A frase do dia

“Os ministros do @STF_oficial precisam entender que, enquanto Bolsonaro não for preso pelos crimes que cometeu, ele seguirá tentando dar o golpe que falhou nas últimas eleições. A inelegibilidade não basta. Ele segue tramando…”

Cesar Calejon, jornalista e escritor

Munduruku estão cada vez mais cercados pela soja e agrotóxicos

Situação piorou quatro anos depois da primeira reportagem sobre os Munduruku que vivem no Planalto Santareno

Por Leandro Barbosa/Edição: Thiago Domenici – Agência Pública

Cada árvore que cai na terra do povo Munduruku não significa apenas mais uma área da Amazônia sendo desmatada para dar lugar à soja. Para os indígenas, a invasão do agronegócio representa também o adoecimento do corpo e o esgotamento da espiritualidade, ensina o cacique Josenildo dos Santos da Cruz, 37 anos, que habita a Terra Indígena (TI) Munduruku e Apiaká do Planalto Santareno, em Santarém (PA). 

Josenildo recebeu a Agência Pública em 2019 para mostrar os riscos e violências que os indígenas enfrentam na luta para que os sojicultores saiam de seus territórios.

Na ocasião, a reportagem esteve em uma área entre duas glebas públicas federais, a Ituqui e a Concessão de Belterra, onde se localizam ao menos quatro aldeias indígenas, habitadas pelos Munduruku, e três comunidades quilombolas – Murumuru, Murumurutuba e Tiningu. 

Ao revisitar a região agora em 2023, nada mudou – ao contrário, piorou a situação. Os processos demarcatórios seguem sem definição, enquanto fazendas de grãos se expandem sobre territórios tradicionais. Em vez de floresta amazônica, o que se vê são vastos campos de soja.

O cacique está cansado de ver as denúncias feitas pela comunidade indígena serem ignoradas pelos governos estadual e federal. “A gente luta e pede que os órgãos ambientais façam o seu trabalho. Mas quando ligamos na Sema [Secretaria de Meio Ambiente do Pará], quando denunciamos, nada é feito. Parece que há um aparelhamento dentro dos órgãos de fiscalização”, afirma a liderança indígena. Por sua vez, a Sema afirma que a fiscalização em terra indígena é de responsabilidade dos órgãos federais.

  • A situação de indefinição na demarcação das terras vem acirrando os conflitos na região do Planalto Santareno

Degradação

Desde o final da década de 1990, quando a soja entrou no Planalto Santareno, os indígenas têm visto a floresta tombar. Em 2008, os Munduruku reivindicaram a demarcação da TI Munduruku e Apiacá, uma área de 1,7 milhão de hectares que faz parte do território tradicional da etnia. Diante da morosidade do Estado, em 2015 os próprios indígenas demarcaram seu território, mas a Fundação Nacional do Índio (Funai) iniciou os estudos para a demarcação só em 2019, devido a uma intervenção do Ministério Público Federal (MPF) que culminou em um acordo entre o órgão, a Funai e a União. Mas nada mudou nos últimos quatro anos. 

A expectativa de Josenildo era de receber notícias sobre o estudo no final do mês de abril, o que não ocorreu. A Pública solicitou informações à Funai, que afirmou: “O procedimento demarcatório, em todas suas fases, especialmente em sua etapa de estudos, possui grande complexidade, dependendo de uma série de fatores e atores, não sendo possível definir expectativas de prazo”.

Segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), mais de 600 indígenas residem nas quatro aldeias do território autodemarcado, que são: Açaizal, Amparador, Ipaupixuna e São Francisco da Cavada. Na Açaizal, aldeia em que Josenildo vive, localizada a oeste da área definida pela comunidade, é onde ocorre a maior degradação ambiental, devido ao avanço da monocultura. Também é o centro do conflito com os sojeiros.

Em 2015, os próprios indígenas demarcaram seu território

Pública teve acesso a um laudo técnico solicitado pelo MPF ao Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA), da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que mostra o grau de destruição ambiental provocado pela soja. Entre 2018 e 2021, foram identificados mais de 100 hectares com sinais de alteração branda a forte na Açaizal, além de uma possível degradação de nascentes, associada ao processo de mudança de uso do solo. 

O documento “Avanço de Áreas Agrícolas na TI Munduruku do Planalto Santareno desde Início do Processo de Demarcação”, elaborado pelo professor doutor João Paulo de Cortes, constata o avanço do agronegócio para dentro dos limites de autodemarcação da TI. O laudo foi requisitado pelo MPF devido à percepção dos moradores locais da invasão da monocultura no território. Na área apontada com maior índice de degradação, foram identificados ao menos dez imóveis registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) com algum grau de sobreposição com as áreas alteradas identificadas através de imagens de satélite. 

Como apurou a Pública em 2019, na área total da TI, há 101 registros do CAR. A Funai conseguiu o bloqueio integral das glebas públicas onde estão as comunidades indígenas, até que terminem os trabalhos administrativos de demarcação. Ou seja, nenhuma dessas terras pode ser regularizada sem que todas as fases do processo demarcatório sejam cumpridas.

Documento constata o avanço do agronegócio para dentro dos limites de autodemarcação da TI

“O que a gente chama de área degradada é uma mudança da vegetação primária para uma vegetação mais rala e de solo exposto. O avanço é identificado a partir da evolução do uso do solo nas imagens de satélite”, explica Cortes. Segundo o professor, a análise, somada a outros dados sobre o avanço da monocultura no Planalto Santareno, permite observar que famílias que vivem mais próximas da soja têm uma perspectiva pior do que famílias em zonas mais protegidas ou mais afastadas do cultivo. “A monocultura tem esse efeito de desestabilizar as comunidades. Tem uma série de comunidades extintas que a gente observa dentro dessas zonas de monocultura”, afirma o pesquisador.

