O legado lexical dos negros

(A propósito do 20 de novembro)

Por Sérgio Buarque de Gusmão – no Facebook

Em seu discurso de posse como primeira negra a entrar na Academia Brasileira de Letras, no dia 7, a escritora Ana Maria Gonçalves anunciou: “Venho falando pretuguês…” – referindo-se ao uso de palavras e expressões de línguas africanas correntes no português do Brasil. A realidade é que elas não são numerosas o bastante para caracterizar uma espécie de ramo intra-idiomático na língua de Machado de Assis. A ouvido nu, o tupi, sobretudo por nomear boa parte da fauna e da flora, e literariamente o francês, têm uma presença maior no português.

Proporcionalmente às quase 400 mil palavras registradas em nossos dicionários, os africanismos são poucos, uma assimetria com os termos e acepções dos idiomas que vieram com os estimados cinco milhões de pretos da África, por eles usados ao longo de três séculos de escravidão.

Rebaixados como seres humanos na economia escravista, os cativos não tinham voz e, em geral analfabetos, dispunham de poucos textos que documentassem seu léxico, só no século XX reconstituído por africanistas. A exceção eram os malês, muçulmanos sudaneses alfabetizados em árabe que liam o Alcorão.

Em Falares africanos na Bahia, a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro anotou 3.517 palavras e expressões de origem africana, a maioria de circulação regional, não dicionarizada nem abonada por escritores. Apesar da rica crônica sexual dos negros na formação social brasileira, não vingaram algumas do banto e iorubá como nozdo (tesão), naborodô (transar), indumba (adultério), kukungola (solteira que perdeu o cabaço), huhádumi (me come).

Mas circula tabaco, que como erva e fumo veio da espanhola tabaco, e é atribuída por Yeda de Castro ao quicongo ou quimbundo mubaki com o sentido de vulva, porém Nei Lopes, no Dicionário banto do Brasil não a registra. Ela não anota prexeca, que ele supõe ser do banto, assim como xoxota. Para pênis, o dicionarista registra bimba e chibata. Cabaço, significando hímen, virgindade de homem ou mulher, o Aurélio dá como vinda do quimbundo, e Nei Lopes confirma, filiando-a a cabasu, virgindade.

A escassez de africanismos é compensada na linguagem cotidiana do povo por termos que todo brasileiro conhece e fala, como nesta amostra muito reduzida: angu, cachimbo, caçula, cafuné, farofa, fubá, moleque, muvuca, quiabo, quilombo, quindim, quitute, samba, senzala.

Yeda Pessoa de Castro destaca algumas que substituírem “a palavra de sentido equivalente em português: caçula por benjamim, corcunda por giba, moringa por bilha, molambo por trapo, xingar por insultar, cochilar por dormitar, dendê por óleo de palma, bunda por nádegas, marimbondo por vespa, carimbo por sinete, cachaça por aguardente.”

Haverá racismo no dicionário?

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