Um gol de Nicolas, no 2º tempo, garantiu a vitória do Paysandu sobre o Santa Rosa na estreia bicolor no Campeonato Paraense. A partida, realizada neste sábado à noite, no estádio Jornalista Edgar Proença, teve mais presença ofensiva do Papão, mas nos instantes finais o Santa Rosa quase chegou ao empate.
Os primeiros 45 minutos foram movimentados, com o Papão forçando o jogo sobre a área do Santa Rosa. Com amplo domínio no meio-de-campo, o PSC pressionou muito e até chegou ao gol, mas a arbitragem assinalou lance faltoso de Wanderson.
O Papão ainda teve uma baixa. O atacante Leandro saiu de campo reclamando de dores na parte posterior da coxa direita. O Santa Rosa não ofereceu grande perigo à meta bicolor, procurando se resguardar e demonstrando excesso de cautela.
Segundo tempo
O segundo tempo começou movimentado. Logo aos 30 segundos, Nicolas recebeu um cruzamento de Jean Dias e escorou para o fundo do barbante. No instante seguinte, o volante Val Soares foi lançado pela esquerda e desperdiçou boa chance para ampliar.
Os bicolores ainda perderiam outras chances, com Nicolas, João Vieira (em duas tentativas) e Jean Dias. O Santa Rosa também chegou perto de conseguir o gol: Tiago Miranda recebeu passe de Pedro Sena e disparou um chute forte na trave após desvio de Matheus Nogueira.
Nos instantes finais, um susto para o torcedor alviceleste: Rony marcou o gol de empate para o Santa Rosa, mas o árbitro Dewson Freitas apontou falta sobre o goleiro Matheus Nogueira e o gol foi anulado.
Posts se valem de desinformação e greenwashing para promover agenda política do setor, dizem pesquisadores da UFRJ
Por Giovana Girardi e Rafael Oliveira – Agência Pública
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), mais conhecida como a bancada ruralista do Congresso, publicou anúncios nas redes sociais ao longo de todo o ano passado com conteúdo desinformativo, descontextualizado, distorcido e/ou que minimizavam os impactos negativos do setor, de modo a promover sua agenda política no legislativo. É o que aponta uma análise elaborada pelo Netlab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O relatório, repassado com exclusividade para a Agência Pública, avalia que a comunicação digital da FPA, por meio de posts patrocinados nas redes da Meta (como Facebook e Instagram), adota o que foi classificado como “discurso tóxico”. O laboratório de pesquisa da UFRJ, que há mais de uma década estuda as redes sociais e o fenômeno de desinformação no Brasil, considera como “tóxicos” anúncios que recorrem a algum nível de desinformação e/ou ao chamado greenwashing (uma espécie de maquiagem verde).
Foram analisados 207 posts patrocinados nas redes sociais da FPA publicados entre janeiro e novembro de 2023. Quase metade (94 anúncios, 45%) tinha conteúdo que foi classificado como tóxico pela equipe do Netlab.
POR QUE ISSO IMPORTA
Estudo do Netlab, da UFRJ, revela que Frente Parlamentar da Agropecuária impulsiona anúncios nas redes sociais com conteúdo desinformativo, descontextualizado, distorcido e que minimiza os impactos negativos do setor
O objetivo do lobby digital, dizem os pesquisadores, é influenciar a opinião pública sobre temas como o marco temporal, o projeto de lei sobre agrotóxicos, planos de infraestrutura e a CPI do MST
“A desinformação consiste no uso intencional de informações falsas, descontextualizadas ou distorcidas para manipular a opinião pública, descredibilizar inimigos e/ou introduzir vieses sensacionalistas”, explicam os pesquisadores. Já o greenwashing, dizem, “se caracteriza pelo uso de estratégias narrativas que ocultam práticas antiecológicas ou minimizam/negam seus impactos negativos”.
Segundo o grupo, liderado pelas pesquisadoras Marie Santini e Débora Salles, também se encaixa como greenwashing a divulgação de “atividades ecologicamente corretas em campanhas de publicidade para desviar a atenção daquelas ambientalmente hostis”.
Entre os temas destas publicações estavam assuntos caros à bancada ruralista bem no momento em que eles estavam sendo debatidos no Congresso, como a adoção de um marco temporal para a demarcação de terras indígenas, a CPI do MST e o projeto de lei sobre agrotóxicos.
As 207 publicações analisadas no estudo são anúncios patrocinados, impulsionados para alcançar um público maior. Eles são pagos pelo Instituto Pensar Agropecuária (IPA), organização bancada por associações do setor, que tem “o objetivo de defender os interesses da agricultura e prestar assessoria à Frente Parlamentar da Agropecuária por meio de acordo de cooperação técnica”, como eles mesmos se definem.
Foram gastos pelo menos R$ 77,7 mil nos anúncios, que somaram 19,8 milhões de impressões. Considerando apenas aqueles com conteúdo considerado tóxico, o investimento foi de R$ 31,4 mil, e eles alcançaram 8,2 milhões de impressões.
Destes, a maior parte (39 anúncios, 41%) teve como objetivo criminalizar movimentos sociais, com motes como “quem se organiza é criminoso” e “invasão é crime”. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi um dos principais alvos, com boa parte das publicações patrocinadas em abril do ano passado, como já havia revelado reportagem da Pública. Na época, o movimento social promoveu uma série de ocupações ao redor do país no âmbito do “Abril Vermelho”, campanha que lembra o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 1996.
