A frase do dia

“Políticos bolsonaristas estão convocando manifestação contra a indicação do Flávio Dino ao STF. Eles nunca fizeram manifestação contra a pobreza, contra a miséria, contra o desemprego, contra a falta de vacina, contra o desmatamento. Hipocrisia é a maior manifestação do bolsonarismo”.

Pedro Ronchi, geógrafo

David Gilmour e a música do Pink Floyd preferida para tocar ao vivo

O Pink Floyd possui em seu catálogo algumas das mais conhecidas e adoradas canções da música popular. Com álbuns como “The Dark Side of The Moon”(1973), “Wish You Were Here” (1975) e “The Wall” (1979), o quarteto acumulou tantos clássicos que não cabem numa única coletânea.

Guitarrista da banda desde 1968, David Gilmour já tocou praticamente todos esses clássicos no palco. E, conforme publicado pela Far Out Magazine, ele revelou qual era sua música preferida de tocar ao vivo:

“‘Echoes’, eu diria. Era incrivelmente divertida de tocar, principalmente em minha última turnê solo, e na turnê solo de 2006, com Rick Wright [tecladista do Pink Floyd]. “Eu sempre vi aquela música como um dueto entre mim e ele. Aquilo era incrível, e ela não poderia — e nem deveria — ser tocada novamente agora que ele está morto.

Lançada em 1971 no “Meddle”, “Echoes” foi escrita por Roger Waters, mas brilha por seu instrumental, que se desenvolve pacientemente ao longo de seus mais de 20 minutos. Nesse tempo, o ouvinte embarca numa viagem por belas e impressionantes paisagens sonoras. Confira abaixo:

Escrever é aprender a morrer

Transcrição, na íntegra, da matéria de Bruna Meneguetti para a revista Quatro cinco um, a revista dos livros (que pode ser lida aqui, caso você prefira).

“Em entrevista, o psicanalista Christian Dunker ajuda a entender por que autores contemporâneos elaboram o luto por meio da escrita.

A autora espanhola Rosa Montero diz, em A ridícula ideia de nunca mais te ver, que a primeira coisa que a dor arranca é a palavra. Já a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em Notas sobre o luto, afirma que esse sentimento derrota as palavras. Mas, se a dor e o luto arrancam e derrotam a palavra, por que tantos autores recorreram a ela para falar sobre a morte? Segundo o psicanalista Christian Dunker, isso ocorre porque a escrita pode fazer parte do processo de lidar com a morte.

Dunker, inclusive, escreveu seu recém-lançado Lutos finitos e infinitos, sob o impacto da morte de sua mãe. Em entrevista à Quatro Cinco Um, ele explica as seis etapas do luto, tomando como base Freud e Lacan para trazer seus próprios adendos e reflexões sobre o tema. Um deles é que não há regra geral. De acordo com o ele, a morte é algo “impossível de ser vivido”, pois é vivenciada através do outro, sendo um acontecimento que costuma se refletir no incompreensível e no indizível, como mostra uma safra de lançamentos que usam a escrita para elaborar o luto, entre os quais Holograma, de Mariana Godoy; Parte de mim, de Daniele Tavares; e As pequenas chances, de Natalia Timerman.

Ausência

Dunker diz que no primeiro dos seis momentos do luto a perda é sentida como ausência, e é comum agir como se a pessoa morta ainda estivesse por perto e fosse retornar a qualquer instante. É o que vemos em Holograma, livro de Mariana Godoy lançado pela Círculo de Poemas, em que o eu-lírico diz:

deve estar querendo alguma coisa 
que só eu sei onde está […]
grito já vou
e lembro que o enterro dele
foi ontem.

Godoy elabora o luto por seu pai, morto há onze anos, a partir da poesia. A poeta Daniele Tavares faz algo parecido em Parte de mim (Quelônio):

Não gritei, não chorei, não tive nenhuma reação. 
Eu só queria ver você. […]/ 
Fazemos cerimônia para a morte, como se ela pudesse 
nos fazer mais mal do que já fez.

O livro é uma espécie de conversa com a filha Manoela, que morreu há oito anos, e entrelaça relatos sobre a dor da perda, lembranças boas e ruins e trechos do diário da filha.

