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POR GERSON NOGUEIRA

Sempre que a Seleção vai mal em jogos de Copa do Mundo surge o debate sobre a verdadeira essência do futebol brasileiro. É como se fosse necessário sair em busca da pedra filosofal, capaz de rejuvenescer um estilo de jogo que um dia foi admirado no mundo todo. Depois da pífia apresentação contra Marrocos, jornais e críticos europeus fizeram a pergunta de sempre: o que aconteceu com a magia do futebol brasileiro?  

Existe mais de uma resposta possível para o enigma. Há exatos cinco décadas o Brasil rompeu com um estilo que era baseado na beleza do drible e na eficácia do passe. Garrincha, Didi, Pelé, Rivellino, Gerson e Tostão, principalmente, sedimentaram uma maneira única de jogar. Zizinho, antes deles todos, já era um expoente dessa arte.

Com esse futebol engenhoso e elegante, o Brasil ganhou três Copas (1958, 1962 e 1970). E podia até ter ganho quatro mundiais, se não tivesse entregado fragorosamente a de 1950 no Maracanã recém-inaugurado.  

Recentemente, o jornalista Tim Vickery, um inglês apaixonado pelo Brasil bom de bola, fez uma observação valiosa sobre a ruptura da Seleção com o futebol bonito (e vitorioso). A mudança ocorreu a partir de 1974, segundo ele, quando os técnicos brasileiros sofreram o impacto da Laranja Mecânica de Rinus Michels e Johan Cruyff.

O futebol total praticado pela Holanda naquele mundial encantou o mundo e passou aos brasileiros a impressão de que o futebol técnico e caprichado havia caído em desuso. Um erro terrível de perspectiva. O Carrossel Holandês durou pouco mais de um ciclo, pois em 1978 já era apenas uma cópia malfeita da seleção vice-campeã na Alemanha.

Vickery é taxativo: “Para mim a essência do futebol brasileiro foi ter os melhores passadores de bola na faixa central de meio-campo. Didi, gênio. Gerson. Turma de Falcão e Cerezo de 1982. Gerenciando o jogo de lá”. Baseia essa afirmação nos ensinamentos de Zizinho, que em 1985 lançou um livro (“Mestre Ziza”) esclarecedor e pouco lido.

Nele, o grande meia dos anos 1950 apontava o tremendo risco que era transformar volantes brasileiros em jogadores de destruição ao invés de ensiná-los a funcionar como construtores, aproveitando o fato óbvio de que pelos pés deles passam 70% das bolas.

Ninguém ouviu Zizinho, mas os piores dramas do futebol verde-amarelo envolvem a grosseria no trato com a bola na zona central do campo, desde os idos de 1974. Foi por deixar de formar bons passadores que tomamos de 7 a 1 em 2014 e até hoje entregamos as chaves do time a jogadores fisicamente fortes, mas desprovidos de talento e fracos até em fundamentos básicos, como o ato de dominar a bola. 

É hora de recomeçar.

Heptacampeão de F1 crava importante vitória

O presidente norte-americano, aparentemente por excesso de tempo livre, resolveu dirigir ataques ao piloto britânico Lewis Hamilton. Assim do nada, chamou o heptacampeão de “um insulto ao esporte” por ser “extremamente progressista”.

Pelo visto, mexeu com o sujeito errado. “Querem saber o que insulta a humanidade? Tirar o acesso à saúde dos doentes enquanto se cortam impostos para bilionários”. E mais: “Sabem o que insulta a humanidade? Deportar estrangeiros e separar bebês de suas mães”, disse Hamilton.

E continuou: “Sabe o que insulta a humanidade? Bombardear crianças inocentes em idade escolar no Irã e enviar nossos bravos homens e mulheres para morrer em mais uma guerra sem fim”.

Hamilton, melhor piloto da atualidade e que venceu domingo a sua primeira corrida (GP de Barcelona) na Ferrari, preferiu responder indo ao ataque, usando contra o político a essência de seu próprio discurso moral.

“Conseguimos imaginar a guerra em um mundo perfeito? Conseguimos imaginar o preconceito e a pobreza em um mundo perfeito? Então por que toleramos essas coisas na Terra?”, arrematou o primeiro piloto negro da F1.

Na festa do futebol, um brado contra a xenofobia

Um mundo maravilhosamente diversificado e livre está dando as cartas na Copa do Mundo tripartite. Nada mais bonito do que ver um camaronês conquistando o empate para a Suíça, um refugiado (do Burundi) defendendo a Austrália, um filho de jamaicanos salvando o Canadá e até um filho de nigerianos brilhando no ataque dos EUA.

Um tapa na cara de xenófobos, supremacistas brancos e racistas em geral. O futebol é grandioso e popular, e pode deixar lições profundas. Basta prestar atenção no que rola nos gramados do mundial.

Na partida entre Suécia e Tunísia, os gols nórdicos foram marcados por filhos de tunisiano, marroquino, eritreu e húngaro. Dos cinco autores dos gols da vitória, somente um tinha origem sueca.  

Ao mesmo tempo, Marrocos é representado por um time sem nenhum atleta nascido no país. O futebol de seleções se aproxima velozmente da modalidade de clubes, com a mistura de jogadores das mais diversas origens, sem preocupação com a origem étnica.

Um dos melhores exemplos disso são as seleções de França, Alemanha, Inglaterra e Espanha, repletas de talentos de origem asiática, africana e americana. O tal purismo foi inteiramente atropelado pelo mérito de quem sabe fazer do futebol profissão e arte.

Assim como é empolgante ver a façanha de Cabo Verde em sua primeira Copa, arrancando um empate heroico diante da favorita Espanha, cometendo apenas uma falta em toda a partida. Vozinha, um goleiro de 40 anos, teve atuação magistral e saiu consagrado. No final, derramou lágrimas de esguicho, como cabe a todo herói do povo. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 16)

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