É preciso reinventar o Parazão

POR GERSON NOGUEIRA

Há muito tempo que as federações estaduais de futebol no Brasil não têm utilidade prática. Prestam um desserviço ao nobre esporte bretão. Cumprem (e mal) tarefas burocráticas ordenadas pela CBF, mas se caracterizam pela inércia, omissão e práticas retrógradas. Salvo raríssimas exceções, o futebol funcionaria melhor sem elas.

Não me refiro a uma federação em especial, mas a quase todas, tradicionais redutos de empreguismo e fisiologismo político, indiferentes ao papel institucional de administrar o futebol de maneira moderna, responsável e consequente – servindo aos clubes filiados e não se servindo deles.

Desafio que alguém aponte um único legado de federações que mantêm por 20 e até 30 anos os mesmos dirigentes, verdadeiros aiatolás ou monarcas sem coroa, alheios à transparência, à evolução do esporte ou à prestação mínima de contas com a sociedade. Em certos casos, a simples troca de comando não significa que o continuísmo tenha sido extinto.

Agora, para espanto geral, a entidade sai a condenar publicamente a atitude dos clubes que preferiram fazer seus jogos em Belém na etapa decisiva do Parazão, recriminando o interesse financeiro que estaria atropelando o aspecto técnico e a essência da competição.

Esse posicionamento até seria aceitável se as circunstâncias fossem mais favoráveis aos emergentes do interior, com estádios cheios e dinheiro em caixa. No quadro atual, revela apenas traços de hipocrisia e insensibilidade.

Não pode a FPF sair atirando pedras nos dirigentes de clubes preocupados com a parte financeira, pois na hora de arcar com dívidas trabalhistas e outros encargos eles são obrigados a pagar a conta sem o apoio da entidade.

Aliás, de interesse financeiro a federação entende. Jamais abriu mão, por exemplo, da taxa de 10% de participação obrigatória na renda bruta (o que garante não ter prejuízo nunca) dos jogos.

Os clubes não contam com ajuda extra. Participam de um certame estadual reconhecidamente deficitário, cuja tábua de salvação é o dinheiro oriundo dos contratos de patrocínio bancados pelo Governo do Estado.

Sem a providencial ajuda estatal, não haveria a “interiorização” que o coronel Antonio Carlos Nunes tanto propala como exitosa. Na realidade, talvez nem houvesse mais campeonato, tal é a inépcia em buscar patrocínios junto à iniciativa privada – como ocorre em outros Estados.

Há outro ponto fundamental a considerar.

A crítica aos clubes omite o fato significativo de que os gramados estão impraticáveis nesta época do ano por força das chuvas. As semifinais entre Bragantino x Remo e Independente x PSC não deveriam ter acontecido no Diogão e no Navegantão.

As imagens dos charcos em que os jogos foram disputados falam por si. A precariedade dos gramados é tão gritante que a CBF ordenou a mudança de local da partida Bragantino x Aparecidense, pela Copa do Brasil, do Diogão para o estádio Jornalista Edgar Proença.

Talvez não se fale muito a respeito disso porque a missão de fiscalizar as condições dos estádios (e gramados) cabe justamente à FPF. Portanto, ao reclamar da transferência dos locais de jogos, deveria assumir seu quinhão de responsabilidade processo, por não exigir com rigor que as agremiações que cuidem de suas praças esportivas.

As trocas de mando de campo não constituem o problema maior do Parazão. São sintomas de questões que apequenam a competição, que merece um plano de reestruturação para que não dependa exclusivamente de verbas públicas para existir.

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Papão diante de um novo desafio

Depois de ser alijado da decisão do Campeonato Paraense, cuja conquista era uma das metas do clube para a temporada, resta ao PSC fazer bom papel nos jogos que definirão terceiro e quarto lugares. Nas circunstâncias, não se pode nem afirmar que os bicolores sejam favoritos nessa disputa.

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O desafio não é simples. O Bragantino tem provado ser adversário respeitável, capaz de superar dificuldades em qualquer estádio. Fez bonito papel anteontem diante da Aparecidense, no Mangueirão. Mostrou ter fibra para brigar até o fim pela vitória.

É natural que o time dirigido por Samuel Cândido entusiasmado para a busca pela terceira colocação no campeonato, condição que garante uma vaga na Copa do Brasil 2020.

Para Léo Condé e seus comandados, o terceiro lugar tem importância diferente. Mais do que a vaga na Copa BR do ano que vem, está em jogo a continuidade do trabalho atual. O novo técnico está há duas semanas em Belém e já começa a ser questionado sem ter oferecido motivo para isso.

Foi derrotado nas semifinais com o mesmo time e sistema de jogo que seu antecessor, João Brigatti, utilizava. O problema é que herdou uma situação ilusória: o time tinha campanha invicta e liderava a classificação geral, mas não convencia ninguém quando à qualidade do jogo.

Bastou enfrentar uma situação adversa, em campo enlameado e contra adversário aguerrido, para que toda a suposta superioridade caísse por terra. É injusto atribuir a perda do título a Condé, mas o torcedor tende a alvejar quem está mais próximo.

Por esse motivo, Condé e seus jogadores precisam se agarrar à chance de sair dignamente do campeonato, superando um adversário de bom nível, mas sem a tradição centenária do clube alviceleste.

Até porque, caso o Papão não supere o Bragantino na série de dois jogos, os questionamentos ao novo comandante começarão a fazer sentido.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 12)

6 comentários em “É preciso reinventar o Parazão

  1. Não será surpresa se o terceiro seja do Bragantino.
    Este arremedo de time do Paysandu não tem condições nem de disputar uma série D.
    Já avisei e repito, diretoria Bicolor a quarta divisão nunca esteve tão próxima da Curuzú.

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  2. Concordo em tudo que está escrito sobre a inutilidade das federações de futebol.
    Não abrem mão de nada, enquanto os clubes, que ela explora, vivem à míngua.

    Em que pese a força demonstrada pelo Bragantino, o Paysandu ainda é o favorito ao terceiro lugar.

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  3. Para que o presidente da federação vai se preocupar, com um salário de R$ 50.000,00 por mês, para não fazer nada até eu. O que os clubes tem que fazer é criar suas ligas (conforme o estatuto do torcedor) e deixar as federações apenas com a parte da arbitragem e olhe lá.

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  4. Concordo.
    E alguns campeonatos estaduais perderam a razão de existir. Existem ainda para justificar a existência das respectivas federações.

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  5. A esperança está na rebeldia longínqua dos clubes europeus contra a FIFA e seu novo formato do mundial de clubes. Quem sabe se isto chega por aqui, permitindo a criação de uma liga que decrete o enterro dessas federações mafiosas?

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  6. Uma boa medida seria mudar o calendário do estadual, para o período do chamado verão amazônico. Não iria mudar muita coisa, mas pelo menos os gramados iriam ser um pouco melhores.

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