Perda de si

Para Dunker, o segundo estágio do luto é o da devastação sobre o eu, em que a pessoa não sabe mais quem é, sente-se outra, como se uma parte de si tivesse morrido. Em As pequenas chances (Todavia), Natalia Timerman elabora a morte do pai e questiona:

E o que é o luto, senão essa repetição necessária, esse repisar, e o que é a vida, senão a mesma coisa. Esse infinito perder, perder-se de si, buscar-se.

Essa perda de si é associada a uma loucura provisória, em que a morte é sentida como um abandono, é um tema antigo e caro à literatura. Até Hamlet de Shakespeare sofreu delírios depois da morte do pai.

Angústia

Já a terceira fase, ainda segundo Dunker, seria a da angústia. Nela, a morte do outro não é mais sentida como uma ofensa ao amor de quem ficou. “Muitos literatos exploraram essa dimensão às vezes melancólica do luto, o sentimento de que ele se torna infinito porque é incurável, a gente não vai se curar da morte”, explica o autor. Esse estágio aparece na literatura a partir do retorno dos mortos (como em Frankenstein ou nas figuras de zumbis e fantasmas) e naqueles que perdem a potência da morte (como os vampiros). Associações como essas, entre as narrativas escritas e a psicanálise, são comuns ao longo de Lutos finitos e infinitos

Encadeamento literário

Para Dunker, a literatura seria “uma espécie de condição para o aparecimento da psicanálise”. Não à toa, na quarta e quinta etapas do luto, essa relação se estreita ainda mais. O quarto momento “é quando o seu luto se encadeia com outros que você já viveu e com o de outras pessoas. Você parou de ser agredido, não está mais em angústia, mas está às voltas com viver com essa notícia”, diz.

Segundo Dunker, a escrita pode fazer parte do processo de lidar com a morte

Podemos pensar a literatura como um instrumento para o encadeamento dos lutos — uma forma de conectar o luto de uma pessoa aos das demais. “Quando, depois de alguns meses, encontro um livro da Adélia Prado que diz ‘Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei’, acho que ali tenho a noção de que meu pai morreu”, diz Godoy em conversa com a Quatro Cinco Um. “A literatura mostra que tem algo não encaixado, consegue traduzir uma coisa que é tão difícil de se dizer”.

O luto solitário

Em Lutos finitos e infinitos, Dunker cita uma pesquisa que sugere que o luto entre os brasileiros é vivido cada vez de forma mais envergonhada e individualizada, movimento comum em outros países. Antigamente a morte era pública, o luto era “parte visível dos nossos contratos sociais”. Havia ritos fúnebres que mobilizavam o espaço coletivo, funerais dentro das casas e narrativas orais. Essas ações mudaram com a modernidade, quando a morte passa a se concentrar em hospitais, os enterros se tornam privados e as narrativas religiosas ou orais sobre a morte sofrem um declínio.

“Hoje, a gente fala pouco e temos uma certa vergonha do processo de luto. Ele é cada vez mais um assunto profundamente individual, solitário e próprio”, diz Dunker. Uma hipótese que ele traz no livro é a de que as pessoas procuraram novas formas sociais de falar sobre o luto, que atendessem a essa “condição de privatização” dos tempos modernos. “A leitura é uma experiência de intimidade, então, na medida em que há um declínio da oralidade ligada à morte, começa a haver uma tematização maior do luto em estrutura de escrita”, diz Dunker.

‘A literatura brasileira contemporânea é sobre isso: lutos abertos e não reconhecidos’, diz Dunker

Isso explicaria a existência contemporânea de tantas obras envoltas nessa temática. Ainda mais durante ou após a pandemia, período em que não havia a possibilidade de cumprir os rituais fúnebres usuais e o luto se tornou ainda mais solitário. Pessoas que sentiram a necessidade de falar sobre suas experiências recorreram à escrita. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Daniele Tavares diz ter vivenciado esse isolamento: “Eu me senti muito sozinha no meu luto, porque a dor é muito solitária. E tem uma pressão da sociedade, que diz: ‘Nossa, você ainda está chorando?’. Esse livro foi uma forma que encontrei de sobreviver”.

