Um bairro paquistanês apaixonado pelo Brasil

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Por Ivana Debértolis, no Vice

No Instagram do Everyday Brasil, projeto que tem como objetivo documentar, por meio da fotografia, o cotidiano do país, e pelo qual sou responsável, é publicada, toda quinta-feira, uma foto de algum Everyday amigo. Recentemente, escolhi uma foto do Everyday Paquistão. Na imagem, dois rapazes posam para a foto em frente aos rostos de Neymar e Messi pintados em um muro de Lyari, bairro de Carachi, maior cidade do país.

Os rapazes apontam para o rosto de Neymar. Logo após a imagem ser publicada no Instagram, começaram a chegar muitas mensagens, além de publicações nos stories e comentários de paquistaneses contentes com essa publicação, referindo-se a Lyari como “Pequeno Brasil” ou “Little Brasil”. Um comentário, em especial, chamou mais ainda minha atenção, pois o fotógrafo Bilal Hassan, autor da foto, dizia algo como: “Finalmente, o Everyday Brasil falou da gente.”

Me senti um pouco mal, como se tivesse deixado passar algo importante, mas a verdade é que, até então, não fazia ideia da forte presença brasileira no país e, muito menos, a razão disso. Ao entrar na página do fotógrafo, com a intenção de encontrar algo que me ajudasse a compreender a questão, deparei-me com imagens nas quais se viam bandeiras do Brasil por todos os lugares de Lyari, entre outras muitas referências ao nosso país. Obviamente, fiquei muito curiosa. O que isso queria dizer?

Chamei o fotógrafo pelo canal de mensagens do Instagram e pedi a ele que me explicasse o significado disso tudo.

Ele me escreveu um email muito carinhoso e solícito, onde o titulo era “Lyari’s Love for Brazil” [O amor de Lyari pelo Brasil], e me contou algo que jamais imaginava e que diz muito sobre nós, brasileiros. Lyari é um dos bairros mais problemáticos de Carachi, em função da violência relacionada a gangues e drogas. Uma região sem lei e fora do controle do Estado, “como as favelas do Rio de Janeiro”, compara Hassan.

Ele me conta que, quando a violência relacionada a gangues e drogas, no bairro de Lyari, estava em seu auge, filmes como Cidade de Deus e Tropa De Elitesurgiram e as pessoas comuns de Lyari, que não estavam envolvidas em nenhuma dessas atividades, entenderam que havia um grupo de pessoas como elas a 13 mil quilômetros de distância, que levavam o mesmo tipo de vida que elas.

Desde então, a imprensa e os moradores de Lyari passaram a se autodenominar “Chhota Brasil” [pequeno Brasil]. “Eles se identificam tanto, que você pode ver bandeiras do Brasil e do Paquistão, lado a lado, por todo o bairro”, conta Hassan.

Os moradores de Lyari sofrem discriminação por parte dos moradores de outras regiões da cidade por causa das atividades ligadas a drogas e às gangues e, somando-se a tudo isso, sempre foram culturalmente diferentes do resto de Carachi e do Paquistão, como um todo. O Paquistão é uma nação apaixonada por Críquete, e o povo de Lyari, que é de ascendência africana ou da província do Baluchistão e vive em situação de pobreza, joga futebol. Há clubes de futebol em todo o bairro e estes treinam crianças de todas as faixas etárias.

Há também a polícia e as forças armadas, o que as pessoas de Lyari sempre veem com muita suspeita, pois, com frequência, ocorrem assassinatos de pessoas inocentes.

O povo de Lyari é consciente de sua condição, cultura e do destino semelhante ao dos moradores das favelas do Rio de Janeiro. Eles veem o povo das favelas do Rio como seus irmãos distantes, que lutam pela vida com destinos, provações e tribulações parecidas. E o amor deles pelo futebol completa essa união. (Foto: Bilal Hassan) 

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