Segundo os pesquisadores, o conteúdo chegava a estimular discurso de ódio. “A narrativa se baseia no risco de que ‘famílias de agricultores’ tenham suas terras ‘invadidas’, sem fazer distinção entre pequenos produtores e grandes latifundiários”, avaliam no relatório.
A segunda temática mais comum foi a de “negacionismo dos impactos ambientais do agronegócio” (17 dos anúncios considerados “tóxicos”). O foco desses anúncios foi a promoção de projetos de lei que flexibilizam a legislação ambiental, como o de agrotóxicos, e de projetos de infraestrutura como a Ferrogrão, ferrovia que pretende ligar o Mato Grosso ao Pará e é criticada por ambientalistas.
Nessa linha, uma das estratégias de comunicação usadas pela FPA no ano passado foi vender a ideia de que eles estão amparados na ciência e são eles os alvos de negacionismo e desinformação, como no post acima, sobre o projeto dos agrotóxicos.
A análise do Netlab foi focada nas redes da Meta, que fornece alguma transparência sobre quem paga os anúncios, assim como seu alcance e público alvo, o que facilita a investigação. Mas a estratégia da FPA se espalhou por várias outras plataformas, como o Twitter/X, em uma estética moderna, com a utilização de fundos virtuais dinâmicos, de memes e humor.
Publicação da FPA no Twitter afirma que os pesticidas são alvos de negacionismo
Nesse esforço, entra também o que os pesquisadores classificaram como “disputa semântica”, com o uso de tons didáticos e explicativos. Um exemplo frequente, dizem, é o reforço ao uso do termo “pesticidas” em vez de “agrotóxicos”. “O intuito é minimizar a percepção de que são produtos tóxicos à vida humana e à natureza”, aponta o Netlab.
Se ambientalistas chamam o projeto de lei de “PL do Veneno”, o léxico da FPA fala em “modernização” da legislação em busca de um aumento da produção de alimentos “seguros e de qualidade” para o Brasil e o mundo.
De acordo com os pesquisadores, tudo isso acaba funcionando como uma tentativa de inverter uma das acusações mais comuns contra o setor. Há anos, cientistas vêm alertando que a bancada ruralista se vale de “falsas controvérsias” e de estudos encomendados para embasar seus projetos de lei.
Além disso, deputados ruralistas se destacaram nos últimos anos por se alinharem a negacionistas do clima e dos impactos ambientais. Reportagem da Pública revelou no ano passado como o setor impulsiona uma máquina de fake news sobre o aquecimento global.
FATO OU FAKE ÀS AVESSAS
“É a estratégia de acusar o outro daquilo que, na verdade, é você que faz. Eles se valem de afirmações científicas, mas que são falsas, ou pelo menos enviesadas. Acusam os outros de negacionismo, mas negacionismo é selecionar evidências ao seu bel-prazer”, disse Débora Salles, uma das coordenadoras da análise, à reportagem. “Da mesma forma que é greenwashing dizer que o agro não tem impacto socioambiental, negar os riscos que uma obra como a Ferrogrão pode ter, por exemplo”, diz.
“Práticas de greenwashing combinadas com desinformação mostram o agro brasileiro como um exemplo mundial de sustentabilidade e de avanço tecnológico para a preservação ambiental, o que seria motivado por uma das legislações ambientais mais rígidas do mundo”, escrevem os pesquisadores do Netlab.
Dentro dessa estratégia, muitos dos anúncios se valeram da estética “fato ou fake”, comum nos sites de checagem de informação. Assim, fatos bem embasados sobre o setor – como a relação histórica e ainda atual com o desmatamento da Amazônia e do Cerrado e as emissões nacionais de gases de efeito estufa – são taxados de mentira, dando lugar a uma narrativa de que o setor não só é um exemplo, como vítima.
“O agronegócio é apresentado como exemplo mundial de preservação ambiental, e os agrotóxicos, como provedores de alimentos de qualidade. A noção de um ‘agro de verdade’ é associada à sustentabilidade, sugerindo que se dissemina uma ‘ideia mentirosa’ sobre um agro que não preserva o meio ambiente”, relatam os pesquisadores.
Segundo Débora, isso é muito eficiente, porque gera dúvida nos usuários das redes. “Tem um poder de convencimento muito grande. Ninguém vai achar que uma instituição que se imagina séria, uma frente parlamentar, está fazendo uma checagem falsa. Mas no fim das contas é isso: uma checagem negacionista”, afirma Débora.
“TRABALHADORES VÃO PERDER SUAS CASAS”
Outra característica que chamou a atenção dos pesquisadores foi o uso de conteúdo considerado alarmista, com apelo emocional, remetendo ao medo sobre o que pode ocorrer se a agenda do agro não prevalecer.
Um dos exemplos mais marcantes foi a campanha em prol da adoção do marco temporal, como detalhamos em coluna da Pública. Para a bancada ruralista, essa era uma das prioridades no ano passado, sob a alegação de que o estabelecimento de uma prazo para demarcação seria necessário para garantir a “segurança jurídica” do país.
Um dos posts em que a FPA mais investiu dinheiro em 2023 foi justamente sobre isso. Veiculado na última semana de maio, às vésperas da votação do PL 490 na Câmara, um vídeo narra a história da fictícia Ana, uma jovem mulher negra, urbana, que conseguiu, depois de anos de estudo e trabalho, conquistar “o sonho da casa própria” para ser notificada que perderia tudo porque o bairro onde ela mora, no meio de uma cidade grande, tinha virado terra indígena. Foram destinados entre R$ 700 e R$ 799 nesse anúncio, que angariou ao menos 100 mil impressões.
