Uma reação à tática de guerra psicológica da campanha bolsonarista

Por Piero Leirner (*)

Aí vão algumas dicas de quem está vendo o outro lado agir como uma “campanha militar”, e não exatamente política. Talvez seja tarde para dizer essas coisas, mas no segundo turno essa guerra aumentará sua intensidade. Deixo aqui então uma contribuição para o anti-Bolsonarismo.

– Tática do Bolsonaro é mentira e dissimulação. Isso vocês já sabem bem. O problema imediato é o como eles mentem, e não se eles mentem. Já sabemos que não vai ter como desmentir tudo.

– TUDO QUE SE FALAR CONTRA BOLSONARO SERÁ RESPONDIDO POR ELES COM SINAL TROCADO. Não adianta acusá-lo de “roxo” achando que vai forçá-lo a dizer “amarelo”, pois é mais provável que ele responda “uva”.

– Por isso, insisto de novo: eles estão usando táticas de Operações Psicológicas que estão em manuais de guerra de 3ª e 4ª gerações (assimétrica e híbrida). Cansei de ver isso. É a filigrana dos “Human Terrain Systems” norte-americanos, usam muita psicologia, linguística e antropologia. E não tem marqueteiro, é uma tática de dissipação, e os agentes, ao assimilá-la, dão prosseguimento ao formato. Então vamos lá, alguns pontos interessantes sobre isso:

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1) a maior parte da informação deles é passada em rede. Isso não se deveu só aos 8 segundos de TV, mas ao fato de que essa ferramenta desestabiliza os canais tradicionais e traz um “empoderamento” ao “cidadão comum”. As teorias da guerra híbrida usam as redes de comunicação descentralizadas para desestabilizar nações; desestabilizar uma campanha eleitoral de adversário é fichinha. Não sei se é eficaz a essas alturas responder apenas no sentido de “negar as fake news”, tem que produzir um contra-discurso (não estou sugerindo fake news, é claro) que opere na mesma lógica;

2) essa estrutura de rede foi muito bem aprendida pelas FFAA norte-americanas no Iraque e Afeganistão. Não tem cabeça, elas operam de forma mais ou menos autônoma. Não duvido que a essas alturas o bolsonarismo já é um tanto independente do seu emissor central: as redes estão fazendo campanha por si próprias, e agem como estações repetidoras umas das outras. Como a maior parte delas é semi-fechada e independente, e só mantem conexões parciais entre si, isso garante a sua eficácia: se uma “célula” cai, outras ocupam o espaço;

3) a descentralização e horizontalidade dessas redes criam essa sensação de maior amplitude, indestrutibilidade, resiliência, e, o que é mais importante, resistência à comunicação exterior que venha de um emissor que atua em outra esfera de consagração; por exemplo, a Globo, a campanha eleitoral. Tudo vai ser “mentira”, só se aceita aquilo que está na própria “célula” e em outras “confiáveis”. Não adianta dizer que a Veja é de direita e publicou aquela matéria: trata-se de uma “imprensa suja e esquerdista”, toda ela. É preciso entender que para esse mecanismo funcionar ele precisa abandonar toda emissão de signos “de fora”. Lembra do Matrix? Pois é.

4) ao mesmo tempo, é preciso perceber que eles não abandonam totalmente uma referência aos centros. No entanto, estes são etéreos: toda essa tática é fundada na ideia de que eles visam um “bem maior”, moral, Deus , família, etc. Por isso mesmo esse pessoal vai bater muito na tecla do identitarismo, trata-se de jogar o adversário para a ideia de que ele só quer representar “grupos pequenos”. Para cada vez que você falar “mulher”, eles vão responder com uma “perversão para a família”, tipo “mulher lésbica”. Manuela será o principal foco de ataque nesse campo, pela história política dela. Vão bater que ela é comunista e traz o “perigo vermelho”. Vão abusar da Venezuela. Não adianta responder com “Finlândia”. Mas é possível, por exemplo, mostrar alguma foto de Manuela fazendo turismo na frente de uma igreja na Europa. Quando eles vierem com “kit gay”, vocês contra-atacam com Haddad jogando futebol. O ponto é esse: quando eles vierem com a “uva”, vocês respondem com “suco”, não com “banana”. É básico, nessas PsiOps, que sempre se opere com uma “shifting scale”, tirando o pé da referência que o emissor inimigo enviou, e sempre com mensagens subliminares. Por exemplo, mostre a cena de uma caminhada de Haddad e Manuela pela rua, passando por um muro com uma imagem do palhaço Bozo. Depois é só deixar o apelido colar no próprio fora de nossas redes.

O que fazer para minar essa tática é realmente um problemão. Certamente há muita coisa para resolver em uma campanha, estou longe de saber como se faz isso. No entanto, se fosse seguir os manuais de contra-insurgência que pensam esses assuntos, sugeriria que se dedique alguns segundinhos a isto: atuar onde eles menos esperam, usar mensagens subliminares, fugir dos lugares que eles estão associando a vocês.

Mostrem várias imagens do Moro com tucanos de black-tie, com militares, em paraísos fiscais. É preciso deixar bem claro que estes são agentes coligados, e que a situação atual de Lula se deve à política, que isso não tem nada a ver com justiça. Não adianta só falar, tem que mostrar imagens que sugiram por A+B essa história. Ela deve ser montada na cabeça das pessoas (e não vir pronta), elas têm que acreditar que chegaram a isso pelas próprias convicções.

Outra coisa: é preciso passar, de maneira inconsciente, a ideia de que a “mudança” que Bolsonaro propõe não é “reestabelecer a ordem”, mas propagar o caos. Use e abuse da imagem de um vice-presidente que não aceita comando do seu chefe, e que Bolsonaro representa um perigo à hierarquia militar. Sugira que ele pode causar instabilidade nas Forças Armadas e que isso pode levar a um golpe (lembrando que é preciso conversar com os comandantes, e mostrar que isso representa um perigo real. Eles sabem disso, mas é bom se deixar claro que o lado de cá sabe também e que está preocupado com isso). Associe ele ao Collor, isso é fácil demais. Não precisa fazer essas coisas diretamente, basta jogar imagens, e deixar a nossa rede funcionar também.

(*) Antropólogo da Universidade Federal de São CarlosO texto foi publicado originalmente na página do Facebook do autor.

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