O caminho da paz é a política

Por Chico Cavalcante (*)

O ataque do Hamas contra civis em Israel foi um ato abominável que deve ser condenado com toda veemência, não apenas por imposição de uma consciência moral mas também por se tratar de um crime de guerra de acordo com o direito internacional, mesmo considerando-se que o Hamas é um ator não-estatal. 
O povo judeu tem uma história admirável de resiliência ao longo dos séculos. Deixe-se a escravidão do Egito de lado, pois ela faz parte do mito e não da história. O que a história e a arqueologia atestam é que Israel Antigo (Reino do Norte) foi devastado pelos assírios e sua população foi deportada; que Jerusalém, capital de Judá, foi destruída pelos babilônios em 586 a.C.; e que, esta mesma Jerusalém, foi destruída mais duas vezes pelos romanos: em 70 por Tito e em 135 por Adriano, ocorrendo a grande diáspora. Na Era Moderna, os judeus foram terrivelmente massacrados pelo nazismo. 
Mesmo com tudo isto, os judeus estão aí com seu Estado e com sua prosperidade. Mas a construção do Estado atual, com sua prosperidade, não foi feita sem grandes pecados e grandes crimes. Constatar isto, não significa dizer que os judeus não têm direito a um Estado. O problema é como ele foi constituído.
É certo que o terrorismo deve ser condenado por dirigir-se contra a população civil. Além disso, a história mostra que ele não é um método eficaz para atingir objetivos políticos. Mas se o terrorismo, e a violência que ele perpetra, deve ser condenado, ele deve ser também compreendido. Só compreendendo suas causas é possível agir para evita-lo.
Desta forma, não se pode compreender a violência do Hamas e de outros grupos radicais que lutam contra Israel sem compreender a história da região e dos acontecimentos causais que levaram aos sangrentos dias de hoje.
Pode-se dizer que a história contemporânea da Palestina começa em 1917 com a Declaração de Balfour – que consiste na carta do secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Arthur Balfour, ao líder judaico britânico Lionel Walter Rothschild. Com a declaração o governo britânico se comprometia a estabelecer “um lar nacional ao povo judeu na Palestina”. De 1923 a 1948 foi estabelecido o mandato britânico, espécie de colonialismo, sobre a Palestina. Foi nesse momento que começa a história do terrorismo contra os palestinos e demais árabes que viviam na região.
Sob o mandato, começaram ondas de ingressos crescentes de judeus na Palestina e o confisco de terras pelos britânicos para serem distribuídas para os judeus. De 1936 a 1939 ocorreu a Revolta Árabe (greves e protestos) por conta desta política. Ocorreram prisões em massa e demolições punitivas de lares palestinos, algo que os judeus ortodoxos aplicam até hoje. Os britânicos começaram a armar grupos paramilitares de judeus. Nesse período foram mortos cerca de 5 mil palestinos. Mais de 15 mil foram feridos e 5.600 foram presos.
Com a perseguição nazista, o fluxo de judeus para a Palestina se intensificou. Em 1947, os palestinos ocupavam 94% da Palestina histórica e eram 67% da população. Com a resolução 181, a ONU criou o Estado de Israel e lhe destinou 56% da Palestina. Em 1948, os paramilitares sionistas começaram uma política de expansão territorial, destruindo cidades e aldeias palestinas. Apenas na aldeia de Deir Yassin, 100 homens, mulheres e crianças foram mortos. 
Em dois anos, mais de 500 cidades e aldeias foram destruídas e cerca de 15 mil palestinos foram mortos em inúmeros massacres. Com isso, os judeus capturaram 78% da Palestina histórica e o resto ficou para a Cisjordânia e Faixa de Gaza. Calcula-se que 750 mil palestinos tiveram que abandonar suas casas e 150 mil ficaram no Estado de Israel. Em 1948 a Resolução 194 apela para o direito de retorno dos palestinos, mas isto nunca se tornou efetivo.
Sucederam-se guerras e intifadas. Os palestinos foram perdendo terreno nesses processos. Israel foi condenado várias vezes pela ONU e nunca obedeceu as resoluções sobre territórios ocupados. Um relatório da ONU sobre Gaza, produzido em 2009, afirma que na operação Chumbo Fundido, que durou três semanas, Israel e o Hamas cometeram crimes de guerra e, possivelmente, crimes contra a humanidade. Morreram 13 judeus e 1.400 palestinos. No mínimo, 400 dessas mortes podem ter sido execuções de civis. Nunca houve uma investigação conclusiva. 
Em 2007 Israel impôs um bloqueio a Gaza, acusando o Hamas de terrorismo. Mas até mesmo analistas judeus sustentam que a extrema-direita de Israel e Netanyahu apoiaram indiretamente e fomentaram o grupo contra o Al Fatah, organização laica e moderada. Na medida em que o Hamas não reconhece o Estado judeu, isto serve aos interesses da extrema-direita israelita para bloquear a formação do Estado Palestino. 
De qualquer forma, não é possível compreender o terrorismo e a violência dos grupos palestinos radicais sem estender a história de violência perpetrada contra os palestinos em geral no processo de formação do Estado de Israel. Violência que teve o patrocínio e a complacência das potências ocidentais. Teve também a omissão, quando não a traição, de governos árabes. 
O fato é que os palestinos vêm sendo humilhados e espezinhados. A relação que o mundo ocidental tem para com eles é de indiferença. Ninguém se importa com a morte dos civis, das mulheres, das crianças. Ninguém se importa com sua fome, seu desespero, sua falta de pátria e de futuro. São vistos como massa excedente, que pode desaparecer.
Gaza é um campo de concentração a céu aberto. Sentimos horror pela violência terrorista do Hamas contra civis judeus. Mas o que sentimos pela história de terror a que os palestinos vêm sendo submetidos? Concordamos com a existência do Estado de Israel. Mas o que dizer do fato de que Israel viola as resoluções da ONU sobre territórios? E o que dizer da ONU que garante o Estado de Israel e é incapaz de garantir o Estado Palestino? Nos solidarizamos com as famílias dos civis mortos pelo
Hamas. Mas o que sentimos e dizemos às famílias de palestinos que vêm tendo homens, mulheres e crianças mortos há décadas?
Esta guerra precisa acabar, com a convivência de dois Estados. De dois povos irmãos, que têm o mesmo Deus e vários profetas em comum. Nessa história não há povo escolhido.
Cada povo precisa ter seu Estado, seus direitos e o direito de viver em paz. E o caminho da paz é a política.