FPA estabeleceu conteúdos sobre o marco temporal como prioridade nas redes
INSTRUMENTALIZAÇÃO DA FPA
Considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o marco temporal estabelece a data da promulgação da Constituição de 1988 como data em que os indígenas deveriam estar ocupando suas terras para que elas sejam demarcadas. Para indígenas e organizações de defesa de direitos dos povos tradicionais, o marco pode afetar a garantia constitucional de áreas de ocupação tradicional das quais povos indígenas foram expulsos, além de poder contribuir para um aumento do desmatamento.
A despeito da decisão do STF, o Congresso aprovou um projeto de lei (PL) instituindo o marco temporal, entre outras medidas, em setembro do ano passado. O PL foi parcialmente vetado por Lula (PT), mas o Congresso derrubou a maior parte dos vetos, retomando a tese. A constitucionalidade da lei está sendo questionada no STF.
Segundo a análise, o público preferencial dos anúncios da FPA foram homens acima de 35 anos que vivem nas regiões Sul e Sudeste do país, especialmente em Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina.
Os porta-vozes mais frequentes nas publicações foram o deputado federal Pedro Lupion (PP/PR), que preside a FPA, e os senadores Zequinha Marinho (Podemos/PA) e Tereza Cristina (PP/MS). “Os anúncios são, prioritariamente, direcionados a seus estados de origem, o que pode indicar a instrumentalização da FPA para influenciar a política local”, apontam os pesquisadores.
A FPA foi procurada pela Pública para se manifestar sobre a análise do Netlab, mas não respondeu até a publicação da reportagem. Se houver resposta, o texto será atualizado.
A canção ficou mais conhecida por ter sido trilha sonora do filme Miami Vice. Música incluída no álbum Revelations (2006). Vocais de Chris Cornell espetacularmente combinada com a cozinha primorosa do Audioslave, Tom Morello à frente.
Grande contratação do PSC para a temporada 2024, Nicolas levou alguns dias para ser apresentado oficialmente pelo clube, mesmo depois que o negócio foi fechado na véspera do Natal de 2023. Havia um imbróglio entre o Ceará embaçando a liberação do atleta, finalmente confirmada ontem com a publicação da rescisão contratual.
O fato é que Nicolas, ídolo da Fiel quando jogou pela primeira vez no Papão, há quase três anos, tem a oportunidade de quebrar uma escrita que insiste em se repetir nos últimos tempos: jogadores de brilhante passagem por um clube nunca reeditam os bons momentos quando retornam.
Foram os casos, lembrados pelo amigo Valmir Rodrigues no programa Cartaz Esportivo da Rádio Clube, ontem, do meia Thiago Luiz (ex-Santos) no PSC e do centroavante Robinho no Remo, no começo deste século.
Robinho Estanislau teve uma performance grandiosa na Copa Havelange de 2000, marcando três gols no clássico com o Paysandu, vencido pelos azulinos por 3 a 2. O hat-trick encantou a torcida e Robinho virou ídolo. Voltou dois anos depois, mas nem lembrou o artilheiro de antes.
Tiago Luís também encantou a torcida alviceleste ao participar da campanha do PSC na Série B 2016, ocasião em que marcou gols decisivos, deu assistências e teve atuações primorosas. Contribuiu para a permanência do Papão na Série B e virou ídolo na Curuzu.
Apelidado de “Messi brasileiro”, Tiago voltou três anos depois e frustrou as expectativas na Série C de 2019. Nem parecia o mesmo jogador. Acabou na reserva e ao final da competição foi liberado. Ainda passou por outros clubes, sem brilho, até largar os gramados para se dedicar ao futevôlei.
Esses exemplos dão a dimensão da tremenda responsabilidade de Nicolas nessa volta ao Papão. Será cobrado com rigor por um torcedor normalmente exigente e que muitas vezes se recusa a entender que a passagem do tempo afeta o rendimento de um atleta.
Nicolas volta mais experiente, o que pode ser um trunfo importante na Série B, competição que exige maturidade e futebol consolidado. Por outro lado, não tem mais a explosão que tinha quando foi um goleador temido no PSC de 2019 (12 gols) e 2020 (19 gols) ou quando vestiu a camisa do Goiás, marcando 29 gols em dois anos e meio.
O ano de 2023 no Ceará não foi tão pródigo em gols. Mudança de ambiente, técnicos diferentes e companheiros não tão afinados como nos anos anteriores comprometeram o desempenho do atacante.
A dúvida que ronda a contratação de Nicolas permanece de pé: o Papão terá de volta o goleador que tanto encantou a torcida ou o artilheiro que não desencantou com a camisa do Ceará, onde só fez três gols.
Na conversa com a imprensa, ontem, Nicolas admitiu que abriu mão de muitas coisas para encarar uma retomada da carreira no PSC, aos 34 anos. Está óbvio que voltou para um lugar onde se sente realmente bem. Que esse clima o ajude a reencontrar o caminho das redes. (Foto: Márcio Melo/Ascom PSC)
Um meia paraense com pinta de titular no Leão
Um dos últimos e mais festejados reforços anunciados pelo Remo, o meia-atacante paraense Marco Antônio teve rápido entrosamento com o grupo que já estava em fase final de formação e participou dos treinos contra Pinheirense e Santa Rosa.
