Loading

Nova mostra em Barcelona passa em revista a obra, as inspirações e a maneira de trabalhar de um dos cineastas mais geniais (e desconcertantes) de sua geração

Godard testa o protótipo da nova câmera criada por Jean-Pierre Beauviala. Foto: Divulgação

Do portal FAROL

Uma exposição de “magnitude superior a qualquer outra já feita sobre sua figura”.

É assim, sem um pingo de modéstia, que Valentín Roman, diretor do La Virreina Centre de la Imatge descreve La Fraternidad de las Metáforas, a ampla, generosa e rica mostra que montou no centro cultural de Barcelona que administra, dedicada a Jean-Luc Godard, o crítico de cinema franco-suíço que transformou-se num dos diretores mais surpreendentes e desconcertantes de sua geração, um dos principais nomes da Nouvelle Vague francesa da década de 1960.

Com curadoria de Manuel Asín e contribuições de herdeiros e colaboradores mais próximos de Godard e de alguns dos colecionadores de suas obras de arte, a ambiciosa exposição – aberta ao público até o início de outubro – espalha mais de 400 peças por 15 salas.

É uma fartura de material inédito, como cadernos de trabalho, fotos pessoais, correspondência, obras plásticas, fragmentos de projetos inacabados, e mesmo trailers dos filmes de Jean-Luc, morto em 2022, aos 91 anos, tendo realizado mais de 200 filmes e vídeos.

Com um detalhe: o visitante não percorrerá um trajeto organizado de maneira cronológica, mas um caminho museal fragmentado, inspirado na própria forma de pensar de Godard, para quem “um filme consiste de um começo, um meio e um fim, embora não necessariamente nessa ordem”.

Tanto que a primeira sala da exposição, intitulada Europa Quo Vadis, é focada na Guerra Civil espanhola, mostrando a ligação de Godard com Barcelona através do seu Filme Socialismo e da influência de A Esperança, de André Malraux, filmado em 1940, na Catalunha.

Há muitas outras inspirações de Godard na mostra, como o exemplar de uma primeira edição de O Mito de Sísifo, de Albert Camus, que o então jovem Jean-Luc leu e anotou, usando citações do poeta grego Píndaro, do escritor francês André Malraux e até de Hitler.

Um caderno de trabalho para a produção de Filme Socialismo. Foto: Divulgação

De interesse dos cinéfilos mais antenados nos detalhes técnicos do cinema é a parte dedicada à parceria entre Jean-Luc e o inventor e diretor de fotografia Jean-Pierre Beauviala, em 1979, para a criação de uma câmera capaz de rodar em 35 mm – com qualidade máxima – mas com a agilidade de uma Super 8, que permitisse ao diretor ele mesmo operá-la, sozinho. Criou-se um protótipo da máquina – usada por Godard em filmes como Salve-se Quem Puder e Eu Vos Saúdo, Maria –, mas a câmera acabou sendo deixada de lado (o cineasta preferia que ela fosse ainda menor do que já era) e jamais foi produzida em série pela Aaton, empresa fundada por Jean-Pierre.

E chega a causar vertigem a sala reservada a planos-sequência icônicos de Godard, vistos em Week-end À Francesa (de 1967) e Tudo Vai Bem (de 1972, estrelado por Jane Fonda e Yves Montand), exibidos um de frente para o outro, na Virreina.

A guerra é uma constante na exposição, seja pelas imagens da Guerra Civil espanhola, seja pela guerra da Argélia, protagonista de um dos filmes de Godard, Tempo de Guerra. O que faz a mostra ressoar ainda mais forte nos tempos atuais.

“(Jean-Luc) nunca foi um otimista”, disse ao diário La Vanguardia o curador da mostra, Manuel Asín. “Mas sempre confiou que as imagens podiam oferecer uma resposta, ainda que fosse parcial”.

“Godard ajudou-nos a pensar e ver o cinema em sua história e a história através do cinema”, escreveu Marcos Uzel na mesma revista Cahiers Du Cinema onde o cineasta trabalhou na juventude.

E agora, em 2026, parece haver uma disposição para se mergulhar fundo na obra e na vida de Godard, como prenunciado por Nouvelle Vague, filme de Richard Linklater que no ano passado chegou às telas parecendo uma carta de amor a Jean-Luc e ao cinema que tanto amou. Ou, como ele chamava, “o fuzil teórico” que utilizou para mirar no mundo e dissecá-lo, em toda sua complexidade, em toda sua contradição.

Deixe uma resposta

DESTAQUES

Descubra mais sobre Blog do Gerson Nogueira

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading