Por Gerson Nogueira
A gente se ilude, pensa que pode e manda, mas o mundo é deles. Definitivamente. Nossos filhos, pelo script natural das coisas, nos sucedem, dão continuidade à família, preservam o sangue, ampliam a saga. Fazem com que a eternidade terrena seja quase possível. E poucas, pouquíssimas vezes, isso fica tão explicitado aos nossos olhos quanto na hora em que dormem. Aliás, poucas, pouquíssimas coisas, são mais revigorantes e ternas do que acompanhar um filho a dormir, entregue ao deus Morfeu, espalhado na cama – ou na rede, como é mais comum aqui em casa.
Ouve-se a respiração, vela-se o sono. Dá tempo de arrumar o lençol, ajeitar um braço ou perna meio torto, ou ficar apenas contemplando a obra que pusemos no mundo. Quanto orgulho. É certo que, dormindo, parecem ainda mais belos e perfeitos.
Como de hábito, beijo os cabelos revoltos e arranco do moleque o ensaio de um sorriso (reflexos da alma talvez?). Cuidados e desvelos com eles, carícias que fazemos em nossos corações. Egoísmo amoroso. Envolvidos pelo torpor de onipotência até acreditamos, por segundos, que somos capazes de livrá-los de todo o mal. Da dor. Da tristeza. Suprema pretensão, que os raios da manhã se encarregam de varrer do pensamento. Escrevo estas mal-traçadas linhas influenciado por esta breve passagem do tempo. Cazuza escreveu que só as mães são felizes. Bobagem. Pais também podem ser.
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