Por Josias de Souza

Por orientação do comando do Exército, o tenente-coronel Mauro Cid compareceu fardado à CPI do Golpe. Utilizou oito dos 15 minutos que lhe foram concedidos para ler uma manifestação inaugural. Nela, vangloriou-se da excelência de sua formação militar, vinculou ao Exército os atos que praticou como ajudante de ordens de Bolsonaro e informou que usufruiria do salvo-conduto obtido no Supremo Tribunal Federal para não se autoincriminar, abstendo-se de responder a qualquer pergunta. A fala do militar foi desmoralizante, desonrosa e reveladora.
A manifestação do coronel desmoraliza porque arrasta formalmente o Exército para dentro dos oito inquéritos criminais que ele responde no Supremo Tribunal Federal. Desonra porque a hipotética qualificação do militar potencializa a desqualificação das ordens que aceitou cumprir a serviço de Bolsonaro. A explanação é reveladora porque cada pergunta não respondida por Cid soa como um silêncio cúmplice das Forças Armadas e dos superiores hierárquicos que determinaram que a perversão se exibisse diante dos refletores de farda.
O Exército divulgou nota oficial para esclarecer que orientou Mauro Cid a comparecer à CPI envergando sua farda. O texto sustenta que o uniforme se justifica porque o tenente-coronel foi convocado “para tratar de temas referentes à função para a qual fora designado pela Força”. Preso há 70 dias, o próprio Cid empilhou os inquéritos que descarrilaram uma carreira que estava fadada a atingir o generalato:
1) O golpismo de 8 de janeiro.
2) Envolvimento em atos democráticos de 2019.
3) O caso das joias sauditas.
4) A fraude nos cartões de vacinação.
5) A disseminação de fake news.
6) A cumplicidade com as milícias digitais bolsonaristas.
7) O pagamento em dinheiro vivo de despesas de Michelle Bolsonaro.
8) O vazamento de inquérito sigiloso.
Nenhuma dessas atividades está inseridas no rol que o Exército chamou de “temas referentes à função para a qual [Mauro Cid] fora designado.” O uniforme e o silêncio exibidos pelo ex-ajudante de ordens na CPI não desonram apenas o depoente. Desmoralizam também o Exército e, por extensão, as Forças Armadas. (Transcrito do UOL)