Chico Cavalcante é jornalista, consultor político e escritor

Rock na madrugada – Bob Dylan, “Masters of War”

Uma super banda acompanhou Bob Dylan na excursão europeia de 1984. Neste show, em julho daquele ano, no estádio de Wembley (Londres), o bardo de Minnesota foi brilhantemente acompanhado por Mick Taylor (guitarra), Colin Allen (bateria), Ian McLagen (teclados) e Greg Sutton (baixo). A produção era do craque Glyn Johns. Pilotando alguns solos majestosos nesta canção e em toda a turnê, Mick Taylor tinha acabado de desembarcar da barca dos Stones, por não conseguir acompanhar o ritmo turbulento demais de Jagger & cia.

Pecuarista do Pará, aliada de Michelle Bolsonaro, é investigada pela CPI do Golpe

Eliziane Gama, relatora da CPI Mista do Golpe, apresentou há pouco mais de duas semanas um requerimento para quebrar os sigilos fiscais e bancários de Geny Silva Gomes em meio às investigações sobre os possíveis financiadores de atos golpistas pelo país.

A senadora justificou o pedido afirmando que Geny, de acordo com dados levantados pelo colegiado, teria relações com George Washington de Oliveira, condenado pela tentativa de atentado contra o Aeroporto de Brasília, um plano frustrado na véspera de Natal de 2022.

E quem é Geny? Sob a alcunha de Genny do Agro nas urnas, a pecuarista é natural de Goiás, mas, hoje, vive no Pará. Por lá, tentou se lançar no ano passado como candidata à segunda suplente de uma cadeira no Senado, cujo titular era Mario Couto (também do PL). Renunciou, no entanto, antes da eleição. A principal atividade de Geny hoje é comandar a divisão paranese do PL Mulher, chefiado nacionalmente por Michelle Bolsonaro. Juntas, elas posam como aliadas nas redes sociais.

