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POR GERSON NOGUEIRA

Os grandes atacantes do futebol mundial brilharam na primeira rodada da Copa. Nem sempre é assim, mas neste mundial estamos vendo Mbappé, Haaland e Harry Kane chegarem voando e com fome de gol. Acima deles, porém, paira a figura ímpar de Lionel Messi, há tempos considerado com total justiça o melhor jogador de sua geração.

Alguns desmemoriados chegam até a cometer a heresia de compará-lo a Pelé. Alto lá. Pelé é Rei. Reinventou o futebol moderno e ganhou 3 Copas do Mundo, com mais de 1 mil gols anotados. Na decisão de 1958, fez gol com apenas 17 anos, chapelando o zagueiro. Foi o maior da história da modalidade, e não há discussão sobre isso. Pelé é incomparável.

Dito isso, vamos falar de Messi, que se tornou o assunto mais comentado no mundo desde a noite de terça-feira (16) ao marcar três gols logo na estreia contra a Argélia. Com isso, aos 38 anos, saltou de 13 para 16 gols, empatando com Miroslav Klose entre os maiores artilheiros das Copas. Tem tudo para ultrapassar o alemão nas próximas rodadas.

É mais um recorde na carreira de um especialista em quebrar recordes. Messi é um jogador completo. Sabe ocupar espaços, desfila categoria em campo, tem um drible irresistível, faz lançamentos e é mortal a partir da linha média do campo. Nas proximidades e dentro da área, é imparável. A Argélia, coitada, não tinha como detê-lo.

Em meio a todos os salamaleques dirigidos a ele, há um fato que manchou em parte a glória do hat-trick. Depois de ter feito 1 a 0 com um belíssimo disparo de fora da área, ainda no 1º tempo, Messi cometeu uma falta gravíssima sobre o defensor Mandi, pisando em sua panturrilha.

O árbitro polonês Szymon Marciniak ignorou as regras e não deu cartão vermelho a Messi. Nem o amarelo saiu. Qualquer outro atleta teria sido expulso. O mundo do futebol reagiu, indignado. E recordou o ocorrido há quatro anos, no Qatar, quando o mesmo Marciniak tolerou faltas e até ações anti-jogo de Messi na final contra a França, em Doha.

O polonês inventou um pênalti sobre Di María logo no início daquele jogo. No fim da prorrogação, com o placar em 3 a 3, interrompeu com falta um ataque arrasador da França, com Mbappé livre para fazer 4 a 3. Uma mancha indelével daquela Copa, que teve ainda um 2º cartão amarelo negado para Messi nas quartas de final com a Holanda.

É ruim para a lisura do jogo quando a arbitragem normalmente mais rigorosa em Copas pega mais leve com um jogador. O ato de erguer a chuteira, atingindo o adversário diretamente no tendão de Aquiles, zona do corpo extremamente vulnerável, não poderia passar impune. Desmoralizou o sistema de arbitragem – e o VAR, que se omitiu.

Como disse Roy Keane, a Copa é o principal palco do futebol, onde supostamente as regras ganham significado maior, até pela força do exemplo. Depois da pipocada da arbitragem com Messi, será difícil entender e aceitar outras expulsões por jogo violento. A isonomia, base de tudo, foi inteiramente desmoralizada pela própria Fifa.

Diversão e alegria justificam inchaço da Copa

Quase todo o mundo do futebol criticou o inchaço da Copa, saindo de 32 para 48 seleções. Bastou uma rodada para que os críticos (incluindo este baionense aqui) sejam obrigados a refazer seus pontos de vista: a competição ficou muito mais divertida, além de se tornar obviamente mais inclusiva. A Fifa mirou na representatividade eleitoral, mas acertou em cheio ao prestigiar países do chamado Terceiro Mundo do futebol.

Um dos pontos mais festejados é a expansão da alegria a países que viviam nas bordas dos salões de elite do futebol, relegados a torneios regionais. A euforia das populações de Cabo Verde e Congo comemorando nas ruas é a prova maior de que a ideia deu muito certo.

Ao mesmo tempo, o desempenho das equipes emergentes tem sido acima do esperado. Cabo Verde parou a favorita Espanha cometendo apenas uma falta em todo o jogo. Diante de Portugal, a seleção do Congo mostrou fibra e desassombro. A poderosa França sofreu para superar o conjunto afinado de Senegal. O Uruguai sofreu para empatar com a Arábia Saudita.

Ranking da Fifa expõe as fragilidades do Brasil

As listas de estatísticas dos jogos da Copa mostram alguns aspectos que às vezes passam em branco para o grande público. O sistema Power Rankings classifica as atuações dos jogadores em três quesitos: ataque, criatividade e defesa. Até os jogos realizados na terça, 16, o Brasil não liderava nenhuma das estatísticas, muito pelo contrário.

O melhor colocado da Seleção foi Vini Jr., que recebeu nota 8.88, a quarta maior do Mundial. Contra Marrocos, ele teve apenas uma finalização, justamente a do único gol brasileiro. Além disso, o camisa 7 deu duas assistências e acertou 84% dos passes.

Quanto à criatividade, os dados são ainda mais implacáveis com o time brasileiro. O melhor avaliado da Seleção foi Luiz Henrique, com nota 7.02, ocupando apenas 49ª posição no ranking.

Entre os dados que mais preocupam está a lentidão de Casemiro, que Ancelotti considera o xerife do meio-campo. Entre 502 jogadores avaliados, o volante foi apenas o 406º em arrancadas (sprints), fato que explica a facilidade que os marroquinos tiveram naquela faixa do campo.

As notas do ranking da Fifa apenas explicitam a falta de criatividade e entrosamento da Seleção Brasileira em sua estreia na Copa do Mundo. A modesta classificação de Marquinhos (37ª) retrata os problemas de uma defesa que permitiu incríveis 14 finalizações de Marrocos. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 18)

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