O jogo bruto da direita contra a agenda de Lula e Haddad

Por Osvaldo Bertolino – Fundação Maurício Grabois

Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tocou em pontos essenciais dos desafios para o governo na administração da economia. A grande questão é o déficit público projetado pelo Tesouro Nacional em R$ 162,4 bilhões em 2023, um buraco orçamentário que se não for tapado pode comprometer a estabilidade do pagamento de juros no mercado de títulos públicos, a grande preocupação da direita. De acordo com Haddad, são dados “um pouco superestimados do ponto de vista das despesas”, o mantra de que o governo pretende gastar muito com investimentos sociais e em incentivos à reindustrialização.

Do ponto de vista da arrecadação, há um conjunto de medidas em fase de envio ao Congresso Nacional “muito bem fundamentado”, segundo o ministro. Uma delas é a alteração das regras dos julgamentos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), beneficiando o governo nas disputas com devedores de impostos, que era uma projeção no começo do ano e já é uma certeza. De acordo com Haddad, vários acordos foram pré-estabelecidos com devedores importantes e aguardam a definição do Congresso.

Há ainda o que o ministro chamou de “disciplinar” (possivelmente executar) a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que deu ganho ao governo em uma causa de R$ 90 bilhões contra empresas. “Uma coisa é quando você faz uma projeção de algo que está em processo. Outra é quando você já tem uma decisão (legislativa ou judicial), e a Receita Federal faz a projeção”, explicou, acrescentando que são projeções bastante tímidas em relação ao potencial de arrecadação em 2024. Também há a nova tributação de apostas esportivas, que o ministro avalia entre R$ 6 bilhões e R$ 12 bilhões.

Juros na estratosfera

Haddad também reiterou que o governo está corrigindo distorções absurdas do sistema tributário, o que levará a um aumento de arrecadação. “O Brasil era o único país do mundo que tinha privatizado a sua Receita Federal”, disse, referindo-se à regra de que o empate no julgamento de uma dívida de impostos no Carf favorecia os devedores, tirando do governo o voto de desempate.

De acordo com o ministro, o caso era tão grave que chegou à suspensão do diálogo com a Organização Para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países desenvolvidos, porque ela não aceitaria, entre seus membros, um país com a Receita Federal privatizada. “Era um escândalo patrimonialista dos mais execráveis, uma das heranças péssimas do governo anterior que está sendo corrigida. Lobbies poderosos sofreram derrotas importantes. Estamos promovendo a despatrimonialização e a republicanização do Estado brasileiro.”

Haddad também criticou o Banco Central, que “manteve o juro na estratosfera”. “E isso faz com que a projeção de crescimento econômico para o ano que vem seja um pouco menor do que nós imaginávamos. O Banco Central está atrasado, mas ele, um dia, acorda. O crescimento neste ano, apesar de ainda tímido, surpreendeu. Mas veio sobretudo do agronegócio. Já o consumo das famílias vai ter a pior variação desde a pandemia. Ou seja, não se vislumbra qualquer espetáculo do crescimento”, analisou.

Conceitos monetários

A análise do ministro é um contraponto à tese do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que em entrevista ao empresário Abílio Diniz, na TV CNN, jogou a culpa dos juros altos no governo. Segundo ele, é preciso tomar cuidado para não haver “inversão de valores”, justificando a alta dos juros pelo endividamento do governo.

Sua justificativa é de que se um empresário está tentando pegar dinheiro, que está caro, a culpa não é da malvadeza do Banco Central, mas do governo, que está competindo pelo dinheiro disponível. A competição encarece o dinheiro. “Então, é importante explicar isso para a gente entender que se o governo não devesse quase nada, se a dívida do governo fosse muito pequenininha, o custo do dinheiro seria mais barato para todo mundo”, comentou, acrescentando que os juros altos não são causa, mas consequência.

A questão é saber como e por que o governo se endividou. Explicar como a manipulação da taxa de juros – sobretudo de meados dos anos 1990 em diante – pelo Banco Central como instrumento único de controle dos preços deflagrou esse endividamento, ignorando que não existe um diagnóstico simples e objetivo da inflação.

Mais ainda: entender os mecanismos das alavancas que devem ser acionadas como freios nessa escalada descontrolada, arejando o debate e permitindo que o mantra monetarista reine em regime de monopólio via cartel midiático. Até o Banco Central enveredou pelo caminho da censura, conforme matéria do jornal Folha de S. Paulo revelando uma tentativa de condicionar entrevistas de diretores à aprovação prévia de Roberto Campos Neto.

Haddad, por exemplo, discorda frontalmente do presidente do do Banco Central. “Do nosso ponto de vista, e do ponto de vista de todo mundo que produz, o ciclo de baixa dos juros já deveria ter começado. Porque não há nenhuma ameaça inflacionária no horizonte”, disse, sem se estender para outras análises, como a tese de que fórmulas matemáticas não devem substituir o desenvolvimento, de que a política econômica de um país não pode ser determinada por simples conceitos monetários.

Dilema inflação e desenvolvimento

A fala de Roberto Campos Neto suscita novas indagações sobre a atualidade do dilema inflação e desenvolvimento, tema que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe à baila desde a campanha eleitoral. Na primeira reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), o presidente disse que “ficou uma briga de séculos: quem era desenvolvimentista e quem era financeirista”. “Os financeiristas ganharam, e o Brasil perdeu”, destacou. Segundo ele, “está na hora de o desenvolvimentismo ganhar para que a gente volte a gerar oportunidades para 203 milhões de habitantes”.

Como forma de sufocar esse debate, a mídia faz uma campanha sistemática para desqualificá-lo e impedir uma abordagem mais abrangente do problema. A essência, bem distante da aparência, está nos desdobramentos da crise econômica estrutural, a famosa herança maldita deixada sobretudo pela ditadura militar.

Desde meados da década de 1970, o país se bate com graves desequilíbrios causados pelo chamado “milagre econômico”, o endividamento externo para financiar as grandes obras do regime, num momento em que o centro do capitalismo, os Estado Unidos, manipulava a taxa de juros internacional e a emissão de dólar a seu bel prazer. Surgiu daí a ideia de “política fiscal” – o controle da inflação pela taxa de juros – como âncora da “estabilidade monetária”, o cerne do Plano Real, precedido de uma sucessão de pacotes iniciada no início dos anos 1980.

Gestão financeira da economia

O conceito, bem enunciado pelo economista James O’Connor no livro A crise fiscal do Estado, é a essência do neoliberalismo. Em torno dele, formaram-se governos com programas voltados exclusivamente para a sua execução. Já em 1979, o ministro do Planejamento, Mário Henrique Simonsen, disse, ao passar o posto para Antônio Delfim Netto, que o país precisava de “estabilidade monetária” e que havia “necessidade de ajustes” e “austeridade fiscal”. Esse mantra neoliberal estava em expansão, comandado pelos governos Margaret Thatcher (Inglaterra) e Ronald Reagan (Estados Unidos).

Após o fracasso dos anos 1980, chegou com força as ideias de “modernidade” sob a presidência de Fernando Collor de Mello e a “estabilidade monetária” de Fernando Henrique Cardoso (FHC), que, nas palavras de Aloysio Biondi, no livro O Brasil privatizado, “não destruiu apenas a economia nacional, tornando-a dependente do exterior”, mas “seu crime mais hediondo foi destruir a alma nacional”. Consolidou-se o que a economista Maria da Conceição Tavares definiu como “tecnocratas”, verdadeiros czares da economia, arrogantes, absolutistas e corrompidos.

Criou-se até uma norma específica para essa política, a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal, uma camisa de força que amarra o Estado ao compromisso de manter uma constante transferência de recursos públicos para o domínio privado, a gestão financeira da economia. Todas as atividades subordinam-se aos ditames do conhecido capital fictício, gerido pelos bancos, de um pequeno comércio aos grandes operadores do agronegócio.

