POR ELIAS RIBEIRO PINTO, NO DIÁRIO
1 Dia desses, ao comentar a morte estúpida de um amigo, atingido por um carro que avançou o sinal fechado, colidiu com outro veículo e, desgovernado, alcançou esse amigo que caminhava sossegado pela calçada (ele morreria poucos dias depois, no hospital), a pessoa a quem eu relatava o acontecido lembrou de um episódio semelhante: recordou-me as circunstâncias igualmente trágicas que tiraram a vida do Fernando Arara. Quem ainda ao ler “o Arara” ainda é capaz de ligar o apelido à pessoa? Certamente, muitos dos amigos de geração que acompanham esta coluna.
2 Não há como cantarolar algumas canções dos anos 60 de Bob Dylan, como “Blowin’ in the Wind” e “Like a Rolling Stone”, sem que o vozeirão do Fernando não nos ecoe do fundo do tempo. A válvula da memória vai aquecendo até nos recompor a figura do nosso Bob Dylan do Bar do Parque, o Fernando Lúcio, o Fernando Arara, morto estupidamente ao ser esmagado na calçada, num amanhecer de anos atrás, por um carro desgovernado. Que ano foi isso? Já tem mais de vinte anos?
3 Filho da escritora Lindanor Celina, Fernando, acho, foi o primeiro e principal intérprete dylaniano entre nós. E cantava o menestrel pop em português, tradução dele próprio, às vezes em parceria (“with a little help from my friends”) com Lúcio Flávio Pinto.
4 Noite alta dos bons tempos do Bar do Parque, Fernando chegava, apossava-se de um violão (sempre havia alguém com um violão por lá nessa época) e, mesmo limitado a uma ou duas notas, arrancava do instrumento a cumplicidade sonora apropriada ao sarau. O da Paz, pano de fundo, lhe servindo de halo arquitetônico, o céu, de lona estrelada, o sopro ameno do vento.
5 As pessoas, de início, estranhavam, incomodavam-se com o vozeirão rasgado, que repercutia por todas as mesas. Mas a beleza da canção (era “Blowin’ in the Wind”), o eco metálico da voz de Fernando, sua figura adunca, escassa de carnes, Antônio Conselheiro urbano, renascido republicano, porque da Praça da República, tudo acabava por conspirar a favor do intérprete, o burburinho cessava, a canção seguia até o final apoteótico, cravejado de aplausos. Épico, entre copos de cerveja erguidos ao céu, brindando ao bardo.
6 A descarnada silhueta do cantor cinzelava seu perfil, recortando-o sob a magra luz do poste, polia-lhe a voz, perfuratriz, feito o nariz-arara, vincando a noite, avançando as fronteiras da cartografia poética.
7 Bem, a coluna de hoje não é sobre o Fernando Arara. Nem sobre o outro amigo, Genildo Mota, que, décadas depois, se foi quase do mesmo modo trágico, absurdo, vítima de um trânsito matador, sem lei, civilidade, respeito. Ou, ao menos, não é a coluna que eu queria, quero e ainda vou escrever sobre o Fernando, o Genildo.
8 O Fernando era uns dez ou quinze anos mais velho que eu, por aí. Se ele tinha essas noites de pura poesia, outras eram de vasta agonia, clausuras enlouquecidas, retorcimentos que ele transcrevia, como se em páginas escrevesse, nas paredes de sua casa soturna na Piedade, paredes que eram cadernos de exercícios da alma. Mas também já vou ficando triste, soturno, comovido como o diabo, talvez esse conhaque, essa lua, eu não devia te dizer, bandeira branca amor, eu peço paz. Paz para um trânsito em guerra, em ebulição de insanidade.