Ao longo de seu livro Dunker também analisa como o processo de escrita é contemporâneo ao trabalho de luto. “Não quer dizer que quando você termina o luto, você termina o livro. Mas é uma aproximação possível. Muitos dizem que depois que fizeram o livro puderam se separar e se integrar a essa pessoa que perderam.”

Reparação estética

O quinto e penúltimo momento tem a ver com isso — é o da reparação estética, “é aquele período em que você se pega escrevendo, esculpindo, pintando ou criando sonhos. Em uma outra disposição de humor ou apreciando e lendo uma obra”, diz Dunker. Godoy se integrou ao pai por meio do trabalho com a memória e a invenção. “Ficcionalizar algumas coisas é uma forma de mudar o que aconteceu, de deixar a cena mais bonita. É quase como dar uma nova chance ao que ocorreu”, diz. Tavares faz algo parecido, encontrando na escrita uma forma de registrar o que foi bom: “Consigo chegar na imagem da minha filha na praia, correndo feliz. Cheguei à conclusão de que seria um livro de celebração à vida dela”.

Para Dunker, a conclusão do luto não é o apagamento da memória, mas a possibilidade de ela seguir com você “sem te espicaçar por dentro”. “Ela passa a fazer parte do seu patrimônio experiencial, simbólico, e por isso todo luto é finito e infinito”, diz o psicanalista. O luto concluído pode tratar da morte como algo belo — o que as artes fazem bem.

‘Meu luto não vai servir ao outro se não for esteticamente pensado’, diz a escritora Mariana Godoy

O investimento de editoras nessas obras indica que há demanda por elas, o que Dunker vê como natural uma vez que a morte está em todos os âmbitos da vida: “É a perda tanto de pessoas queridas quanto de amores que acabaram ou que nunca aconteceram, também é o trabalho que se tem para lidar com mudanças de fases da vida, ou ainda a elaboração de perdas de trabalho, saúde e, diz o Freud, de uma nação”.

A partir da leitura, o luto se torna coletivo, e pode-se refletir sobre mortes anteriores ou vindouras. O compromisso de transmissão — algo que tanto a psicanálise como a literatura trazem, segundo Dunker — impulsiona a escrita. Mas há também um compromisso com a arte — Tavares falou que só faria sentido publicar o livro se houvesse “um valor literário”; Godoy disse que não queria que sua narrativa parecesse terapia, mas literatura: “É um pouco sobre tirar de mim uma coisa que vai servir ao outro. Meu luto não vai servir ao outro se não for esteticamente pensado”.

Compromisso de transmissão

O compromisso de transmissão está especialmente conectado à sexta e última etapa do luto, que o Dunker descreve como  o momento da libertação. “Quando você se apropria desse desejo [deixado pela pessoa que morreu], ocorrem efeitos de alegria, de liberdade, de reconciliação, de refazimento do pacto entre os que se foram e os que estão aqui, e uma implicação com os que virão”, explica. Esse pacto, ele chama de “trato dos viventes” — um acordo entre os que se foram, os que estão vivos e os que ainda não nasceram. Em seu livro, Dunker escreve:

Isso significa entender o luto como um processo de transição pelo qual os vivos reinstalam e dão lugar simbólico aos que se foram, recriando, continuamente, a cultura. Os viventes colocam-se também como intermediários entre os que nasceram e morreram e os que ainda não nasceram, perspectivando futuros possíveis.

Segundo o psicanalista, o luto que “não vai para frente” gera formas patológicas de viver: “Não é custo grátis. O luto tem uma força indutiva de agressividade, de violência, de sofrimento, de sintomas sociais e individuais”, explica. Para o autor, isso é o que ocorreu historicamente no Brasil — podemos olhar para o luto “como afeto fundador” e enxergar o país a partir de uma população de enlutados, devido à violência presente em nossa história (como a escravidão, o descaso com os povos indígenas, a ditadura militar, a invasão em comunidades etc.). 

“Eu entendo que a literatura brasileira contemporânea é basicamente sobre isso: lutos abertos, não reconhecidos, e que reaparecem em patologias”, diz Dunker. A literatura ajuda a encarar lutos, para então concluí-los. Se escrever é aprender a morrer, como dizia Montaigne, então que a literatura continue nos ensinando.

