POR GERSON NOGUEIRA

Quando o Capital Inicial buscava um renascimento em meados dos anos 1990, os produtores recomendaram que a banda arranjasse um letrista e compositor de primeira linha, especialista em pop rock, para qualificar as canções do novo repertório. Alvin L. foi o cara recrutado para a tarefa de moldar a poesia e o som do Capital, constituindo-se no principal alicerce da guinada que impulsionou Dinho Ouro Preto e os irmãos Flávio e Fê Lemos a um patamar de maior respeitabilidade dentro da cena roqueira.

A morte carioca/baiano Alvin L. (Arnaldo José Lima Santos), na semana passada, súbita e precoce, abalou o mundo musical. Tinha 67 anos, e deixou 246 composições registradas. Figura discretíssima e letrista refinado, poucas vezes assumiu protagonismo nas bandas descoladas e anárquicas que integrou – Sex Beatles e Rapazes de Vida Fácil. Preferia viver nas bordas, evitava holofotes. Esse estilo introvertido fez dele uma lenda cultuada por músicos e produtores.

Este Rock na Madrugada é um pequeno tributo sobre Alvin L., uma figura pouco enaltecida pelo muito que fez pela música jovem no Brasil, sem apelar pro marketing fácil ou pretensões cabulosas.

Sobre ele, o jornalista Silvio Essinger escreveu um dia após sua morte: “Mais do que a pena por trás de ‘Natasha’ (Capital Inicial) e ‘Não sei dançar’ (Marina), o Alvin era um doce erudito do rock. Conhecia, especialmente, o glam, e me dava umas lições bem divertidas. No Garage, a alguns minutos de um show do Buzzcocks, ele me fez ver, de maneira bem sutil, como aquelas letras dos caras não eram bem sobre amor de meninos-e-meninas. A elegância e a fluidez do rock eram a lente com que ele via a vida. O Alvin tinha a grande banda de sonho da nossa geração, os Sex Beatles (com a grande cantora e diva do nosso rock loureediano, @crisbraunoficial). Em 1997, com a própria voz imperfeita, gravou um disco solo — que, para nossa sorte, está nas plataformas”.

É o autor pouco badalado de várias canções que estouraram em outras vozes. De formação essencialmente roqueira (fanzaço de Bowie e T-Rex), Alvin L. era também um guitarrista de respeito e compôs músicas para artistas dos mais diferentes gêneros, de Milton Nascimento a Sandy Jr., passando por Marina Lima, Viper e Dulce Quental. Entre as mais conhecidas estão “Natasha”, “Eu Vou Estar” e “Tudo que vai”, gravadas pelo próprio Capital.

“Tudo que vai” foi composta em parceria com Toni Platão e Dado Villa-Lobos.

Em letra muito conhecida, Alvin cravou: “Eu não vou pro inferno, eu não iria tão longe por você (…). Eu não vou pro céu também, eu não sou tão bom assim”. Versos que soam como um elegante epitáfio.

Abaixo, a letra de “Tudo que vai”:

Hoje é o dia
E eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
Só as coisas que você não quis
Me fazem companhia
Eu fico à vontade com a sua ausência
Eu já me acostumei a esquecer

Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro

Salas e quartos
Somem sem deixar vestígio
Seu rosto em pedaços
Misturado com o que não sobrou
Do que eu sentia
Eu lembro dos filmes que eu nunca vi
Passando sem parar em algum lugar

Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais
Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais

Quanto tempo, eu já nem sei mais o que é meu
Nem quando, nem onde

Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais
Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais

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