Ao ensaiar a campanha ao Congresso, um ano atrás, Geny informou à Justiça Eleitoral que tinha R$ 2,3 milhões em bens — a maior parcela, de R$ 1,5 milhão, referente a uma fazenda. (Transcrito de O Globo)

A fúria do pipoqueiro mimado

POR GERSON NOGUEIRA

Causou assombro, nos últimos dias, a informação de que Neymar xingou e peitou o presidente da CBF logo depois de ter sido alvejado com pipocas, na Arena Pantanal, no final do jogo Brasil x Venezuela. Aborrecido com o deboche de um torcedor, episódio que foi tema da coluna de ontem, o mimado atacante resolveu atacar o patrão dele no escrete.

Ednaldo Rodrigues, o atual chefão do futebol brasileiro, passava por ali quando Neymar desceu aos vestiários, ainda espanando as pipocas do cabelo e da camisa da Seleção. Diante de testemunhas, incluindo outros jogadores, soltou os cachorros para cima do presidente da CBF. O veterano José Carlos Araújo, o Garotinho, noticiou o episódio em primeira mão.

Além de se dirigir a Ednaldo com uma saraivada de palavrões, ainda exigiu que não programe mais jogos da Seleção para Cuiabá, assumindo ares de prima-dona ultrajada. Poucos entenderam o motivo de tanto chilique, embora todo mundo saiba que o camisa 10 não tem limites.

Do mesmo modo, não é novidade que Neymar está acostumado a se insurgir contra superiores hierárquicos. Fez isso no Santos, ainda no começo da carreira profissional. Descumpriu publicamente ordens de Dorival Júnior, seu técnico à época, e desafiou a autoridade de Renê Simões na seleção sub-20.

Renê, por sinal, disse que estava nascendo “um monstro” criado pela omissão de seus treinadores na base e a total permissividade de dirigentes e assessores. Esqueceu a figura do pai e empresário do jogador.

Neymar pai controla a carreira do pimpolho com mãos de ferro e passa pano para todos os seus caprichos, por mais absurdos que sejam. Ai de quem contrariar o menino Ney. Entra logo para o rol dos inimigos mortais. Figuras ilustres, como Casagrande e Juca Kfouri, estão nessa lista.

Como se sentiu à vontade para passar um pito no presidente da CBF, é de supor que não vai aceitar quando Fernando Diniz decidir algo que o contrarie. Ednaldo deveria, a essa altura, ter ordenado o imediato afastamento do atleta por insubordinação, antes do jogo de amanhã contra o Uruguai pelas Eliminatórias Sul-Americanas.

Acontece que a falta de pulso própria dos cartolas brasileiros não permite que o presidente da CBF arrisque aplicar uma punição sobre o principal astro da Seleção. Se bobear, o dirigente não vai nem se pronunciar, a fim de botar panos quentes no constrangedor episódio.

Neymar seguirá, impávido e confiante, a desafiar a disciplina interna e a fazer o que bem entende. Exatamente o que sempre fez desde que se profissionalizou, estimulado pela impunidade.

Pode-se dizer também que esse excesso de liberdade é uma das causas do naufrágio de um projeto de astro maior, destinado a conquistar os principais troféus individuais da Fifa e a liderar a busca pelo pentacampeonato mundial. As recorrentes cenas de irritação com os árbitros têm conexão com os abusos cometidos do lado de fora.

Quando, em 2018, Neymar se tornou alvo de piada mundial pelo excesso de simulações durante a Copa da Rússia, a pergunta que mais se ouvia era: por que Tite, o técnico da Seleção, não toma uma atitude com o jogador? O que ocorreu na Arena Pantanal responde a essa indagação. Todos que lidam com o atacante agem como bananas e pipocam gloriosamente.     

Onça-pintada quer títulos e sonha com a Série A

O primeiro jogo da final da Série C terminou 0 a 0, ontem, em Manaus. O Amazonas perdeu oportunidades e tomou alguns sustos também. O título será decidido no próximo fim de semana, em Brusque, e a Onça-Pintada segue com chances, pois tem um retrospecto vitorioso como visitante.

Com um time repleto de refugos do futebol paraense – Jimenez, PH, Renan Castro, Gustavo Ermel –, o Amazonas fez uma campanha surpreendente no Brasileiro da Série C, amparado na grande fase do centroavante Sassá, artilheiro isolado da competição.

Teve um excelente desempenho na primeira fase, mas caiu de rendimento no início do quadrangular. Depois de trazer o técnico Luizinho Vieira, o time recuperou a pegada e emendou uma sequência de quatro vitórias, conquistando o acesso e o direito a decidir o título.  