Rock na madrugada – Rolling Stones, “Bite My Head Off”

Uma celebração, um encontro histórico. “Bite My Head Off” (algo como “morda a minha cabeça”) já é a faixa mais icônica do novo álbum novo dos Rolling Stones, “Hackney Diamonds”. Além de demonstrar como se faz rock’n’roll, com fúria e folia, pela primeira vez um beatle entrou em estúdio para tocar com o grupo de Mick e Keith. Sir Paul McCartney, ora em excursão no Brasil, é quem responde pelo contrabaixo nesta canção, com a competência habitual. E a farra deve ter sido boa, vide o resultado final.

O fato reforça o revival sessentista com Stones e Beatles encabeçando as paradas de sucesso do mundo inteiro, de novo, em meio a uma crise de criatividade sem precedentes na história da música pop. Muita aguardada, a canção foi lançada oficialmente nesta semana, seguindo a estratégia da banda de apresentar uma faixa a cada três semanas.


Israel tenta silenciar e confundir a imprensa estrangeira no conflito de Gaza

Bombardeio de edifícios que abrigavam sucursais no território palestino se soma a um balão de ensaio sobre uma “operação terrestre” que nunca existiu. EUA pedem informações adicionais sobre motivação de ataque

Por Juan Carlos Sanz, no El País

A comunicação da mídia internacional com as autoridades civis e militares de Israel nunca foi simples. Mas, quando um conflito como o de Gaza, com dezenas de vítimas civis, ameaça abalar a imagem do Estado judaico, essa relação se torna ainda mais árdua. Ao bombardeio e destruição de um edifício na cidade de Gaza que até sábado abrigava as sucursais de veículos de imprensa de alcance global, como a agência norte-americana Associated Press e a emissora árabe Al Jazeera, soma-se o balão de ensaio lançado por um porta-voz militar israelense que, na madrugada de quinta para sexta-feira, tentou confundir correspondentes estrangeiros sobre uma inexistente “operação terrestre” dentro do território palestino.

A Federação da Imprensa Estrangeira (FPA, na sigla em inglês) em Jerusalém advertiu em nota que a “destruição de escritórios dos meios de informação suscita questionamentos sobre se Israel trata de interferir na liberdade de imprensa”. “Israel não apresentou provas de que o edifício [atacado] estava sendo utilizado pelo Hamas”, observa a FPA, ao tempo em que exige uma investigação oficial, em alusão ao argumento dos porta-vozes militares para justificar a destruição do edifício Al Jala, em Gaza. Assim como ocorreu na chamada Operação Chumbo Fundido (2008-2009), as autoridades israelenses não permitem atualmente o acesso de jornalistas estrangeiros ao enclave litorâneo. Os repórteres palestinos que colaboram com a mídia internacional são os únicos olhos com os quais o planeta conta hoje para conhecer a versão de quem está no terreno na Faixa de Gaza.

A versão oficial das Forças Armadas de Israel é transmitida pelo Gabinete do Porta-Voz do Exército, uma azeitada máquina com dezenas de profissionais da informação e centenas de soldados a seu serviço. A imprensa estrangeira também ficou indignada com a suspeita de que esse órgão militar manipulou os correspondentes para tentar armar uma arapuca contra o braço armado do Hamas.

Nesta segunda-feira, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, afirmou em Copenhague, onde está em visita oficial, que não viu evidências da justificativa usada por Israel para bombardear o edifício. “Os EUA solicitaram informações adicionais” de Israel sobre a justificativa do ataque, declarou, evitando se pronunciar sobre a legitimidade da ação de destruição do prédio.

Pouco depois de 0h de sexta-feira (18h de quinta em Brasília), o Exército informou aos correspondentes estrangeiros sobre o início de uma “uma operação aérea e terrestre” em grande escala contra Gaza. Questionado sobre o alcance dessa ofensiva, o tenente-coronel Jonathan Conricus, porta-voz para a imprensa internacional, declarou em inglês que as forças israelenses haviam “penetrado no território de Gaza”. Os jornalistas estrangeiros se apressaram em modificar suas reportagens para noticiar a que seria a quarta invasão israelense na Faixa de Gaza em 12 anos.