Revelado pela Desportiva durante a Copa São Paulo de 2016, Marco Antônio saiu de Belém sem passar pelos dois grandes da capital. Estourou no Botafogo, na Série B 2021, quando marcou nove gols e foi peça importante na conquista do acesso e do título da temporada.
Com a convicção de que o Remo formou um elenco capaz de garantir uma campanha vitoriosa na Série C, capaz de levar o time ao sonhado acesso. Em 2023, Marco Antônio foi cedido pelo Bahia ao Atlético-GO e depois à Chapecoense, onde teve bom desempenho, ajudando a evitar o rebaixamento.
Por característica, Marco Antônio joga mais na diagonal tanto pela esquerda como na direita, podendo também ser utilizado como armador ofensivo centralizado, como o técnico Enderson Moreira o aproveitou no Botafogo
Para a estreia diante do Canaã, domingo (21), o técnico Ricardo Catalá mantém mistério quanto à escalação, mas é improvável que Marco Antônio fique de fora do time titular. Com Camilo efetivado na meia, o paraense pode ser um meia avançado, dialogando com Ytalo e Jaderson, provável dupla de ataque, ou mesmo como um terceiro atacante fixo pela esquerda.
O certo é que, seja em qualquer posição da equipe, Marco Antônio é seguramente uma das atrações do novo time do Leão.
Sobre Neymar, Jesus chegou depois de Renê Simões
Atento às últimas estripulias do Menino Ney no trepidante circuito das subcelebridades brasileiras, o técnico dele no Al-Hilal, da Arábia Saudita, foi curto e grosso: o atacante está mais interessado nos prazeres da vida do que nos rigores da vida de atleta. Chegou a fazer uma comparação com Cristiano Ronaldo, obviamente desfavorável ao camisa 10 da Seleção Brasileira.
“(Neymar) não gosta de futebol como Cristiano. Prefere as coisas que o mundo oferece. CR7 tem mais paixão pelo futebol”, diagnosticou JJ, ressalvando que o brasileiro é uma pessoa doce, fácil de lidar e tecnicamente muito talentoso.
O mister campeoníssimo pelo Flamengo em 2019 não cometeu nenhuma injustiça, mas pecou pelo atraso. Em 2009, Renê Simões fez uma previsão mais dura, que o tempo se encarregou de confirmar: “O Santos criou um monstro (Neymar), que não cumpre ordens e nem obedece a ninguém”.
(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 19)
A frase soa estranha, mas traduz a mais pura verdade. No momento de definir prioridades para os primeiros meses da temporada, os jogos do Campeonato Carioca previstos para o novo Mangueirão levaram a melhor sobre as vontades e interesses dos clubes que irão disputar o Campeonato Paraense a partir do próximo sábado, 20.
O jogo entre Flamengo e Sampaio Corrêa (RJ), marcado para o dia 31 de janeiro, obrigou a uma reacomodação de datas das partidas da quarta rodada do Parazão, o que inclui o remanejamento do clássico Remo x Tuna, a fim de não conflitar com a partida do Cariocão.
A situação é inédita e precisa ser entendida justamente pelo aspecto inusitado. Nunca antes isso havia acontecido em pleno andamento do certame estadual. Obviamente, a presença do Flamengo tem a ver com a existência do novo Mangueirão, transformado em arena nível Fifa após os investimentos do governo do Estado.
Antes, nenhum grande clube cogitava realizar seus jogos em Belém pela simples razão de que não havia local compatível com as exigências desse tipo de espetáculo. A realização do jogo de estreia da Seleção Brasileira nas Eliminatórias Sul-Americanas, em 2023, com lotação máxima, aguçou o interesse dos clubes do Rio de Janeiro.
Como é de conhecimento geral, a torcida paraense tem especial carinho pelos grandes do Rio, o que torna absolutamente natural a marcação de jogos em Belém. Apesar de ser um negócio financeiramente vantajoso para os clubes, causa atropelos para o calendário estadual e pode vir a acarretar perdas financeiras para a dupla Re-Pa.
É simples: não há dinheiro suficiente para acrescentar despesas ao orçamento do torcedor, que, dividido entre várias opções (mais cinco partidas do certame carioca estão previstas para Belém), vai forçosamente abrir mão de alguns jogos.
Como é bobagem nadar contra a correnteza (entenda-se: a força do poder econômico), o mais inteligente é adaptar-se à nova realidade. Cabe, porém, exibir um mínimo de amor próprio em relação ao nosso campeonato.
Diante do esquartejamento inevitável da competição, o mais lógico seria alinhar a tabela com os clubes do Rio, a fim de evitar constrangimentos como o que se vê agora, quando até o principal clássico da Amazônia terá que conviver na mesma semana de Flamengo x Sampaio genérico.
Não há mais jeito de encaminhar as coisas ordenadamente nesta temporada, mas fica a dica para os próximos anos, quando o interesse pelo mercado paraense tende a crescer ainda mais. Um ajuste de tabelas, com consultas recíprocas, evitaria situações vexatórias como a deste ano.
Toda a responsabilidade nas costas do homem-gol
Ytalo, experiente homem de área, chegou ao Remo com a bagagem respeitável de ter sido o vice-artilheiro da Série B 2023. Marcou 13 gols defendendo o Sampaio Corrêa, clube que acabou rebaixado e que não tinha uma equipe tecnicamente forte para ajudar o artilheiro.
Significa que os gols que Ytalo acumulou no Brasileiro surgiram de muito esforço e qualidade do próprio atacante. Esses aspectos constituíram a razão principal do interesse do Remo pela sua aquisição.
