavam acampados diziam que deveriam vir para Brasília. De vários financiadores, (a ordem era que) deveriam vir, invadir o Congresso e ficar até que houvesse uma GLO para que o Exército fosse retirá-los. E, então, eles tentariam convencer o Exército a aderir ao golpe. O que mostra o acerto em não se decretar a GLO, porque isso poderia gerar uma confusão maior, e sim a intervenção federal. Não que o Exército fosse aderir, pois em nenhum momento a instituição flertou (com a ideia). Em que pese alguns dos seus integrantes terem atuado, e todos eles estão sendo investigados”, disse.
Moraes ainda aponta como “o grande erro doloso” a permissão da entrada dos golpistas na Esplanada dos Ministérios. “O 8 de Janeiro foi o ápice do movimento: a tentativa final de se reverter o resultado legítimo das urnas”, afirma.
O ministro do STF ainda falou do receio de que o movimento se espalhasse pelo país, principalmente com a adesão das forças policiais e diz que a prisão de Anderson Torres, ex-ministro e então secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, de Fábio Augusto Vieira, comandante-geral da Polícia Militar, e o afastamento de Ibaneis Rocha (MDB) do governo local, além da prisão em flagrante dos golpistas, foram essenciais para que isso não ocorresse.
“Se tivéssemos deixado mais pessoas em frente a quartéis (no dia seguinte), poderia gerar mais violência, com mortes e distúrbios civis no país todo. Se não houvesse a demonstração clara e inequívoca de que o Supremo Tribunal Federal não iria admitir nenhum tipo de golpe, afastaria qualquer governador que aderisse e prenderia os comandantes de eventuais forças públicas que aderissem, poderíamos ter um efeito dominó que geraria caos no país”, contou.
Segundo Moraes, que foi ministro da Justiça e secretário da Segurança Pública de São Paulo,
“o que chocava era a inação da Polícia Militar”. “Afirmo sem medo de errar: não precisaria de cem homens do Batalhão de Choque para dispersar aquilo”, disse.
Defender pobres sempre despertou ódio
Bernstein escreveu prefácio de livro sobre os Beatles e chamou Lennon e McCartney de santos