Já a imprensa israelense, que recebe em hebraico a informação das Forças Armadas, não teve conhecimento da suposta incursão terrestre. Quando esses veículos tentaram confirmar uma notícia que já circulava nas redes sociais, os porta-vozes em idioma hebraico negaram que a fronteira tivesse sido ultrapassada e esclareceram que a ofensiva terrestre consistia em disparos de artilharia e de carros de combate.

Duas horas depois da primeira informação, o Exército se corrigiu e negou aos jornalistas estrangeiros que tropas e tanques tivessem penetrado em Gaza, o que obrigou a alterar as edições impressas e digitais.

Em uma entrevista coletiva telemática, às 8h (hora local), o tenente-coronel Conricus se desculpou pelo “mal-entendido” e assumiu toda a responsabilidade. Àquela altura, os canais 12 e 13, principais emissoras privadas de TV, já tinham obtido relatórios confidenciais mostrando que o Exército tramou uma estratégia para tirar os combatentes do Hamas dos seus esconderijos, ao acreditarem que as tropas israelenses estavam invadindo seu território – um boato que seria espalhado com a ajuda involuntária da mídia internacional. Entre a primeira informação militar e a retificação, ocorreram mais de 550 episódios de disparos da artilharia e de carros de combate junto à fronteira, além de bombardeios maciços com 160 aviões militares contra mais de 150 posições das forças palestinas em Gaza.

Tanques do Exército de Israel neste domingo perto de Sderot.
Tanques do Exército de Israel neste domingo perto de Sderot. (EUROPA PRESS)

Em sua resposta ao pedido de explicações da FPA, as Forças Armadas qualificaram de “conspiratórias” as informações que apontam uma manipulação da imprensa “para obter uma vitória tática”, segundo uma carta do chefe do Gabinete do Porta-Voz Militar, general Hidai Zilberman. O texto qualifica de “deslize” a informação sobre uma ofensiva terrestre que nunca existiu.

Enquanto isso, em nota divulgada em Nova York, a agência de notícias Associated Press (AP) mostrou no sábado sua consternação pela demolição do edifício que abrigava sua sede na cidade de Gaza, onde se encontravam 12 jornalistas contratados e colaboradores que receberam a ordem de deixar o prédio de 12 andares. “O mundo saberá menos sobre o que acontece em Gaza a partir de hoje”, lamentou o presidente da AP, Gary Pruitt, informa María Antonia Sánchez-Vallejo. Os jornalistas e colaboradores da agência “felizmente puderam deixar [o prédio] a tempo”, mas “o fato é especialmente inquietante”, acrescentou Pruitt.

Só um elevador funcionava no edifício Al Jala, com 60 apartamentos residenciais e vários escritórios. A jornalista palestina Juma al Sayed, que colabora com rede catariana Al Jazeera, contou no ar como se organizou a desocupação, em apenas 10 ou 15 minutos. “Deixamos o elevador para as crianças e os idosos e saímos correndo escada abaixo”, recordou a repórter. “Quem pôde levou uma criança para ser retirada, e eu mesma ajudei duas”, relatou. “Deem-nos 15 minutos, temos que salvar o equipamento, as câmeras”, havia suplicado outro jornalista ao oficial de inteligência israelense que alertava por telefone para que todos saíssem imediatamente, relata o site do canal. “Vocês não têm nem 10 minutos, saiam já”, ordenou laconicamente o militar israelense.

O canal, que definiu o ataque como um “claro ato para impedir a sagrada tarefa de informar ao mundo” sobre o que acontece na Faixa de Gaza, disse esperar que o Governo israelense “seja responsabilizado por suas ações”.

