Lula indica Flávio Dino para o STF e Paulo Gonet para a PGR

Demorou mais de 60 dias a espera, mas as apostas se confirmaram: o presidente Lula da Silva (PT) confirmou há pouco o nome do senador licenciado Flávio Dino (PSB-MA) para a vaga de Rosa Weber, no Supremo Tribunal Federal. (Veja nota do Palácio do Planalto logo abaixo). A indicação estava sendo prevista desde o final de semana e se confirmou após uma reunião entre o presidente e o ministro da Justiça e Segurança Pública.

Há pouco, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) disse que a indicação deve ser analisada e votada até o dia 15 de dezembro. Dino será sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça e depois seu nome segue para análise do plenário do Senado Federal.

O mesmo rito será seguido com a indicação de Paulo Gonet para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Ele também conversou com Lula da Silva hoje e teve seu nome confirmado.

As indicações devem ter maioria na CCJ e 41 votos no plenário do Senado. Para o jornalista e colunista do UOL, Tales Farias, Flávio Dino funcionará como uma liderança do governo Lula da Silva dentro do STF, embora, de maneira geral, a maioria tenha sempre votado de forma alinhada com posicionamentos do governo.

Segundo Tales, Dino vai funcionar como uma espécie de líder do governo no STF, da mesma forma como Nelson Jobim no governo FHC. Ele era considerado um nome forte, com conhecimento jurídico e muita proximidade com o presidente, exatamente como Dino é. Não existem restrições ao nome dele no Supremo. Seguramente, será um nome forte nesse novo desenho do Supremo.

Quanto a Paulo Gonet, havia especulação crescente quanto à sua escolha, mas sempre foi um nome que dividiu opiniões dentro do governo e principalmente no PT. Suas ligações com figuras radicais do bolsonarismo, como a deputada Bia Kicis, dificultam sua aceitação pelos setores mais ortodoxos da esquerda.

NOTA OFICIAL

“O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, encaminhou, nesta segunda-feira, 27 de novembro, ao presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, as indicações de Flávio Dino ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal e de Paulo Gonet ao cargo de procurador-geral da República”.

Embate STF x Senado: cientista político vê grande risco institucional para o país

Por Rudolfo Lago, no Correio da Manhã

E se o Supremo agora dissesse que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), não pode mais monocraticamente decidir se arquiva ou encaminha um pedido de impeachment? Para o cientista político e presidente do Instituto de Pesquisa Sociais Políticas e Econômicas (Ipespe), Antonio Lavareda, esse é o problema da escalada na briga entre os poderes que se instalou na semana passada com a aprovação pelo Senado da PEC que limita as decisões monocráticas dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). “É importante para a convivência democrática que cada aja somente no seu quadrado”, avaliou Lavareda ao Conselho Político “Os regimentos de todos os poderes preveem casos de decisões solitárias dos seus integrantes”.

Para Lavareda, parece evidente que a motivação do Senado ao aprovar a PEC foi política. “Quem acredita de fato que se tratou de algo que tinha realmente o objetivo de aperfeiçoamento das leis e da Constituição?”, provoca o cientista político. “Foi um troco da oposição ao STF”.

“Gostaria muito de encontrar alguma crítica dos que agora defenderam a PEC quando monocraticamente o ministro Gilmar Mendes impediu que a então presidente Dilma Rousseff tornasse Lula seu ministro”, continua provocando Antonio Lavareda.

Unidade dos poderes pós-8 de janeiro ficou abalada

De qualquer modo, o ano termina com um clima forte de tensão entre os poderes que não se via no primeiro semestre, marcado pela forte cena em que todos desceram juntos a rampa do Palácio do Planalto após as invasões e depredações do dia 8 de janeiro. “Agora, sem dúvida, ficou uma rusga entre o Executivo e o Judiciário que não havia”, comenta Lavareda, a respeito do voto favorável do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). “Lula já tratou de conversar com os ministros do STF, e é provável que esse episódio seja superado”, acredita o cientista político. O problema passa a ser o Senado, longe da docilidade de outrora.

Ferramenta de medição da atuação dos parlamentares, o Radar do Congresso, do site Congresso em Foco, mostra com clareza essa mudança de comportamento. Governismo do PP e Republicanos aumentou na Câmara e despencou no Senado desde outubro.

Após emplacarem dois ministros na Esplanada, PP e Republicanos têm um índice de governismo na Câmara de 74% e 77%, respectivamente. Já no Senado, o PP caiu de 61% para 59%, e o Republicanos caiu de 62% para 57%. Verdade que sempre foram mais oposicionistas.

Lavareda observa que todo esse clima está diretamente relacionado aos planos do presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Davi Alcolumbre, que se uniu à oposição para tentar voltar à presidência do Senado em 2025, puxando também Pacheco.

No Senado, os dois partidos têm nomes mais hostis ao governo, com figuras como Ciro Nogueira (PP-PI), Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e Damares Alves (Republicanos-DF). Mas a queda reflete a atual escalada oposicionista do Senado, vista ultimamente.

A cruel arte da autossabotagem

POR GERSON NOGUEIRA

Um dos piores exercícios de crueldade a que um time pode submeter o seu torcedor é o que o Botafogo faz presentemente no Campeonato Brasileiro. Depois da campanha empolgante no turno, o time caiu verticalmente de rendimento, após sucessivas trocas de comando. A torcida, que não festeja o título nacional desde 1995, foi levada a acreditar que seria desta vez. A caminhada errática no returno indica que não.