Esse instrumento alavanca as chamadas “reformas estruturais”, recurso para jogar o peso da crise nas costas do povo, uma violação flagrante dos preceitos sociais e democráticos da Constituição. O custo é a supressão de direitos previdenciários e trabalhistas, além do saque ao patrimônio público e às riquezas nacionais.

Mundos e fundos

Criou-se também um poder paralelo, a tal “independência” do Banco Central, responsável pela gestão monetária de forma absolutista, totalmente a serviço da “política fiscal”. Surgiram dessa política as sucessivas emendas constitucionais e outras normas regulamentares que concentram poderes nas mãos dos gestores da política monetária e dão à institucionalidade democrática do país o papel de mera figuração. As intervenções democráticas dos governos Lula e Dilma Rousseff despertaram a reação dos beneficiários desse parasitismo financeiro, manifesta na marcha golpista impulsionada pela farsa do “mensalão” e que resultou na delinquência lavajatista.

No curso dessa marcha golpista, surgiu o programa do golpe de 2016, ordenado no documento conhecido como “ponte para o futuro”, assumido pelo usurpador Michel Temer. Sua essência está num relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado ainda na pré-campanha das eleições presidenciais de 2018, propondo “a consolidação fiscal, incluindo a que pode acontecer por meio do novo teto federal de gastos, e a reforma da Previdência”. Como uma ordem unida, consultorias financeiras pelo mundo afora bateram nessa tecla, fazendo ressoar na mídia brasileira o mantra imperativo das “reformas”.

O ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, surgiu na campanha eleitoral de 2018 com esse discurso. Radical e agressivo, prometia mundos e fundos – principalmente fundos – para quem apoiasse seu programa de governo. E assim consolidou-se a coalizão da direita, urdida à margem do quadro partidário brasileiro e sustentada no lavajatismo, que levou Bolsonaro à Presidência da República. As idiossincrasias do presidente e suas ameaças nazifascistas não obstaculizaram, na essência, os propósitos de Guedes.

A sentença da Folha de S. Paulo

Essa é a essência da política monetária de Roberto Campos Neto, um jogo bruto contra as propostas de Lula, que só se viabilizam com a revogação da lógica neoliberal. Sem enfrentar esse debate e sem uma ampla mobilização popular – inclusive no campo das ideias –, essa tendência tende a seguir em frente. Enquanto Haddad apresentava os números da arrecadação, por exemplo, o Boletim Focus – um parecer de “analistas de mercado” consultados regularmente pelo Banco Central para diversas variáveis macroeconômicas – mostrava descrença sobre o déficit zero.

O parecer soa como chantagem, pauta para a mídia manter a pressão sobre o governo e justificar os juros altos, indicando cortes no orçamento para estabilizar o fluxo de pagamento dos serviços da dívida pública. Na prática, isso implica redução orçamentária para áreas como saúde e educação e aperto na economia, comprometendo investimentos para a retomada do crescimento e geração de empregos e renda.

O problema é o gasto, sentenciou o jornal Folha de S. Paulo em editorial, ressaltando que o Tesouro evidencia que a “sanha arrecadatória está longe de equilibrar Orçamento” e que o governo “continua longe de obter credibilidade para seus compromissos e projeções de reequilíbrio das contas”. “O erro de origem do governo petista, como se sabe, é pretender manter uma trajetória contínua de aumento da despesa pública, que começou antes mesmo da posse de Lula. Todo o ajuste, portanto, fica na coluna das receitas”, criticou.

O povo da Faria Lima

Os jornalões também fizeram alarde com o tombo de 2% na atividade econômica calculado pelo Banco Central, que seria uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB). “Terminada a safra de soja e milho do início do ano, que garantiu um crescimento espetacular da economia no primeiro trimestre, o Brasil despencou a uma velocidade bem maior do que a prevista pelos analistas, que imaginavam uma queda ao redor de 0,1%”, afirmou a Folha em editorial.

Segundo o jornal, a associação do tombo aos juros do Banco Central “é distorção tão flagrante quanto foi o excesso de entusiasmo com o bom desempenho da economia no início do ano”. “Seria bom o governo sinalizar que o prometido ajuste fiscal é sério, o que já teria o condão de fazer os juros futuros recuarem. Enquanto prevalecer a suspeita de que o governo e o Congresso não estão dispostos a cortar despesas, o custo do dinheiro continuará alto”, afirmou, repetindo a receita de Roberto Campos Neto.

Na verdade, a pressão maior recai sobre Haddad, tido pela mídia como espécie de contraponto a Lula por sua atuação política na primeira etapa da reforma tributária. Em entrevista à TV Record, o presidente disse que Haddad não foi indicado para “o povo da Faria Lima”, numa referência aos escritórios do mercado financeiro internacional, gerido pelas oligarquias de Waal Street, que funcionam no famoso endereço de luxo da cidade de São Paulo.

“O Haddad foi indicado para tentar resolver a vida do povo pobre deste país. O Haddad foi indicado para fazer uma política econômica que possa devolver ao povo trabalhador, às mulheres e aos homens, o direito de viver dignamente, trabalhar e ter um salário digno para poder sustentar sua família. É para isso que o Haddad foi indicado. Ele não foi indicado para atender aos interesses da Faria Lima. Os interesses da Faria Lima são outros, inclusive o de manter a taxa de juros a 13,75% porque eles ganham com a especulação. Pobre não ganha com isso”, falou.

Editorial colonialista

Haddad sabe que na segunda fase da reforma tributária, quando a renda e o patrimônio estarão em questão, o jogo será ainda mais bruto. “Mas nós vamos divulgar os dados”, afirma. “Como um país com tanta desigualdade isenta de imposto de renda o 1% mais rico da população?”, questiona.

Também em editorial, o jornal O Estado de S. Paulo disse que “espera-se que o governo Lula mantenha, na etapa da reforma sobre renda, o mesmo pragmatismo com que tratou a primeira fase da proposta”. “Disso depende a credibilidade do arcabouço fiscal”, sentenciou. Em outro editorial, o jornal atacou Lula afirmando que o presidente acha que o país não vai bem porque o “financeirismo” prevaleceu sobre o desenvolvimentismo. Segundo o jornal, o Brasil vai mal porque o desenvolvimentismo nunca foi realmente derrotado, numa defesa explícita de que a reforma tributária não pode ter viés equalizador para dar instrumentos e recursos com os quais o Estado possa agir como indutor do desenvolvimento e da reindustrialização do país.

De acordo com o Estadão, “mesmo quando as contas do governo estão em ordem (o que não é o caso no momento), a decisão de subsidiar a aquisição de produtos de consumo corre o sério risco de ser socialmente injusta”, um falso argumento que faz parte do ataque sistematizado da direita aos programas para reaquecer a indústria automotiva e possivelmente a de eletrodomésticos. Em questão está o déficit projetado pelo Tesouro, respondido por Haddad.

Mesmo a barulhenta campanha contra a Venezuela pela via dos ataques a Lula – a Folha chegou a dizer em editorial que ele e o presidente da Argentina, Alberto Fernández, formam uma dupla que está se utilizando de malandragem para ludibriar a União Europeia, numa tentativa radical de manipular o recente acordo sobre as eleições venezuelanas – serve ao propósito de atacar as ideias desenvolvimentistas. Um editorial colonialista do jornal O Globo sobre o “projeto chinês” de ampliar o Brics disse que Lula sonha com a reedição do “velho terceiro-mundismo, o delírio de uma grande aliança de países pobres e remediados para se contrapor a Washington”.

Tribuna do torcedor

A SELVAGERIA NO FUTEBOL

Aquele que movido pela paixão do futebol certamente já se deparou com torcidas uniformizadas, organizadas impregnadas de catarse, as exteriorizando no mais alto sentido de voltagem, via de regra, descambando para a violência sem limites. Lamentavelmente se tornaram parte indissociável do espetáculo futebolístico, mesmo após longa paralisação.

