Anaice, o ‘chicote do povo’, conquistou a TV com irreverência e simpatia

POR GERSON NOGUEIRA

O radialista e jornalista Luiz Eduardo Anaice morreu na manhã desta terça-feira, vítima de infarto. Tinha 69 anos e uma carreira marcante, de grande sucesso no rádio e na TV paraense. De estilo irreverente, criou um jargão próprio para se dirigir ao público. Conquistou audiência e ajudou o programa Barra Pesada a se consolidar durante a década de 90. Virou lenda, uma celebridade, transformando-se na cara do programa. Nas internas, era um homem tímido diante de estranhos, embora sempre brincalhão com os amigos e colegas de trabalho.

Amapaense de nascimento, veio para Belém trabalhar na Rádio Clube e construiu uma carreira de sucesso na Rádio Marajoara nas ondas do icônico “A Patrulha da Cidade” e chegou à TV meio por acaso. O programa Barra Pesada já estava no ar, abrindo espaço com a combinação de jornalismo comunitário e temas policiais, além de grandes reportagens, quando Anaice chegou para fazer uma simples experiência.

Quem o trouxe para reunir comigo – que era, à época, o diretor do Barra Pesada e gerente de Jornalismo da TV RBA – foi o repórter Paulo Baía, que trabalhava com ele na Marajoara e era da equipe de esportes da TV. Todo encabulado, Anaice disse de cara que não se sentia preparado para trabalhar em televisão, mas acabou convencido a sair com uma equipe de externa para fazer uma espécie de teste.

Voltou desanimado, cabisbaixo, achando que o material havia ficado ruim. Ledo engano. O teste ficou tão bom que optei por usar como matéria, que exibimos no Barra Pesada do dia seguinte. Estava ali naquele primeiro VT todo o arcabouço de jargões e chistes que ele depois iria celebrizar no Barra e nos programas que passou a estrelar posteriormente dentro da RBA, entre os quais o Metendo Bronca.

“Não vem forte que sou do Norte”, “não te mete senão o pau te acha” e muitas outras expressões foram lançadas por ele e imediatamente acolhidas pelo público, virando termo corrente nas ruas. Quando ficou mais familiarizado com a linguagem televisiva, inventou a escrachada Escolinha do Tio Anaice, entrevistando com graça e leveza tipos humanos curiosos que encontrava nas delegacias. Honrou como poucos o slogan do Barra Pesada, “o programa que vai aonde o povo está” (expressão roubada de uma canção de Milton Nascimento).

Autodenominado “chicote do povo”, foi dele o impulso maior para que o Barra se consolidasse e alcançasse a liderança na audiência na faixa de 13h às 15h, consagrando a pioneira experiência de jornalismo-raiz na TV paraense, copiada exaustivamente depois. Anaice era um talento natural e intuitivo, uma figura humana humilde e simplória. Fazia tanto sucesso no Barra que acabou enveredando pela política, conseguindo se eleger vereador e deputado federal, mandato a que renunciaria por razões pessoais.

Depois da explosão inicial no Barra Pesada, Anaice ganhou a oportunidade de estrelar programas próprios na grade da RBA, sempre com grande repercussão. Sua morte precoce consternou todos os que – como eu – privavam de sua amizade e carinho.

Foi uma honra trabalhar com o Anaice durante os tempos áureos do Barra Pesada. Pela amizade e companheirismo, além da humildade para aceitar eventuais orientações. Um sujeito sensacional do tipo que faz falta quando se ausenta. Que Deus o receba em paz.

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