Por Rudolfo Lago, no Correio da Manhã

O cientista político André Cesar recomenda “comemoração com cautela” ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao seu governo pelos resultados da pesquisa do Instituto Quaest, encomendada pela Genial Investimentos, divulgada na quarta-feira (16). De acordo com a pesquisa, a aprovação de Lula como presidente atingiu 60%. Um aumento de quatro pontos percentuais com relação à rodada anterior, quando tinha 56%. Também melhorou a avaliação geral sobre o governo, que ficou em 42%. Era de 37% na pesquisa anterior.
Para André Cesar, a cautela é necessária porque os bons resultados parecem ser reflexos das boas notícias obtidas ao final do primeiro semestre e início do segundo. Quando o governo conseguiu aprovar as pautas econômicas na Câmara (arcabouço fiscal, reforma tributária e voto de qualidade no Conselho de Administração de Recursos Financeiros – Carf), viu a inflação cair por dois meses seguidos e o Conselho de Politica Monetária (Copom) reduzir em 0,5 ponto percentual a taxa de juros.
“É evidente que o governo precisa realizar um trabalho permanente para manter os índices da pesquisa”, considera o cientista político. Após a divulgação da pesquisa, dois acontecimentos já podem impactar os resultados futuros: o apagão de energia elétrica ocorrido na terça-feira (15) e o aumento no preço dos combustíveis. Para André Cesar, o apagão pode ter efeitos menores, com o problema resolvido. O aumento nos combustíveis, porém, pode gerar efeito, pelo impacto que tem sobre os preços de um modo geral. Se houver aumento da inflação, isso pode, por exemplo, reduzir as chances de novas reduções na taxa de juros.
É também importante que o governo mantenha o bom desempenho no cenário político. Depois das aprovações da pauta econômica na Câmara no primeiro semestre, até agora tudo está travado no Congresso, aguardando as definições de Lula sobre a entrada no primeiro escalão dos deputados do Centrão, André Fufuca (PP-MA) e Silvio Costa Filho (Republicanos-PE).
A definição é importante para que as votações retornem. Se o governo conseguir aprovar na semana que vem o arcabouço e até o final do ano a reforma tributária no Senado manterá até o final do ano a produção de boas notícias econômicas, podendo vir a ter novos bons resultados em futuras pesquisas.
Regiões
A melhora na aprovação de Lula verificada na pesquisa deve-se a diversos fatores. De um modo geral, a avaliação do governo melhorou em todo o país e em todos os segmentos. No caso das regiões, está fortemente relacionada à melhora nas regiões Sudeste e Sul. No Sudeste, houve uma melhora de quatro pontos percentuais, de 51% para 55%. Na região Sul, no entanto, houve um impressionante aumento de 11 pontos percentuais.
Na rodada anterior, a aprovação de Lula no Sul era de 48%, e era menor que a desaprovação, que era de 49%. Lula agora tem na região 59% de aprovação, contra 38% de desaprovação. A melhora é importante, especialmente porque a região Sul, mais conservadora, sempre foi hostil a Lula e favorável a seu principal adversário, o ex-presidente Jair Bolsonaro. No Nordeste, a avaliação manteve-se estável, embora bem alta: passou de 71% para 72%.
Nas regiões, Lula teve, porém, uma piora na avaliação das regiões Norte e Centro-Oeste, que o Instituto Quaest une no mesmo bloco. Foi uma queda de quatro pontos percentuais, de 56% para 52%. Mas a desaprovação nas duas regiões também caiu, de 42% para 39%. Subiu de 3% para 9% o que consideram o desempenho de Lula regular.
Segmentos
Entre os segmentos da sociedade, a grande novidade da pesquisa é a melhora no conceito de Lula entre os evangélicos, grupo que foi uma das bases mais importantes de Bolsonaro nas últimas eleições. Pela primeira vez, a aprovação de Lula nesse segmento é maior que a reprovação. Lula é aprovado por 50% dos evangélicos, uma subida de seis pontos percentuais com relação à rodada anterior, quando a sua aprovação no grupo era de 44%. E é desaprovado por 46% (antes, essa desaprovação era de 51%).
Um reflexo disso é que o conceito de Lula junto àqueles que não votaram nele, mas em Bolsonaro, nas eleições do ano passado também melhorou. Naturalmente, ainda é maior nesse segmento o percentual de quem o desaprova. Mas a aprovação de Lula entre os eleitores de Bolsonaro passou de 22% para 25%. E a desaprovação caiu de 76% para 70%.
Governo
A boa avaliação dada a Lula reflete em melhora também na avaliação do governo de modo geral. No caso, a aprovação do governo subiu de 37% para 42%. E a desaprovação caiu de 27% para 24%. Os que consideram o governo regular passaram de 32% para 29%.
De novo, houve uma impressionante melhora na região Sul, de dez pontos percentuais. A aprovação do governo entre os sulistas passou de 30% para 40%. Na região Sudeste, houve uma melhora de 32% para 37%. No Nordeste, de 50% para 56%. E novamente houve queda no Norte/Centro-Oeste, de 35% para 32%.
Congresso
Apesar da pauta no momento travada e das pressões do Centrão e do presidente da Cãmara, Arthur Lira (PP-AL), o brasileiro considera que a relação de Lula com o Congresso é melhor do que era a de Bolsonaro. Para 43%, Lula tem mais facilidade que Bolsonaro nessa relação.
Mas a percepção sobre a economia não é assim tão boa. A maioria (39%) acha que a economia “ficou do mesmo jeito” (38% na rodada anterior). Ela melhorou na avaliação de 34% (eram 32% na rodada anterior). E piorou para 23% (eram 26% antes).
Para 31%, é justamente a economia o maior problema do país. Em seguida, vêm, para 21%, os problemas sociais. A saúde e os reflexos ainda da pandemia de covid-19 são o terceiro motivo de preocupação, para 12%. A violência é a grande preocupação para 10%.
O instituto Quaest ouviu 2.029 pessoas entre os dias 10 e 14 de agosto, em todo o país, em entrevistas pessoais, com uso de questionário. A margem de erro da pesquisa é de 2,2 pontos percentuais, e o nível de confiança é de 95%.