O que testemunhamos, na realidade são verdadeiras bestas humanas, portando paus, pedras, instrumentos pontiagudos e até de fogo, com os quais buscam “acerto de contas” não só com eventuais rivais como também “ilustres desconhecidos”, integrados ao pacote violento, desencadeados nos estádios e suas cercanias, expondo pessoas, dentre as quais, crianças, idosos e mulheres, expostas a perigo direto ou iminente, tipo penal que, embora reprimido pela legislação pátria em vigor pode ser considerado de menor potencial ofensivo, de pouca ou quase nula previsão repressora.

Ínclito jornalista, estamos, em verdade diante de uma malta de marginais, travestidos de torcedores que se deslocam aos estádios com o propósito deliberado de desfraldar a bandeira da violência desmedida, cólera má, assim como demonstrar com perfeição sua inclinação no sentido do crime, conduta, lamentavelmente não reprimida como deveria, capaz de ofertar ao torcedor o desejo mórbido de prestigiar grandes eventos futebolísticos, o que, hoje, em sã consciência não ocorre.

Diante de tanta impunidade patrocinada pela justiça brasileira que a tudo assiste de forma impávida, roga-se por providências profiláticas, quiçá saneadoras, à medida que se confia na providência divina, aliada ao grito da imprensa setorizada, de modo a tentar impedir o advento de novas medidas violentas, quem sabe com prejuízos fatais como, alias já ocorreu anteriormente.

O futebol precisa ser passado a limpo, que se destitua gestores incapazes, inconfiáveis, oportunistas e aproveitadores. O futebol, penhoradamente agradece.

Del. Armando Mourão

Entre a euforia e a depressão

POR GERSON NOGUEIRA

Nos últimos dias, após a derrota no Re-Pa e a consequente permanência no Z4, o Remo mergulhou num estado de abatimento. Por seu turno, o rival PSC vive momentos de euforia contida com as duas vitórias em sequência (Amazonas e Remo) e a ressaca gostosa de um triunfo no clássico da Amazônia. Além disso, viu aumentar substancialmente suas possibilidades de ingressar no G8.

Quem acompanha o futebol paraense sabe da importância que o Re-Pa tem sobre os clubes e as torcidas. Ninguém fica indiferente ao jogo. Desta vez não foi diferente. Os dois times dependiam de um bom resultado para seguir alimentando o sonho da classificação.

Com campanhas sofríveis no Brasileiro da Série C, ambos seguem em dívida com suas apaixonadas torcidas. A vitória permitiu ao PSC respirar mais aliviado, consciente de que a paz com a torcida foi reconquistada depois de um longo período de desconfiança, iniciado ainda na eliminação para o Águia nas semifinais do Parazão. A atmosfera melhorou tanto que anda rolando até pagode para descontrair após os treinos.

O feliz reencontro com o técnico Hélio dos Anjos, dono de um estilo que vai do histriônico ao eufórico nas entrevistas, com pitadas de autoajuda pelo meio, explica o clima de empolgação que toma conta da Curuzu. Duas vitórias fazem muita diferença num campeonato nivelado por baixo e marcado pela oscilação das equipes.

Quanto ao time, algumas mudanças funcionaram bem. Matheus Nogueira trouxe segurança ao gol bicolor. Jacy Maranhão virou o primeiro volante titular e a zaga mostra-se consistente, com Paulão e Vanderson (ou Wellington Carvalho).

Com 18 pontos, tendo seis jogos a cumprir, o PSC pode entrar no G8 com mais duas vitórias. Os próximos adversários são o CSA (11º), domingo, na Curuzu, e o América-RN (18º), no próximo dia 30, em Natal. Times que não fazem boa campanha e que podem ser superados pelo Papão.

No Evandro Almeida, o clima é bem diferente. Por mais que Ricardo Catalá seja conhecido por valorizar a parte emocional, seu estilo é bem mais contido que o de Hélio dos Anjos. As perspectivas de classificação, que já não eram boas antes do Re-Pa, pioraram bastante com a derrota.   

O que está em discussão agora é a capacidade de reação para afastar o time da zona da confusão. Em 17º lugar, o Remo tem contra o Náutico, domingo, no Recife, a oportunidade de se desgarrar do Z4. Jogo difícil, ainda mais depois que o Náutico (que jogaria de portões fechados) obteve efeito suspensivo, aproveitando a maré condescendente do STJD.

Em seguida, o Leão recebe o Ypiranga (RS) em Belém. São dois adversários difíceis, que estão em melhor situação que o Remo. Para o confronto de domingo, Catalá terá a volta de Anderson Uchoa ao meio-campo e deve lançar um ataque com Fabinho e Ronald. A novidade é a possível entrada de Richard Franco, ao lado de Uchoa e Pablo Roberto.

Até lá, para conseguir reverter a maré ruim, é fundamental que o Leão recupere a confiança e tire o baixo astral do caminho.

Copa Feminina começa em ritmo contagiante

Depois de apenas três jogos realizados – com duas vitórias das seleções anfitriãs, Austrália e Nova Zelândia –, pode-se dizer, sem erro, que a Copa do Mundo Feminina será um sucesso. E nem foram partidas tecnicamente brilhantes ou emocionantes, mas a empolgação das torcidas e a beleza dos estádios fazem crer na realização do melhor mundial da modalidade de todos os tempos.

A grande expectativa é para a entrada em cena das favoritas – Estados Unidos, Inglaterra, Suécia, Alemanha, França – e de times cotados para surpreender, caso da seleção do Brasil, que evoluiu muito desde a Copa de 2019, principalmente após a chegada da técnica sueca Pia Sundhage.

Uma homenagem ao Glorioso

O botafoguense Jailson Nobre, leitor da coluna e do blog, envia um texto em homenagem ao Botafogo, atual líder do Campeonato Brasileiro. Abaixo, na íntegra:

“Existem três razões básicas entre os que torcem pelo Botafogo e os que torcem pelos demais clubes. A primeira diz respeito ao fato de que os demais são os demais; o Botafogo é único. É a síntese da tradição e a negação mais efetiva dos modismos. Não se prende ao sincrônico, todavia é um amor diacrônico que transcende os marcos temporais e vai além da compreensão cartesiana dos fatos e datas.

A segunda razão relaciona-se ao fato de que em relação aos demais, você torce, torna-se um aficionado, um admirador. Para o Glorioso não se torce; para o Glorioso a pessoa é, de maneira que ele não é movido por paixão ou algo passageiro, por algo pensado ou elocubrado racionalmente. É a predestinação divina.

A terceira, e na minha modesta opinião, a mais significativa, é uma consequência direta da segunda. Como você não escolhe torcer pelo Botafogo, não se prende também a resultados dentro de campo para ser feliz. Você o é antes de qualquer resultado ou de qualquer condição.

Nesse aspecto, o Botafogo é mais que um clube. É a alma do Futebol. É a catarse absoluta. É uma felicidade imanente. É a glória inerente. É a total independência de títulos ou conquistas, porque ser Botafogo é a maior conquista; ter a honra de ser a estrela solitária é o maior título.

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 21)

Rock na madrugada – Beatles, “I’m Only Sleeping”

Com vocal inspirado de John Lennon, “I’m Only Sleeping” é um cultuado B-side dos Beatles, encaixado no álbum Revolver (1966), disco considerado um divisor de águas no processo criativo da banda. Escrita por John, mas creditada como da dupla Lennon-McCartney, a música contém uma bossa típica da inventividade do maestro e produtor George Martin: um solo duplo de guitarras ao contrário, feito por George Harrison, que visa criar um clima de viagem alucinógena, com a letra insistindo para que o personagem não fosse acordado do sono ou de um estado de euforia.

Apesar dessas especulações, uma carta do próprio John indica que ele na verdade fala apenas do prazer de ficar na cama. É fato que ele, quando não estava dormindo, usava a cama para quase tudo – ler, escrever ou assistir TV.