Em entrevistas recentes, a diretoria do clube faz planos de chegar à Série A em dois anos. É bom não duvidar. O clube é jovem, com apenas cinco anos de fundação, mas tem pressa em conquistar espaço e títulos.

Mbappé se consagra como o melhor do pós-Copa

Não é possível ignorar que o grande jogador do período posterior à Copa do Mundo é Kylian Mbappé. O craque francês não para de demonstrar em campo que o relativo reconhecimento obtido no Qatar tende a virar ampla consagração nos próximos mundiais.

Com 24 anos de idade, Mbappé chegará ao Mundial de 2026 na plenitude, com total condição de disputar pelo menos mais duas Copas em alto nível. Nesta semana, ele novamente abusou do talento para jogar futebol.

Na sexta-feira (13), o time treinado por Didier Deschamps derrotou a Holanda por 2 a 1, com dois golaços de Mbappé, assegurando a classificação antecipada nas eliminatórias para a Euro-2024.

As redes balançaram cedo. Logo aos 6 minutos, após rápida troca de passes, Antoine Griezmann tocou para Clauss, que cruzou para Mbappé bater de voleio e abrir o placar. Belíssimo gol do capitão francês.

Apesar de uma ligeira reação holandesa, os franceses continuavam mais agudos nas jogadas ofensivas. No segundo tempo, a vantagem foi ampliada aos 7 minutos: Mbappé foi lançado na esquerda e disparou um chute cruzado e certeiro no ângulo direito, sem chances para Verbruggen.

O camisa 10 francês completou 42 gols com a camisa dos Bleus, superando o ídolo Michel Platini e tornando-se o 4º maior artilheiro do país. A Holanda descontou aos 37’, com Hartman.

Quando ressalto as qualidades de Mbappé revelo minha admiração pelo estilo e desassombro do jovem atacante, que na última Copa acabou eclipsado pela conquista de Lionel Messi, embora tenha sido o mais espetacular jogador nos gramados catarianos. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 16)

A Palestina e a ‘solução final’, segundo Deleuze

“Por que os palestinos seriam ‘interlocutores válidos’ visto que eles não têm um país? Por que teriam um país, visto que este lhes foi vedado? Nunca lhes foi dada outra escolha que não se renderem incondicionalmente. Só o que se lhes propõe é a morte. Na guerra que os opõe a Israel, as ações de Israel são consideradas como respostas legítimas (mesmo que pareçam desproporcionadas), ao passo que as dos palestinos são exclusivamente tratadas como crimes terroristas. E um morto palestino não tem a mesma medida nem o mesmo peso que um morto israelense.

[…] Para uma ‘solução final’ do problema palestino, Israel pode contar com uma cumplicidade quase unânime dos outros Estados, com nuanças e restrições diversas. Para todo o mundo, os palestinos, gente sem terra nem Estado, são um estorvo. De nada adianta receberem armas e dinheiro de certos países, pois sabem o que estão dizendo quando declaram que estão absolutamente sozinhos. […] Os combatentes palestinos são oriundos dos refugiados. Israel pretende vencer os combatentes fazendo, com isso, milhares de outros refugiados, de onde nascerão novos combatentes.

[…] O Estado de Israel assassina um povo frágil e complexo. […] Israel sempre considerou que as resoluções da ONU, que o condenavam verbalmente, na verdade lhe davam razão. O convite para que deixasse territórios ocupados foi transformado em dever de neles instalar colônias. […] [É necessário] uma pressão suficiente para que os palestinos sejam, enfim, reconhecidos pelo que são, ‘interlocutores válidos’, pois imersos num estado de guerra de que certamente não são os responsáveis.”

(GILLES DELEUZE – ‘Os Que Estorvam’ [Le Monde, 1978] – In: “Dois Regimes de Loucos”)

Rock na madrugada – The Raconteurs, “You Don’t Understand Me”

Apresentação ao vivo da cultuada banda de Jack White em Montreux, 2008. Indie rock da melhor qualidade, com destaque para Brendan Benson (guitarra), além de Jack Lawrence (baixo) e Patrick Keeler (bateria). O grupo foi montado em 2005, em Detroit (EUA). Todos os músicos já eram conhecidos de outros projetos musicais, como The Greenhornes, Blanche e White Stripes, este em parceria com o próprio Jack.