A fala de Cortes coincide com o relato do cacique Josenildo: “O pessoal que mora próximo à plantação de soja não demora muito tempo ali. Porque não aguenta. Não consegue viver com a quantidade de veneno que entra na sua casa. Nós estamos aqui [na aldeia], porque nós somos fortes e aqui é a nossa terra. É o local onde a gente vive. Onde a gente nasceu. E onde a gente quer continuar vivendo. É por isso que a gente luta e ainda acha força para resistir”, afirma o cacique.

Terra e identidade 

Em setembro de 2018, dez sojicultores que cultivam dentro da TI Munduruku e Apiaká acionaram a Justiça para serem considerados “litisconsortes passivos necessários” na ação movida pelo MPF, como apurou o site de Olhos nos Ruralistas. Litisconsorte passivo necessário é aquele que tem interesse em comum com o réu e que será afetado pelas decisões que resultarem da ação. O pedido foi negado em primeira e segunda instância. Os requerentes foram: Ildo Valentin Borsatti, Rodrigo Borsatti, Adriano Gabriel Maraschin, Fábio Luis Maraschin, José Maraschin, Ignácio Maraschin, Germano Rene Durks, Francisco Alves de Aguiar e Ivo Luiz Ruaro.

A Pública esteve na aldeia Açaizal em abril deste ano, ocasião em que Ildo Valentin Borsatti aceitou falar com a reportagem. O argumento do sojicultor é que não há indígenas no território. “Criaram esse negócio de indígena aí há pouco tempo. Esse negócio do PT de se autodeclarar indígena. Aqui não existia índio. É tudo cearense que veio pra cá”, afirma o sojicultor. E continua: “Não existia [indígena na área]! Aliás, existir, deve ter existido. Tinha índio pra todo lado quando o Brasil foi descoberto, né? Mas, se for pra declarar alguém assim, tem que declarar o país inteiro”, disse Ildo, ao questionar a identidade dos Munduruku.

Um discurso muito usado pelo agronegócio local, como constatou o pesquisador Fábio Zuker, doutor em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor na Princeton University (EUA), nos seis anos em que realizou sua pesquisa de doutorado na região do Baixo Tapajós. “Um argumento racista e que se vale de uma imagem folclorizada de indígenas como parados no tempo. Como se os indígenas não pudessem se transformar, ao longo da história, a partir de lógicas inerentes à sua cultura”, afirma. 

Zuker explica que ali houve uma incorporação de migrantes nordestinos às aldeias indígenas. “Uma vez forasteiros, chegados ao longo do século XX de estados como Ceará e Maranhão, eles foram indigenizados. Casaram-se com indígenas – usualmente é o homem de fora que se casa com a mulher indígena – e aprenderam a caçar com seus sogros e genros. De modo que ninguém questiona seu pertencimento ao povo indígena, ou que seus filhos sejam indígenas”, explica o professor. 

E conclui: “Desta forma, é pelos laços de parentesco que diversas comunidades indígenas do Baixo Tapajós incorporaram pessoas vindas de outras regiões às suas comunidades. Cabe aqui também entender que muitos desses migrantes nordestinos são, eles mesmos, netos de indígenas, e que puderam, na Amazônia e na acolhida comunitária que lhes foi oferecida, encontrar um solo fértil para onde recuperar traços culturais com os quais já conviviam em suas famílias”.

Cacique Josenildo dos Santos da Cruz afirma que expansão da soja é uma “praga”

Em 2019, Josenildo já havia declarado que, além de ser “uma praga”, a expansão da soja causava violência na região. Seu irmão, Belarmino Cruz, foi assassinado durante uma visita à cidade de Mojuí dos Campos em setembro de 2018. “Ele foi morto com seis facadas nas costas e, segundo o assassino, foi assassinado por engano. Existe uma investigação em curso em relação a isso, mas a gente não pode negar que algumas pessoas ouvidas pela polícia disseram que não era pra ter sido meu irmão, era pra ter sido eu, como liderança”, afirma. Outra linha de investigação dá conta de que Belarmino foi assassinado em uma briga de bar. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil de Santarém até hoje.

Agora, em 2023, ele desabafa novamente: “A gente é ameaçado em tudo nessa vida. O sentimento é de impotência. Se a gente denuncia alguma coisa, é ameaçado. Quando derrubam a floresta, acabam com as nossas plantas medicinais e nossos frutos. Nosso espírito enfraquece. A gente fica preso numa área, porque já não nos deixam andar por onde a gente andava antes”.

Meus avós

Por Heloísa Marta Nogueira Rodrigues

Meus avós maternos marcaram minha infância e minha vida. Eles possuíam uma casa bem grande com portas altas que algumas casas antigas possuem e nós (eu e minhas irmãs) passávamos o dia lá e à tarde voltávamos para nossa casa. Lá, existia uma sala linda, bem arejada, com os móveis todos feitos de cipó e pintados de azul e nas paredes, quadros de nossos antepassados e algumas “folhinhas” de mulheres em trajes sumários (que, diga-se de passagem, meu avô adorava!!!).
Existia um quintal enorme, com diferentes tipos de frutas, como cacau, por exemplo, que tínhamos de chupar as sementes e guardá-las para depois secá-las. Era tudo tão farto, comíamos galinha quase todos os dias e, para dar uma corzinha ao refogado, urucu. Os legumes eram todos da horta de minha avó.
Até hoje, ainda lembro do vovô Juca nos chamando para o jantar às seis da tarde e para dormir às setes e meia (é que às vezes dormíamos por lá) e levantávamos cedo, pois vovô encarregava-se disso.
Meu avô era um homem bonito, usava chapéu “Panamá” ao sair de casa e hoje eu descobri que ele parecia um galã de cinema dos anos 50, de tão charmoso que era. Vovô, na época delegado de polícia do nosso município, era muito temido na cidade, não costumava ingerir álcool (exceto seu licor de jenipapo em um pequeno cálice, antes do almoço como forma de abrir o apetite), não fumava e tinha uma amante, talvez tenha sido essa a sua fórmula de ter vivido tanto, pois morreu com cento e dois anos de idade.
Já minha avó Alice, era uma criatura aparentemente frágil, extremamente dedicada ao marido, religiosa, ao ponto de não perder uma missa e devota de vários santos, adorava criar galinhas, bordar e costurar nas horas vagas. Apesar de sua aparente fragilidade era a matriarca da família, todos se curvavam diante de suas vontades.
Por volta das três da tarde, tomávamos banho e bebíamos café bem forte com beiju ou farinha de tapioca, nessa ocasião mamãe vinha nos buscar para irmos pra casa, e no outro dia voltávamos, e tudo acontecia novamente.
Hoje, lembrando de como era tão diferente a minha vida, penso que eu era feliz e não sabia.