Já adaptado ao clima amazônico e às chuvas de toda tarde, Ytalo participou da pré-temporada azulina e dos jogos preparatórios. Nas entrevistas, deixa claro que tem consciência da responsabilidade que recai sobre suas costas, mas parece tranquilo em relação a isso.
Afinal, os goleadores são sempre os jogadores mais cobrados pela torcida. O Campeonato Paraense pode funcionar como um interessante campo de experiências para os reforços do Remo e para que o centroavante se encaixe no modelo de jogo concebido por Ricardo Catalá.
O Parazão é também um desafio no aspecto climático e das condições dos gramados, principalmente no interior do Estado. Tudo isso pode ficar menos pesado caso Ytalo consiga ter ao seu lado um time realmente estruturado e forte, como lhe foi prometido no ato da contratação.
A meta principal, enfatizada por ele, é a conquista do acesso à Série B, objetivo maior do Remo na temporada. Não pode, porém, descuidar de competições menos vistosas, mas igualmente importantes na visão do torcedor. O Parazão, por exemplo, que o Remo tenta reconquistar depois de ser atropelado pelo Águia no ano passado.
A Copa do Brasil é um desafio com nível limitado de ambição. O Remo tentará novamente chegar à terceira fase e, se possível, avançar um pouco mais. Já a Copa Verde vem mais abaixo na ordem de prioridades, mas também servirá como balizador do potencial do time para encarar a disputa da Série C.
PVC é atração na festa do Troféu Camisa 13
O jornalista Paulo Vinícius Coelho é o convidado especial do evento de lançamento da 32ª edição do Troféu Camisa 13, promovido pela RBATV e coordenado por Gandur Zaire Filho. Figura de destaque da nova geração de comentaristas esportivos no Brasil, PVC é um nome de prestígio pelas inovações que introduziu na análise de futebol no país.
Atento às novidades introduzidas pela cobertura dos jogos das ligas europeias, PVC foi o analista que melhor aprendeu a esgrimir números, ancorado na prodigiosa memória para datas e escalações de times de qualquer década. Pode-se dizer que criou um estilo próprio único, que ainda não encontrou concorrentes.
Na festa do Camisa 13, hoje, às 19h, no auditório da Fiepa, PVC vai discorrer sobre “O Norte do futebol do Brasil”, identificando e descortinando aspectos que podem ajudar a alavancar o futebol praticado no Pará e demais Estados nortistas.
(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 18)
Performance do RHCP no Brit Awards 2007, com John Frusciante ainda na banda antes de sua segunda deserção – voltou ao grupo outra vez, de forma triunfal, em 2019. É dele um dos pontos altos desta execução da sacolejante “Dani California” (música do álbum Stadium Arcadium, de 2006), com um solo final de arrepiar.
No palco, o Red Hot se transfigura. É um dos grupos mais arrebatados, vibrantes e energéticos do rock atual, principalmente pela entrega coletiva, característica presente em quatro décadas de existência. Anthony Kiedis (vocais), Flea (baixo), Frusciante (guitarra) e Chad Smith (bateria) formam um time entrosadíssimo, que nunca decepciona.
A FPF confirmou novas datas para as rodadas 4 e 5 do Campeonato Paraense, em função do jogo do Flamengo em Belém. As mudanças definiram que nenhum jogo do Parazão acontecerá em Belém no dia 31 de janeiro.
Com isso, PSC x Bragantino passou para 7 de fevereiro e Remo x Tuna será no dia 8 de fevereiro. Já o clássico Re-Pa está definido para 4 de fevereiro. O jogo Flamengo x Sampaio Corrêa, pelo Campeonato Carioca, será no dia 31 de janeiro, às 21h30, no estádio Mangueirão.
Culpar o Ministério dos Povos Indígenas e a Funai pela atual situação na Terra Indígena Yanomami revela, no mínimo, uma enorme incompreensão sobre o funcionamento da operação de socorro aos indígenas e de retirada dos invasores garimpeiros tal qual foi desenhada pelo decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 30 de janeiro de 2023.
Os órgãos comandados por Sônia Guajajara, a ministra dos Povos Indígenas, e por Joênia Wapichana, presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), não têm helicópteros, aviões, barcos, armas de fogo, servidores públicos em número suficiente e recursos orçamentários necessários para cumprir a tarefa. Elas também não têm poder de mando sobre as Forças Armadas, a Polícia Federal e a Força Nacional. Estes foram os três setores responsáveis pelo fornecimento de todo o apoio necessário, incluindo a segurança física, às ações das equipes do Ministério da Saúde, do Ibama e da Funai dentro do território indígena.
Hoje inúmeros pontos na terra Yanomami continuam tomados por garimpeiros com o suporte de invasores fortemente armados. Esse é o ponto central do atual cenário. Sem terem segurança, as equipes de saúde não conseguem ocupar o terreno para que possam providenciar o atendimento à saúde nesses pontos críticos.
O ministro da Defesa se chama José Múcio, um ex-deputado integrante do Centrão que em 2022 chamou Bolsonaro de “um democrata”. O ministro da Justiça se chama Flávio Dino, que vai deixar o cargo para se tornar ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). Ultimamente eles têm sido cobrados em público sobre o que está acontecendo na terra Yanomami? Eu não vejo isso acontecer. A propósito do primeiro ano do 8 de Janeiro de 2023, eles deram inúmeras entrevistas à imprensa, mas a palavra Yanomami desapareceu das suas declarações. “Infelizmente para o povo Yanomami, o 8 de Janeiro nunca acabou. Nos dois casos, a extrema direita mais raivosa e bélica participou, incentivou ou organizou as invasões. Ambos contaram com a complacência das forças de segurança.
