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Momentos emblemáticos marcam a história do rock. É o caso, por exemplo, das primeiras gravações de Elvis Presley; dos shows de Chuck Berry em espeluncas de beira de estrada e da explosão dos Beatles no programa de Eddie Sullivan, em 1964, apresentando o novo rock aos americanos e ao mundo.

Em resenha já publicada aqui no blog, Sérgio Martins analisou brilhantemente a importância de “Like A Rolling Stone” (Como uma pedra rolante), canção que transformaria a poética do rock, lançada em julho de 1965. A partir daí, o gênero deixaria de lado temas banais, como carros e baladas, para abordar questões sociais e políticas.

A canção é tão importante que mereceu um livro, escrito pelo crítico Greil Marcus: “Like a Rolling Stone – Bob Dylan na Encruzilhada” (Companhia das Letras; tradução de Celso Mauro Paciornik; 256 páginas; 42 reais). Explicou ali como a música, sozinha, mudou a cultura pop em todo o mundo.

Dylan surgiu no início dos anos 60 como artista folk. De violão e gaita empoleirada sobre os ombros, ele criava canções de protesto como “Blowin’ in the Wind”. A fórmula durou até “Bringing It All Back Home”, disco lançado em 1965, no qual ele introduz a guitarra elétrica no folk, enfurecendo fãs mais conservadores.

“Highway 61 Revisited” veio logo depois, causando ainda mais estranheza – a começar pela faixa “Like a Rolling Stone”. A música nasceu de uma brincadeira de Dylan com os acordes de “La Bamba’, de Ritchie Valens. Os solos de guitarra e as intervenções do teclado criaram um novo padrão de sonoridade no trabalho do cantor.

“Like a Rolling Stone” mudou também a maneira de divulgar uma canção no rádio. As músicas, então, podiam durar no máximo 3 minutos; ela tem o dobro. A CBS (atual Sony Music) pediu que Dylan a cortasse. Ele se recusou, e a faixa foi dividida em duas partes. “Foi assim que conheci a canção. Passei uma hora escutando a primeira parte até conseguir pular para a segunda”, disse Greil Marcus.

O público rejeitou o artifício e exigiu que a música fosse tocada na íntegra pelas rádios, formato em que ela chegou ao segundo lugar na parada e se tornou o maior sucesso de Dylan até então.

A letra é uma das mais brilhantes de Dylan. Para contar a história de uma esnobe da alta sociedade que vira indigente, ele usa metáforas e recorre a uma estrutura narrativa então inédita nas letras de rock – tanto que a canção o colocou no cânone literário, influindo no Prêmio Nobel que ganharia depois. “Trata-se de uma composição capaz de viver no papel, sem a música”, diz Marcus.

A protagonista da canção também gerou polêmica. Há quem diga que se trata de um decalque de Edie Sedgwick, socialite amiga de Andy Warhol e Lou Reed. Mas muito acham que o cantor está falando de si próprio, metaforicamente. Para Marcus, entretanto, o segredo está nas três palavras iniciais – “Era uma vez”. Ou seja, tudo não passa de história e invenção. O fato é que Dylan reinventou a música pop.

Trecho da letra:

Como uma pedra rolante

Era uma vez em que você se vestia tão bem

Jogava esmola aos mendigos em seu auge. Não foi?

As pessoas chamavam, dizendo

“Cuidado boneca você está pedindo pra cair?

Você achou que todos eles estavam brincando com você

Você costumava rir de

Todo mundo que ficava vadiando ao redor

Agora você não fala tão alto

Agora você não parece tão orgulhosa

De estar tendo que vasculhar pela sua próxima refeição

Como se sente?

Como se sente?

Por estar sem um lar?

Sem uma direção

Como uma completa estranha?

Como uma pedra que rola?

Você freqüentou a melhor escola

Muito bem, Senhorita Solitária

Mas você sabe que você apenas ficava enchendo a cara lá

E ninguém jamais lhe ensinou

Como viver nas ruas

E agora você descobre (que)

Você vai ter que se acostumar com isso

Você dizia que jamais condescenderia

Com o vagabundo misterioso, mas agora você percebe

Que ele não está vendendo álibis

Enquanto você olha fixamente para o vácuo de seus olhos

E o pergunta, você quer fazer um trato?

Como se sente?

Como se sente?

Por estar por sua conta?

Sem nenhuma direção para casa

Como uma completa estranha?

Como uma pedra que rola?

(Com informações de Greil Marcus, Sérgio Martins e revista Rolling Stone)

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