Marta é minha amada irmã, quinta filha de Benedita e José, a segunda das três mulheres.


Como será a primeira eleição após o golpe fracassado de 8 de janeiro?

No próximo ano, o jornalismo político enfrentará a situação sem precedentes de cobrir as primeiras eleições desde que uma conspiração maciça para subverter o processo democrático fracassou por pouco em sua missão.

A maioria dos conspiradores não foi condenada e muitos concorrerão a cargos públicos. Que truques sujos eles estão planejando? O Brasil estará preparado para o que virá?

O desafio chega talvez no pior momento possível para o setor de notícias. Na semana passada, o Grupo Globo demitiu mais de 20 jornalistas, uma das muitas rodadas de demissões em mais um ano brutal para a profissão.

O número de jornalistas empregados nas redações caiu drasticamente nos últimos 15 anos. A imprensa local foi dizimada. Veículos de notícias digitais como BuzzFeed News, El País, Vice e Huffington Post, que já foram vistos como parte do futuro brilhante do jornalismo, fecharam completamente no Brasil e muitos outros estão à beira do abismo.

(Do The Intecept_Brasil)

As ruínas de Gaza e o horror da humanidade

Por José Luís Fiori (*)

Todos os grandes “genocídios” da modernidade só foram identificados, reconhecidos e condenados pelos donos do poder mundial, depois do seu cometimento

A discussão jurídica e o julgamento ético da nova “Guerra da Palestina” – que começou com o ataque do Hamas a Israel no dia 7 de outubro de 2023 – são muito importantes mas não são suficientes para explicar a especificidade e a extrema violência e inumanidade desse conflito. E menos ainda, para especular sobre os desdobramentos futuros dessa catástrofe humanitária que está em pleno curso.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o Direito Internacional reconhece a legitimidade das guerras de autodefesa de todos os povos e, portanto, também do povo de Israel; mas também reconhece o direito de todos os povos à rebelião e à guerra contra seus invasores e opressores e, portanto, também do povo palestino.

Por isto, do ponto de vista jurídico, não há definitivamente como arbitrar este conflito, porque se trata de uma disputa excludente ou de “soma-zero”, em que não existem árbitros externos que tenham competência e poder, e que sejam reconhecidos e aceitos pelas duas partes diretamente envolvidas. As próprias Nações Unidas já perderam inteiramente sua capacidade de ingerência e seu poder de arbitragem internacional, sobretudo depois que foram desmoralizadas pela decisão dos Estados Unidos e da Inglaterra de invadir e destruir o Iraque, em 2003, sem ter o aval do seu Conselho de Segurança, e baseados apenas em acusações que eles mesmos inventaram e que depois reconhecera ser falsas.

Por outro lado, do ponto de vista ético e conceitual, todos os grandes “genocídios” da modernidade só foram identificados, reconhecidos e condenados pelos donos do poder mundial, depois do seu cometimento. Como aconteceu, por exemplo, com o genocídio dos próprios judeus pelo governo da Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, que só foi “visto” e condenado pelas “potências vitoriosas” depois da guerra, em 1945. Tendo sido necessários muitos anos ou décadas mais, para que fosse reconhecida a cumplicidade dos demais países europeus, que também perseguiram os judeus, e que colaboraram com os nazistas, enviando os “seus judeus” nacionais para que fossem exterminados pelas câmaras de gás alemãs.1

Essa impotência ficou transparente no caso da recente decisão da Assembleia Geral da ONU, aprovada no dia 13 de outubro de 2023, condenando a guerra entre Israel e os Palestinos e exigindo um cessar-fogo imediato. Decisão que foi aprovada por 120 votos a favor, e apenas 14 votos contra, com 45 abstenções, mas que foi inteiramente desconhecida e desconsiderada pelos Estados Unidos e por Israel. Apesar de que tenha sido esta mesma Assembleia Geral que aprovou a Resolução n. 181, de 29 de novembro de 1947, que é considerada pelos Estados Unidos e por Israel como uma verdadeira “cláusula pétrea”, quase uma revelação divina, do direito judeu à instalação do seu novo Estado de Israel dentro do território da Palestina.

Na época, as Nações Unidas contavam apenas com 56 estados membros, e a decisão de criar Israel foi tomada por apenas 33 países que votaram a favor, contra 13 que votaram contra (incluindo todos os países árabes presentes) e 10 outros que se abstiveram, sem que tenha havido qualquer tipo de consulta ao próprio povo que vivia no território que foi entregue aos judeus. Sendo esta, sem dúvida, a causa em última instância desse conflito que já se prolonga há 75 anos, e que segue sem a menor perspectiva de algum tipo de negociação e conciliação que seja aceitável para o povo palestino.

Mesmo assim, não há dúvida que este conflito foi agravado mais recentemente pelas políticas de cerco, assédio e invasão de novas terras palestinas – sobretudo na Cisjordânia – praticada pelos sucessivos governos de Benjamin Netanyahu, que se sucedem desde 2009, e de forma muito particular, pelo seu governo atual formado em coalisão com as forças religiosas mais fundamentalistas e de extrema direita de Israel.