Por Silvio Osias, no Jornal da Paraíba
Em 1982, quando a editora Melhoramentos publicou no Brasil o livro The Beatles, fazia 20 anos do lançamento do primeiro single do grupo e 12 da separação. Tudo ainda era muito recente. O texto do livro era de Geoffrey Strokes, e a capa, de Andy Warhol.
O prefácio – sim, o prefácio! – era do maestro Leonard Bernstein, que nós cultuávamos com profunda admiração. A opinião de Bernstein, sendo o gigante que ele era na música erudita, chancelava os Beatles e cortava o barato dos que insistiam em não compreender a dimensão do quarteto.
Comprei o livro em 1982 e o mantenho íntegro no meu acervo. Agora, aproveitando o momento em que o nome de Leonard Bernstein está outra vez em evidência por causa do filme Maestro, transcrevo o prefácio escrito no final da década de 1970.
“Me apaixonei pela música dos Beatles (e, ao mesmo tempo, por aquelas quatro caras cum persone) junto com meus filhos, duas meninas e um garoto, ao descobrir aquele falsete fabuloso gritado-sussurrado, aquela batida irresistível, a entonação perfeita, as letras completamente novas, a torrente schubertiana de invenção musical e a nonchalance tipo Danem-se esses Quatro Cavalheiros do Nosso Apocalipse. Jamie tinha doze anos, Alexander, nove, e Nina, dois. Juntos, nós vimos A Visão, em nossas formas inevitavelmente distintas (eu tinha 46 anos!), mas vimos a mesma Visão, e ouvimos o mesmo Pássaro-da-Manhã, Trombeta-do-Elefante, Fanfarra-do-Futuro. Que futuro? Cá estamos nós, quinze anos se passaram, aquilo passou. Porém, durante uma década mais ou menos, ou ainda menos, aquilo permaneceu a mesma Visão-Clarim, cada vez mais concludente e irrefutável, mais clara, mais amarga – e melhor.
Talvez o mais claro, mais amargo (e quem sabe melhor) foi um disco chamado Revolver (pace Sgt. Pepper, Abbey Road et al). Nesse álbum, a melhor coisa, talvez, era uma musiquinha chamada She said she said; pensar nela, lembrar-se dela traz imediatamente à memória toda a beleza daquelas Veias Varicosas Vietnamitas. As notas cicatrizavam, a letra incomodava; ou talvez fosse vice-versa. Mas alguma coisa incomodava, e alguma coisa cicatrizava, ano após ano, Rigby após Rigby, Paperback após Norwegian, talvez expressa às últimas consequências na verdade vislumbrante e triste de She’s leaving home.
Enquanto isso, aparecia um volume fino, de pura genidalidade verbal de um ator novo, chamado John Lennon: in his own write. Como se isso não bastasse para a lenda, ainda havia as notas (e a voz de sereia-sílfide) de um tal McCartney. Esses dois formavam uma dupla que incorporou uma criatividade quase nunca igualada naquela década feliz. Ringo – um ator-instrumentista adorável. George – um talento místico irrealizado. Porém, John e Paul, São João e São Paul, eram, e fizeram, e aureolaram, beatificaram e eternizaram o conceito que será sempre conhecido, lembrado e profundamente amado como The Beatles.
E, se os depois foram simplesmente isso, os quatro foram O Todo. Essa interdependência deixava atônito, chapava, às vezes dava pavor; vamos mesmo precisar disso tudo Quando Tivermos 64 Anos? Bem, hoje estou beirando os 64, e três compassos de A day in the life bastam para me sustentar, rejuvenescer, excitar meus sentidos e sensibilidades.
Nina, que tinha dois anos em 64, agora tem dezessete; e ainda na semana passada pegamos aquele livro grosso e infeliz de partituras mal tiradas dos Beatles para ficar relembrando no piano. Nós choramos, e demos pulos de alegria com as redescobertas (She’s a woman) – só nos dois, durante horas (Ticket to ride, A hard day’s night, I saw her standing there)…
Isso foi a semana passada. Os Beatles não existem mais. Mas esta semana ainda estou pulando, chorando, recordando uma época boa, uma década de ouro, bons tempos, bons tempos…
LEONARD BERNSTEIN/9 de outubro de 1979″
Rock na madrugada – Humble Pie, “30 Days in the Hole”
Sem adereços eletrônicos para disfarçar erros, sem efeitos excessivos. Tudo no vídeo acima remete a uma reunião de talentos. O Humble Pie fez muito sucesso na Inglaterra dos anos 70, embora sem estourar nas paradas mundiais. Com Steve Marriott à frente, era uma verdadeira máquina de afinação. Em menos de dois segundos após o acorde inicial, a banda ataca ao mesmo tempo, tudo devidamente sincronizado.
“30 Days In The Hole” é do álbum Smokin, de 1972. Um brilhante guitarrista passou pela escola rítmica do Humble Pie: Peter Frampton, de carreira solo muito bem sucedida nos anos 80.
CPI do fim do mundo: investigação contra Padre Júlio faz bondade virar crime

A possível abertura de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo para investigar a atuação do padre Júlio Lancellotti significaria uma inversão de valores ao fazer da bondade um crime. A CPI das ONGs terá como pano de fundo a eleição para a prefeitura da capital. O motivo é a proximidade entre Padre Júlio e o pré-candidato Guilherme Boulos (PSOL). O autor da proposta da CPI é o vereador Rubinho Nunes, do União Brasil, partido que apoia a reeleição de Ricardo Nunes (MDB) e ainda tem Kim Kataguiri, filiado à sigla, como pré-candidato.
A expectativa da direita paulistana é instalar a CPI em fevereiro. O principal alvo da comissão é a atuação do Padre Júlio na região da “Cracolândia”, no centro de São Paulo, e a relação dele com entidades assistenciais. A notícia estourou como uma bomba nos meios políticos paulistas, por representar um ataque direto ao trabalho desenvolvido por padre Júlio.
“Essa gente continua usando esses símbolos para impedir que haja uma maior distribuição de renda no país e na humanidade. Isso é gente que quer que os pobres sejam mortos junto com os bandidos. Já que ‘bandido bom é bandido morto’, por eles, morreriam todos os pobres”, comentou o jornalista Tales Faria, do UOL.

