Enquanto desfilava com camisetas atacando o governo, Flávio Bolsonaro atuava como parça de Vorcaro e recebia repasses milionários.

Por João Filho – Intercept_Brasil

As reportagens do Intercept revelando a proximidade do clã Bolsonaro com o maior bandido do Brasil atingiram o bolsonarismo com requintes de crueldade. 
Os episódios que antecederam à publicação das reportagens e os que a sucederam parecem fazer parte de um roteiro escrito por alguém que odeia muito a família Bolsonaro. É cinema absoluto!
Há uma semana, Flávio Bolsonaro divulgou nota  cobrando “ampla apuração” da  corrupção no Banco Master. Ciro Nogueira, um dos maiores aliados da sua candidatura, tinha sido pego recebendo um mensalão de Vorcaro. Mas Flávio se fez de louco e manteve o personagem indignado. Como se não tivesse nada a ver com isso, o senador passou a desfilar com uma camisa estampada com os dizeres: “O Pix é do Bolsonaro. O Master é do Lula.” O cinismo e a desfaçatez foram ousados, o que faria o tombo ser ainda maior.
‘Militante’
Eis que o jornalismo trouxe à tona os fatos que o senador tentou esconder. Horas antes da #VazaFlavio ser publicada, o repórter do Intercept Thalys Alcântara perguntou para Flávio se ele negociou com Vorcaro pagamentos para a produção do filme sobre o seu pai. Flávio ficou desnorteado com a pergunta. Em um intervalo de 20 segundos, ele negou os pagamentos, gargalhou forçadamente, chamou o jornalista de “militante”, virou-se de costas e resmungou: “é dinheiro privado! é dinheiro privado”. 
O senador começou a resposta negando os pagamentos, quase teve uma síncope e terminou admitindo. Foi uma cena tão constrangedora que quase fiquei com pena do senador (mentira). 
Pouco tempo depois, o Intercept completou o drible da vaca e publicou conversas em que Flávio e Vorcaro se tratavam como grandes amigos. “Estou e estarei contigo sempre”, prometeu o senador para o maior ladrão do Brasil um dia antes dele parar na cadeia.
De lá pra cá, o senador não só omitiu essa intimidade com o banqueiro como negou de forma veemente qualquer relação com ele. Pior que isso: Flávio se apresentou como um dos maiores indignados com a lama do Banco Master. É um grau de cinismo alto demais até mesmo para os padrões de quem foi criado por Jair Bolsonaro. 

Encontro com JB na casa de D

O senador ficou nu em praça pública enquanto era coberto por uma pororoca de mentiras. Segundo a agência de checagem Aos Fatos, ele contou ao menos 12 mentiras sobre o caso antes da publicação da reportagem. Ninguém pode se dizer surpreso, já que Flávio é reconhecidamente um mentiroso contumaz desde os tempos em que desviava dinheiro do seu gabinete para financiar prédios das milícias no Rio de Janeiro. 
Na última quinta-feira, uma nova reportagem do Intercept revelou que a proximidade dos Bolsonaros com o mafioso era ainda maior do que se imaginava. Conversas privadas mostraram que Vorcaro topou receber Jair Bolsonaro em sua mansão em Brasília para “assistirem juntos” a um documentário, possivelmente “A colisão dos destinos”  sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A reunião tinha como objetivo pedir o apoio de Vorcaro para financiar a produção do longa “Dark Horse”. Não se sabe se a reunião aconteceu, mas se sabe que o Pix para o filme caiu.

Explicar o inexplicável

A #VazaFlávio foi trágica para o bolsonarismo. Enquanto algumas figuras expoentes da fauna bolsonarista largaram a mão de Flávio, outros entraram em desespero na tentativa de encontrar uma narrativa que explique o inexplicável. 
Cada um falou uma coisa diferente. Flávio admitiu que recebeu o dinheiro de Vorcaro para o filme, mas a própria produtora — endossada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo — negou ter recebido qualquer centavo.
Ninguém conseguiu explicar até agora onde foi parar a grana que Vorcaro deu pro Flávio. Parece que o filme realmente não recebeu os R$ 61 milhões combinados, já que, segundo o G1, há denúncias na produção de ”comida estragada, alimentação insuficiente, longas jornadas de trabalho e atrasos de pagamento”.

Cadê a grana?

Mas, afinal, onde está a grana do Vorcaro? A Polícia Federal suspeita que ela foi usada para financiar as despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, cuja atividade principal é conspirar contra o governo brasileiro.
O dinheiro prometido a Flávio teria sido transferido pela Entre Investimentos e Participações, empresa ligada a Vorcaro, a um fundo controlado por aliados de Eduardo e sediado no Texas, nos EUA. Trata-se da mesma empresa utilizada no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Nunca foi tão fácil ligar os pontos.

A ligação carnal de Vorcaro com o bolsonarismo sempre foi límpida e clara. 

Por mais que a máfia tenha tragado diversos partidos e poderes para lama, o escândalo do Banco Master sempre foi essencialmente bolsonarista. A roubalheira do Vorcaro não seria possível sem a leniência do Banco Central sob o governo Bolsonaro e sem o apoio de Ciro Nogueira.
O maior bandido do Brasil doou milhões para campanhas bolsonaristas e investiu pesado em um filme panfletário sobre a vida de Jair Bolsonaro a ser lançado em ano de eleição. Será que Vorcaro é bolsonarista? Será?

Cinismo apoiando cinismo

Se antes já estava difícil para a grande imprensa sustentar a tese do “escândalo suprapartidário”, agora ficou ainda mais, certo? Errado. O powerpoint da GloboNews foi só um aperitivo. Poucas horas após a publicação da #VazaFlavio, Lauro Jardim estampou a seguinte manchete em sua coluna no O Globo: “Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”.
Pronto! Foi servida a carniça para a urubuzada bolsonarista arrastar o principal adversário de Flávio para a sua lama. A apuração do jornalista se limitou a falas de “pessoas ligadas a Vorcaro”. Não há um mísero indício que sustente a manchete. Isso é tudo, menos jornalismo. Não há absolutamente nenhum indício de que Vorcaro financiou o filme sobre Lula. 
No dia seguinte, veio a capa da revista Veja, mostrando que a grande imprensa não está para brincadeira em ano eleitoral.



Num passe de mágica, conseguiram transformar uma hecatombe bolsonarista em suprapartidária. O cinismo de Flávio Bolsonaro agora está apoiado pelo cinismo da grande imprensa. A militância bolsonarista, que estava murcha e sem saída, recebeu a munição necessária para voltar a babar nas redes sociais. Dessa vez, a narrativa não foi fabricada no computador do Carluxo, mas publicada pela Veja e por um jornalista do grupo Globo. 
Ora, ora. Parece que agora, sim, estamos diante do chamado “jornalismo militante”, não é mesmo? As verdades que o jornalismo sério revelou foram ofuscadas por um jornalismo empenhado em defender a candidatura da extrema direita.
Enquanto uma reportagem está embasada por provas irrefutáveis, as outras estão embasadas por amiguinhos anônimos do bolsonarista Daniel Vorcaro. Podem continuar forçando a barra, mas dificilmente vão conter a força avassaladora das verdades contidas na #VazaFlávio. Enquanto uns jornalistas militam pela democracia e pela verdade, outros militam pelo candidato escolhido pelo maior ladrão do Brasil.

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