A pororoca de desculpas

POR GERSON NOGUEIRA

O desespero em achar justificativas para a fenomenal campanha do Botafogo na Série A domina setores da mídia esportiva, alguns visivelmente inconformados porque o Glorioso desmente toda semana as previsões de que não chegaria a lugar nenhum. A coisa piora muito quando as críticas partem de profissionais excessivamente preocupados em tornar o futebol brasileiro um feudo exclusivo de clubes como Palmeiras e Flamengo, carimbados como gigantes imbatíveis pelas recentes conquistas.

A trajetória impecável do Botafogo, com 13 vitórias em 15 partidas, afronta o coro dos contentes e desafia os incrédulos. Ao invés de saudar esse benfazejo sopro de novidade, os redutos de resistência se ocupam de apontar desculpas fuleiras, como a de que Flamengo e Palmeiras disputam a Libertadores simultaneamente com o Brasileiro, tornando os dois times desgastados fisicamente ou com carências no elenco, o que obviamente não é verdade.

Como esse papo sobre a participação nas Copas – sendo que o Botafogo disputa a Sul-Americana – não prosperou, a onda agora é questionar o “tapetinho” do estádio Nilton Santos. O Palmeiras joga há três anos num gramado radicalmente artificial, mas suas muitas conquistas jamais foram contestadas.

O Atlético-PR, pioneiro no uso de grama sintética, também não teve suas campanhas vitoriosas questionadas por ninguém. Vale dizer que o gramado do Niltão coleciona elogios de técnicos e jogadores pela qualidade do piso. Além do fato óbvio de não representar perigo à integridade dos atletas, pois não tem buracos ou áreas desniveladas. É um tapete, de fato.

Aí, de repente, diante da distância que o Botafogo abriu em relação ao Flamengo (12 pontos), eis que Zico rompeu o silêncio e (sem ser perguntado) saiu dizendo que o sucesso do Alvinegro está diretamente associado ao gramado. Esqueceu de dizer que, com um jogador a menos, o Fogão derrotou o Fla no piso esburacado do Maracanã.

Esqueceu também que o sintético já foi palco até de final de Copa do Mundo. Foi em 2018, no estádio de Luzhniki, em Moscou. Zico é um dos maiores da história do futebol brasileiro, mesmo sem ganhar uma Copa, e ídolo supremo do Flamengo. Sempre se notabilizou pelo equilíbrio nas atitudes e posicionamentos, mas foi infeliz ao analisar o sucesso do Botafogo no campeonato como “injusto”.

O Botafogo lidera o Brasileiro com autoridade e folga, derrotando times cotados como favoritos no começo da temporada. Flamengo, Palmeiras, Grêmio, Fluminense, Bragantino, Atlético-MG e São Paulo foram vítimas do time liderado por Tiquinho Soares. E foram vitórias insofismáveis, sem questionamentos, sem erros de arbitragem ou gols acidentais.

O turno ainda nem terminou, mas a pororoca de desculpas permite imaginar o que acontecerá caso o Botafogo mantenha a campanha vitoriosa e conquiste o título. O Galinho certamente será uma das carpideiras inconformadas, condição que não lhe cai bem, afinal um flamenguista cobrar “igualdade de condições” soa bizarro. Perdeu boa chance de ficar calado, até porque nunca havia reclamado de campos sintéticos antes.

Confiante, Papão continua indo às compras

Lucas Paranhos, volante, ex-Manaus, é o mais novo contratado do PSC. É o reforço de nº 42 na temporada. O de nº 43 é o lateral-direito Anilson, ex-Ponte Preta. A gastança com reforços é recorde no futebol do Pará. Ambos foram recomendados pelo técnico Hélio dos Anjos. Em lua-de-mel com a torcida, após duas vitórias empolgantes, ele pode indicar quem quiser.

Confiante no êxito do prometido projeto de acesso à Série B, ele trata de robustecer o elenco do Papão com jogadores de sua confiança. Caso venham novas vitórias, novos atletas serão contratados.

Algumas posições são carentes, de fato. É o caso da lateral-direita, onde Edilson está suspenso e João Vieira, que costuma ser improvisado ali, também não pode jogar contra o CSA, no próximo domingo.

O problema é a dificuldade para encaixar novos jogadores a um time que sofre mudanças a cada rodada, desde o início da competição. Ao mesmo tempo em que podem contribuir, os novatos enfrentarão o desafio de  entrosar em curtíssimo tempo, o que pode ou não dar certo.

Garotada azulina vai reforçar o Santa Rosa

Enquanto o torcedor azulino é forçado a se contentar com Vítor Leque, Marcelo & cia., a diretoria do Remo decidiu emprestar o atacante Ricardinho, o zagueiro Davi, o goleiro Juan e os laterais Luisinho e Robi para o Santa Rosa, que vai disputar a Segundinha do Parazão.

Agora, do time sub-20 que disputou a Copa SP, restaram apenas Kanu, Henrique e Jonilson, com poucas chances de aproveitamento. O (único) lado bom dessa história é que no Santa Rosa eles têm plena garantia de que irão jogar, coisa que no Remo atual certamente não aconteceria.  

Vistoria no Mangueirão é ensaio para jogo da Seleção

Funcionários da CBF fizeram, ontem à tarde, uma inspeção técnica no estádio estadual Jornalista Edgar Proença, o Mangueirão, acompanhados de técnicos da Seel, Seop e da FPF. O objetivo da nova vistoria foi analisar as condições de infraestrutura do estádio e dos centros de treinamento para receber um possível jogo da Seleção Brasileira pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2026. No mês passado, uma equipe da Conmebol também vistoriou o estádio.

A equipe analisou vestiários, gramado, área de imprensa e dos times. Além do Mangueirão, passaram também pelo Ceju e estádios Baenão e Curuzu, que podem servir de local de treinamento. A presença dos representantes da CBF sinaliza para a confirmação de Brasil x Bolívia, no dia 7 de setembro, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo 2026. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 20)

Lava Jato negociou em sigilo acordo bilionário com os EUA

EXCLUSIVO Spoofing: novos chats. “Tudo é confidencial”.

Por Leandro Demori e Jamil Chade

Os procuradores Deltan Dallagnol (esq.), Eduardo Pellela e Orlando Martello (dir.) na Suíça (Foto: Reprodução/TV Globo)

O ex-procurador e ex-deputado Deltan Dallagnol negociou em sigilo com autoridades norte-americanas um acordo para dividir o dinheiro que seria cobrado da Petrobras em multas e penalidades por causa da corrupção. Num grupo de troca de mensagens pelo telefone, procuradores suíços e brasileiros mantinham uma comunicação intensa sobre cada etapa do processo da Operação Lava Jato. Foi neste grupo que Deltan detalhou aos suíços suas conversas com os norte-americanos, que vocês lerão a seguir. Esta é uma publicação em parceria com o UOL.

As conversas aconteceram por mais de três anos pelo aplicativo Telegram e não eram registradas oficialmente. A negociação sobre o acordo que penalizaria a Petrobras com multas pagas nos Estados Unidos não envolveu a Controladoria Geral da União, o órgão competente, por lei, para o caso.

Os chats fazem parte dos arquivos apreendidos pela Polícia Federal durante a operação Spoofing, que investigou o hackeamento de procuradores e também do ex-juiz Sergio Moro. Parte dessas conversas foram entregues ao Intercept Brasil e publicadas na série Vaza Jato em 2019.

“MY SWISS FRIENDS”

No dia 29 de janeiro de 2016, Dallagnol escreveu aos suíços para contar o resultado dos primeiros contatos entre ele e as autoridades norte-americanas. 

Deltan – 12:25:52: Meus amigos suíços, acabamos de ter uma reunião introdutória de dois dias com a SEC (Comissão de Valores Mobiliários) dos EUA. Tudo é confidencial, mas eu disse expressamente a eles que estamos muito próximos da Suíça e eles nos autorizaram a compartilhar as discussões da reunião com vocês.

