O grande poder de Stan Lee e a nossa responsabilidade

Por André Forastieri

Stan Lee, sinônimo de super-herói, passou por poucas e boas nos últimos anos, agruras da velhice. Morreu rico, aos 95 anos, amado por milhões. Sua morte é chorada em todo o mundo. Mereceu, merece demais. Muitos outros mereciam também. Steve Ditko, conhece? Don Heck? Larry Lieber? Que tal John Romita e Gene Colan? Jack Kirby, pelo menos?

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Você não precisa saber que estas pessoas existiram para se divertir com os super-heróis Marvel, seja no cinema, TV, games, ou gibis. Mas quem sabe da existência delas fica um pouco incomodado de ler que Stan Lee foi “o criador dos heróis Marvel”. Estes e outros artistas da Marvel foram muito pouco recompensados pelo que fizeram.

Em 1961, Stan Lee, como editor, tinha obrigação de publicar nove revistas por mês, com uma equipe reduzida, custos baixos. Atrasar a entrada de um gibi em gráfica significava perder a chance de distribuí-lo aquele mês. A distribuidora, veja só, era da concorrência: da DC Comics.

Para dar conta, ele contratava exclusivamente artistas muito experientes, que seguravam o tranco. E assim foi desenvolvido o “Marvel Style” de criação.

Stan contava a história para o artista: “nessa edição o Quarteto Fantástico encontra uma raça secreta de super-seres, os Inumanos, cada um com um poder diferente” e tal. O artista – na maior parte das revistas, Kirby – fazia os layouts da história completa, conforme bem entendesse. As páginas então iam para arte-final, e Stan completava como diálogo, e bora pra gráfica.

Isso quer dizer que os artistas tinham muita autonomia para contar a história como quisessem, e inclusive modificar o briefing de Lee, introduzir personagens e tal, conforme achassem interessante e necessário. Lee não era contra e pelo contrário: estimulava que isso acontecesse, porque conhecia o talento de seu time.

Uma coisa importante aí: Lee era funcionário da Marvel. Foi contratado nos anos 1940 porque era primo da mulher do dono, Martin Goodman. Goodman vendeu a companhia em 1968. Lee tornou-se mas para frente publisher, e depois presidente. Foi pra Hollywood. Ficou rico e famoso. Uma inspiração de sua “persona”: Hugh Hefner, fundador e editor da revista Playboy. Mas Stan nunca deixou de ser mascate.

Em todo este período, os desenhistas eram freelancers. Ganhavam por página entregue. Nem Lee, nem os artistas jamais foram donos de nenhum personagem que criaram. Está aí a raiz da briga entre Lee e Kirby, em que Lee sempre tomou o lado dos patrões.

Como freelancers, os artistas inclusive não tinham nenhum benefício, seguro-saúde etc. E por muitos anos, não tinham nem direito a receber de volta as próprias páginas que desenharam, o que só conseguiram nos anos 1970, depois de muita briga.

Era o padrão da indústria. A Marvel só era tão injusta quanto todas as outras editoras. Mesmo assim, muitos dos artistas que fizeram o sucesso da Marvel morreram passando necessidade. Da turma original, restam Larry Lieber, irmão de Stan, primeiro desenhista do Thor; e Joe Sinnott, o melhor arte-finalista de Jack Kirby. Há algumas semanas morreu, esquecido do grande público, Steve Ditko, co-criador do Homem-Aranha.

Hoje, a indústria americana de quadrinhos paga alguns royalties, para os criadores que trabalham com super-heróis famosos, sem lhes dar direito autoral. E as páginas de arte são deles. É o modelo inevitável quando você está brincando com os brinquedos dos outros. Personagens famosos, propriedades de corporações.

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Na época que os principais heróis Marvel foram criados, os contratos extremamente lesivos para os artistas e roteiristas eram legais, e ponto. Lá chama-se “work for hire”, ou no Brasil CCDA, Contrato de Cessão de Direitos Autorais. Kirby e cia. sabiam o que estavam assinando. Mas não podiam prever as fortunas que seriam geradas a partir de suas criações.

