POR PAULO NOGUEIRA, no DCM
Os franceses têm uma frase para a investigação de crimes: “Procure a mulher.” Você pode adaptá-la para o Brasil de hoje. “Procure o dinheiro.” É o que você deve fazer caso queira entender o ódio desumano da Veja pelo PT, expresso mais uma vez na capa desta semana.
Isso vale não apenas para a Veja, é bom acrescentar.
O jornalista Ricardo Kotscho, que fez parte da equipe de Lula em seus primeiros tempos, conta uma história reveladora. Roberto Civita queria uma audiência com Lula, algum tempo depois de sua posse. E pediu a Kotscho que a arranjasse. O objetivo não era discutir os rumos do Brasil e do mundo. Era pedir dinheiro para o governo, na forma de anúncios.
Ou mais dinheiro.
As coisas não correram como Roberto esperava. As consequências editoriais estão aí. Nem a morte de Roberto deteve a fúria assassina da Veja. É um paradoxo. As mesmas empresas liberais que condenam o Estado são visceralmente dependentes do dinheiro público que ele canaliza para elas.
Sem esse dinheiro, elas simplesmente não sobreviveriam.
Não é errado dizer que o Estado brasileiro financia as grandes empresas jornalísticas. É, para elas, um Estado Babá. Não é apenas dinheiro de anúncios, embora seja este o grosso. Ele vem de outras formas.
Poucos anos atrás, quando ainda tinha resultados contábeis expressivos, a Abril levou cerca de 25 milhões de reais do BNDES para uma obra que deveria ter sido bancada por ela mesma, e não pelo contribuinte: um arranjo em seu sistema de assinaturas.
É um dado público.
Parêntese: se na CPI do BNDES for aberto um capítulo para as relações da mídia com o banco, teremos informações sensacionais.
Em 2009, quando a Veja já abdicara de qualquer honestidade no ataque ao PT, a Abril levou 50 milhões de reais do governo de Lula apenas em anúncios.
Por que tamanha revolta, então?
Mais uma vez: procure o dinheiro. A Globo estava levando, e continua a levar, dez vezes mais, 500 milhões por ano.
Lula e Dilma, ironicamente, vem financiando a mídia que tenta exterminá-los.
Tamanha dependência leva a surtos de paranoia a cada eleição: e se a festa acabar? E se o governo decide reduzir ao mínimo os investimentos publicitários que vão dar nas corporações jornalísticas?
Seria uma calamidade para essas empresas. Elas cresceram graças ao dinheiro público posto nelas em proporções nababescas.
Note. Não é só o governo federal. Quantos recursos públicos não são encaminhados para as companhias de jornalismo pelo governo de São Paulo, o mais ricos do Brasil? De anúncios a compras de assinaturas, a mãozinha amiga está sempre presente.
No futuro, estudiosos tentarão decifrar por que nem Lula e nem Dilma mexeram adequadamente neste sistema que irriga recursos do contribuinte para mãos e bolsos particulares.
Minha hipótese é: medo, medo e ainda medo.
Quando os dados se tornaram públicos, e começou a surgir aqui e ali indignação, inventou-se uma coisa chamada “mídia técnica” para justificar o injustificável.
Com isso, teoricamente estava explicado por que anualmente o governo colocava 150 milhões de reais no SBT para terminar num jornalismo com Sheherazades.
Mas era e é uma falácia. Governo nenhum é obrigado a colocar dinheiro em empresa nenhuma, sobretudo quando há fundadas desconfianças sobre o caráter dela e seu comprometimento com o bem estar público.
No caso específico da Abril, e da Veja, a questão do dinheiro público se tornou especialmente dramática com a Era Digital e seu efeito destruidor sobre a mídia impressa.
Um governo amigo melhoraria extraordinariamente a situação financeira da Abril. O declínio não seria estancado, porque é impossível, mas seria mitigado.
A verba de anúncios federais cresceria instantaneamente. Lotes gigantescos de assinaturas de revistas seriam comprados. Financiamentos a juros maternais seriam obtidos.
É isso o que move a Abril — e, em medidas diferentes, as demais grandes empresas jornalísticas.
