A incrível quadrilha dos milicos muambeiros

Nunca dantes na história deste país, nem mesmo naqueles anos movediços de 1964, as Forças Armadas tiveram a imagem tão avacalhada quanto agora. Um presidente da República, ex-capitão de armas com passado sujo, é o motivo da execração pública das FAs brasileiras. Traficou influência à vontade, agiu em proveito próprio (e também dos filhos, cupinchas. amigos etc.), destruiu órgãos públicos de fiscalização, aparelhou outros e emporcalhou publicamente a imagem das instituições militares.

A gota d’água é o escândalo das joias, ora em apuração pela Polícia Federal. A maneira como essas operações de venda, intermediação e recompra de peças valiosas faz crer que o Palácio do Planalto virou um imenso mercado persa de negociatas rasteiras e truques de biscateiros. Ao invés de se preocupar com assuntos de governo, Bolsonaro e auxiliares se comportavam como reles marreteiros, empenhados em obter o máximo de lucro possível, após a derrota nas urnas.

Peças recebidas como presentes ou pagamento de propinas passaram a ser negociadas como muamba, com o uso do avião presidencial para transporte e o emprego do ajudante de ordens Mauro Cid como ‘mula’ e do pai deste (um general de 4 estrelas) como intermediário. Métodos que lembram em tudo a prática dos muambeiros e cambalacheiros mais ordinários.

Aliás, o avião presidencial já tinha sido palco de outra escaramuça pesada, até hoje mal explicada: o transporte de 32 quilos de cocaína, apreendidos no aeroporto de Madri. Um oficial militar foi preso como responsável pelo tráfico, embora a situação – sob o olhar de hoje – possa ter envolvido gente de patente bem mais graúda.

A Polícia Federal deflagrou na sexta-feira (11) uma operação para apurar a suposta tentativa de vender ilegalmente presentes dados ao governo por delegações de outros países. O esquema teria sido capitaneado por militares e advogados ligados ao então presidente Jair Bolsonaro.

A decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes indica que Bolsonaro usou a estrutura do governo brasileiro para se beneficiar da venda dos itens recebidos como presentes.

TRAMBIQUEIROS

Quatro aliados do ex-presidente foram alvo da operação: o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, tenente-coronel do Exército Mauro Cesar Barbosa Cid; o pai dele, o general do Exército Mauro Cesar Lorena Cid; o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e tenente do Exército Osmar Crivelatti; o advogado Frederick Wassef, que já defendeu Bolsonaro e familiares em diversos processos na Justiça.

(Wassef é o mesmo que cedeu a casa para esconder o foragido Queiroz das rachadinhas, lembram?)

De acordo com a decisão do ministro Alexandre de Moraes, Bolsonaro teria usado a estrutura do governo brasileiro para se beneficiar da venda de itens recebidos como presentes para a União.

Ex-integrantes do governo Bolsonaro, além de amigos e parças do presidente, são suspeitos de participar do esquema. Um dos itens que foi vendido ilegalmente é um riquíssimo relógio Rolex em ouro branco cravejado em diamantes e com mostrador em madrepérola branca, também cravejado em diamantes.

O relógio foi vendido por cerca de R$ 300 mil para uma loja chamada Precision Watches, na Pensilvânia, Estados Unidos. O item de luxo deixou o Brasil, segundo a investigação, em um avião da Força Aérea Brasileira junto com uma comitiva do ex-presidente.

