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Trinta anos depois da morte de seu fundador-símbolo, Jerry Garcia, a música livre e a cultura em torno do ícone do rock psicodélico permanecem mais vivas que nunca

Natureza, liberdade, psicodelismo: o habitat natural dos Deadheads. Foto: Deanne Fitzmaurice-NPR/ Reprodução

O Grateful Dead fez em julho de 1995 seu último show com o guitarrista, vocalista e fundador-símbolo Jerry Garcia. Um mês depois, o músico sofreu um infarto e morreu. No entanto, em muitos aspectos o Dead nunca deixou de existir. Pelo contrário: 30 anos depois, sua música, sua filosofia e, sobretudo, a fidelidade de sua legião de fãs, hoje integrando diferentes gerações, permanecem íntegros e em evidência, sob a forma de bandas-tributo, festivais temáticos e um espírito de comunidade que parece imune à passagem do tempo.

Em meio aos festejos em torno do Days Between – o período entre 1 (dia de nascimento de Garcia) e 9 de agosto (o dia de sua morte), que é lembrado anualmente pelos fãs logo a partir do uso do título de uma das músicas do grupo – , a National Public Radio dos Estados Unidos saiu em campo para tomar o pulso do universo Dead e tentar compreender melhor a motivação por trás da vitalidade e da influência da música da banda.

Em 2026, o mundo pode ser totalmente diverso daquele no qual o Dead se formou, em meados dos anos 1960. Mesmo assim, e ainda que na ausência das muitas combinações de subprodutos da banda que foram surgindo, formados por antigos integrantes – como RatDog, Furthur, The Other Ones ou Dead & Company, que se apresentou pela última vez na Esfera de Las Vegas, no aniversário de 50 anos do grupo original, em 2025 –, sobrevivem o estilo de arte e de vida que o grupo popularizou: a ética e a estética hippie, a música encharcada de psicodelismo e rica em improvisos – e a devoção de seu público.

A NPR destacou em suas reportagens relativas ao Days Between uma agenda regular de eventos dedicados ao legado musical do Dead, estrelados por bandas-tributo, frequentados por fãs de todas as idades, que comparecem vestidos de roupas tingidas em estilo tie-dye e com longas cabeleiras (muitas totalmente brancas). Um deles é Terrapin Roadshow, turnê que circula por estados americanos apresentando shows centrados no repertório da banda de Garcia, liderados pelo guitarrista Grahame Lesh, filho do baixista original do Dead – Phil Lesh. Outro é o All Good Now, festival onde se apresentam discípulos musicais do Dead, bandas como Widespread Panic e Dark Star Orchestra.

O Widespread Panic se apresenta no festival All Good Now. Foto: KT Kanazawich-NPR/Reprodução

Quem se dispõe a adquirir memorabilia e roupas representativas do visual Dead basta ir à loja Love on Haight, em São Francisco – cidade onde o grupo se estabeleceu e à qual seria eternamente ligado. Um pouco da sensação de participar da órbita do Dead pode ser obtida vendo-se o documentário Summer Tour, de Mischa Richter (e produzido pela atriz Chloë Sevigny), sobre a última turnê de Dead & Company. Nele, o realizador quis enfocar não apenas o grupo e sua música, mas os fãs que sempre costumavam seguir as excursões da banda (e de seus derivados), carinhosamente apelidados por Garcia de Deadheads, que organizavam verdadeiros eventos paralelos aos shows – como rodas de dança e feirinhas de artesanato –, a quem era inclusive permitido (ou mesmo incentivado) gravar todo e qualquer show do grupo, como forma de documentação feita para ser fartamente compartilhada.

“Senti a responsabilidade de destacar essa comunidade e, em particular, os jovens que não são tão cínicos, que não ficam presos em seus quartos diante do computador e que realmente compreendem a América”, disse Richter, numa entrevista. “Eles conhecem todos os parques nacionais, sabem onde acampar. Eles fazem música. Fazem arte. Entendem de comércio. Sabem como correr atrás e fazer as coisas acontecerem. Eu simplesmente adoro essa inventividade e essa positividade”.

O mundo acadêmico também abraçou o Dead. A Universidade da Califórnia em Santa Cruz abriga hoje o Arquivo Grateful Dead, coleção que documenta o a história visual do grupo através de pôsteres, filipetas, correspondência e um sem-fim de artefatos psicodélicos adornados com imagens que se tornaram marcas-registradas da banda, como ursos dançantes e o raio sobre o crânio de uma caveira. “Eles são meio que responsáveis pelo movimento de arte psicodélica, pelo menos no que diz respeito aos Estados Unidos”, justifica Sam Regal, bibliotecária de Coleções Especiais e de Arquivos da universidade.

O Arquivo Grateful Dead da Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Foto: Deanne Fitzmaurice-NPR/ Reprodução

E a adoração ao Dead ganhará em breve ainda mais combustível. Vem aí o projeto Eyes of the World: The Jerry Garcia Experience, que a partir do início de 2027 levará em turnê um espetáculo imersivo, combinando música, arte, influências, animação e shows de bandas em tributo a Jerry, especificamente. Será montado primeiro em São Francisco e depois excursionará pelos Estados Unidos.

Qual é a razão de tanto apreço pelo Dead e o que alimenta a durabilidade de sua obra e de sua visão do mundo? “Tem algo ali que realmente fala às pessoas e as ajuda a lidar com a loucura, a imprevisibilidade e o caos da vida”, diz o músico e produtor Don Was, que por algum tempo excursionou com o guitarrista e vocalista Bob Weir (co-fundador e o caçula do Dead), sob o nome de Wolf Bros, tocando o repertório clássico da banda californiana. “A linguagem coloquial não transmite a profundidade das emoções internas que temos, mas músicas como as do Grateful Dead realmente ajudam você a lidar com tudo isso”.

“Meus pais descreveram o Grateful Dead como um carvalho grande e velho”, resume Grahame Lesh. “As raízes eram o jazz e o blues. Jerry era exímio no banjo e meu pai [tinha] raízes clássicas. O tronco são os membros da banda, e os galhos e as folhas são todos inspirados neles. Isso é o que eu sou – o que todos nós somos. Ele vai crescer e crescer. Nem toda árvore vive para sempre, mas sobrevive a todos nós”.

Grahame Lesh (à direita) no palco do Terrapin Roadshow. Foto: Deanne Fitzmaurice-NPR/ Reprodução

(Transcrito de Farol)

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