Há mais de três décadas funcionam dois pelotões especiais de fronteira do Exército dentro da terra Yanomami. Ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro, porém, o Comando Militar da Amazônia assistiu à invasão do seu próprio território. Garimpos funcionaram a poucos quilômetros das instalações militares. Poucas ações pontuais, sem a capacidade de eliminar a infraestrutura milionária do garimpo, só serviram para maquiar o silêncio dos comandantes militares da região. Inúmeras denúncias das lideranças Yanomami caíram no vazio.
O resultado foi catastrófico. Os números relativos ao governo Bolsonaro são “precários, incongruentes, subnotificados e parciais”, mas sabe-se agora que pelo menos 692 crianças Yanomami com até 9 anos de idade morreram de 2019 a 2022.
Semanas após ter tomado posse, Lula ordenou uma operação de retirada dos garimpeiros e o Ministério da Saúde declarou emergência sanitária na terra indígena. De lá para cá, a desnutrição continuou vitimando os Yanomami, embora em menor número. Há hoje uma presença muito mais expressiva das equipes de saúde dentro do território. Os alertas de novos garimpos desabaram. O governo calcula que mais de 80% dos garimpeiros deixaram o território.
Apesar desses avanços, porém, persistem bolsões de garimpo e outros pontos estão sendo abertos com a chegada de novos invasores. Aviões clandestinos cruzam livremente os céus da terra Yanomami. Persiste a fome, que matou 29 Yanomami de janeiro a novembro do ano passado. A malária continua a níveis insuportáveis.
Ao longo de 2023, os leitores da Pública foram informados, em reportagens e textos das nossas newsletters, sobre o papel das Forças Armadas na operação Yanomami. Reticente, frágil, limitado, reativo, ambíguo. Os indígenas pediram ajuda, mas a mão do Exército não foi forte nem o braço foi amigo. Conforme resumiu à TV Globonews a liderança Yanomami Junior Hekurari, que durante o governo Bolsonaro denunciou a invasão garimpeira por meio de mais de 60 ofícios, “o Exército não deu a mão para a população Yanomami”.
Os problemas começaram ainda nos primeiros dias da operação, quando a ordem de bloqueio do espaço aéreo, a cargo da Aeronáutica, foi dada e postergada pelo menos duas vezes, gerando confusão e passando a mensagem de que não era pra valer. Com o tempo, viu-se que o bloqueio nunca foi plenamente eficaz. A Aeronáutica não conseguiu eliminar os vôos clandestinos que abastecem os garimpos clandestinos.
O diretor de Amazônia da Polícia Federal, Humberto Freire, havia dito em entrevista à Pública que um controle “efetivo” – muita atenção para o efetivo – do espaço aéreo era fundamental para o sucesso da operação de retirada dos garimpeiros. A quem cabe o controle? Às Forças Armadas. Tudo era sabido, tudo foi avisado.
Helicópteros e equipes do Ibama foram alvejados a tiros por garimpeiros. Yanomami morreram pelas mãos de garimpeiros, invasores também foram mortos. Nos bastidores, os militares apresentaram mil argumentos, incluindo supostos limites no decreto presidencial de janeiro de 2023 — questiúnculas burocráticas no contexto de uma emergência humanitária.
O que importa é que os militares se revelaram incapazes de instituir a paz dentro do território. Que vergonha para a nona maior economia do mundo ter Forças Armadas que não conseguem lidar com o quê, dois ou três mil garimpeiros? Se os militares brasileiros não são páreos para esse pequeno contingente humano, imagina numa invasão estrangeira. Adeus, Brasil.
Logo surgiram na Pública as primeiras evidências de que os militares rebarbaram inúmeros pedidos da Funai e do MPI no tema do socorro direto à desnutrição. Recusaram-se a corrigir 46 pistas de pouso dentro da terra indígena, sob o argumento de que não era assunto da alçada militar. Essas pistas ajudariam na logística da distribuição de alimentos e no transporte das equipes médicas.
Demandados a ajudar na distribuição de 5,3 mil cestas básicas por meio fluvial para aldeias Yanomami no lado do Amazonas, os militares passaram quase três meses de enrolação até cobrar da Funai um valor de R$ 1,6 milhão por bimestre para fazer esse trabalho. De nada adiantou a presidente do órgão indígena ressaltar, em ofício à Defesa, “o grave quadro de fome e insegurança alimentar enfrentado por essas populações indígenas nos estados de Roraima e Amazonas”.
Vale lembrar que o Orçamento da União para a área de Defesa aprovado para 2023 foi de R$ 124,4 bilhões (78,2% são gastos com pessoal). A mesma reportagem da Pública revelou que deveriam ter sido distribuídas, até junho passado, cerca de 50 mil cestas básicas na terra Yanomami. O Ministério da Defesa, porém, admitiu a entrega de 23 mil cestas, ou seja, menos de 50% do plano original.
Na semana passada a Pública revelou um outro ofício ainda mais estarrecedor enviado ao Ministério da Defesa pelo “número dois” do Ministério dos Povos Indígenas, o advogado indígena Terena Luiz Eloy. Ele informou que, até novembro, cerca de 40 mil cestas básicas estavam paradas à espera da distribuição aos Yanomami. Comida havia, mas não chegava à boca das crianças.