Benjamin Netahyahu tomou posse como primeiro-ministro, pela primeira vez, quase dois meses depois do primeiro grande bombardeio aéreo e terrestre israelense da Faixa de Gaza, que durou 21 dias e matou 1.400 palestinos e 15 israelenses no início de 2009. Benjamin Netanyahu também esteve à frente do novo bombardeio e invasão territorial de Gaza, no ano de 2014, que durou 51 dias e deixou 2.205 palestinos e 71 israelenses mortos; e mais uma vez, liderou Israel durante o conflito de maio de 2021, que durou 11 dias e matou 232 palestinos e 27 israelenses.

E agora de novo, ele tem sido o principal instigador do massacre de civis palestinos, nesta nova guerra com o Hamas, que já provocou a morte de 12.300 palestinos, com 25.400 feridos, e mais de 1 milhão de pessoas expulsas de suas casas, contabilizando-se 1.300 mortos e 5.500 feridos israelenses, até o momento. Podendo-se até imaginar que Benjamin Netahyahu e o Hamas fossem uma espécie de “inimigos siameses”, que se necessitassem e se retroalimentassem mutuamente.

De qualquer forma, esse conflito não teria alcançado a violência atual se Israel não tivesse contado com o apoio militar incondicional dos Estados Unidos, desde o momento em que os norte-americanos decidiram transformar o seu pequeno território – do tamanho de Belize – numa cabeça-de-ponte de seus interesses dentro do Oriente Médio, especialmente depois da “Crise do Canal de Suez” em 1956, e da Guerra do Yom Kippur, em 1973, mas sobretudo depois da vitória da revolução islâmica do Irã, em 1979, quando os Estados Unidos perderam um dos pilares fundamentais de sua “tutela geopolítica” do Oriente Médio, obrigando-os a reagrupar suas forças apoiando-se basicamente em Israel e na Arábia Saudita.

Mas mesmo este novo arranjo teve que ser mudado radicalmente depois dos atentados às torres de New York, de setembro de 2001, e depois do início das “guerras sem fim” dos Estados Unidos contra o “terrorismo islâmico”, no Oriente Médio. E, em particular, depois das derrotas militares ou fracassos políticos e diplomáticos norte-americanos no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e no Iêmen, que erodiram a credibilidade militar dos Estados Unidos e atingiram sua liderança numa região onde crescem cada vez mais a influência próxima do Irã e a influência distante da China e da Rússia, apoiando, evidentemente, a “desobediência” cada vez mais frequente dos países árabes com relação aos desígnios dos Estados Unidos.

Quando se tem presente este pano de fundo consegue-se compreender melhor porque o ataque surpresa do Hamas contra Israel, do dia 7 de outubro de 2023, caiu como uma bomba sobre o Pentágono, onde foi percebido como mais uma humilhação, pelo establishment militar americano. E foi exatamente o tamanho deste choque que explica o apoio imediato e incondicional do presidente norte-americano à violência e à inclemência da extrema-direita fundamentalista de Israel, dentro da Faixa de Gaza. Na verdade, esta nova Guerra de Gaza não está sendo apenas vingança de Israel, está sendo também uma vingança dos Estados Unidos.

Por isto, neste momento, os prognósticos a respeito desta guerra são muito ruins. Benjamin Netanyahu declarou recentemente que seguirá bombardeando Gaza até eliminar completamente o Hamas. Mas ele sabe perfeitamente que esta eliminação é improvável ou impossível e, portanto, sua afirmação apenas encobre sua decisão – já tomada – de continuar os bombardeios, com a destruição completa da infraestrutura física indispensável para a sobrevida da população palestina. Cabe lembrar que o mesmo Benjamin Netanyahu já comparou-se com o presidente Bush e relembrou a resposta americana aos atentados de 2001, que mataram cerca de 3.500 pessoas, através de duas guerras que mataram 150.000 afegãos e 600.000 iraquianos.

Uma comparação e uma referência que adquirem ainda maior gravidade quando se sabe que esta Guerra de Gaza é uma guerra absolutamente assimétrica, entre um Estado que é uma potência atômica, que conta com uma ajuda militar anual dos Estados Unidos, de 3,8 bilhões de dólares; e do outro, um “Estado palestino” que só consegue sobreviver graças a uma ajuda internacional filantrópica, indispensável para o funcionamento da burocracia da Autoridade Palestina na Cisjordânia, e do próprio governo do Hamas, na Faixa de Gaza.

Neste momento, só quem poderia suspender este massacre seriam os Estados Unidos, derrubando o governo de Benjamin Netanahyu. Mas é muito difícil que isto ocorra, exatamente porque o governo americano de Joe Biden está envolvido até a medula nessa guerra, apostando sua própria reeleição em 2024, e tentando recuperar seu prestígio estratégico e militar depois de sua retirada humilhante do Afeganistão, da sua provável derrota na Ucrânia, e mais ainda, depois do fracasso dos seus serviços de inteligência, que não conseguiram antecipar o ataque do Hamas a Israel.

Deste ponto de vista, se poderia dizer que os Estados Unidos estão quase “condenados” a seguir em frente, ficando cada vez mais isolados, ao lado de Israel, aumentando a aposta do seu establishment militar numa “guerra infinita” e cada vez mais violenta, na Faixa de Gaza e em todo o Oriente Médio, se for o caso. Com o perigo de que estes dois povos que se consideram “escolhidos por Deus” acabem se tornando dois povos isolados e “repudiados pela humanidade”.2 Numa espécie de inversão do mito de Babel.

*José Luís Fiori é professor Emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O mito de Babel e a disputa do poder global (Vozes). [https://amzn.to/3sOZ7Bn]

Publicado originalmente na revista Observatório do Século XXI, edição de novembro de 2023.

Notas


1. Vide a pesquisa e o relato recente da perseguição judaica e da colaboração com os nazistas, da França, da Itália e de vários outros países europeus, na obra de Geraldine Schwarz, Os amnésicos. História de uma família europeia (Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2022).