O brasileiro, então, faz um resumo do que foi tratado:

“Proteção às testemunhas de cooperação: eles protegerão nossos cooperadores contra penalidades civis ou restituições; Penalidades relativas à Petrobras. O pano de fundo: O DOJ e a SEC aplicarão uma penalidade enorme à Petrobras, e a Petrobras cooperou totalmente com eles. Eles não precisariam de nossa cooperação, mas isso pode facilitar as coisas e, se cooperarmos, entendemos que não causaremos nenhum dano e poderemos trazer algum benefício para a sociedade brasileira, que foi a parte mais prejudicada (e não os investidores dos EUA). Como estávamos preocupados com uma penalidade enorme para a Petrobras, muito maior do que tudo o que recuperamos no Brasil, e preocupados com o fato de que isso poderia prejudicar a imagem de nossa investigação e a saúde financeira da Petrobras, pensamos em uma solução possível, mesmo que não seja simples. Eles disseram que se a Petrobras pagar algo ao governo brasileiro em um acordo, eles creditariam isso para diminuir sua penalidade, e que o valor poderia ser algo como 50% do valor do dinheiro pago nos EUA.”

A Petrobras fechou um acordo com os Estados Unidos mais de dois anos depois, aceitando pagar uma multa de 853,2 milhões de dólares para não ser processada. O acordo garantiu o envio de 80% do valor ao Brasil – contudo, não exatamente em benefício “para a sociedade brasileira”, como dissera Deltan.

Na verdade, metade do montante bilionário seria destinado a um fundo com CNPJ privado que a própria Lava Jato tentou criar. O ministro Alexandre de Moraes suspendeu a criação do fundo a pedido da PGR. O dinheiro foi destinado à Amazônia e, agora, o CNJ investiga o caso.

Deltan Dallagnol continuaria em sua mensagem aos suíços:

“Outras empresas internacionais: elas concordam em buscar um acordo conjunto. Mencionei que estamos caminhando junto com vocês e eles disseram que é possível coordenar um acordo conjunto com o Brasil e a Suíça quando ambos os países tiverem casos em relação à empresa… Ressaltei a importância das provas suíças em relação a muitas empresas. Se isso der certo, nós (suíços e brasileiros) poderemos tirar proveito dos poderes dos EUA para pressionar as empresas a cooperar e fazer acordos. Tudo isso foi discutido apenas com a SEC. Ainda temos que discutir com o DOJ. Se quiser, posso colocá-lo em contato direto com as autoridades da SEC e do DOJ com quem conversamos. Eles disseram que estão disponíveis.”

DOJ é o Departamento de Estado dos Estados Unidos. SEC é a Comissão de Valores Mobiliários daquele país.

Stefan Lenz, o procurador suíço que, naquela ocasião, liderava o processo em Berna, comemorou.

Stefan – 12:41:32: “Muito obrigado por essa informação, que é MUITO importante para nós, Deltan!”

Lenz ainda explicaria que o então procurador geral da Suíça, Michael Lauber, também havia tido uma conversa com os americanos.

“Ambos querem iniciar conversas sobre uma estratégia comum e coordenação no caso da PB (Petrobras)”, disse.

O procurador suíço Stefan Lenz. Depois de receber, por anos, informações pelo Telegram sobre os casos brasileiros, ele pulou de lado no balcão e hoje, segundo o próprio, oferece seu “conhecimento e experiência a todos os réus em casos de crimes de colarinho branco ou vítimas e partes lesadas de tais crimes que dependem de apoio jurídico na Suíça”.

OS AGENTES NORTE-AMERICANOS

Naquele mesmo dia, um procurador apenas identificado como Douglas enviou aos suíços uma longa de lista de contatos entre os brasileiros e as autoridades dos EUA.

Douglas Prpr – 17:18:51: Luc and Stefan, as asked by Deltan, follows the list of MPF contacts with the DOJ and the SEC: DOJ: Chris Cestaro (DOJ Fraud Section): Derek Ettinger (DOJ Fraud Section): Lorinda Laryea (DOJ Fraud Section): Patrick Stokes (DOJ Fraud Section): Grace Hill (DOJ EDVA): Jennifer Wallis (DOJ Asset Forfeiture and Money Laundering Section): Mary Butler (DOJ Asset Forfeiture and Money Laundering Section): Woo S. Lee (DOJ Asset Forfeiture and Money Laundering Section): SEC: Carlos Costa Rodrigues: Deborah Crawford: Jonathan Scott: Kara Brockmeyer: Lance Jasper: Samantha S. Martin: Spencer E. Bendell.

Patrick Stokes e Kara Brockmeyer: os agentes norte-americanos citados como contatos de referência por Deltan Dallagnol. Eles também mudaram de lado do balcão. Hoje, ambos atuam no setor privado defendendo clientes em casos de corrupção.

Deltan Dallagnol completaria com informações sobre alguns deles.

Deltan – 17:28:45: In DOJ, the chief of FCPA section is Patrick. In SEC, it is Kara, but an independent office, which is not part of the FCPA unit, is in charge of the Petrobras part of the investigation, led in this part by Spencer.

As conversas secretas entre a Lava Jato e procuradores estrangeiros, que agora vêm à tona, são parte fundamental de um quebra-cabeça. Em reportagens publicadas pelo The Intercept Brasil em parceria com a Agência Pública, conversas e documentos já haviam exposto a proximidade, as reuniões e as trocas ilegais de informação entre brasileiros e norte-americanos, além dos nomes dos agentes. Deltan Dallagnol havia escondido nomes de pelo menos 17 agentes dos EUA que estiveram em Curitiba em 2015 sem conhecimento do Ministério da Justiça, o que é ilegal.

Entre eles, também havia agentes do FBI. Os encontros e negociações ocorreram sem pedido de assistência formal e foram comprovados por documentos oficiais do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, obtidos pelo Intercept para além dos diálogos da Vaza Jato.

“A QUESTÃO NÃO É DE CONVENIÊNCIA. É DE LEGALIDADE, DELTA”

Durante as conversas e visitas, os procuradores da Lava Jato sugeriram aos americanos maneiras de driblar um entendimento do STF que permitisse que os EUA ouvissem delatores da Petrobras no Brasil. A troca de informações sem o conhecimento do Ministério da Justiça foi intensa. Com base nessas informações, mais tarde, agentes americanos ouviram, no Brasil, Nestor Cerveró e Alberto Youssef, além de outros – depoimentos esses usados para processar a Petrobras nos Estados Unidos.

Deltan Dallagnol sabia que estava agindo à margem da lei. Em um diálogo de 11 de fevereiro de 2016, o procurador Vladimir Aras – então diretor da Secretaria de Cooperação Internacional (SCI) da Procuradoria-Geral da República (PGR) – alertou o ex-líder da Lava Jato sobre seus procedimentos ao permitir a operação dos agentes americanos no Brasil. 

“Obrigado, Vlad, mas entendemos com a PF que neste caso não é conveniente passar algo pelo executivo”, respondeu Deltan, às 16:00:39, tentando explicar o motivo de ter deixado o Ministério da Justiça de fora das tratativas. Aras rebateu dois minutos depois: 

“A questão não é de conveniência. É de legalidade, Delta. O tratado tem força de lei federal ordinária e atribui ao MJ a intermediação. Estamos negociando com o Senado um caminho específico para os casos do MPF. Por ora, precisamos observar as regras vigentes.”

