
POR GERSON NOGUEIRA
Em futebol, quando a situação fica ruim as desculpas começam a brotar de todos os lados. A torcida paraense já se viu obrigada a digerir explicações variadas para a má campanha de seus clubes. Houve técnico que alegou problemas relacionados com a trava das chuteiras. Outro reclamou do excesso de chuvas. Teve até quem, num rasgo de ousada criatividade, considerou que a paixão fervorosa do torcedor local pode atrapalhar a concentração da equipe.
Agora, a exemplo do ocorreu no ano passado, o torcedor do Papão descobre através de declarações do técnico e dos jogadores que a quantidade de deslocamentos pelo Brasil é um fator preponderante para o baixo rendimento do time na Série B.
O interessante é que as desculpas começam quando os bons resultados rareiam, principalmente na parte final da campanha, quando as demais desculpas já se esgotaram. Ao longo do campeonato é desfiado um rosário de argumentos para justificar tropeços, uma espécie de bíblia da potoca.
A mais comum das lorotas é a que supervaloriza todo e qualquer adversário, mesmo que seja o lanterna do campeonato. Foi o que se observou, há duas semanas, quando o Papão recebeu o ABC, último colocado, na Curuzu. A título de demonstrar “respeito ao adversário”, Marquinhos Santos e seus comandados desfiaram antes do confronto elogios sem fim ao mal-ajambrado time potiguar.
A estratégia, como se sabe, tem mão dupla: criar vacina natural para explicar um eventual tropeço e, ao mesmo tempo, valorizar ao máximo um triunfo, mesmo que obtido em circunstâncias pouco gloriosas.
Não se está aqui negando que certos resultados negativos comportam explicações aceitáveis. Perda (por expulsão ou acidente de trabalho) de atleta importante em momento crucial do jogo. Decisões equivocadas da arbitragem. Ou até falhas individuais graves.
O problema adquire contornos mais graves quando os jogos passam a merecer longas justificativas, sem a devida aceitação dos erros cometidos. Piora quando o tema envolve, como agora, a cansativa rotina de viagens. Entra-se aí no terreno das discussões inúteis sobre questões que não irão mudar – o mapa brasileiro não pode ser modificado e nem o sistema de disputa será refeito para atender clubes que se julgam prejudicados. Imagino que o Internacional e o Juventude devem ter mais ou menos as mesmas queixas. O Luverdense, clube mais penalizado com viagens longas, também.
Enfim, todos que participam da Série B têm a perfeita noção dos sacrifícios exigidos para encarar a maratona de jogos e outros perrengues decorrentes da competição. Quem estiver a fim de vida mansa pode optar por torneios de logística menos pesada.
A Série C, por exemplo, tem a sua fase principal (18 jogos) regionalizada, obrigando os clubes a deslocamentos curtos. Em último caso, há a Série D, com menos jogos e quase nenhum estresse com viagens. Como se vê, tudo é uma questão de preferência.
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Para manter vivo o pensamento do velho Nelson
“Sem alma, não se chupa nem um Chicabon; não se cobra nem arremesso lateral”.
Diante dos descalabros visíveis, no futebol e fora dele, nada como buscar socorro e inspiração no pensamento sempre arguto (e atual) de Nelson Rodrigues.
Alguns entenderão.
Vida que segue.
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Nau azulina à deriva e sujeita a tormentas oportunistas
O Remo virou uma caixa-preta em termos de gestão e contabilidade. Poucos arriscam dizer quanto o clube tem hoje em reservas, se é que ainda tem alguma coisa. Os métodos do atual presidente não facilitam o levantamento desses valores. O problema é que alguém, além do próprio mandachuva, precisa ter a noção real da situação financeira do clube. Isto seria uma das atribuições do Conselho Deliberativo, mas, nas instâncias leoninas, deliberar é sempre a última das possibilidades.
Em meio aos protestos e críticas contra Manoel Ribeiro floresce a desconfiança de que existam figuras interessadas exclusivamente no caos dentro do clube. Como estatutariamente o presidente só pode ser afastado pela Assembleia Geral diante de comprovadas ilicitudes, tornando pouco provável a destituição de MR, a gestão deve seguir enfraquecida e trôpega por mais um ano, sujeita a ventos oportunistas e pouco republicanos.
Grandes azulinos que não convivem mais com as decisões no clube alertam para o risco do aparecimento de aventureiros, sempre dispostos a dar pouco (em trabalho) em troca da grande visibilidade que o clube oferece. Alguns avançam além do costumeiro ‘voluntariado de ocasião’ e se prontificam até a emprestar valores, buscando sempre ressarcimento a juros nem sempre compatíveis com a inflação.
O Remo, definitivamente, não é para amadores.
(Coluna publicada no Bola desta quinta-feira, 05)
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