Abaixo, a nota divulgada por Padre Júlio a respeito da CPI:

Mesmo com desoneração, mercado de trabalho formal de jornalistas encolhe 21% em 9 anos
Conheça os primeiros dados da pesquisa inédita realizada pelo Dieese para a Federação Nacional dos Jornalistas

O mercado de trabalho formal para jornalistas no Brasil encolheu 21,3% no intervalo de nove anos. Em números absolutos, a categoria saiu de 60.899 empregos celetistas, em 2013, para 47.900 postos com carteira assinada, em 2021, último ano da série histórica, evidenciando uma perda de 12.999 vagas. É o que mostra estudo elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
De acordo com o Dieese, 2013 foi quando se deu o auge do emprego formal para a categoria assalariada. Embora haja um crescimento de 7,7% na comparação com 2020 – quando 44.473 pessoas trabalhavam na área em regime celetista –, o mercado de trabalho dos jornalistas brasileiros ainda não alcançou plenamente o nível de empregabilidade formal pré-pandemia de covid-19.
Para a presidenta da Fenaj, Samira de Castro, o estudo confirma que a desoneração de contribuições previdenciárias da folha de pagamentos – implantada como medida temporária pelo governo federal em 2011 e desde então renovada –, não contribuiu para gerar novos empregos ou mesmo manter os postos formais no setor de Comunicação. “Nota-se claramente um aumento dos empregos em 2013, segundo ano após a implantação da medida, mas é uma situação que não se mantém ao longo da série histórica”, observa.
A dirigente sindical acrescenta que os 31 Sindicatos de Jornalistas filiados à Fenaj já constatavam na prática essa redução do mercado formal de trabalho. “Há um visível enxugamento dos empregos com carteira assinada, sobretudo nos veículos jornalísticos tradicionais. Esse fenômeno se dá tanto pela chamada integração das redações quanto, a partir de 2018, pelos impactos da contrarreforma trabalhista”, pontua.
Ou seja, a desoneração da folha de pagamentos não se confirmou como geradora de empregos para o setor de Comunicação. A precarização do emprego veio acompanhada, segundo a presidenta da Fenaj, pelo crescimento da utilização de novas tecnologias comunicacionais para a produção de Jornalismo, como os smartphones e as ferramentas de acesso à internet móvel, e pelo crescimento da presença das plataformas digitais de redes sociais. “Abriu-se a crise do modelo de negócios das empresas jornalísticas: o lucro baseado na venda de anúncios publicitários cai, a partir do direcionamento da publicidade para as plataformas”, explica.

Extinção de funções
Dos 47,9 mil trabalhadores da área, a maior parte estava empregada formalmente nas ocupações/funções de Jornalista, com 21%, equivalente a 10.101 postos de trabalho. Em seguida, Assessor de Imprensa, com 20%, (9.474 empregos). Na sequência: Editor (17%, ou 8.240 trabalhadores), Repórter (exceto Rádio e Televisão), com 10% ou 4.757; Revisor de Texto (7%, ou 3.488) e Repórter de Rádio e Televisão (5%, ou 2.589).
Observando o movimento entre 2020 e 2021, oito ocupações/funções sofreram redução do número de vínculos: Âncora de Rádio e Televisão; Crítico; Editor de Jornal; Editor de Mídia Eletrônica; Editor de Revista; Editor de Texto e Imagem; Repórter (exceto Rádio e TV); e Repórter Fotográfico.
Mas o dado preocupante é que, em relação a 2013, praticamente todas as funções apresentaram queda no número de trabalhadores, com exceção de: Editor de Mídia Eletrônica (que cresceu 61,1% no período). As principais perdas ocorreram em Editor de Revista (62,5%), Repórter Fotográfico (60,5%), Editor de Texto e Imagem (57,4%), Arquivista Pesquisador (56,9%) e Editor de Jornal (50%).
Conforme o Dieese, na análise da série histórica, nota-se o impacto do crescimento, ao longo dos anos, do emprego em áreas ligadas à internet, como portais e jornais virtuais. “Esses empregos nos chamados veículos nativos digitais, no entanto, não são capazes de suprir a demanda de empregabilidade da categoria”, comenta Castro.