Procure o dinheiro, caso queira entender a sanha homicida delas, maldisfarçada num moralismo cínico, demagógico e canalha, para não dizer criminoso.
Quem disse que há ódio?
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Bem, amigo, se você não consegue perceber, não há o que dizer. A presidente é agredida de todas as formas com insultos diários nas redes sociais, xingada durante a Copa e você acha que isso não é manifestação de ódio? Tudo certo então.
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Insatisfação não gera elogios, caro Gerson.
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A Veja e a Globo, pra mim, são dois lixos. É uma pena que o governo Dilma ainda bote grana nessas empresas, numa verdadeira ação sado-mazoquista. Se eu fosse, o presidente da república acabaria com essas empresas. Não iriam receber um centavo do governo federal.
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Nem golpes, caro Ferdinando. Insatisfação gera cobrança, pressão. E, perguntar não ofende, insatisfação de quem? Sabe?, o governo sempre foi cobrado e a mídia não é porta-voz do povo. Nem antes, e nem agora. Insatisfação é diferente de ódio, porque insatisfação não daria em golpe. A cada dia surge uma nova notícia sobre a lava-jato. Um protocolo de tribunal já é notícia. O jantar dos presos, também. Em “Vigiar e Punir”, de Michel Foucault, se explica que a espetacularização da pena tem o efeito de afastar o cidadão do Estado porque o espetáculo não ensina, não educa. Intimida. Só. Pessoalmente, como pessoa de boa índole que sou, não temo nossa lei, nosso direito é positivo e tem valores humanistas, mas temeria ser enforcado e esquartejado em praça pública porque não há legalidade que sustente a exibição do apenado, exatamente pela razão de a ostensividade da pena apresentar essa característica de um temor do espectador, e do apenado, pela iminente injustiça irreversível. Note. A injustiça por si mesma já é algo terrível, mas mas a irreversibilidade dela é ainda pior. Sabemos que um réu pode ser inocente, e passar à vítima de um erro de processo ou falta de provas e coisas assim. Essa é a praxis, não antecipar o julgamento baseado em achismo e em informações de fonte duvidosa, como são as delações. A condenação pública sempre se mostrou injusta desde a idade média com a inquisição e se há tribunais e o direito é para não mais se ver atrocidades e penas absurdas. A presidenta não pode ser submetida a esse método medieval de pressão.
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Eu não tenho dúvidas que o que move grande parte da mídia que ataca o governo é o interesse de obter verbas ou mais verbas do que as que já obtém. Aliás, já escrevi isso aqui no Blog mais de uma vez.
Mas, há outro aspecto que é indubitável: contando a partir da redemocratização do país, não se pode perder de vista que ser alvo dos ataques desta parcela da mídia nem de longe é privilégio dos governos rubros. Os governos anteriores também foram bombardeados da mesma maneira. A propósito, também já demonstrei isso aqui no Blog, apresentando links com os ataques da mídia relativos aos presidentes anteriores.
Enfim, a pretensão argentária é para não expôr as mazelas dos governos. Na falta, as mazelas vem à tona.
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Meus comentarios ficou na moderação, será que e porquer critiquei o Lula e seu Governo? Coisas de Petistas.
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O blog não censura opinião, Luiz. Você é novo aqui e talvez desconheça a crença democrática do blogueiro na liberdade de expressão.
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lopesjunior, De muitos, inclusive os que votaram e apoiavam, até pouco tempo acreditando nas promessas de campanha da Dilma. Quem está satisfeito com a situação atual do Brasil deve estar levando alguma vantagem, como os bancos, por exemplo.
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O fato de apoiar o governo não significa que esteja satisfeito com a situação do país, Ferdinando. Aliás, sou do tipo que sempre estará insatisfeito porque entendo que sempre é possível fazer mais. A crise é maior do que o governo poderia supor e os erros cometidos por Dilma são amplificados terrivelmente pela mídia e por uma oposição cuja único projeto é o caos. Para essa gente, é na base do quanto pior, melhor. Não posso jamais estar do lado de gente assim.
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O medo explica.
Lula vai ser presidente de novo
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