BOMBAS CONTRA REDAÇÕES E JORNALISTAS FERIDOS

O ataque à sede da agência de notícias norte-americana Associated Press (AP) e ao canal de televisão catariano Al Jazeera não é o único a ter atingido os veículos de comunicação no conflito entre Israel e os palestinos, como recordou em nota na sexta-feira passada a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A organização denunciou a destruição de 21 sucursais e redações e um balanço de pelo menos 15 jornalistas palestinos feridos desde 7 de maio, incluindo os confrontos de Jerusalém Oriental e os bombardeios na Faixa de Gaza. “Depois que o Hamas disparou foguetes contra Jerusalém, os ataques aéreos israelenses na madrugada de 12 de maio destruíram o edifício Al Jawhara, um prédio de 10 andares na cidade da Gaza que abrigava 14 veículos de comunicação, entre eles o jornal Palestine Daily News e o canal de televisão pan-árabe Al Araby”, informou a RSF. Também foi afetado o escritório do correspondente local da agência de notícias espanhola Efe. Naquele mesmo dia, um ataque aéreo israelense destruiu o Al Shorouk, um edifício de 14 andares em Gaza onde operavam sete veículos de comunicação, entre eles, a emissora de rádio e televisão Al Aqsa, acrescentou a RSF.

Remo anuncia contratação do vice-artilheiro da Série B

Acabou o mistério quanto ao centroavante Ytalo, ex-Sampaio Corrêa. A diretoria do Remo anunciou oficialmente nesta sexta-feira, nas redes sociais, a contratação do jogador. No clube maranhense, ele teve uma excelente temporada, marcando 13 gols na Série B e se tornando o vice-artilheiro – um a menos que o goleador Gustavo Coutinho,  O negócio vazou anteontem quando o presidente do Sampaio, Sérgio Frota, revelou que o goleador não continuaria no clube porque estava negociando com o Remo e tinha recebido uma proposta considerada alta, em torno de R$ 100 mil.

Ytalo teve passagem por vários clubes brasileiros e do exterior. Jogou no Internacional-RS, Atlético-PR, São Paulo, Red Bull Bragantino, Bahia e Marítimo de Portugal. No Bragantino, ele viveu seu melhor momento na carreira, com 50 gols em 158 partidas disputadas.

Aos 35 anos, Ytalo chega avalizado pelo técnico Ricardo Catalá, que está em fase de montagem do elenco azulino para a próxima temporada. Nos próximos dias, o Leão deve anunciar novos nomes.

Com requintes de sadismo

POR GERSON NOGUEIRA

Nenhum outro torcedor no Brasil hoje deseja tanto que o ano esportivo acabe logo do que o aficionado do Botafogo. Por razões óbvias. Não dá para manter a resiliência depois da tenebrosa campanha do time nesta Série A. Não bastava tomar viradas históricas para Palmeiras e Grêmio. Era preciso ir além: emendar uma sequência de três jogos tomando gols nos minutos finais – Bragantino, Santos e Coritiba.

Já há quem defenda que os investigadores da Operação Penalidade Máxima – que apura os esquemas da máfia das apostas esportivas – dêem uma espiada nos jogos do Botafogo no 2º turno do Brasileiro, tamanha a estranheza de alguns resultados. Prefiro acreditar em pipocada mesmo, talvez a maior de um time na era moderna do futebol brasileiro.

O Botafogo, orgulhoso detentor de recordes em contribuição para a Seleção Brasileira, agora vai acrescentar também à galeria de feitos esse galardão às avessas. Nunca se viu um time tão amarelão, frouxo e anêmico emocionalmente como o atual.

Contra o rebaixado Coritiba, no Couto Pereira, o Botafogo fez um jogo morno, como se estivesse desestimulado em relação aos rumos do campeonato, assim como quem não quer nada. E olha que bastava uma vitória para ficar colado ao líder Palmeiras, aquele que nunca se atrapalha diante de times mais modestos.

Ainda no primeiro tempo, o Botafogo perdeu o meia Eduardo, por expulsão. O árbitro botou um do Coxa para fora também, e tudo voltou ao ponto de equilíbrio. Aos 50 minutos, pênalti para a Estrela Solitária. Pensei: nossa sorte voltou. Tiquinho bateu firme e certo. Aí, no instante seguinte, novo cochilo na marcação e o empate.

Sadismo puro com o torcedor. Até eu, passado na casca do alho quanto às esquisitices do Botafogo, estou espantado com o novo repertório de torturas que o time consegue revelar a cada nova etapa desse interminável Série A.

