O fosso entre talento e enganação

POR GERSON NOGUEIRA

Ditadura de 70, caso Saldanha e pressão pelos 23: Gérson conta ...

Seis anos depois, os comentários e análises ficam mais definitivos sobre a tragédia da Arena Mineirão, pior momento da história do futebol brasileiro em todos os tempos. É possível estabelecer um paralelo também entre as palavras de protagonistas negativos do 7 a 1 e os heróis do tri de 70 no México. O cabalístico 7, como se vê, sempre está presente nas rotas e descaminhos do futebol.  

Pai de todos os meias modernos, Gerson Canhotinha de Ouro deu entrevista a Pedro Bial relembrando histórias da campanha vitoriosa no México e, a essa certa altura, emocionou-se com uma mensagem de Jairzinho, seu companheiro de Seleção Brasileira e Botafogo. No tom enfático de sempre, enalteceu o aprendizado com grandes técnicos e parceiros talentosos.

Há poucos dias, li uma inacreditável entrevista do zagueiro David Luiz ao UOL lamentando a desdita em Belo Horizonte frente aos alemães, dizendo até hoje não ter assimilado o golpe e afirmando que o fracasso nas semifinais lhe tirou o título de “melhor jogador da Copa 2014”.

Incrível, espantoso, extraordinário. Acompanhei toda a competição, cobri a campanha brasileira e alguns jogos de outras seleções. Em nenhum momento, David Luiz apareceu entre os destaques da competição na análise de jornalistas nacionais e estrangeiros. O egocentrismo faz com que até hoje o beque acredite na ficção mental de que era um dos grandes do torneio. Nunca foi.

É mais do que evidente a diferença abissal entre a clareza de raciocínio do septuagenário Canhotinha e o zagueiro que Felipão teve a temerária e péssima ideia de lançar como titular em 2014. David, com sua basta cabeleireira em forma de samambaia, está entre as imagens que o torcedor brasileiro quer ver definitivamente longe de seu alcance visual.

Gerson lembrou que Jojoba, apelido de Jair antes de virar o Furacão da Copa, era quase um garoto em 1970, correndo como nunca, turbinado pela preparação física de ponta que o capitão Claudio Coutinho foi buscar na fonte. Visitou o professor Kenneth Cooper, autor do método revolucionário que faria furor nas décadas seguintes, trazendo as orientações para aplicação no período de preparação da Seleção na altitude mexicana.

A fase de preparação é apenas um dos segredos daquele time excepcional, montado ainda em 1969 por João Saldanha. Os cuidados com o condicionamento dos atletas é até hoje ressaltado como referência para competições de tiro curto. É preciso entender também o contexto da fase que antecedeu a Copa do México.

O Brasil vinha de uma fragorosa campanha na Inglaterra, em 1966, quando um time envelhecido foi facilmente sobrepujado por adversários pouco brilhantes, mas extremamente fortes fisicamente, além de violentos, como Bulgária e Portugal.

Em 1970, o Brasil voltou à Copa com cuidados redobrados, atenção aos mínimos detalhes. Acima de tudo, levou ao México um naipe de craques que nunca mais se viu num só time na história das Copas. Do meio para a frente, eram pelo menos oito jogadores fenomenais – Gerson, Clodoaldo, Tostão, Rivellino, Jair, Edu, Paulo César Lima e Pelé.

Gerson reverenciou os companheiros, recusando-se até a incluir craques de outras épocas naquela seleção fabulosa. Romário? Não, disse o Canhotinha. O Baixinho entraria no lugar de quem? Rivellino, Tostão, Pelé? Resposta impecável do 2º melhor jogador daquele mundial, como seus certeiros lançamentos de 30, 40 metros.

David, enquanto isso, vai continuar no mundo da fantasia, esquecendo-se de fazer um mea-culpa da monstruosa contribuição que deu ao ataque alemão naquela surra desgraçada em BH. Ele, Fernandinho, Dante, Luiz Gustavo, Julio César e Felipão foram responsáveis diretos pelo pior pesadelo que já vivemos em Copas do Mundo. Não há perdão possível.

Mais um capítulo do lucrativo negócio do vale-tudo

Como pulverizar definitivamente um passado de retumbantes vitórias e recordes? Mike Tyson, que foi o campeão mundial de boxe mais jovem da história entre os pesos-pesados, segue à risca esse manual de derrocada. Aliás, não é de agora. No final da carreira, ele havia protagonizado aquela cena bizarra da mordida na orelha de Hollyfield.

Mas, como se isso já não bastasse, ele reaparece com o anúncio de retorno às competições. Une-se nesse projeto tortuoso a figuras do subesporte MMA, entre os quais o brasileiro Vitor Belfort. Na quarta-feira, Tyson participou de um teatrinho próprio da categoria para efeito de publicidade do evento. Tudo devidamente ensaiado, como curtem os fãs da categoria.

As cenas estão no YouTube. O time do ex-campeão trocou carícias com o de seu “inimigo” Chris Jericho revivendo episódio em que Tyson “nocauteou” o rival, há dez anos. O falso tumulto serviu para promover o retorno dos veteranos aos ringues de telecatch, espetáculo bem ao gosto de parcela do público americano e de um segmento de adeptos no Brasil.

Enquanto Jericho e Tyson se “estranhavam”, Vitor Belfort e os demais atletas de MMA trocavam safanões com o resto do estafe no palco montado para o torneio fake, na Flórida. Há quem curta e até pague por essas lutas de araque. Gosto não se discute.

Alto custo para retorno do futebol continua sem suporte

Com base nos protocolos até agora conhecidos, o Remo estima que o investimento inicial para a retomada do futebol em R$ 40 mil por clube, para treinos e jogos, avaliando as despesas de adaptação dos espaços e aquisição de exames clínicos para atletas e comissões técnicas.

Depois, com os jogos já acontecendo, as despesas por partida ficariam em torno de R$ 10 mil. Com as rodadas restantes pelo Estadual, o custo total chegaria a mais de R$ 100 mil, valor até agora sem suporte de receitas. Para o Brasileiro, há a perspectiva de ajuda da CBF, ainda não confirmada.Além dos custos extras do pós-pandemia, existem as despesas normais com folha de pagamentos e custos da rotina do clube. São preocupações que os dirigentes têm partilhado com a FPF na esperança de encontrar uma saída.  

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 29)

2 comentários em “O fosso entre talento e enganação

  1. O futebol de hoje é muito mais do que uma disputa dentro de campo, dentro das quatro linhas. Envolve muito dinheiro, marketing, lavagem de dinheiro, influência política entre outras condicionantes. Somente forças ocultas podem justificar a presença e a longevidade de um jogador como David Luiz em elencos de clubes de ponta do rico e organizado futebol europeu e com passagens por nossa gloriosa seleção brasileira. Zagueiro medíocre, lento e desapegado a esquemas táticos, mesmo assim goza da benevolência de técnicos renomados e bem pagos das equipes em que atua. Qualquer outro jogador, mesmo os de currículo respeitável, que se aventurasse em abandonar atabalhoadamente a posição defensiva em que joga, como faz David Luiz, seria prontamente punido com substituição ou barração pelos ditos técnicos. Mas, nosso herói tem licença para matar, não o time adversário, mas o próprio time em que joga.

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