2. É importante observar, nesta direção, o resultado da recente votação da Assembleia Geral das Nações Unidas, do dia 2 de novembro de 2023, condenando pela trigésima vez o bloqueio econômico à Cuba, imposto pelos Estados Unidos, que foi aprovado por 197 votos a favor e apenas 2 votos contra, exatamente dos Estados Unidos e de Israel.

O primeiro grande reforço

POR GERSON NOGUEIRA

O Remo anunciou oficialmente ontem a contratação do executivo Sérgio Papellin. Um reforço de peso para a ambiciosa campanha que o clube pretende fazer na Série C 2024. Com um contrato de três anos, coincidindo com o tempo de mandato da gestão de Antonio Carlos Teixeira, Papellin surpreendeu a torcida e os dirigentes do Fortaleza com sua decisão.

Optou por deixar o Fortaleza, clube estruturado e vencedor, que está a caminho do sexto ano consecutivo na Série A e atual vice-campeão da Copa Sul-Americana 2023. Acumulou prestígio e admiração no Leão do Pici, onde estava desde 2017.

Vem para o Remo, que vai disputar pela terceira vez a Série C no próximo ano. A proposta salarial foi considerada irrecusável, mas não explica por completo o motivo de sua opção.

Há sete anos no Fortaleza, Papellin tinha um cargo assegurado na SAF do clube a partir de 2024. “Essa minha ida para o Remo é uma retomada na carreira, um reinício, uma motivação a mais na sua vida. Não vejo como loucura”, explicou o próprio à imprensa cearense.

Quando começou a negociar com o Remo, ele já havia sido procurado pelo presidente Marcelo Paz, do Fortaleza, para assumir o cargo de diretor de futebol. Foi informado dos planos para a implantação do modelo SAF, já aprovado em votação no clube.

Sérgio Papellin, executivo de futebol do Fortaleza, em entrevista coletiva

O fato é que, pela qualidade de seu trabalho, Papellin se tornou um executivo valorizado no mercado e poderia ter buscado outros caminhos, mas foi tocado pelo desafio de crescer com o Remo.

A troca surpreendeu o próprio presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, que já havia conversado com Papelin para a temporada de 2024, quando o Tricolor colocará em curso o modelo de SAF, aprovado em votação.

Depois de renunciar ao Fortaleza, ele reencontra o Remo 16 anos depois em clima de mobilização e pressão por resultados. A temporada ruim neste ano impulsiona um processo de mudanças e ações ousadas, das quais a contratação de Papellin é a primeira de grande vulto.

Minelli, um ‘professor’ revolucionário e injustiçado

Nenhum estudo sério sobre técnicos brasileiros pode negar a Rubens Minelli uma posição destacada, lá no alto. Aposentado na metade dos anos 90, após trabalhos que não honraram sua competência, ele morreu ontem um tanto esquecido, injustamente.

Mentor de técnicos como Felipão, Carpegiani e Cuca, Minelli marcou época como um estrategista afiado. Foi o primeiro a conquistar o Campeonato Brasileiro em sequência (1975 e 1976, pelo Internacional, e 1977, pelo São Paulo).

À sua maneira, Minelli foi um revolucionário, pelos métodos pioneiros que usava para montar seus times e até por inovações táticas que perduram até hoje. Seguramente, foi o primeiro técnico brasileiro a valorizar o lado tático do jogo e um especialista em “ler” os adversários.

Lançou o modelo de meio-campo com três, depois botou mais um e cravou o que seria a opção dominante nos anos seguintes. Fiel discípulo do futebol de velocidade que fez furor na Copa do Mundo de 1966, com a consequente derrapada de um Brasil lento demais.

O momento mais grandioso de Minelli foi no Internacional quando meteu a mão na massa e alterou até os métodos de treinamento, transformando o Colorado numa máquina de vitórias. Escalado num surpreendente 3-1-2-3, foi o primeiro time com três zagueiros.

Marinho Peres era líbero, enquanto Figueroa, Vacaria e Claudio cuidavam da marcação direta aos ataques inimigos. Minelli usou a experiência de Marinho em jogar sobra e apoiar o ataque, após ter sido dirigido pelo holandês Rinus Michels.

Em seguida, aproveitou todo o talento de Paulo Roberto Falcão para fazer de sua linha de volantes um diferencial em relação aos adversários que seguiam praticando o velho 4-2-4. Habilidoso, Falcão aproveitava as brechas de marcação e às vezes se tornava um quarto atacante.

Minelli fez muito mais coisas durante a longa carreira. Foi também esquecido pelos donos do futebol no Brasil e visto, durante muito tempo, como um dos mais injustiçados de seu tempo, sem ter tido a chance de treinar a Seleção.

O relativo esquecimento de seu nome retrata bem essa situação, mas ninguém pode negar que foi um dos gigantes de seu tempo.

Papão contém ansiedade antes de divulgar contratações

A cada dia, o torcedor alviceleste é brindado com uma enxurrada de nomes especulados nas redes sociais e até mesmo pelos mais apressadinhos da mídia esportiva. Ontem, voltaram a circular boatos sobre Nicolas, Aylon, José Aldo e Fábio Sanches.

Fontes ligadas à diretoria revelam que o clube já fechou com pelo menos 12 jogadores, mas só irá divulgar os nomes depois da última rodada da Série B, no próximo final de semana.

É até possível que alguns jogadores que se destacaram no PSC há alguns anos sejam contratados para a Série B 2024. O problema é que a competição exige muito no aspecto físico, com duas partidas semanais, e alguns dos citados já estão na faixa acima dos 33 anos.

O certo é que a busca por reforços continua, com foco na contratação de um novo goleiro, três laterais, quatro volantes, dois meias e quatro atacantes. A primeira lista deve contemplar jogadores para essas posições. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 24)

Rock na madrugada – Mott the Hoople, “All the Young Dudes”

Grande êxito da carreira do Mott the Hoople, “All the Young Dudes” foi um presente de David Bowie, fã da banda. Em crise criativa, apesar da qualidade de seu trabalho anterior, o Mott estava prestes a se separar. Bowie resolveu então dar uma força… e que força. Conversou com o vocalista Ian Hunter e o convenceu a reunir os integrantes para gravar uma música especial.