Jogo após jogo, tudo fazia crer que ninguém impediria a chegada do Botafogo. Como ninguém impediu, o próprio Botafogo decidiu se autossabotar, caprichando na arte de se atrapalhar em jogos fáceis.

O mais recente capítulo dessa ópera se desenrolou ontem à tarde. Depois de sustentar um placar de 1 a 0 sobre o Santos, perdendo várias chances de gols e com o jogo controlado, o Botafogo recaiu no mesmo erro de outras partidas recentes. Descuidou e terminou entregando o ouro nos minutos finais.

É claro que a questão emocional é determinante para a debacle. Nenhum time desidrata tão rapidamente como ocorreu com o Botafogo. Da mesma forma, nenhum jogador desaprende de uma hora para outra, mas é fato que atletas que encantavam anteriormente – Tiquinho, Adryelson, Cuesta, Eduardo – ficaram irreconhecíveis.

As mudanças de direção tampouco ajudaram. Saiu Luís Castro, o construtor do time, e entrou Bruno Lage, com direito a um curto e vitorioso período com Cláudio Caçapa. Lage caiu após resultados ruins e o elenco apoiou a efetivação de Lúcio Flávio. Não deu certo. Veio Tiago Nunes, e continua a não dar certo.

Fica óbvio que o problema não está exatamente no comando, mas no processo de execução do planejamento de campo. A competência com que o Botafogo envolvia seus adversários, com velocidade e compactação do meio para frente, deixou de existir.

Cabe observar que um time que dispara na liderança passa a ser mais observado, mapeado nos mínimos detalhes. Não deve ter passado despercebido aos outros técnicos que a jogada mortal do Botafogo nascia de lançamentos longos de Eduardo para Tiquinho. De um momento para outro, o meia não encontrou mais brechas para lançar e seu futebol minguou.

O ataque se movimentava com velocidade pelas pontas, através de Victor Sá e Junior Santos. Ambos passaram a receber marcação dobrada e deixaram de ter espaço para explorar pelos lados.

Inconscientemente, o Botafogo passou a entrar em campo com a confiança abalada e duvidando de suas forças. O oposto do que ocorria antes, quando as seguidas vitórias funcionavam como fator de reforço emocional.

Para se reencontrar e evitar apagões como ocorreu diante de Palmeiras e Grêmio, o Botafogo terá que cuidar da cabeça. O problema, mais do que nunca, está na própria capacidade de se achar capaz de voltar a vencer.

Palmeiras lidera, mas a disputa segue embolada

A três rodadas do fim da competição, ninguém arrisca a cravar com segurança quem será o campeão brasileiro. A imprevisibilidade é a marca desta Série A. Palmeiras e Flamengo têm 63 pontos, sendo que a equipe paulista lidera por ter maior quantidade de gols marcados, uma vantagem que ainda pode ser superada.

Em terceiro lugar, o Botafogo soma 62 pontos e ainda sonha com a taça, apesar do longo jejum de vitórias. O Atlético-MG é o quarto, com 60 pontos, seguido pelo Grêmio, quinto colocado com 59, e pelo Bragantino, o sexto, também com 59.

São maiores as probabilidades de título para os quatro primeiros, embora Grêmio e Bragantino não possam ser descartados. Vai depender muito da próxima rodada, que tem o Palmeiras enfrentando o rebaixado América-MG, o Flamengo contra o Atlético no Maracanã e o Botafogo encarando o também rebaixado Coritiba.

A sequência palmeirense é claramente a mais favorável. Terá nas últimas rodadas o Fluminense e o Cruzeiro como adversários. O Flu vai poupar os titulares, em função da preparação para o Mundial de Clubes. Fecha a campanha diante do Cruzeiro, que pode chegar ao jogo já rebaixado.

Além do Galo, o Flamengo joga com o Cuiabá (em casa) e com o São Paulo (fora). Dois adversários que já não correm nenhum risco e não aspiram mais nada na competição. Os dois últimos compromissos do Botafogo são contra o Cruzeiro (casa), lutando contra o rebaixamento, e Internacional (fora).

A rota do Atlético-MG não é das mais difíceis. Recebe o São Paulo e encerra participação contra o Goiás, praticamente rebaixado.

Com tantas oscilações registradas ao longo da disputa, é pouco provável que não ocorram novas surpresas até a 38ª rodada. Por ora, nenhum dos seis primeiros pode jogar a toalha.

Série B: rodada final gera emoção e alguma estranheza

A Chapecoense conseguiu se livrar no confronto final, derrotando o campeão Vitória. Já o Sampaio Corrêa não teve a mesma sorte, caindo na derrota para o Sport, que também saiu frustrado por não alcançar o acesso. Festa mesmo quem fez foi o Atlético-GO, com o acesso obtido em vitória categórica sobre o Guarani.  

Já o Vila Nova foi a nova vítima do turbinado ABC, que de uma hora para outra começou a ganhar jogos improváveis. Cheiro forte de mala no ar. Da mesma forma que pareceu estranho o ocorrido em Fortaleza, onde o Juventude subiu ao derrotar o Ceará de virada.

Um jogo dos mais esquisitos. No primeiro gol dos gaúchos, o goleiro do Ceará soltou a bola nos pés do atacante. Quando a partida estava empatada, foi desmarcado o penal legítimo em favor do Ceará. Os instantes finais mostraram uma acomodação exagerada dos donos da casa. Detalhe: o Juventude teve um jogador expulso no 1º tempo. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 27)