Festina lente

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Por André Forastieri

Augusto – aquele, sobrinho do Júlio César, primeiro e maior Imperador de Roma – tinha um lema. Era: “o que foi bem feito, foi feito rápido suficiente.”

Ou, de outra maneira: “Festina Lente”.

Que dá pra traduzir, mais ou menos, por “Acelere lentamente”. Ou “Desacelere rapidamente”. Ou as duas coisas.

E significa, mais ou menos, “Faça tão rápido quanto possível para sair bom”.

Treze séculos depois, o lema foi adotado pela família Médici, poderosos banqueiros florentinos.

Que, entre outras coisas, financiaram a Academia Platônica, a redescoberta das sabedorias perdidas da antiguidade, recuperadas após a tomada de Constantinopla pelos turcos, e sua tradução do grego para o latim.

Que é o começo oficial de uma coisa chamada Renascença. E do Humanismo. E…

 

“Festina Lente” era também o lema do primeiro editor de livros da história, Aldo Manuzio. Meu padroeiro, e de todos os editores. Sei de duas ruas com o nome dele, em Roma e em Veneza, e fui lá pedir a benção do santo. Tenho a foto com a placa da rua, para provar.

Manuzio começou em 1494. Publicava inéditos (Aristóteles, Homero, Esopo!), caprichava nas edições, tinha tradutores maravilhosos (Erasmo de Roterdam!), um conselho editorial de sábios, e a amizade de gente como Pico della Mirandola e Marsilio Ficino.

Criou o formato de bolso, a lombada plana, a capa de papel cartão (em vez de madeira), o conceito da coleção de livros.

Ah, também era tipógrafo (criou o itálico, e definiu a margem ideal de uma página usando a proporção áurea). Era gráfico, editor e livreiro. Sua editora é que vendia os livros no final.

Lembra daquela empresa Aldus, que fazia o software Pagemaker, que todo mundo usava pra fazer revista e livro e tal? Era em homenagem ao Aldo, ou Aldus Manutius, em latim.

E o símbolo, o “logotipo” da editora de Aldo Manuzio, era um golfinho enrolado em uma âncora. O símbolo da velocidade e da leveza, unido ao símbolo do peso e da imobilidade. Rápido e devagar. Festina Lente.

Se deixasse o paraíso dos editores (uma biblioteca?) e viesse nos visitar essa semana, Aldo ia ficar boquiaberto de ver como, meio milênio após sua morte, nós no século 21 temos a possibilidade de controlarmos todos os aspectos do conteúdo, da informação, do conhecimento.

De criar, selecionar, editar, transmitir isso diretamente para o leitor.

Que é o que estou fazendo neste segundo.

E ia ficar espantado de constatar como quase sempre fazemos isso na velocidade errada. Com pressa e ansiedade, sem capricho nem responsabilidade.

Sem edição. Ou, na palavra que se usa muito hoje, sem curadoria.

Uma das poucas vantagens de ter uma certa idade é que a gente é convidado pela vida a desacelerar. É biológico. É inevitável. É convidativo e prazeiroso, aliás. Menos hormônios, menos agressividade, menos ansiedade.

Não é à toa que o movimento Slow Food nasceu e floresceu no Velho Mundo.

Nem sempre nos permitimos. Nem sempre me permito.

Buscar o ritmo certo, a maneira certa de viver, é meu trabalho de todo dia.

Estou tentando organizar essa informação – editar – isso direito. Para que eu possa compartilhar isso com consciência.

Enriquecer minha vida, e quem sabe a dos outros. Sem pretensão e sem picaretagem.

Uma parte importante disso é aprender – reaprender? – a trabalhar.

O que fiz esta semana, profissionalmente, não tem nada a ver com o que eu fazia 18 meses atrás.

A maior parte do meu trabalho tem sido, em grande parte, responder para mim mesmo e para outras pessoas as seguintes perguntas:

Como ser incrivelmente produtivo no menor tempo possível – e somente nesse tempo, deixando o restante para o prazer?

Trabalhar para viver, e jamais viver para trabalhar?

E o que exatamente, significa “ser produtivo”, em um mundo de robôs, globalização, precarização? Em que o Trabalho parece valer cada vez menos, e o Capital cada vez mais?

Como sobreviver a isso, e prosperar?

Como ganhar dinheiro, sem jamais abrir mão de mudar o mundo?

São questões que eu não esperava. A vida me impôs.

Eu gostava de ser editor. Hoje gosto de ser outras coisas. Eu gostava de ter 25 anos, hoje gosto de ter mais que o dobro disso.

Tenho saudade, mas zero nostalgia.

E são questões que também me foram impostas pela minha convivência no LinkedIn com pessoas em busca de trabalho, clientes, grana, sentido.

Questões que me levaram a conversar com um monte de gente super diversa. Primeiro informalmente, depois profissionalmente. E até aprendi a a usar termos esdrúxulos como “Empregabilidade” e “Empreendedorismo” sem ficar com a cara roxa de vergonha.

Levou mais de um ano para eu descobrir que tinha algo novo em mim, algo que muitas outras pessoas reconheciam como precioso.

Um valor diferente do que eu trouxe (espero) no passado, sendo – entre as várias coisas que fui – editor.

Um novo valor que quero levar pra mais e mais gente, e só é possível agora. Por causa de todas as coisas que fui. E sou. E por causa do que passei.

E por causa do tempo que levou.

É fundamental, para mim, me dar o tempo necessário para fazer as coisas direito. Visto que não tenho tanto tempo pela frente para desperdiçar fazendo as coisas erradas, ou as coisas errado.

E quero te convencer que você também não tem. Mesmo que não tenha 53 anos, como eu. Mesmo que tenha 43, 33, 23 ou, aliás, 13. A vida passa rápido.

Tem até uma coisa chamada Slow Movement. Te convido a ler um livro chamado “Devagar”, do Carl Honoré, que é a base desse “movimento”. Que se espalha de maneira bem lenta. Como convém.

Tenho grande simpatia pelo Slow Movement. Pela Slow Food, pelo Slow Work, pela Slow Life. O degustar, o aproveitar, o caprichar. Tanta correria pra quê? Pra acabar com o planeta mais rápido?

Esta é a questão central do meu trabalho em 2019. Que estou construindo, e revelando, adivinhe só, devagarinho…

Mas reconheço que a minha pegada não é desacelerar por desacelerar.

Meu ritmo, e o ritmo que te recomendo, e que quero espalhar por aí, e ensinar para quem quiser aprender, é Slow Fast. Ou Fast Slow. É fazer no ritmo ideal para fazermos o melhor.

“Festina Lente!”

Ó O OUTRO CARA

O melhor livro que eu conheço sobre o pai de todos os editores é “Aldo Manuzio: Editor, Tipógrafo, Livreiro”, do Enric Satué, publicado no Brasil pela Ateliê Editorial. Fora de catálogo, que pecado. Só tem dois usados na Estante Virtual. Compre rápido!

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