O negacionismo chegou ao futebol

O Globo

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Se fosse preciso resumir o Brasil num Tiktok eu filmaria esses jogadores de futebol que, minutos antes de entrar em campo, reúnem-se para gritar um Padre Nosso com entonação de ódio e, depois do “amém”, reforçam a fé no grupo com um “vâmulá, pôrra!”. Aquecem as chuteiras da alma para entrar em campo e com a ajuda d’Ele quebrar as pernas adversárias. Quem viu Flamengo e Atlético sabe disso. O negacionismo chegou ao futebol.

Reina também aqui, neste outrora tradicional canteiro da superioridade brasileira, a descrença no talento dos homens e na ciência das táticas. Aglomerações no meio de campo e bicões, eis o esquema de jogo. Klopp, Guardiola e outros professores, que têm animado o futebol a partir de seus laboratórios geniais, com times dedicados ao ataque, seriam considerados comunistas. Renato Gaúcho declarou não ter o que aprender com eles – prefere um time de zagueiros.

O Maracanã é uma civilização inaugurada com a elegância de um gol de folha seca e desde sempre cumpria sua parte na crença tão brasileira de que uma nação se faz com homens, livros e as embaixadinhas do Paulo Cesar Caju, o balãozinho do Roberto Dinamite, o elástico do Rivelino, as faltas do Zico. Foi no tempo das chuteiras pretas e do troféu Belfort Duarte, ofertado ao jogador disciplinado, sem uma expulsão em anos. O prêmio virou maldição e desapareceu.

“Zagueiro que se preze não ganha o Belfot Duarte”, disse o xerife-carniceiro Moisés, de poucos títulos e muitas pernas machucadas.

Havia entre meus ídolos um goleiro do América, Pompeia, totalmente segunda classe, jamais convocado para a seleção. Tinha o dom, qualquer que fosse a dificuldade do chute contra sua meta, de arrumar um jeito de defender com um voo espetacular. O cronista de jornal é isso. Um “segunda classe” entre jornalistas e literatos, mas sempre interessado em soar bonito – e daqui agradeço a Pompeia a busca insaciável da inspiração para que, na crônica nossa de cada dia, haja uma eterna borboleta voando entre os parágrafos.

Tudo isso foi no tempo da poesia, quando a torcida do Vasco era animada por um sujeito tocando talo de mamão, craque era “rei” e seus gols estufavam o véu da noiva, balançavam a roseira. Aos olhos do mundo, aqui já foi o país da floresta, da cultura sorridentemente sofisticada, mas eis que lá já se foram esses anéis. Do futebol, joia máxima da coroa, sobraram as tatuagens do Neymar, o cai-cai, simulador de faltas que levou essa fake news brasileira, ao vivo, para a vaia na Europa.

O futebol é a nossa mais completa tradução e, como se não bastasse o 7 a 1, só tem servido metáfora ruim. O presidente diz o tempo todo jogar dentro das quatro linhas da constituição, mas tudo que faz é jogar fora delas. Flamengo e Atlético, e todo o campeonato brasileiro, também. Jogadores que ganham milhões esquecem a constituição do futebol, um simulacro da convivência, e por 90 minutos exalam masculinidade tóxica. Discutem, esquecem o passe de três dedos, tiram a máscara das boas práticas desportivas e peitam-se como machos antigos numa briga de rua. São jogos aborrecidíssimos, goleadas de um a zero, que negam a essência da brincadeira. Não, não pode isso, Arnaldo.

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