Era simplesmente uma das mais belas canções de rock já escritas, com letra intensa, espécie de crônica ruidosa da nova geração. O narrador da música mostra angústia porque eles nunca conseguiram entender as “coisas revolucionárias” oferecidas pelos Beatles e pelos Stones. A letra fala da sexualidade alternativa, embora nenhum dos músicos fosse defensor da causa gay.

Típica banda de glam-rock, subgênero marcado pela contestação e visual agressivo, o Mott surgiu em 1969, em Herefordshire (Inglaterra), sob forte influência do blues. Formado por Ian Hunter, Mick Ronson, Pete Overend, Mick Ralphs e Dale Griffin, teve pouco mais de uma década de existência, mas fincou o nome como um grupo de atitude e trabalho sólido.

Sérgio Papellin é confirmado pela diretoria do Remo para a temporada 2024

Com histórico de vencedor por onde passou, o executivo Sérgio Papellin volta ao Remo para se integrar à equipe que vai trabalhar pelo acesso à Série B em 2024. A diretoria do clube confirmou a contratação nesta quinta-feira, 23, depois das fortes especulações que circularam desde o fim de semana passado. Prováveis mudanças na gestão do Fortaleza a partir do próximo ano (fala-se em adoção da SAF) acabaram por facilitar a saída do executivo.

Papellin trabalhou como executivo do Remo em 2008, deixando uma boa impressão – no ano seguinte se transferiu para o PSC. Na prática, foi o primeiro executivo a atuar no futebol profissional paraense. A trajetória vitoriosa no Fortaleza valorizou Papellin e sua contratação revela a firme disposição do Remo em mudar de patamar.

Sérgio Papellin, Fortaleza — Foto: Leonardo Moreira/FortalezaEC

O executivo teve um trabalho marcante no Fortaleza, sendo considerado um dos responsáveis pela ascensão do Fortaleza no futebol nacional – na foto acima, ao lado do técnico Rogério Ceni.

No cargo de executivo desde 2017, o Leão do Pici conquistou cinco campeonatos cearenses de forma consecutiva (entre 2019 e 2023), acessos da Série C para B na temporada 2017 e da Série B para o Brasileirão 2019, o título da Série B 2018, duas Copas do Nordeste (2019 e 2022) e o vice da Copa Sul-Americana 2023.

Esta é a terceira passagem de Papellin pelo futebol paraense, onde foi executivo do próprio Remo em 2007 e do Paysandu em 2014. Além do executivo, o Remo contratou o analista de mercado Rafael Silva, que estava no Fortaleza.

Tumulto deve gerar punição

POR GERSON NOGUEIRA

Quando Brasil e Argentina se enfrentam é como se o mundo do futebol parasse para assistir o confronto. Na terça-feira, não foi diferente. O problema é que, antes de a bola rolar, o pau quebrou nas arquibancadas. Tudo amplificado pela extrema violência dos policiais militares e da segurança particular, estragando o clima festivo da partida.

A cada nova espiada nas imagens da pancadaria fica mais insustentável a tese da CBF quanto à opção pela mistura das torcidas rivais no Maracanã. Em comunicado, a entidade tentou justificar o injustificável com a explicação de que as competições da Fifa têm torcidas mistas. Isso pode valer para Suécia x Noruega, nunca para Brasil x Argentina.

Como a responsabilidade pela organização e a segurança em jogos das Eliminatórias cabe ao mandante, o Brasil deve ser penalizado com multa pesada e pode ser obrigado a fazer jogos de portões fechados. Uma forma de mostrar aos dirigentes da CBF que a lambança não pode se repetir.

As cenas de selvageria contra famílias inteiras no Maracanã rodaram o mundo desde o momento do jogo e acabaram por tirar o foco de algumas situações de campo que prejudicaram a Seleção Brasileira. Além dos critérios tortuosos do árbitro chileno, dois lances polêmicos beneficiaram os campeões mundiais.

Ainda no primeiro tempo, após um escanteio para o Brasil, Marquinhos cabeceou e o zagueiro Romero levou a mão à bola dentro da área. Foi a chamada mão deliberada (que antigamente era “mão intencional”), o que caracteriza infração. Pênalti ignorado pelo juiz – e pelo VAR.

Na etapa final, a expulsão de Joelinton travou a possibilidade de reação brasileira. Também sob o silêncio do VAR, o meia brasileiro foi agarrado pelo braço, se desvencilhou com um empurrão, mas não agrediu De Paul. Nada no lance caracterizou atitude violenta que justificasse a expulsão.

Pelo mau futebol mostrado em campo, pode-se dizer que o clássico ficou devendo – e muito. Não houve um bom desempenho do Brasil e a Argentina portou-se pior ainda. Foi apenas mais objetiva, marcando seu gol em novo descuido aéreo da zaga da Seleção.

Má temporada do Leão conspira contra veteranos

Centroavante de boa participação na sofrível temporada remista em 2023, o veterano Muriqui continua cotado para permanecer no clube. Os defensores da ideia apontam a qualidade técnica e o comprometimento do atacante. Os críticos, mesmo reconhecendo méritos, questionam a resistência física do camisa 9. Ao lado de Pedro Vítor, Muriqui foi um dos raros destaques do Leão no Estadual, na Copa do Brasil e na Série C.

Em tom de despedida, aparentemente consciente das dificuldades para um novo acordo, o jogador deu entrevistas e revelou propostas de outros clubes da Série C. Artilheiro do time com 12 gols neste ano, demonstra vontade de ficar, mas não foi procurado pela nova diretoria.

A chegada do técnico Ricardo Catalá deve apressar as decisões sobre remanescentes da campanha deste ano. Além de Muriqui, Diego Ivo e Anderson Uchoa estão nessa lista. Contra a renovação do trio pesa a questão da idade dos dois primeiros e o histórico de lesões do volante.