A falsa crise dos artilheiros

POR GERSON NOGUEIRA

A mídia sudestina insiste em ver uma suposta crise na formação de artilheiros no Brasil. Os fiascos nas Copas de 2018 e 2022 contribuem para reforçar esse argumento. A questão é que, muito mais do que uma carência de goleadores, há um reiterado processo de equívocos (propositais ou não) na convocação de jogadores para a Seleção.

Interesses maiores se sobrepõem ao simples mecanismo de escolha dos jogadores – não apenas de atacantes, diga-se – na Seleção. Faz tempo que as convocações são marcadas por verdadeiros absurdos, sem explicação clara para justificar a prioridade por atletas que nem sempre estão entre os melhores da posição.

É possível que no passado essa distorção já existisse, mas seguramente não era tão escancarada como passou a ser nas últimas décadas. A profissionalização e a mercantilização tornaram as escolhas extremamente valorizadas no mercado.

A partir da década de 1990, uma convocação para o escrete canarinho virou uma espécie de carimbo de qualidade, algo como um ISO-9000, uma garantia para o investimento de clubes ávidos em busca de jogadores promissores.

Clubes, empresários e técnicos começaram a descobrir um filão lucrativo, que permitia comissões polpudas e lucros portentosos, sem maior esforço. Muitos enriqueceram com esse expediente, talvez ainda enriqueçam, difícil saber – e provar. O certo é que, para cada Romário, havia um Viola; para cada Ronaldo Nazário, um Grafite, e por aí vai.

Rende tese acadêmica o rosário de falcatruas e golpes praticados em nome do futebol pentacampeão do mundo. Voltei a este tema em face da atual seca que se abate sobre o comando do ataque da Seleção, como ocorreu no ano passado na Copa do Qatar e quatro anos antes na Rússia.

Os centroavantes chamados foram Gabriel Jesus e Richarlyson. Jesus teve duas chances com Tite. Não conseguiu fazer gol em nenhuma ocasião. Richarlyson fez, mas, como Jesus, não convence.

É de espantar que no Brasileiro deste ano dois atacantes demonstrem plenas condições de honrar a camisa 9, tão emblemática e ao mesmo tempo tão pesada. Tiquinho Soares, artilheiro e melhor jogador da competição, marcou 15 gols. Não foi sequer mencionado por Fernando Diniz.

Tem 32 anos, é nordestino, nunca havia jogado no Brasil. Foi descoberto no futebol internacional e repatriado pelo Botafogo. Pouco importa. Simples, faz o que dele se espera. Gols, muitos deles. De todo tipo (de cabeça, por cobertura), de todas as distâncias. Dificilmente será lembrado. Sempre irá aparecer alguém com um argumento contrário a vetar o botafoguense.

Bem, se Tiquinho é “velho”, há uma opção mais jovem. Marcos Leonardo, da seleção sub-20, vem se destacando no Brasileiro no comando da dianteira do Santos, um dos piores times do campeonato. Como Tiquinho, faz gols em profusão, chuta e dribla muitíssimo bem.

Além dos citados, Rony continua em grande forma no Palmeiras, Victor Roque é referência no Atlético-PR e John Kennedy brilha no Flu. Basta chamar e dar chance. Caso fracassem, tudo bem, mas experimentar quem se destaca é parte fundamental das atribuições do técnico da Seleção.

Enquanto isso, Diniz imita o renitente Tite na insistência com Gabriel Jesus e Richarlyson. E a mídia preguiçosa seguirá repetindo o mantra da falta de homens com faro de gol. E la nave va.

Bola na Torre

O programa vai ao ar às 22h, na RBATV, com Giuseppe Tommaso na apresentação. Participação de Valmir Rodrigues e deste escriba de Baião. Em debate, os planos da dupla Re-Pa para a próxima temporada. A edição é de Lourdes Cezar.

Sobre pipocas e pipoqueiros mimados

Ao término do jogo entre Brasil e Venezuela, quinta-feira à noite, na Arena Pantanal, um torcedor atirou um saco de pipocas sobre Neymar, quando este caminhava para os vestiários. Como diz o outro, pra quê?! 