Por fim, a Pública também agora revela que as Forças Armadas decidiram fechar unilateralmente um posto de suprimento de combustíveis em uma das áreas mais visadas pelo garimpo, a de Palimiú. Em nota, a Defesa disse que o apoio logístico “empregado pelas Forças Armadas se deu de forma emergencial”. O verbo é no passado. Mas a emergência acabou? Claro que não.
São pelo menos cinco os momentos em que os militares falharam: a) deficiente controle do espaço aéreo; b) não distribuição das cestas nas aldeias do lado do Amazonas; c) não correção das pistas de pouso; d) nenhuma reação ao fato de equipes do Ibama e indígenas terem sido alvejados a tiros; e) fechamento do posto de suprimento e declaração de que seu papel na operação acabou.
Lá no começo da operação Yanomami, em fevereiro de 2023, José Múcio disse que havia uma preocupação de não “prejudicar inocentes” e que há garimpeiros que “trabalham pelo seu sustento”. Mas traficantes de crack podem dizer que “trabalham para seu sustento”. Assaltantes de banco também podem dizer que “trabalham para seu sustento”. A lógica de Múcio é que alguns crimes — exatamente, que coincidência, os crimes que atingem os povos indígenas e a Amazônia — podem ser mais tolerados do que outros. Só no ano passado, enquanto Múcio estava preocupado com os garimpeiros inocentes, morreram de desnutrição 29 Yanomami.
Não há descrição melhor para definir o que aconteceu ao longo de 2023 que não seja uma sabotagem de militares contra a autoridade presidencial de Lula. A ordem contida no decreto de janeiro de 2023 não foi nem está sendo seguida. Em 7 de fevereiro de 2023, esta newsletter foi inaugurada exatamente com o tema Yanomami. Intitulada “Operação Yanomami é termômetro do respeito dos militares à autoridade de Lula”, escrevi que as Forças Armadas teriam a oportunidade de “mostrar sua verdadeira cara e expor em atos se apreciam, se condenam ou se toleram o genocídio Yanomami”. A infeliz resposta chegou.
Rubens Valente rubensvalente@apublica.org Colunista da Agência Pública Quer compartilhar esse texto? Ele será publicado em nosso site amanhã. Compartilhe nas redes sociais e envie para seus grupos! Esse é um conteúdo exclusivo da Agência Pública, a republicação em outros sites não é permitida.
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Izzy Stradlin, craque da guitarra, canta esta joia mui subestimada da discografia do Guns. Raramente, Axl Rose permitia essa inversão – quase sempre Stradlin fazia a voz de apoio. Alma, coração e co-fundador do GNR, o guitarrista exerceu papel fundamental na banda nos primeiros anos, principalmente em Appetite for Destruction (1987) e o duplo Use Your Illusion II (1991), mas acabou pulando fora no auge do sucesso devido a tretas com Axl. A fase mais afiada e criativa do grupo tem tudo a ver com a presença de Izzy, que hoje faz interessante carreira solo, à frente da Ju Ju Hounds.
Abaixo, participação especial no show de 2012 do Guns em Las Vegas.
“De forma envergonhada, este veículo (Estadão) ultrapassa todos os limites e insinua nulidades processuais. O que busca? Ataca a Polícia Federal com que intenção? Defender os assassinos de Marielle? Ninguém ficará impune”.
Ricardo Capelli, secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública
Consciência Cristã convidou o pastor evangélico Douglas Wilson, conhecido por seu apoio à escravidão, para palestrar na Paraíba
Por Ronilso Pacheco – Intercept_Brasil
Os organizadores do congresso mais importante do campo evangélico calvinista, a Consciência Cristã, têm se gabado de trazer esse ano ao Brasil um defensor contumaz da ideia de que a Bíblia autoriza a escravidão: o pastor americano Douglas Wilson (foto acima). Líder da cada vez mais influente Igreja de Cristo, ele escreveu dois livros que buscam “tirar o estigma” do sistema escravista do sul dos Estados Unidos.
A tradição calvinista é uma linha do segmento evangélico guiada pelos ensinamentos de João Calvino, um dos nomes mais importantes da Reforma Protestante. Disputado por teólogos de diversas tendências, Calvino refletiu teologicamente sobre estado e política, governo e sociedade.
A Consciência Cristã acontecerá em Campina Grande, na Paraíba, no próximo mês, já que ela é realizada no período de carnaval. O evento é organizado pela Visão Nacional para a Consciência Cristã, associação conservadora liderada por diversas igrejas evangélicas.
No congresso, estão frequentemente os maiores nomes da direita evangélica calvinista, como os pastores Augustus Nicodemus, considerado uma espécie de “papa” entre os presbiterianos conservadores, e Franklin Ferreira, de posições mais agressivas contra o campo progressista e teólogos liberais.
Embora haja muitos palestrantes considerados moderados e não alinhados com o fundamentalismo, não se espera do congresso nada próximo de uma teologia progressista, defensora dos direitos humanos ou do diálogo interreligioso. Com a vinda de Douglas Wilson, porém, o congresso cruzará uma linha inaceitável – a da defesa aberta da naturalização da escravidão.
Wilson é um dos teólogos fundamentalistas mais reconhecidos da atualidade e exerce grande influência entre os conservadores reformados brasileiros. É, também, um dos principais nomes do nacionalismo cristão, fenômeno considerado por muitos especialistas como a maior ameaça à democracia dos Estados Unidos hoje – principalmente após a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2022.
O convite feito a Wilson, portanto, levanta muitas questões a serem consideradas no contexto brasileiro, algumas das quais vou explicar a vocês neste texto.
