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POR GERSON NOGUEIRA
O Brasil entra em campo no domingo (5), às 17h, para um desafio que tem se tornado cada vez mais penoso: superar os obstáculos que antecedem a final. Nunca foi exatamente fácil, mas nos últimos anos virou um tormento. Não será diferente desta vez. Para piorar as coisas, o adversário das oitavas assume com explícito prazer a condição de azarão.
O tom de descompromisso que marcam as declarações do artilheiro Haaland e do próprio técnico Stale Solbakken expõe o perigo representado pela Noruega. O problema é justamente porque é uma seleção que chega sem qualquer responsabilidade ou cobrança. Tudo o que vier é lucro depois de terem superado a fase 16-avos.
Fisicamente forte e forjada no jogo aéreo, a Noruega vai explorar a ansiedade brasileira. Afinal, lá se vão 24 anos sem levantar a Copa do Mundo. Tempo demais para uma torcida conhecida pelo alto nível de exigência. Não custa lembrar que, quando venceu em 1994, o Brasil também atravessava um jejum de 24 anos sem títulos.
É preciso entender que, diferentemente de outras seleções de primeira linha, o Brasil vai às Copas sempre com obrigação de trazer o caneco. A torcida que acompanha os jogos em transe durante o torneio não é a que habitualmente acompanha futebol. Por isso, a maioria não tem a menor ideia sobre o nivelamento que predomina no mundo da bola.
A Inglaterra, por exemplo, está sem ganhar um título há 60 anos, sem sequer chegar perto da taça, algo inadmissível para a percepção do torcedor brasileiro médio. Os ditos inventores do futebol não conseguem acertar o passo e vivem acumulando decepções. A torcida deles é fanática também, mas assimila melhor a frustração.
A Espanha é outro caso interessante. Só ganhou uma Copa, a de 2010, mas a simples classificação às quartas de final, com a tranquila vitória de ontem sobre a Áustria, já foi recebida com incontido entusiasmo.
Tudo isso entrará em campo junto com o Brasil, domingo, em Miami, além de todas as dificuldades naturais de um jogo de oitavas. E a Noruega não é só Haaland. Tem o cerebral Martin Ødegaard e o jovem meia Nusa. O certo é que defesa e meio-campo do Brasil – Casemiro à frente – serão tremendamente exigidos.
Mãe África ainda vai conquistar o mundo
A Copa do Mundo vem expondo a gigantesca influência da integração de imigrantes e seus descendentes sobre o cenário do futebol europeu atual, com mudança radical no mapa do esporte. É cada vez mais patente que o Velho Continente só superou a decadência com o incremento de talento e força física dos filhos da diáspora africana, principalmente.
Até meados dos 90, a vantagem em mundiais era da América do Sul. O Brasil tinha 4 Copas; Argentina e Uruguai 2, cada. A Europa tinha 3 títulos da Alemanha, 3 da Itália e um da Inglaterra. O placar era 8 a 7, mas os europeus tomaram a frente, com conquistas em 2006, 2010, 2014 e 2018.
Na origem de tudo, o fato de que a Europa viu o surgimento de bons jogadores africanos e partiu para a solução óbvia: abrir um processo de integração, que se acentuou a partir do início deste século, tanto que entre os vencedores das Copas recentes apenas a Itália de 2006 e a Espanha de 2010 não tinham com filhos de imigrantes no elenco.
Coincidência ou não, a Itália, a única das grandes seleções europeias que resiste à ideia de utilizar o reforço dos imigrantes, ficou ausente da fase final das três últimas Copas. Enquanto isso, a França coleciona êxitos, chegando à decisão nas duas últimas Copas – e sendo campeã em 2018.
A resistência a esse domínio europeu talvez venha justamente do futebol africano, representado por seus próprios times. A conquista do 4º lugar por Marrocos em 2022 foi apenas o primeiro sinal de que a África está chegando para ocupar o espaço que merece.
Enquanto isso, alguns dos países que mais se beneficiam da riqueza boleira importada da África são os que mais fecham fronteiras aos imigrantes. Só esquecem o ranço da intolerância quando festejam em êxtase os gols de Mbappé, Lamine Yamal, Dembelé, Lukaku e outros.
Leão prioriza reforços para o sistema defensivo
A torcida está ansiosa por reforços para o setor ofensivo, mas, por ora, o Remo confirmou dois nomes para tornar a zaga mais sólida e protegida: o volante Edson Fernando, oriundo do futebol ucraniano, e Matheus Felipe, ex-jogador de Léo Condé no Ceará e que estava jogando no Vietnã.
No setor de meio-campo, Condé conta com seis volantes (Zé Welison, Patrick, Zé Ricardo, Leonel Picco, Pavani e Jaderson). Edson Fernando, pela experiência internacional, passa a ser uma das opções para revezamento com os titulares Welison, Patrick e Zé Ricardo.
São contratações que deixam o torcedor ainda na expectativa, sempre ávido por nomes mais conhecidos, mas tanto Edson Fernando quanto Matheus Felipe podem contribuir muito na duríssima campanha do returno.
Seedorf cobra atitudes contra os racistas
Clarence Seedorf, craque holandês dos anos 1980 com passagem pelo Botafogo, desabafou ontem contra os ataques racistas sofridos por jogadores da seleção laranja que perderam penalidades na Copa do Mundo.
“Vimos isso há alguns anos com a Inglaterra e, infelizmente, aconteceu de novo com a Holanda. Timber, Kluivert e Summerville tiveram coragem de bater os pênaltis. Eles merecem apoio, não ataques”, disse Seedorf.
“Racismo e discriminação não podem ter espaço na nossa sociedade. A Holanda sempre foi referência em muitas áreas. Está na hora de mostrar ao mundo que também pode liderar a luta pelos direitos das vítimas do racismo e da discriminação”, afirmou.
(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 03)
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