A presidenta da Fenaj destaca que a Federação e seus Sindicatos filiados estão organizados na luta pela reconstrução dos direitos da categoria. Um dos instrumentos para essa retomada é a Campanha Salarial Nacional Unificada dos Jornalistas 2024, lançada em novembro deste ano, no 22º Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Imprensa (Enjai), realizado em Salvador/BA.
“Trata-se de uma iniciativa inédita da Fenaj, que terá mobilizações municipais, interestaduais e estaduais deflagradas ao longo de todo o ano de 2024, para impulsionar a valorização dos jornalistas”, completa Castro. Além dela, a dirigente enumera outras iniciativas da Federação, como a campanha Assessor de Imprensa é Jornalista, a luta pela aprovação da PEC do Diploma na Câmara dos Deputados, a atualização da regulamentação profissional e criação do Conselho Federal de Jornalistas.
Samira de Castro reforça que a categoria precisa se aproximar dos seus sindicatos e contribuir com essas pautas. “As conquistas são coletivas e o que vai definir o nosso nível de vitórias é a participação de todas e todos os jornalistas nas ações, sejam elas nas redes ou nas ruas”.
(Fonte: Fenaj)
O passado é uma parada
Política industrial marca o primeiro golaço de 2024
Tributação anunciada irá gerar fornecedores brasileiros, empregos brasileiros, e ajudará a impulsionar o PIB

Por Luis Nassif
2024 iniciou-se sob fortes auspícios, graças às medidas anunciadas por Geraldo Alckmin.
Luiz Carlos Mendonça de Barros é um grande operador de mercado. Ganhou muito dinheiro com a maxidesvalorização de 1982, confiando no seu feeling. E muito mais dinheiro no governo FHC, durante o qual ele foi insider de si mesmo: ajudava a definir a política monetária e cambial e operava em cima.
Alguns anos atrás decidiu investir no milagre chinês e tentou se cacifar como representante de uma marca de veículos. Não sei se conseguiu ou não.
Mas ontem, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) anunciou três medidas:
1. Tributar a importação de veículos elétricos.
2. Dar subsídios à produção interna de veículos elétricos.
3. Permitir depreciação acelerada para novos investimentos em bens de capital.
Mendonça de Barros ficou indignado e usou o bordão de que o governo estava apelando a políticas velhas, que tinham afundado o país. As mesmas políticas velhas, aliás, responsáveis pelo crescimento exponencial do Brasil até os anos 90 e pelo milagre chinês.
Vamos entender a lógica do raciocínio dele, e os efeitos dessas medidas para ele e para o Brasil.
Com o imposto de importação, o veículo importado ficará mais caro. Ou sairá da margem do importador, ou acaba a importação. Mendonça de Barros perde. E o Brasil?
Se há um imposto penalizando as importações e outro estimulando a produção interna, o que fará o fabricante chinês, ou alemão, ou americano? Passará a produzir no Brasil.
Nesse caso, irá gerar fornecedores brasileiros, empregos brasileiros, pagará impostos sobre os produtos, sobre os salários, ajudará a impulsionar o PIB.
É a mesma lógica da depreciação acelerada. A depreciação consiste em um percentual do investimento que pode ser abatido a cada ano do Imposto de Renda, dependendo do prazo de vida útil do equipamento. Com a depreciação acelerada, a dedução fica mais rápida e maior.
Os idiotas da objetividade dirão que, com a depreciação acelerada, o governo estará abrindo mão de arrecadação. Estaria, se fosse uma dedução para empresas já instaladas. Se a ideia é estimular novos investimentos, haverá aumento de arrecadação óbvio, quando a empresa estiver produzindo.
Falta, agora, escapar da armadilha das metas inflacionárias. Não há lógica nessa ideia de controlar a liquidez da economia através de títulos da dívida pública. Ou seja, se há qualquer sinal de aumento da inflação, mesmo que não seja de demanda, aumentam-se os juros – e o dinheiro que poderia ir para investimentos vai para o bolso do rentista. Aí, entram dólares no país para aproveitar a bonança, apreciando o câmbio. Nesse movimento, as exportações brasileiros ficam mais caras, as importações mais baratas, prejudicando a balança comercial.
Mais que isso, as variações no câmbio espantam o investimento externo produtivo. O capital produtivo, quando entra no país, tem que analisar a taxa de retorno – em reais e em dólares, já que os lucros são remetidos para fora. Com o câmbio sendo uma variável da política monetária, há um desestímulo à entrada de capital produtivo.
Nessa dança, só quem ganha é o capital financeiro do Mendonça de Barros ou os importadores.
O primeiro dogma foi derrubado. Faltam vários ainda.