Documento de tio de Damares sobre terra em conflito é fraudado, diz Incra

Pastor e ex-deputado Josué Bengtson disputa área destinada à reforma agrária; ele é dono de igreja flagrada pela Polícia Federal transportando 290 kg de maconha em avião; primo da senadora é acusado pelo assassinato de camponês nessa fazenda no Pará

Por Carolina Bataier e Eduardo Carlini

O pastor e ex-deputado federal Josué Bengtson, tio da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), cria gado em 6.866,52 hectares dentro de terras pertencentes à União — quase o dobro do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. Desse total, 4.932,39 hectares ou 72% da propriedade estão em área pertencente à gleba federal Pau de Remo, destinada desde 2015 à reforma agrária. Uma parcela desse território teve um título de posse emitido pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa). De Olho nos Ruralistas constatou que esse documento tem origem fraudulenta. A fazenda também é vizinha à Terra Indígena Alto Rio Guamá, do povo Tembé, que sofre com a invasão de madeireiros a partir da Pau de Remo e de outra gleba vizinha, a Cidapar.

Josué Bengtson voltou ao noticiário no fim de maio, quando a Polícia Federal apreendeu 290 quilos de skunk, um tipo mais forte de maconha, em um avião pertencente à Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), fundada e liderada pelo tio de Damares. A apreensão ocorreu no dia 27, no Aeroporto Internacional de Belém. Damares foi destaque nesta terça-feira (11) em reportagem do Estadão, que aponta a participação da ex-ministra no desvio de R$ 2,5 milhões em verbas públicas que seriam destinadas a duas ONGs. O valor foi parar em empresas de fachada ligadas ao ex-deputado evangélico Professor Joziel (Patriotas-RJ), um aliado político de Damares.

Uma parcela da propriedade de Bengtson, de 1.821 hectares, tem título definitivo datado de 1961, período anterior à análise do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), realizada em 1982, que definiu as terras como públicas. O título provisório, de 4 de junho de 2003, referente a 2.492,12 hectares, teve origem fraudulenta. O crime fundiário é apontado pelo Incra, em ofício datado de 2019, a partir de avaliação apresentada pelo Iterpa:

— Com base na análise precedida pela Gerência de Cartografia deste instituto, o Título Provisório nº 20 está localizado a distância de 27,390 km do perímetro do imóvel ‘Fazenda Camará’ (sic), não havendo, portanto, correspondência entre o TP e a área objeto do pedido de informação feito por essa Autarquia Federal, conforme mapa e laudo técnicos que seguem anexos a esse expediente. 

Isto é, o título provisório apresentado por Bengtson para comprovar sua posse dentro da Gleba Pau de Remo está localizado em outra área, longe dali. “Conclui-se que, na verdade, o TP expedido encontra-se inserido nos limites do município de Cachoeira do Piriá e não de Santa Luzia do Pará (área ocupada), totalmente inserido dentro do assentamento do Incra, denominado PA Cidapar 1ª Parte”, finaliza o ofício, que classifica o título do tio de Damares como “sem valor legal”.

Em resposta à reportagem, Marcos Bengtson, filho de Josué Bengtson, informou que, ao adquirir as terras, a família não tinha conhecimento de se tratar de uma área federal. “Acreditamos que nem o próprio Iterpa tinha essa informação, seja por falta de recursos tecnológicos na época, ou pela cartografia muito precária existente”, justifica, em texto enviado por e-mail.

Com relação ao título provisório, ele alega ser proveniente de erro do Iterpa, que teria reconhecido o equívoco em meados de 2014. Entretanto, a análise do Incra que aponta a fraude é posterior a essa data. Confira aqui a íntegra da resposta de Marcos.

O imóvel da família Bengtson é utilizado para criação extensiva de gado. Segundo dados obtidos pela plataforma Mapbiomas, referentes a 2021, 62% da área da Fazenda Cambará encontra-se desmatada.

DISPUTA POR TERRAS É MARCADA POR AMEAÇAS, ENVENENAMENTO E ASSASSINATO

Em 2007, a Fazenda Cambará foi ocupada pela primeira vez por agricultores vinculados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que se organizaram há mais de uma década no acampamento Quintino Lira, onde plantam grãos, legumes e frutas e fazem a extração do açaí e do murumuru. Em 2009, os camponeses foram despejados em uma ação policial, retornando no ano seguinte.

O político e pastor evangélico Josué Bengtson possui fazenda grilada no Pará. (Foto: Divulgação/IEQ)

Após a vistoria realizada pelo Incra, em 2015, a autarquia deu parecer favorável à criação do assentamento. Quase dez anos depois da análise, os acampados ainda aguardam pela posse da terra. Isso porque a batalha judicial entre o Incra e a família Bengtson atravanca a regulamentação da área, sujeitando os camponeses a uma rotina de ameaças por parte dos religiosos da Igreja do Evangelho Quadrangular.

A lavoura do acampamento fica próxima das pastagens onde está o gado da fazenda, em lotes separados por uma cerca. Por mais de uma vez, os animais atravessaram a barreira e destruíram os roçados. Em janeiro de 2021, um avião sobrevoou a área dos sem-terra e pulverizou agrotóxicos, prejudicando as plantações e deixando as famílias sem alimento e fonte de renda. “Tudo o que a gente tinha perdemos”, conta João Galdino, um dos líderes do acampamento. “Acabou contudo, roça, nossos pés de planta, açaizeiros… Estamos construindo de novo”. Segundo ele, as ameaças só cessaram em 2022.

Esse não foi o primeiro caso de violência vivenciado por Galdino. Em 2010, ele e José Valmeristo de Souza, o Caribé, moradores do acampamento, foram pegos em uma emboscada. Galdino conseguiu fugir, mas Caribé foi assassinado a tiros. As investigações apontaram Marcos Bengtson, filho de Josué e administrador da Fazenda Cambará, como mandante do crime. O caso tramita na justiça até hoje, à espera do Tribunal do Júri.

Na resposta enviada à reportagem, Marcos alega inocência, afirma que colaborou com as investigações e que espera pelo desfecho do caso. Ele também afirma que, um ano antes do assassinato de Caribé, um funcionário da fazenda chamado Darielson — ele não apontou sobrenome — foi morto por membros do acampamento e que “a morte dele não ganhou manchetes nos jornais”.

“Minha família e eu não compactuamos com nenhum tipo de violência e lamentamos a perda precoce de duas vidas, pois toda vida é muito importante”, afirma. Marcos também acusa os sem-terra de ameaças aos funcionários da fazenda, roubo de gado, invasão da área de proteção ambiental para derrubada de árvores e para provocar queimadas.

De acordo com a promotora de Justiça Agrária Ione Nakamura, do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), é necessária uma decisão judicial definitiva para as terras. O Incra não tomou todas, até o momento, as medidas administrativas necessárias para consolidar o assentamento. “É uma medida que seria importante para a pacificação daquela região”, avalia.

Entre os anos de 2009 e 2016, os moradores do acampamento registraram treze boletins de ocorrência de ameaças recebidas por parte dos funcionários da fazenda. Em outubro de 2015, dois jovens foram vítimas de uma emboscada: um deles levou um tiro de raspão e o outro foi ferido com coronhadas no rosto. Em abril de 2022, os acampados denunciaram o descumprimento a um acordo feito por meio da Vara Agrária de Castanhal para que houvesse o respeito em relação a área desafetada, conforme noticiado por este observatório: “Família dona do avião com maconha tem história de grilagem e assassinato de sem-terra“.

Sem-terra do acampamento Quintino Lira cobram justiça pelo assassinato de Caribé. (Foto: Reprodução)

Como pastor e líder religioso, Josué esteve à frente do projeto de expansão da Igreja do Evangelho Quadrangular no Brasil a partir dos anos 60, sendo o responsável pela abertura de templos em diversas regiões do país. Em sua carreira religiosa, Damares atuou como pastora na igreja do tio.

No livro “Das tendas à Igreja do Evangelho Quadrangular: história da IEQ no Brasil”, de autoria de Jefferson Grijo, há um capítulo dedicado à jornada de Bengtson. Nascido em Getulina (SP), ele teria chegado ao Pará no início da década de 70, por conta própria, “obedecendo a um chamado e começando do zero”. Em 1999, foi eleito deputado federal pelo PTB. Nesse mesmo ano, Damares mudou-se para Brasília a convite do tio, para trabalhar em seu gabinete. Hoje, a IEQ do Pará é a maior do Brasil, com cerca de 4 mil pastores.