O menino mimado se abespinhou, pegou corda, dizendo-se ofendidíssimo com o gesto. Para zero surpresa, parte das focas amestradas deu plena razão a ele.

Não vi injúria ou humilhação na brincadeira do torcedor. Foi mais um ato de escracho e deboche, jamais achincalhe. No fim das contas, retrata bem as últimas performances de Neymar no escrete.

Excesso de firulas, reclamações abundantes sempre por motivos bobos e nada daquele futebol que um dia chegou a encantar a torcida.

Ao mesmo tempo, a reação foi visivelmente exagerada em relação ao episódio. Neymar tratou de aproveitar a situação para desviar o foco da pífia apresentação dele e dos demais jogadores da Seleção contra a esforçada equipe venezuelana.

Quando diz que não está no Brasil em férias revela aquela soberba dos que se acham super importantes, cuja presença na Seleção equivale a um imenso favor ao país. Tipo da bobagem que remete aos tempos tristes da pátria de chuteiras e outras patriotadas cretinas.

Neymar está devendo, muito, como principal jogador brasileiro da atualidade. Conduz sua vida pessoal com o descompromisso dos astros pop, mas sempre que pode exige reconhecimento e reverência.

Precisa voltar o quanto antes a ser o ídolo solícito e simpático que passou por Belém e deixou a impressão de que estava mudando para melhor. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 15)

Conflito Israel-Palestina expõe parcialidade e chapa-branquismo da mídia brasileira

Cobertura força relação entre PT e Hamas para fabricar elo de terrorismo

Um artigo escrito por Andrew Fishman do Intercept apontou 11 distorções comuns na mídia corporativa — especialmente a americana e a brasileira — sobre os últimos episódios envolvendo Israel e a Palestina, todas feitas sob um viés pró-Israel e anti-Palestina. Nos últimos dias, os principais veículos brasileiros de jornalismo deram um show de ‘chapabranquismo’ em relação ao governo isralense.

As 11 distorções têm sido gabaritadas com excelência por aqui. Quase tudo o que se publica parece ter saído da assessoria de comunicação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Os convidados para comentar nos programas de TV —  analistas, brasileiros residentes em Israel, pesquisadores — são, na sua grossa maioria, alinhados às posições do governo de extrema direita israelense.  

O horror imposto pelo Hamas aos civis israelenses é tratado como um episódio ocorrido no vácuo. Pouco ou nada se fala sobre o terror diário que os palestinos vivem dentro do apartheid imposto pelo governo de Israel. As cenas de terror vistas nos últimos dias contra civis israelenses são injustificáveis e, com isso, todos concordamos.

Por outro lado, nos jornais brasileiro sempre encontra-se com facilidade justificativas para o contra-ataque israelense na Faixa de Gaza. O revide terrorista contra civis palestinos é tratado como algo justo e moral nos jornais brasileiros. O regime de apartheid vivido há anos pelo povo palestino é um dado quase que irrevelante no noticiário. 

A impressão que se tem ao acompanhar a cobertura dos jornais da Globo é que os palestinos são selvagens, antidemocráticos e potenciais terroristas. Já os israelenses são os democratas do Oriente Médio que agem em legítima defesa.  O maniqueísmo, sempre sob o viés israelense, é o que prevalece na telinha da Globo.

Neste aspecto, a GloboNews é o canal que mais se destaca. É possível ver um comentarista ou outro tentando contextualizar os fatos e fugir da lógica do bem contra o mal, mas é raridade. O padrão são notícias dadas sob a ótica do governo isralense sendo comentadas por analistas que ignoram a existência do regime de apartheid imposto há anos pelo governo israelense. 

No esgoto das fake news, na qual nada a extrema direita brasileira, o governo brasileiro é uma das principais vítimas. Circula com força nas redes sociais as seguintes notícias: “Hamas é o grupo terrorista ao qual Lula doou R$ 25 milhões” e “Dinheiro dos brasileiros sendo utilizado para financiar o terrorismo”. 

A imprensa corporativa não ajuda a esclarecer essas mentiras, pelo contrário, contribui para reforçá-las. Apesar de ter repudiado os ataques terroristas que vitimaram civis israelense, o governo brasileiro foi criticado por supostamente ter poupado o Hamas ao omitir o seu nome no comunicado oficial divulgado pelo Itamaraty. 