CRONOLOGIA DO CAMBALACHO

  • 19/10/2019 – Bolsonaro viaja ao Oriente Médio. O objetivo era intensificar relações com países da região e divulgar oportunidades de investimentos no Brasil.
  • 30/10/2019 – Em visita a Riad, na Arábia Saudita, Bolsonaro recebeu o Rolex de presente. Conforme apurado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, o ex-presidente participou de um almoço oferecido pelo rei saudita, Salman Bin Abdulaziz al Saud, momento em que ganhou um conjunto de joias, incluindo o relógio.
  • 11/11/2019 – O Rolex recebido foi protocolado como presente no “Acervo Privado” após ordem de Bolsonaro.
  • 06/06/2022 – O Rolex é liberado do “Acervo Privado”, tendo como destino o gabinete de Bolsonaro. O tenente Osmar Crivelatti assinou a retirada do Rolex.
  • 06/06/2022 – Mauro Cid (filho) troca e-mails para tratar da possível venda do Rolex. Os e-mails não deixam claro quem estava negociando com o então ajudante de ordens de Bolsonaro.
  • jun/22 – Com Mauro Cid (filho) e comitiva, Bolsonaro viaja aos EUA para participar da Cúpula das Américas. Cid (filho) não retorna ao Brasil junto com a comitiva. A PF suspeita que o Rolex deixou o país neste mês.
  • 12/06/2022 – Mauro Cid (filho) e Marcelo Camara trocam mensagens sobre o “Kit Ouro Branco”, que inclui o Rolex. Os registros foram feitos por Mauro Cid (filho), enquanto ele ainda estava nos EUA.
  • 13/06/2022 – Cid (filho) vai até Pensilvânia (EUA) vender o Rolex. O endereço refere-se a um Shopping Center, que abriga uma loja especializada em vendas de relógios novos e usados.
  • 13/06/2022 – O Rolex presenteado pela Árabia Saudita é vendido na Pensilvânia. Segundo a PF, o item de luxo foi repassado à loja Precision Watches por R$ 346.983,60. O valor foi depositado na conta bancária de Mauro Cesar Lourena Cid, pai de Mauro Cid, e amigo de longa data de Bolsonaro.
  • 30/12/2022 – Novos itens do conjunto “Ouro Branco” são retirados do Brasil. As peças foram transportadas no avião presidencial para os Estados Unidos, segundo a PF.
  • Março de 2023 – Imprensa revela existência do Rolex.
  • 08/03/2023 – Envolvidos criam operação para resgatar as peças do “Kit Ouro Branco”, incluindo o Rolex. A PF informou que, durante a troca de mensagens, os envolvidos compartilharam notícias de que o TCU poderia pedir imediata devolução dos itens.

  • 11/03/2023 – Frederick Wassef viaja para os EUA para recuperar o Rolex.
  • 14/03/2023 – Wassef recompra o Rolex nos EUA. Ele precisou pagar um valor maior do que o obtido na venda, segundo o Blog da Natuza Nery.
  • 15/03/2023 – Fábio Wajngarten troca mensagens com Mauro Cid (filho). Segundo a PF, na conversa, eles diziam temer que o Tribunal de Contas da União (TCU) determinasse a devolução imediata dos itens de luxo.
  • 15/03/2023 – O TCU determina a devolução dos itens de luxo dado por sauditas. A entrega dos itens deveria ser feita à Secretaria-Geral da Presidência da República no prazo de cinco dias.
  • 27/03/2023 – Mauro Cid (filho) embarca para os EUA para recuperar as demais peças do “Kit Ouro Branco”, na Flórida. Nesta data, Mauro Cid (filho) disse a Osmar Crivelatti, por meio de um mensagem, que a situação estava resolvida.
  • 28/03/2023 – Mauro Cid (filho) retorna ao Brasil com as peças do “Kit Ouro Branco”.
  • 29/03/2023 – Wassef volta ao Brasil com o Rolex e desembarca em São Paulo.
  • 02/04/2023 – Wassef entrega o Rolex a Mauro Cid (filho) em São Paulo.
  • 02/04/2023 – Mauro Cid (filho) leva o Rolex para Brasília e o entrega a Osmar Crivelatti.
  • 04/04/2023 – Kit de joias é entregue na Caixa Econômica Federal pela defesa de Jair Bolsonaro, segundo o blog da Julia Duailibi.

(Com informações do G1, Folha e Jornal GGN)

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