Vejam vocês que o Botafogo entrou na disputa como um mero coadjuvante, na esperança de fazer uma campanha capaz de evitar o rebaixamento. Sim, depois do pavoroso Campeonato Carioca com Luís Castro no comando, só restava rezar contra um vexame no Brasileiro.

O Botafogo contrariou a lógica e desandou a ganhar de todo mundo. Quando chegou ali pela 15ª rodada, quase convencido de que aquilo era real, comecei a pensar em levar a sério – sempre com um pé atrás, obviamente, como cabe a um botafoguense raiz.

Os amigos e conhecidos vinham com aqueles gestos rasgados de otimismo: ‘Fogão campeão’, ‘ninguém tira essa do Botafogo’, ‘agora é só esperar para botar a faixa’. Ouvia com o sorriso educado de quem quer acreditar, mas com o diabinho interno alertando sempre: “Cuidado, não esquece como é o Botafogo”.

Para agravar o cenário, a mídia começou a badalar nossos astros. E tome musiquinha para saudar o artilheiro Tiquinho Soares, toada cheia de breque para o menino Segovinha. Até Junior Santos ganhou música. Uma festa sem juízo, e muita gente embarcando na onda.  

Veio o returno e a escalada de mudanças no comando antecipava o tombo devastador. A virada, para baixo, foi contra o Flamengo, quando mesmo em fase embalada o Botafogo se deixou derrotar dentro do “tapetinho”. Caía ali a nossa Bastilha particular. Foi o ensaio para as incríveis derrotas para Palmeiras e Grêmio. A partir daí, foi só ladeira abaixo.

O incrível disso tudo é que a ilusão vendida pelo time aos torcedores cobra agora um preço difícil de mensurar. A meninada que aprendeu a torcer pelo Botafogo, num fenômeno de renovação que há muito o clube precisava, não terá motivos para seguir com a Estrela Solitária. O peso da decepção é excessivamente pesado para os infantes.

Se por um lado o campeonato ganhou em emoção nas últimas rodadas, por obra e patacoada do Botafogo, por outro perdeu muito com a reprise de um velho filme. Palmeiras campeão é rotina chata, mais do mesmo. Até nisso o Fogão foi mal: deixou a disputa sem graça no final.

Prometo aos baluartes da coluna: é a última das lamentações pelo ano torturante que a torcida botafoguense foi obrigada a passar. Chega. 

Má campanha faz Brasil despencar no ranking da Fifa

As derrotas nas Eliminatórias Sul-Americanas custaram ao Brasil a perda de duas posições no ranking da Fifa divulgado ontem. A Seleção de Fernando Diniz foi superada por Inglaterra e Bélgica, e agora é a quinta colocada, somando 1784,09 pontos. Os campeões mundiais, que derrotaram o Brasil no Maracanã, seguem na liderança.

Impulsionados pela conquista na Copa do Qatar em 2022 e pela excelente campanha nas Eliminatórias, a Argentina soma 1855,20 pontos, seguida pela França, com 1845,44. Agora o Brasil só terá outra chance de se recuperar no ranking em 2024. Além de amistosos na Europa, a Seleção disputará a Copa América, em junho e julho.

Cartola banido pela Fifa cobra transparência na CBF

Tom Jobim costumava dizer que o Brasil não é para amadores, só para profissionais. O maestro tinha razão. De repente, ressurgem das sombras umas figuras que parecem acreditar em amnésia coletiva. É o caso do ex-presidente da CBF, o paulista Marco Polo Del Nero, que foi banido do futebol por ordem da Fifa desde 2018.

O afastamento deve-se ao envolvimento dele em escândalos de corrupção na CBF, mas Del Nero causou espanto nesta semana ao assinar um artigo no qual questiona os “rumos financeiros” da confederação. Prenhe de indignação, exigiu a saída do atual presidente, Ednaldo Rodrigues.

O mais hilário é que Del Nero garante ter “enorme preocupação” com uma suposta “gestão temerária” da CBF, aproveitando para acusar Ednaldo de ter “gasto R$ 400 milhões” em meio à decadência do futebol nacional. Durma-se com um barulho desses. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 01)