Na GloboNews, a jornalista Mônica Waldvogel se sentiu à vontade para afirmar que “parte do PT tem ligação com o Hamas”. Nunca houve qualquer ligação oficial do partido com o Hamas. Há uma confusão deliberada entre o apoio que parlamentares do partido deram à causa palestina no passado com um endosso aos recentes atos terroristas. Isso se repetiu em outros veículos. ​​

Em 2021, vinte parlamentares petistas assinaram um manifesto condenando a classificação do Hamas como organização terrorista. Sabe quem também não o classifica como organização terrorista? A ONU, a Noruega, a Suíça, o governo brasileiro atual e até mesmo sob o comando de Jair Bolsonaro. Seguir as classificações determinadas pela ONU é uma tradição histórica do Itamaraty, e não uma invenção do Lula e do PT.

O assunto é bastante complexo, mas a superficialidade com que é tratado pela imprensa pró-Israel ajuda a embalar as narrativas mentirosas da extrema direita brasileira. Não se cobra dos bolsonaristas, por exemplo, que classifiquem as ações violentas do governo israelense contra palestinos como terrorismo de estado. Apenas os petistas e o governo Lula são os que devem ajoelhar no milho e dar explicações para a imprensa alinhada às narrativas oficiais do governo israelense.

Há quase 3 mil brasileiros morando em Israel, mas curiosamente a imprensa brasileira só ouve aqueles que ignoram o regime de apartheid vivido pelos palestinos e tratam o governo israelense como a única vítima.

O pastor bolsonarista Felippe Valadão, que organiza uma excursão da igreja Lagoinha em Israel, passou bons minutos na GloboNews dando seu testemunho. A família desse líder fundamentalista é famosa no Brasil por atacar sistematicamente gays e religiões afro-brasileiras e endossar o golpismo dos bolsonaristas. Esse homem é considerado pela Globo um interlocutor válido para relatar sua experiência em Israel.

O jornalista Jorge Pontual, correspondente da Globo News em Nova York, foi outro que se sentiu à vontade para contar outra fake news que fez a cabeça do bolsonarismo. Segundo ele, o Hamas teria decapitado 40 bebês israelenses na fronteira com a Faixa de Gaza. A informação foi divulgada por uma TV de Israel, mas já havia sido negada pelo próprio exército isralense. Mesmo assim, Pontual a divulgou ao vivo para todo o Brasil e ainda fez comparações com o Holocausto.

Esse requinte de crueldade fabricado pela mídia corporativa internacional tem como único objetivo justificar a violência do revide israelense contra Gaza. No Brasil, a mentira contribui para atiçar o ódio bolsonarista.

No geral, a imprensa brasileira consegue ser mais hegemonicamente pró-Israel do que a própria israelense. Em editorial, o jornal Haaretz responsabilizou o primeiro-ministro israelense pelo último ataque terrorista do Hamas. “O desastre que se abateu sobre Israel no feriado de Simchat Torá é de clara responsabilidade de uma pessoa: Benjamin Netanyahu”, afirma o editorial.

O jornal responsabiliza Netanyahu por não conseguir “identificar os perigos para os quais estava conscientemente conduzindo Israel ao estabelecer um governo de anexação e desapropriação” e por “adotar  uma política externa que ignora abertamente a existência e os direitos dos palestinos.” 

É inimaginável ver esse tipo de afirmação em um editorial de qualquer jornalão brasileiro. Aqui, qualquer crítica ao governo de Israel neste momento é encarada como um endosso automático à violência do Hamas. Já o apartheid em Gaza é encarado como inexistente ou, no máximo, como irrelevante. Tudo isso é feito, claro, sob o falso manto do isentismo jornalístico.

Rock na madrugada – The Spencer Davis Group, “Keep on Running”

Durou apenas seis anos a trajetória do Spencer Davis Group, mas tem suficiente para produzir algumas canções inesquecíveis. A banda foi formada em em Birmingham, Inglaterra, em 1963, pelos músicos Spencer Davis, Steve Winwood, Muff Winwood e Peter York. Os três grandes sucessos do SDG foram “Keep On Running”, “Gimme Some Lovin'” e “I’m a Man”. Depois de sucessivas mudanças na formação, o grupo encerrou a carreira em 1969. O único que prosseguiu com sucesso foi Steve Winwood, que participou de outros dois supergrupos, Blind Faith e Traffic.