
Por Moisés Mendes
Fernando Gabeira é notícia de novo. Em março, o comentarista da GloboNews sugeriu que o Supremo fosse extinto. Nessa sexta-feira, defendeu que ministros da Corte sejam colocados numa “reserva”, por escolha do governo de plantão, e substituídos por outros nomes por medida provisória, em nome da renovação.
Pois vou contar uma das minhas histórias de Forrest Gump. Em 1993, Cida Damasco (que seria mais tarde editora-chefe do Estadão) chefiava a editoria de economia de Zero Hora, onde eu era um dos editores. Um dia, Cida me convocou:
— Você pega o Gabeira?
Eu deveria, no processo de edição, cuidar dos textos do Gabeira para o jornal. Os artigos chegavam do Rio num malote. Vinham datilografados em papel pardo, e eu tinha que ler e encaminhar para o que chamavam de composição.
Alguém iria transformar o texto analógico em texto digitalizado. A redação da Zero usava computadores desde 1988. Ainda não existia internet no Brasil, mas claro que já havia o computador pessoal, onde os textos eram escritos e, se fosse preciso, depois impressos. Gabeira ainda preferia a máquina de datilografia.
O jornalista era, na memória de todos nós, o autor de ‘O que é isso, companheiro?’, um belo livro de aventura sobre a índole brancaleone da luta clandestina contra a ditadura.
Pois eu pegava Gabeira todas as semanas. Uma surpresa ao ler os primeiros textos, que saíam no domingo, era o uso do antigo acento circunflexo na palavra êle. Se o texto tivesse êle, tinha com acento.
Gabeira havia ficado até 1979 na Suécia. Em 1971, os acentos diferenciais haviam caído para êle, aquêle, êsse, sêde, govêrno.
Não era surpreendente que ele, como ex-exilado, fosse um êle acentuado. O que surpreendia mesmo era que o Gabeira daquele livro que pegou muita gente escrevia como um jornalista comum.
Seus textos para o jornal não tinham quase nada do que aparecia nos livros, mesmo em ‘Entradas e Bandeiras’ e ‘O crepúsculo do macho’. Eram previsíveis e sem inventividade. E o Gabeira mito foi se desmanchando.
Aquele era o guerrilheiro que levou um tiro na bunda, que não tinha sido um ativista importante no contexto da guerra com a ditadura, que não escreveu, como alguns diziam, a carta-manifesto quando do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick em 1969 (Franklin Martins é o autor da carta) e não era acima da média como jornalista.
Gabeira também foi um deputado mediano, que no fim da carreira se aliou à direita e tirou foto de braços dados com o centrão. Mas o cara desviante que usou tanga de crochê foi se sobrepondo ao jornalista e guerrilheiro e o que ficou foi a figura pública do reacionário que está aí até hoje.
O Gabeira mitológico e folclorizado ainda é maior do que o da vida real e cada vez mais com falas alinhadas à direita, apesar do ambientalismo de jardinagem e das posições genéricas sobre costumes e liberdades.
Quem o conhece sabe que esse Gabeira que delira sobre o fim do Supremo para agradar o fascismo — e que chega a defender até a escolha de ministros por MP — já existia, só que com outro formato, lá no final dos anos 60.
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