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Transcrito do X (perfil Nota)
Uma das premissas básicas de Michel Foucault em “Vigiar e Punir” é fazer a gente entender que A TECNOLOGIA NÃO É NEUTRA. Ela busca a neutralidade, mas a neutralidade é sempre impossível. Pelo contrário, o que a tecnologia faz é desengajar os sujeitos de suas escolhas, sejam elas boas ou más.
No fundo, com o acúmulo da tecnologia, Foucault concluía que ela cumpriu sua missão de fabricar “indivíduos úteis e dóceis” para produzir e não questionar.
E o que isso tem a ver com o jogo de ontem? ABSOLUTAMENTE TUDO!!!!!
É a primeira vez que temos um lance, em um momento capital do jogo, em que NINGUÉM viu um desvio da bola. Ninguém, ninguém. Porque talvez nem tenha mesmo.
Nem o juiz, nem o bandeira, nem o quarto árbitro. Nem os jogadores estavam muito certos. Nem ninguém na cabine do VAR olhando as câmeras. NEM MESMO AS CÂMERAS.
Porém, existia uma mini-tecnologia de um chip na bola que mede um abalo sísmico da passagem da bola pelo jogador.
E pra essa tecnologia desse chip em específico isso se configura toque e, por conseguinte, pra toda a humanidade, a gente conclui que isso é toque também.
Você entende que o assunto agora é: temos que discutir o conceito de toque na bola e desvio na bola porque eles não são neutros?
Porque tocar na bola pra gente e pra um chip têm dimensões completamente diferentes? Porque pra um chip e pro ser humano o TOQUE não é uma coisa que se mede por abalo sísmico a nível microscópico?
Só que, no fim das contas, esse toque elimina a Croácia de uma Copa do Mundo. E eles aceitam. E saem de campo. Fair play bonito. E estão certos, claro. Veja bem, não quero revolta.
Mas será uma boa mesmo entregar nas mãos desse tipo minucioso de tecnologia as escolhas do futebol?
Será que o VAR precisa ser tão específico? Tão fundo? Tão microscópico? Será que um ou outro erro de juiz não fazem parte do papo de boteco do dia seguinte?
Ou nossa vida futebolística daqui para frente vai ser assim? Um scanner de eletrocardiograma?
A questão não é ser contra a tecnologia no futebol. Eu sou a favor, mais ou menos.
A questão é acreditar que a tecnologia é neutra. É ACREDITAR que ela resolve os problemas. Ela resolve uns e cria outros, como o de ontem.
Porque a tecnologia não é criada no NADA. Ela é criada por alguém. E quem cria a tecnologia detém o poder de escolher o que ela vai fazer e o que ela não vai fazer (e isso não vale só pro futebol). Basicamente, a tecnologia faz o que o patrão dela mandar.
Então, sim, ela é bem-vinda pra algumas coisas e temos que usar. Mas não podemos acreditar CEGAMENTE nela.
Ontem, eu acho que ela ultrapassou um limite que é anular um gol por ABALO SÍSMICO MICROSCÓPICO no último segundo de um jogo. Ela eliminou a Croácia de uma Copa, aposentou o Modric de sua seleção. Foi dolorido de ver.
Tudo por uso do Chip num uso “desviado”. inicial. Então, o Chip pra mim só devia ser usado pra saber se a bola entrou ou não, porque aí é técnico. Entra ou não entra, não deixa margem.

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