WILSON: ESCRAVIDÃO DARIA CERTO SE SEGUISSE PRINCÍPIOS BÍBLICOS
Na década de 1960, como reação contra o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, uma nova geração de teólogos ultraconservadores retomou e atualizou o pensamento do pastor calvinista Robert L. Dabney, capelão de um general confederado durante a Guerra Civil.
Dabney via os negros como uma “raça moralmente inferior”, uma “mácula sórdida e alienígena” marcada por “mentira, roubo, embriaguez, preguiça, desperdício”. Nas palavras dele, “uma diferença insuperável de raça, feita por Deus e não pelo homem, torna claramente impossível para um homem negro ensinar e governar os cristãos brancos”.
Entre os teólogos que recuperaram seu pensamento está Rousas Rushdoony, que publicou em 1973 “Institutes of Biblical Law”, livro que deu as bases para a fundamentação teológica de uma sociedade “reconstruída” segundo o Antigo Testamento, com classes com direitos diferentes. Nele, Rushdoony opôs-se ao casamento interracial e atacou o igualitarismo.
Douglas Wilson é da geração de teólogos conservadores imediatamente posterior a esse movimento e um dos mais aguerridos defensores públicos da justificação bíblica para escravidão.
Ele trabalhou pelo revisionismo histórico sobre o legado “positivo” da escravidão e sustenta a visão de que, se o sistema escravista do Sul tivesse sido fiel aos princípios bíblicos, teria funcionado harmoniosamente, ou desaparecido “pacificamente” com o tempo.
Wilson chega a dizer que a vitória dos abolicionistas impediu, por exemplo, que africanos escravizados pudessem ir para lugares como o estado da Virgínia, onde ele acreditava que havia maiores condições de encontrarem “mestres piedosos”. Com isso, em suas palavras, “eles foram levados para lugares como o Haiti e Brasil, onde o tratamento dos escravos era simplesmente horrendo”.
A despeito de toda a densidade de documentos, dados e relatos sobre o período da escravidão, Wilson insiste na ideia de que os escravizados tinham uma dieta alimentar superior à de um cidadão americano médio hoje.
Além disso, ainda segundo Wilson, seguindo a compreensão do pastor confederado Dabney, os maus tratos sofridos por alguns escravizados – como as chibatatadas, os estupros, açoites, enforcamento, e outros tipos de humilhação e tortura – “foram raros e pouco frequentes”.
Grupos de supremacistas brancos fizeram uma marcha de “orgulho confederado”, convocada pelo presidente do movimento de extrema direita neoconfederado Liga do Sul, Michael Hill, no seguinte tweet: “Se quiser defender a civilização do Sul e do Ocidente dos judeus e dos seus aliados de pele escura, esteja em Charlottesville no dia 12 de agosto”.
Trump se recusou a reprovar a marcha de supremacistas brancos e afirmou que “havia culpa dos dois lados”, sendo fortemente criticado. Wilson, então, publicou a carta “Em louvor ao nosso presidente”, defendendo Trump e afirmando categoricamente: “Eu igualo o Black Lives Matter à Ku Klux Klan”.
NACIONALISMO CRISTÃO AMEAÇA DEMOCRACIA NOS EUA E AQUI
Além de defender a escravidão, Douglas Wilson ainda se identifica assumidamente com o nacionalismo cristão nos Estados Unidos. A ideia de uma cooptação total da ordem social por um cristianismo fundamentalista que deve orientar a sociedade política, moral, religiosa e culturalmente se tornou um risco político antidemocrático crescente.
Essa ideologia de extrema direita se vale de uma gramática religiosa para justificar sua visão de mundo e projeto de poder; uma mistura explosiva do radicalismo cristão com novos movimentos de supremacia branca e saudosistas do Sul confederado escravista.
Mas, segundo Wilson postou no Twitter, “o nacionalismo cristão é uma resposta cristã, baseada na Bíblia, à loucura dos nossos tempos”. Por isso, “os cristãos devem, portanto, desejar que as escolhas morais da sociedade a que pertencem sejam fundamentadas na vontade do Deus verdadeiro, e não na vontade dos ídolos”.
Aqui, não cabe nenhuma ilusão ou visão de um evangelho “genuíno”. O “Deus verdadeiro” é o eufemismo escolhido para um projeto político que não aceita que qualquer outra orientação ideológica, mesmo cristã, paute a sociedade.
Nenhuma outra religiosidade deve ter parte na construção e estruturação dos valores morais e culturais. Nessa guerra, portanto, os “ídolos” são todos os outros, inclusive a própria democracia.
EXTREMA DIREITA EVANGÉLICA BRASILEIRA DOBRA APOSTA
A escolha de Douglas Wilson para ser o principal palestrante da Consciência Cristã não foi recebida com festa por todos. Mesmo entre evangélicos conservadores nos Estados Unidos, ele não é uma unanimidade e chega a ser considerado um líder polêmico.
A pergunta que fica, então, é: por que a Consciência Cristã escolhe como convidado essa figura nesse momento político tenso tanto aqui quanto nos Estados Unidos?
Lá, Trump ganha força enquanto a extrema direita evangélica se convence de que ele é ideal para guiar o país na “guerra cultural” contra a esquerda e movimentos antirracistas. Aqui, com a vinda de Wilson, a nossa direita religiosa mostra estar em perfeita sincronia com a americana.
Veremos em novembro se essa força se sustentará – e, nos meses e anos seguintes, como repercutirá por aqui.