A Marvel foi vendida para a Disney em 2009 por US$ 4,2 bilhões. O investimento já se pagou muitas vezes. Hoje, os artistas que criaram o universo Marvel nos anos 1960/70 estão velhos – quando ainda estão por aí. Muitos mal de saúde, sem grana, sem seguro para cobrir suas despesas.

Vale contar toda essa história porque existe uma fundação, chamada The Hero Iniative, dedicada a levantar fundos para ajudar quadrinistas velhinhos. Visite a Hero Iniative e você vai descobrir vários produtos que todo fã da HQ vai querer ter, e ainda ajudar os criadores que precisam. Tem inclusive uma ótima coletânea das colunas de Stan Lee, “Stan’s Soapbox”. Você pode assumir uma parte da responsabilidade pelo bem-estar desses grandes criadores. Compre já!

Se Stan não pode de jeito nenhum ser chamado de “criador” dos Heróis Marvel, em um certo sentido, ele era a Marvel. Porque dava liberdade para os artistas ousarem, e estimulava eles a serem mais dinâmicos e eletrizantes. Porque os diálogos que colocava na boca dos personagens, com as páginas já prontas, pareciam reais, diferentes dos da DC, e de tudo que tinha vindo antes. Porque eram diálogos que falavam de problemas reais, do aluguel atrasado no fim do mês, e de enfrentar o mal em formas épicas e comezinhas. Porque tinham humor e drama e conflito, e mês após mês as histórias progrediam, e os personagens mudavam.

Stan foi, além do mais, o grande marketeiro da Marvel. Assinava colunas mensais, fazia palestras, dava entrevistas. Foi o grande propagandista de um novo tipo de gibi, que era simultaneamente pra criança e pra universitário, e depois pra adultos. E olha a gente aqui no século 21, avôs e netos no cinema curtindo o novo épico Marvel, com direito sempre a uma pontinha de Stan…

Daqui duzentos anos, talvez ninguém nem lembre que existiu uma coisa chamada revista em quadrinhos. Mas o Homem-Aranha e os X-Men e Hulk e companhia continuarão por aí, garantido. São criações que têm, além do poder arquetípico, e do interesse comercial que atendem, uma perspectiva humana e extremamente humanista. Os criadores originais da Marvel cresceram minoria oprimida, escorraçada. Um bando de “judeuzinhos” pobres, filhos de imigrantes, garotos que pegaram em armas para enfrentar o nazifascismo.

Esta experiência dura, de enfrentar preconceito, de estar por baixo, de não se encaixar no que a sociedade espera de você, está presente em cada página daqueles gibis. É o DNA da Marvel. É irônico e triste que existam fãs da Marvel que simpatizam com a brutalidade, o retrocesso, a tortura, o pensamento autoritário. Na verdade, pensam que são fãs, e não são. Não entendem o que leram ou assistiram.

As palavras que estão nos balões são de Stan Lee: liberal, agnóstico, feminista, anti-racista, anti-fascista. Provocador, derramado e debochado. Pela inteligência, tolerância, diálogo.

Enquanto houver injustiça e perseguição, os heróis Marvel serão necessários. Esses males continuam com a gente em 2018, em posições de poder. Estarão conosco por muito tempo. Vamos lutar para que o bem vença no final, como em um gibi.

Vamos homenagear Stan Lee, e todos os criadores de nossos super-heróis. Vamos celebrar essas histórias maravihosas. Elas têm, e continuarão a ter, grande poder. Honrar seu significado, e seus valores, é nossa responsabilidade.

Um comentário em “O grande poder de Stan Lee e a nossa responsabilidade

  1. Excelente texto sobre o outro lado desse mundo. Um outro caso interessante é sobre o Batman. Bob Kane é considerado o criador, mas muito se deve também a Bill Finger, que como muitos nessa lista, morreu no anonimato e sem usufruir dos milhões que sua personagem rendeu. Apenas recentemente e bem depois de sua morte, seu nome aparece nos créditos do homem-morcego.

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