Em 2018, Josué foi condenado pela Justiça Federal à perda do mandato por enriquecimento ilícito. Ele fez parte de um esquema de desvio de recursos da saúde no Pará, conhecido como “máfia das ambulâncias”. Seus direitos políticos foram suspensos por oito anos. Segundo denúncias do Ministério Público Federal (MPF), o pastor direcionava verbas a municípios, onde licitações eram fraudadas e o dinheiro era depositado na conta dele e da igreja que comanda. Entre os municípios estava Santa Luzia do Pará, onde os pastores disputam terra com os camponeses.

Em 1998, quando iniciava na política eleitoral, Bengtson elegeu-se deputado federal, com um patrimônio de R$ 274 mil. Em 16 anos, o pastor setuplicou, ou seja, multiplicou por sete sua fortuna, chegando a R$ 2 milhões.

Tentando ocupar o lugar do pai condenado, Paulo Bengtson, filho mais novo de Josué, é pastor e foi eleito deputado federal em 2018 pelo PTB. Na época, foi financiado pelo próprio Bengtson. Em 2022, quando teve doação do seu irmão mais velhos Marcos, não conseguiu a reeleição e, atualmente, é secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia do Pará, no governo Helder Barbalho, do MDB.

Marcos também é pastor evangélico, mas não tem atuação política. No processo do homicídio de José Valmeristo Soares, ele é apontado administrador da Fazenda Cambará. Em uma rede social, ele informa ser “servo na empresa Jesus Cristo”.

Confira abaixo o especial De Olho no Congresso, no YouTube, que narra em vídeo o histórico fundiário dos Bengtson:

Carolina Bataier é jornalista e escritora

Uma declaração de amor ao Futebol

Você é um das coisas mais lindas que aconteceu na minha vida…

Por Você aprendi a andar…

Com Você joguei na rua de casa, no campinho do bairro, na escola, na faculdade, no clube…

Joguei com Você na areia, no cimento, na grama, na terra, na quadra, no campo…

No calor ou no frio, na chuva ou no sol…

Na infância, na adolescência, juvenil ou adulto…

No amador, no profissional, na pelada, cinquentinha e agora sessentinha.

Joguei contra 5, contra 7, contra 8, contra 11 e algumas vezes até contra 14…

Por Você joguei descalço, de chuteira, de tênis, cansado, doente, machucado…

Por Você joguei de graça e até ganhei para jogar…

Mas não esqueço daqueles com quem joguei, “os do meu time”, amigos nas vitórias e nas derrotas, e também nos empates…

E desses não esquecerei jamais…

Pois com Você aprendi o quanto vale um abraço de um gol ou de uma defesa…

E com Você ri e chorei, na verdade, vivi…

Por isso, e muito mais, Você é uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida.

Obrigado aos amigos/irmãos do Futebol.

Vocês fazem parte da minha vida. 19 Julho, Dia do Futebol!

(De autor desconhecido)

Lula defende em Bruxelas que acordo Mercosul-U. Europeia garanta igualdade de condições

O presidente Lula participou da abertura do Fórum Empresarial União Europeia-América Latina, na manhã desta segunda-feira (17), em Bruxelas, na Bélgica, e ressaltou a importância da cooperação e das parcerias econômicas entre países latino-americanos e europeus. Ele afirmou ser esse o caminho para enfrentar desafios como as mudanças climáticas, a desigualdade social e o desemprego.

Já a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, revelou que o bloco europeu está disposto a investir mais de 45 bilhões de euros (cerca de R$ 242 bilhões) nos países da América Latina e do Caribe ao longo dos próximos anos.

Lula reafirmou o compromisso de trabalhar pela conclusão, ainda neste ano, do acordo entre Mercosul e União Europeia, mas ponderou que ele deve ser equilibrado, para preservar a capacidade das partes de responder aos desafios presentes e futuros.

O presidente também reforçou a defesa de um acordo para pôr fim à guerra entre Rússia e a Ucrânia, que “ lança sobre o mundo o manto da incerteza e canaliza para fins bélicos recursos até então essenciais para a economia e programas sociais”. Ainda nesta segunda-feira, a agenda de Lula inclui encontros bilaterais com a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, o rei belga, Filipe I, o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, e a presidenta do Parlamento Europeu, Roberta Metsola. A partir das 16h (horário local), Lula participa da Sessão de Abertura da III Cúpula CELAC-UE.

Na terça-feira (18), o presidente encontrou com lideranças de partidos progressistas, uma sessão plenária da III Cúpula CELAC-UE, reunião com o primeiro-ministro do Reino da Suécia, Ulf Kristerson, e encontro com a primeira-ministra do Reino da Dinamarca, Mette Frederiksen.

Veja, a seguir, a íntegra do discurso do presidente Lula na abertura do Fórum Empresarial União Europeia-América Latina:

“Tenho enorme satisfação em participar da abertura deste encontro empresarial, ao lado da presidente da Comissão Europeia, do primeiro-ministro da Espanha e dos presidentes do BID e da CAF. Eu acredito que são as empresas, as universidades e a sociedade civil que dão vida e continuidade às relações entre os países. Este encontro confirma que nossos empreendedores estão plenamente engajados no relançamento dessa histórica aliança, baseada na certeza de que o sucesso do outro é fundamental para nosso êxito comum.

Isso é mais verdadeiro agora, quando vivemos momentos de turbulência e incerteza no mundo. A pandemia da Covid-19, além de ceifar milhões de vidas, desorganizou o sistema produtivo nos quatro cantos do planeta. A mudança do clima evidencia a urgência em preservar a biodiversidade e os ecossistemas.

A crise da democracia semeia a discórdia, a violência e a intolerância, solapando as condições da vida em sociedade e o planejamento da atividade econômica. A guerra no coração da Europa lança sobre o mundo o manto da incerteza e canaliza para fins bélicos recursos até então essenciais para a economia e programas sociais. A corrida armamentista dificulta ainda mais o enfrentamento da mudança do clima.

Frente a todos esses desafios, cabe aos governantes, empresários e trabalhadores reconstituir o caminho da prosperidade, da retomada da produção, dos investimentos e dos empregos. Os países da América Latina e do Caribe continuarão a desempenhar um papel estratégico para a Europa e o mundo. Porque somos uma região com enormes oportunidades de investimento e de ampliação do consumo.

Somos países que demandam investimentos em infraestrutura logística diversificada, infraestrutura social e urbana. Somos sociedades em processo de forte mobilidade social nas quais se constituem novos e dinâmicos mercados internos, integrados por centenas de milhões de consumidores.

A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Nossa corrente de comércio poderá ultrapassar este ano a marca de 100 bilhões de dólares. Um acordo entre Mercosul e União Europeia equilibrado, que pretendemos concluir ainda este ano, abrirá novos horizontes. Queremos um acordo que preserve a capacidade das partes de responder aos desafios presentes e futuros.

As compras governamentais são um instrumento vital para articular investimentos em infraestrutura e sustentar nossa política industrial. EUA e União Europeia saíram na frente e já adotam políticas industriais ambiciosas baseadas em compras públicas e conteúdo nacional.

O Brasil tem um grande mercado interno de 203 milhões de pessoas, com enorme capacidade de consumo ainda reprimida, que vai requerer a ampliação de investimentos em bens duráveis, insumos e serviços associados.

Lançaremos nos próximos dias um novo Plano de Investimentos para enfrentar os gargalos existentes. Depois dos últimos seis anos de retrocesso e estagnação, voltaremos a gerar empregos de qualidade, a combater a pobreza e a aumentar a renda das famílias brasileiras. O Plano prevê a retomada de empreendimentos paralisados, aceleração dos que estão em andamento e seleção de novos projetos.

