
Brasília amanheceu estádio.
Nas arquibancadas digitais, gritos, bandeiras, dedos erguidos como tochas de urgência.
No gramado verde das formalidades, comemorava-se antes da hora.
Disseram gol.
Disseram vitória.
Disseram que a rede balançara em favor dos que sonham reescrever sentenças com canetas partidárias.
Mas a Constituição, velha árbitra de olhar severo, não se distrai tão facilmente.
Quando um veto nasce inteiro, inteiro deve ser enfrentado.
Não se corta o corpo da lei em pedaços convenientes como quem serve fatias de ocasião.
Não se inventa terceira porta onde só existem duas: manter ou derrubar.
Todo atalho, em matéria de República, costuma desembocar no abismo.
Veio então a voz austera do jurista, como bandeirinha à margem do tumulto:
houve impedimento.
O lance é nulo.
O entusiasmo correu mais rápido que a legalidade.
Eis o drama recorrente de Brasília:
homens que desejam dobrar o regimento como se dobra guardanapo,
líderes que confundem maioria com licença,
estrategistas que pensam que a forma é detalhe,
sem perceber que a forma, no Estado de Direito, é o próprio conteúdo vestido de regra.
Tentaram salvar aparências.
Acabaram expondo vícios.
Tentaram entregar troféu.
Forjaram papel molhado.
Agora o relógio olha para o Supremo,
essa sala onde tantas vezes se recolhem os cacos deixados pela pressa política.
Se ali prevalecer o texto sobre o truque,
o castelo ruirá com o ruído seco das coisas mal erguidas.
E os que já celebravam absolvições futuras
talvez descubram, tarde demais,
que não há dosimetria capaz de medir a culpa de quem conspirou contra a própria casa.
Porque a democracia, ferida muitas vezes,
aprendeu uma ciência rara:
pode cambalear,
mas ainda reconhece falsos gols.
Joao Portelinha da Silva
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