Crônicas baionenses

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POR JONAS FAVACHO (*)

2018 se aproximando, ano de eleição, relembro aqui uma história contada pelo Seu Duca Barroso, um simpático e sábio amigo de 99 anos. Que era ano de eleição municipal em Baião. De um lado, Sandoval Coelho Ramos, um rapaz pobre, filho de lavrador, que, para se vestir, preferia calça preta. Daí o seu apelido. Do outro lado nada menos que João Valente Moreira, um coronel de barranco, remanescente do período da borracha na Amazônia, dono de um casarão de trapiche comprido na beira do rio, no Cuxuará, na Vila de Calados. Ali aviava castanheiros, seringueiros e pescadores de toda aquela beirada. Era um dos maiores comerciantes do município.

Próximo da eleição apareceu na cidade uma vidente que dizia prever quem iria ganhar a eleição. Andava com uma bacia cheia de água e uma cutaca. Isso mesmo, um bichinho parente do sapo.

A coisa era assim: ela jogava a cutaca na água. Se a cutaca boiasse, o ganhador seria o Sandoval. Se a cutaca ficasse no fundo, o vencedor seria o João Moreira. É claro que a pobre da cutaca ficava boiando, esparramada em cima d’água. Que besteira? Mas era assim o nosso Ibope da época.

O pior é que muitas pessoas acreditaram na vidente e sua cutaca. Menos a tia Rita, uma das mais entusiastas eleitoras do Seu João Moreira. Veio a eleição e, pra surpresa dos cutaqueiros, deu João Moreira. E por apenas nove votos.

Dizem que foi uma família da Vila de Matacurá, que, como na época era permitido servir comida aos eleitores no dia da eleição, foi almoçar no comitê do Sandoval e, não sendo atendida, porque a comida já tinha acabado, foi pegar o bandeco no farto comitê do João Moreira onde comeu até dizer chega. Vejam só! A eleição por nove pratos de comida! Lamento de um lado, festa do outro.

A turma do João Moreira não quis nem saber. Logo organizou a passeata da vitória e, com a tia Rita no meio, alegres, iam cantando: “A cutaca não valeu / João Moreira é que venceu / a cutaca não valeu / João Moreira é que venceu”. Os eleitores do Sandoval, que tristes, espiavam a passeata, irônicos, completavam: “e a perna da tia Rita o cupim roeu”. A picareta da vidente, evidente, sumiu da cidade e nunca mais apareceu.

(*) Professor e memorialista oficial de Baião.

(**) Em tempo, Sandoval era meu padrinho e foi um dos homens mais inteligentes e cultos que já conheci. Depois dessa tentativa frustrada, seria eleito prefeito de Baião. Morreu jovem ainda. Era filho de tio Enéas, dono da maior e mais diversificada biblioteca da cidade, onde me enfurnava e passava horas esquecidas, até que minha avó Alice mandasse me rastrear para não perder a hora de ir vender cocadas, beijos-de-moça e rebuçados (que chamávamos de ‘rabuçados’ e os mais sacanas traduziam por rabo-assado). 

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