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POR GERSON NOGUEIRA

O lado menos pacheco da torcida brasileira sabia das dificuldades que a Seleção teria contra Marrocos, semifinalista na última Copa. Mas nem o mais cético dos torcedores esperava ver o Brasil tomar um vareio de quase meia hora logo na estreia. A coisa foi tão tensa que lembrou até aqueles pavorosos minutos iniciais do 7 a 1 contra a Alemanha, em 2014.
A marcação adiantada e as tramas em velocidade de Marrocos envolviam o sistema defensivo do Brasil, provocando erros de passe e ações destrambelhadas que travavam o desenvolvimento de jogadas. Ayyoub Bouaddi e Brahim Diaz reinavam na meia-cancha, com passes perfeitos que deixaram Casemiro, Paquetá e Bruno Magalhães tontos.

Nunca antes o Brasil havia estreado de forma tão amedrontada – nem mesmo em 1974 diante da antiga Iugoslávia. O amplo domínio de Marrocos merecia pelo menos um gol – e ele veio aos 21 minutos. Paquetá fez graça, perdeu a bola e Brahim lançou Saibari entre os zagueiros. O atacante encobriu Alisson e correu para o abraço.
Após a hidratação, a Seleção buscou o empate em lance e foi preciso um lance de construção genial para igualar as coisas. Lançado na área, Vinícius driblou um, fez o corte habitual para a perna direita e disparou forte, sem chances para Bono, aos 32’. Um golaço. Ainda bem que a Seleção conta com o talento de Vinícius, resquício de um futebol que ficou no passado.

No 2º tempo, com Fabinho e Danilo, o time melhorou. Depois, Carlo Ancelotti tirou Paquetá e Igor Thiago, mas manteve Raphinha. Botou Luiz Henrique para ser escudeiro do lateral Danilo, tirando dele a velocidade e os dribles. Pior: deixou Endrick e Rayan no banco. Uma pena.
O empate decepcionou, mas podia ser pior, pois Marrocos foi superior, fazendo um jogo de associação que talvez seja sua maior qualidade, em contraste com a distância transoceânica entre os setores do time brasileiro.
O empate obriga Ancelotti a redesenhar a rota e abandonar algumas apostas furadas. A má estreia também ajuda a expor a realidade aos empolgados ‘torcedores de Copa’. O Brasil está entre as 10 seleções que podem levantar o título, mas corre por fora – o que pode até ser positivo. Oremos.
Série C: Papão sofre 1ª derrota em casa
Ainda sob a ressaca da conquista da Copa Verde, o PSC foi derrotado pela Inter de Limeira por 2 a 1, ontem (14), na Curuzu. O resultado deixa o Papão em 4º lugar na Série C, sob pressão de times que vêm crescendo na competição – como Ituano, Amazonas, Floresta, Caxias e Santa Cruz.
Sob sol escaldante, os times fizeram um 1º tempo equilibrado. O PSC começou melhor. Thayllon fez boa manobra na direita, cruzou rasteiro e Ítalo furou, perdendo uma boa chance.
Aos 33 minutos, Ítalo ficou frente a frente com o goleiro, deu uma cavadinha e Yan Silva quase jogou contra o patrimônio. Em resposta, Gabriel entrou livre na área, bateu forte e Bonifazi salvou de carrinho.
A Inter ainda perdeu um gol incrível, aos 48’, quando Yan Silva chutou em cima do goleiro Gabriel Mesquita. A bola ficou para Vítor Leque, que finalizou por fora da rede com a trave desguarnecida.
No recomeço do jogo, a Inter abriu o placar logo a 1 minuto. Gabriel Dias cruzou rasteiro para Lucas Buchecha, que desviou no cantinho da trave. No prejuízo, o técnico Júnior Rocha mexeu no time para tentar reagir: Bruno Bispo, Lucas Cardoso e Juninho substituíram Iarley, Bonifazi e Ítalo.
A movimentação ofensiva melhorou e tudo ficou ainda mais favorável aos 22 minutos, quando Frazan levou o segundo amarelo e foi expulso. A torcida tentava empurrar a equipe, mas, aos 33’, veio o balde de água fria: Yan Silva meteu um chute de fora da área e ampliou a vantagem.
Aos 45’, um último suspiro bicolor: Thalyson foi ao fundo e cruzou para o cabeceio perfeito de Juninho, mas a tentativa de reação ficou nisso.
O recital inspirador de um craque de 18 anos
A atuação de Ayyoub Bouaddi foi decisiva no balanço de meio-campo de Marrocos, fazendo com que o time tivesse sempre pleno domínio das ações nas duas intermediárias, principalmente no 1º tempo e na reta final da partida. Aos 18 anos, ele poderia facilmente ser confundido com um meia brasileiro das antigas (no bom sentido, claro).
Ganhou os duelos diretos, não errou um passe. Gingou, driblou e lançou com perfeição. Sempre com leveza, sem fazer esforço. Um recital.
Com Ounahi e Brahim Diaz, seus parceiros mais próximos, Bouaddi confirmou o acerto de Marrocos em brigar por sua participação na Copa – ele tinha a opção de defender a seleção da França. Graças aos três, Marrocos desenvolveu um jogo de toques curtos e acelerados.
O que Bouaddi fez, com e sem bola, contra o meio-campo envelhecido e previsível do Brasil é revelador do atraso técnico do nosso futebol e (pior) da falta de ideias para sair do atoleiro. Em vários momentos, parei para prestar atenção nas rotações sincronizadas do meia e seus companheiros. Que exibição portentosa de grande futebol.
Bouaddi joga muito e pensa grande. Melhor orador de sua turma, estuda matemática nas folgas. “Foi assim que fui criado e isso ajuda a manter minha mente ativa”. Que ninguém duvide, o moleque vai longe.
Astro pop curte a fama e o poder da ilusão
Enquanto a Seleção levava sufoco em campo, do lado de fora um astro pop aproveitava todas as câmeras para sorrir e fazer marketing – o que mais tem feito nos últimos cinco anos. Neymar, ainda lesionado, teve autorização para ficar no banco de reservas, curtindo de boa a estreia do Brasil.
O grande objetivo de sua convocação era produzir justamente esse cenário: a exposição e o encantamento ingênuo de um tipo de público que só se liga em futebol de quatro em quatro anos. O sorriso soa mais como deboche, mas muitos ainda não estão preparados para esta verdade.
(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 15)
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