Aos 37 anos, Muriqui ainda pode ser uma boa opção para o ataque azulino, mas cresce no clube uma tendência por mudanças radicais no futebol, o que pode levar a uma renovação ampla do elenco.  

MPPA: providências para garantir direitos do torcedor

O Ministério Público do Estado, por meio da 3ª Promotora de Justiça do Consumidor, Joana Chagas Coutinho, emitiu a Recomendação n° 010/2023, assegurando o cumprimento das legislações pertinentes aos direitos do consumidor nos eventos esportivos, em especial quanto à concessão do benefício de meia-entrada.

A recomendação destaca a relevância das legislações pertinentes, como o artigo 142 da Lei Geral do Esporte, que equipara a fornecedor a organização esportiva responsável pela competição, assim como a Lei Federal nº 12.933/2013 e a Lei Estadual do Pará nº 5.746/1993, que garantem o direito à meia-entrada para estudantes, idosos, pessoas com deficiência e jovens de 15 a 29 anos comprovadamente carentes.

A ação do Ministério Público foi motivada por informações de que o Paysandu estaria violando direitos relativos à meia-entrada de ingressos em eventos esportivos de futebol profissional.

A Federação Paraense de Futebol deverá tomar as providências necessárias para garantir que os clubes profissionais cumpram as exigências legais. Um prazo de 60 dias foi estabelecido para o encaminhamento à Promotoria de Justiça do Consumidor de informações sobre o cumprimento da recomendação, acompanhadas dos documentos pertinentes.

Direto do Twitter

“Eu, como madridista, com o coração Blanco e como Ancelottista, espero que a temporada seja fantástica e que na próxima Carlo esteja lá, porque ele é o treinador perfeito para o (Real) Madrid. Brasil? Só um louco sai do Madrid quando o Madrid o quer. E esse fui eu. O único. (…) Tenho certeza que ao menor gesto de Florentino, Carlo ficará. Ele é perfeito para o Real Madrid e o Real Madrid é perfeito para ele”.

José Mourinho, técnico português, aconselhando Ancelotti a ficar no Real

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 23)

Estadão pede foro privilegiado para o jornalismo que bajula a extrema direita

Por Moisés Mendes

É bem bobinha a tentativa de transformar em controvérsia ética a divulgação de críticas ao Estadão com fotos da jornalista Andreza Matais. Andreza é editora do jornal e lidera a equipe encarregada de dar vida, fazer andar e transformar em ameaça à humanidade a agora famosa dama do tráfico. É boba, é colegial, é infantil, porque é mais uma controvérsia rasa e falsa. Tudo o que os jornais mais fazem é expor pessoas anônimas ou famosas em fotos e em textos. Muitas vezes de forma sumária e implacável.

As TVs também vivem de expor a cara de alguém em situações diversas, meramente informativas, edificantes, bajulatórias ou constrangedoras. O jornalismo expõe, critica, ataca e julga Jesus Cristo, artistas, jogadores de futebol, políticos, engenheiros, empresários, o Papa e pessoas comuns.

É do que sempre viveu a imprensa das corporações, enquanto descansa de golpes e conspirações. O risco aumentou porque os grandes grupos cada vez mais misturam jornalismo e entretenimento para enfrentar a competição da internet.

Andreza não pode ser questionada pelo que faz? Não podem publicar suas fotos (como essa acima) junto com as críticas? O que é condenável no fato de publicarem fotos de Andreza, se o Estadão e todos os veículos de mídia vivem da exposição de imagens da vida alheia?

Ah, mas ela é jornalista. E nessa condição, que alguns presumem ser superior, a jornalista deve ter alguma imunidade ou foro privilegiado? Por que teria? Andreza pertence a alguma casta?

Publicar a foto de uma jornalista é um delito? Criticá-la é um crime? Questionar a veracidade das suas histórias sobre damas bandidas é perseguição?

Podem dizer também que Andreza não é uma figura pública. A maioria dos expostos pelo jornalismo das corporações é de pessoas sem vida pública. E poucas atividades são mais públicas do que o jornalismo.

Notícias que criminalizam pobres e negros têm fotos de pobres e negros. Já melhorou bastante, com a evolução dos códigos de ética, mas pobres e negros continuam expostos.

A grande imprensa já expôs conversa privada de uma presidente do Brasil com um ex-presidente. Nunca pediu desculpas pelo crime. E nenhum deles estava cometendo delitos.

Nenhum deles homenageou damas de milicianos, não teve milicianos como vizinhos, não empregou parentes de milicianos, não recebeu cheques de milicianos para damas presidenciais. E os dois foram expostos.

O Estadão que se queixa de perseguição nas redes, e acusa até o governo de jogá-lo contra o que seria a turba das esquerdas, nunca escreveu uma linha, uma só, sobre a perseguição sistemática a jornalistas que atuam fora das corporações.

São profissionais sem a proteção dos grandes grupos, ameaçados e caçados pelo assédio judicial de poderosos, porque dizem a verdade. Caçados e condenados em paróquias dominadas pelos endinheirados caçadores de cabeças.

O Estadão nunca defendeu os perseguidos pelo poder econômico porque é parte desse poder. É cúmplice de desmandos políticos desde a ditadura, com a qual acabou se desentendendo por interesses contrariados.

A imprensa que o Estadão representa não pode se considerar imune a críticas e nem a ataques mais duros por parte também de jornalistas. É do jogo.

É assim que joga parte dos seus quadros, alguns com posições declaradamente fascistas. Muitos dissimuladamente bolsonaristas. Do que o jornalão se queixa, se lincha publicamente quem considera inimigo?

O que o Estadão não admite é que a história da dama do tráfico é exagerada e foi construída como farsa para tentar conectar o governo à criminalidade. Poderia ser uma informação sobre um descuido.