Promoveremos a modernização de nossa infraestrutura logística, com investimentos em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos. O Brasil já possui uma matriz energética das mais limpas do planeta: 87% de nossa eletricidade já provêm de fontes renováveis contra 27% da média mundial, e 50% de toda a nossa energia é limpa, enquanto no mundo a média é 15%.

E iremos melhorar ainda mais esses números, porque estamos dando prioridade à geração de energia solar, eólica, biomassa, etanol e biodiesel. Também é enorme o nosso potencial de produção de hidrogênio verde.

Destacam-se também novas oportunidades em mobilidade urbana, saneamento, prevenção de desastres e financiamento habitacional, gerando estímulos na cadeia produtiva de transporte e de construção. A extensão para todo o território nacional de uma rede de banda larga de alta capacidade servirá de alicerce para a política educacional que estamos desenvolvendo e que prioriza a inclusão e a qualidade.

Uma educação de qualidade é requisito para um crescimento fundado na geração de tecnologia e na inovação, privilegiando a economia do conhecimento. Estabeleceremos parcerias entre o governo e os empresários em todas essas áreas, sob a forma de concessões, Parcerias Público-Privadas e contratações diretas. Este novo Brasil mais justo e solidário está sendo reconstruído sem abdicar de nossos compromissos com os fundamentos macroeconômicos.

O controle da inflação e o equilíbrio das contas públicas são requisitos essenciais para assegurar a estabilidade, base sólida para a expansão econômica e o progresso social. Com a reforma tributária em curso, estamos simplificando a arrecadação de tributos e tornando a economia mais eficiente. Possuímos um sistema financeiro robusto, que permitirá a expansão sustentável do crédito ao longo dos próximos anos.

Nossas elevadas reservas internacionais, hoje na casa de 343 bilhões de dólares, proporcionam um seguro colchão frente a eventuais volatilidades externas. Ao lançar um programa ambicioso de investimentos, não penso única e exclusivamente em meu país. Não queremos ser uma ilha de prosperidade. Só cresceremos, de forma sustentável, com a integração ao nosso entorno regional.

Na última reunião de líderes sul-americanos, em maio, em Brasília, propus a atualização da carteira de projetos do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento, reforçando a multimodalidade e priorizando os projetos de alto impacto para a integração física e digital, especialmente nas regiões de fronteira.

Ao construir o corredor bioceânico, que liga o centro-oeste brasileiro aos portos do norte do Chile, reduzimos o custo de nossas exportações para os mercados asiáticos e geramos emprego e renda para o interior do nosso continente. Ao sediar a reunião de presidentes dos países amazônicos em agosto próximo, procuramos articular iniciativas comuns para a proteção e o desenvolvimento sustentável desse bioma com outros sete países da América do Sul.

Somos detentores de um patrimônio natural único em termos de florestas, biodiversidade e água doce. Esta condição nos torna responsáveis pela gestão de riquezas cuja preservação e exploração sustentável, de forma inclusiva, é imperativo nacional.

Nos mandatos anteriores, reduzimos o desmatamento em 80%. Dessa vez assumimos o compromisso de eliminar o desmatamento na Amazônia até 2030, e já nesse primeiro semestre o reduzimos em 34% em relação ao ano passado. Estamos lançando as bases para a reindustrialização do país com empreendimentos menos poluentes, com maior densidade tecnológica e com geração de empregos verdes e de qualidade.

O Brasil voltou ao cenário internacional para contribuir no enfrentamento dos desafios do nosso planeta, como a crise das mudanças climáticas e o aumento das desigualdades. Vamos provar, como já fizemos no passado, que é possível produzir e crescer de forma sustentável e eficiente.

Senhoras e senhores,

Precisamos enviar ao mundo um sinal de que duas regiões da importância estratégica da Europa e da América Latina e Caribe estão comprometidas com uma agenda promissora. Uma agenda de paz, de cooperação, de ampliação do comércio e dos investimentos, de geração de empregos e de crescimento sustentável.

Quando temos muito dinheiro nas mãos de pouco, temos concentração de renda e poucas pessoas consumindo enquanto muitas passam dificuldades. Com uma melhor distribuição de renda e dinheiro na mão de muitos, colocamos recursos na base da sociedade, ampliando o consumo e gerando oportunidades nos serviços, na indústria e na agricultura. Isso é verdade em cada um de nossos países e mais ainda quando se pensa em escala global.

O Brasil está fazendo a sua parte com uma estratégia de longo prazo, focada na credibilidade, na previsibilidade e estabilidade jurídica, estabilidade política, estabilidade econômica e com estabilidade social. Somente assim é que a gente vai poder desenvolver definitivamente os nossos países.

Esses são fatores essenciais para construir um futuro repleto de oportunidades.

Muito obrigado.”

A frase do dia

“Só nas manchetes da mídia burguesa o Lula pensa em reconduzir o Aras à PGR; no mundo real – onde a mídia burguesa não chega – não há nenhuma movimentação nesse sentido. Mas entre a verdade e a farsa a mídia burguesa sempre opta pela segunda para desgastar Lula e o PT”.

Ricardo Pereira, jornalista e professor

Com Lula, confiança no presidente da República é a maior desde 2012

Medida pelo Ipec, confiança dos brasileiros no presidente chega a 50 pontos. Nota é nove pontos superior à que foi registrada em 2022, último ano de Bolsonaro

Com Lula no comando do país, a confiança dos brasileiros no presidente da República chegou ao maior nível desde 2012. É o que mostra o Índice de Confiança Social (ICS), medido pelo Ipec e divulgado nesta terça-feira (18) pelo jornal O Globo. O ICS é uma série anual de pesquisas feitas desde 2009, inicialmente pelo Ibope e mantida hoje pelo Ipec, utilizando a mesma metodologia. Segundo o levantamento, a confiança na figura do presidente hoje marca 50 pontos, numa escala de zero a cem. 

Além de ser a maior nota alcançada desde 2012, o índice é nove pontos superior ao que foi registrado em 2022, último ano da gestão de Jair Bolsonaro.

O resultado foi comentado por lideranças do PT. “O Brasil está voltando a confiar em suas instituições”, avaliou o deputado federal e líder do partido na Câmara, Zeca Dirceu (PT-PR). “Agora temos um presidente de verdade”, ressaltou a deputada Erika Kokay (PT-DF). 

Segundo O Globo, o início do governo Lula também inspira mais confiança que o de Bolsonaro. A administração federal marca 52 pontos na escala elaborada pelo Ipec, cinco a mais do que no ano passado e dois acima do registrado em 2019, primeiro ano do hoje inelegível.

Ao jornal, a professora Rachel Meneguello, da Unicamp, afirmou que os dados “refletem certo ânimo com o funcionamento democrático da política brasileira instalado com o governo Lula”.

Para realizar o levantamento, o Ipec entrevistou presencialmente 2 mil moradores de 127 municípios entre 1° e 5 de julho. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou menos, dentro de um intervalo de confiança de 95%.

Rock na madrugada – Tequila Baby, “Melhor do que você pensa”

Um dos grandes nomes do rock gaúcho, junto com Cachorro Grande, Bidê ou Balde e Nenhum de Nós, o Tequila Baby ficou conhecido pelo som fortemente influenciado pelos Ramones. Canções ligeiras e pesadas, de refrão forte. Formada em 1994, em Porto Alegre, a banda teve vários integrantes, mas o time atual tem Duda Calvin (vocal), James Andrew (guitarra), Rodrigo Gaspareto (baixo) e Rafael Heck (batera). “Melhor do que você pensa” é um hit do disco “Punk rock até os ossos”.

O trabalho acabou repercutindo fora do Brasil e atraindo astros do punk rock internacional, como Marky Ramone, baterista dos Ramones, que fez vários shows com os gaúchos, e Greg Graffin, cantor do Bad Religion, que homenageou o Tequila usando uma camiseta da banda durante um show em Porto Alegre.