Mas é uma tentativa de insinuar que Flavio Dino e Lula convivem com mulheres de traficantes. A história da dama do tráfico é uma das mais escabrosas invenções recentes do jornalismo.

O ministro da Justiça Flávio Dino. (Foto: Reprodução)

Inventada para inviabilizar Flavio Dino como alternativa de poder, para manter Lula acossado e para jogar para a extrema direita que sustenta e se lambuza com esse tipo de jornalismo.

Os mais antigos se lembram de uma entrevista de Otávio Frias Filho, quando o diretor da Folha recomendou, dando conselhos ao concorrente, que o Estadão se mantivesse conservador e austero, para preservar a faixa de público em que atuava.

Otávio achava que só a Folha poderia se remoçar e ser atrevida e que o Estadão deveria continuar usando fraque e galochas e falando para o conservadorismo, no tempo em que os reacionários ainda não haviam sido absorvidos pelo fascismo.

Otávio morreu em 2018. O conservador e austero Estadão desprezou seus conselhos e hoje se dedica a inventar criaturas para atacar Lula. Otávio não poderia desconfiar que a extrema direita bolsonarista acabaria sendo o público preferencial do Estadão.

Originalmente publicado em Blog do Moisés Mendes

Fenaj e Sindicato dos Jornalistas defendem profissionais do Estadão vítimas de assédio 

Os jornalistas do jornal Estado de S. Paulo, que denunciaram assédio moral por parte da editora-executiva Andreza Matais, relataram agressões verbais, pressões por ataques contra desafetos e favorecimentos a amigos, receberam a solidariedade da Federação Nacional dos Jornalistas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal. Em nota conjunta divulgada ontem, as duas entidades afirmaram que o jornalismo deve ser exercido pelos profissionais dentro de parâmetros éticos e que os mesmos não podem ser obrigados a fabricar denúncias falsas, como ocorreu no episódio da ‘dama do tráfico’. “Não se deve fomentar, de forma irresponsável, ilações, sem qualquer comprovação, do envolvimento de membros do governo com grupos criminosos, reforçando absurdas teses de setores extremistas que tanto mal causaram à democracia brasileira”, aponta a nota.

Leia a íntegra:

Na última semana, vieram à tona questionamentos sobre reportagens publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) e as reações de membros do governo federal em relação à participação de uma pessoa indicada pelo Mecanismo de Combate à Tortura do Amazonas em reuniões nos ministérios da Justiça (MJSP) e Direitos Humanos (MDHC), bem como no Congresso Nacional e Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

É preciso destacar que o trabalho jornalístico tem como base fundamental o direito à informação, que abrange o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação, a partir de critérios claros de relevância e interesse público, e de respeito a princípios éticos.

Diante desse quadro, o trabalho da imprensa numa democracia não pode sofrer impedimentos de caráter censório, mas a divulgação da informação precisa, correta, verdadeira e ética é uma responsabilidade essencial dos jornalistas, que desenvolvem um trabalho social, como preconiza o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

É absolutamente natural que, num ambiente democrático, o trabalho dos jornalistas possa, sim, ser alvo do escrutínio público e receber críticas que ajudem esclarecer enquadramentos e corrigir equívocos, como um processo de aperfeiçoamento do próprio ofício e em nome da necessária pluralidade na esfera pública.

Nesse sentido, avaliamos que a cobertura jornalística deve sempre se pautar por diversidade de fontes e devida contextualização dos fatos. Não se deve fomentar, de forma irresponsável, ilações, sem qualquer comprovação, do envolvimento de membros do governo com grupos criminosos, reforçando absurdas teses de setores extremistas que tanto mal causaram à democracia brasileira.

Essas críticas não podem se confundir com perseguições. Estas últimas, sim, absolutamente repudiáveis. Por isso, não aceitaremos agressões contra jornalistas, seja por parte de entes estatais, autoridade ou personalidade pública. Repudiamos também ações massivas na internet que ataquem a integridade moral de jornalistas no exercício da profissão.

Como entidades de caráter sindical e, portanto, de defesa dos trabalhadores e seus direitos, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) seguirão cobrando o cumprimento dos direitos trabalhistas no Estadão. Falta de controle de jornadas extenuantes e não pagamento de horas extras são algumas das violações principais que as entidades têm denunciado e combatido há anos. E seguiremos vigilantes sobre quaisquer situações que configurem assédio moral individual ou coletivo na sucursal do jornal em Brasília.

Por fim, informamos que quaisquer violações éticas podem ser denunciadas às respectivas Comissões de Ética dos Sindicatos e da Fenaj, que apuram e julgam as denúncias de transgressão ao Código de Ética dos Jornalistas, cometida por jornalista na jurisdição de entidade sindical.

Brasília, 21 de novembro de 2023.

Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF)

(Do Brasil247)

Em carta aberta aos donos do Estadão, Nassif cobra ação contra assédio moral

Autores de dois dos maiores furos recentes do jornal foram demitidos logo após a publicação das reportagens, lembra Nassif, em meio às acusações de abuso cometido por editora

Por Luis Nassif, no GGN

“Prezado Francisco Mesquita,

Já nos conhecemos, trabalhei no Jornal da Tarde, deixei minha contribuição por lá e levei da empresa uma lembrança positiva, de uma corporação que respeitava seus jornalistas, mesmo aqueles raros que não se enquadravam nos seus critérios políticos.

Escrevo esta para alertá-lo sobre o que está ocorrendo na sucursal do Estadão em Brasilia. Aliás, julgo que um dos objetivos centrais da Associação Nacional dos Jornais deveria ser o de zelar pelo respeito devido aos jornalistas, impedindo assédio moral e outras práticas abusivas, práticas que, mais cedo ou mais tarde, reverterão contra a própria imprensa.

Hoje em dia, qualquer setor moderno da economia preocupa-se fundamentalmente com o clima interno, com o respeito aos funcionários. Mire-se na sua colega, a Globo, que já montou departamentos para prevenir abusos”.