João Saldanha: as várias faces de um bravo e inesquecível personagem

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POR JOSÉ ORENSTEIN, no Nexo Jornal

João Saldanha morreu em 1990, em Roma, quatro dias depois de encerrada a Copa do Mundo, que comentou pela TV Manchete. Em 73 anos de vida, tornou-se um dos nomes mais conhecidos do futebol – e da cultura popular – no Brasil. Como militante comunista, cronista, técnico e polemista, encarnou um tipo que viveu intensamente o seu tempo, o século 20. Curiosamente, nasceu com a Revolução Bolchevique, em 1917, e morreu com a queda do Muro de Berlim, em 1990.

“O João são vários. Ele vivia muito intensamente, numa atividade impressionante. Era como um boneco de papel machê, com várias camadas, que foram se sedimentando ao longo da vida”, disse ao Nexo André Iki Siqueira, codiretor do documentário “João Saldanha” e autor da biografia, publicada em 2007, “João Saldanha: uma vida em jogo” (esgotada, mas que ganhou reedição neste ano). João Alves Jobim Saldanha (ele era primo de Tom Jobim) nasceu no Rio Grande do Sul, mas foi no Rio de Janeiro, para onde se mudou ainda adolescente, que se fez conhecer – e conheceu suas grandes paixões: a política e o Botafogo.

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No Rio, Saldanha começou a jogar bola na praia de Copacabana e descobriu o Botafogo, clube do qual se tornou devoto torcedor (e mais tarde jogador juvenil e técnico). Também na capital carioca foi para a Faculdade de Direito e descobriu o Partido Comunista, do qual se tornou combativo militante. Abaixo, o Nexo relembra algumas das facetas de João Saldanha, o “João Sem Medo”, como o apelidou Nelson Rodrigues.

O João militante

João Saldanha nasceu em uma família profundamente envolvida em política. Seu avô participou da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, no fim do século 19, pelo lado dos maragatos, que combatiam os positivistas chimangos . A família foi exilada para o Uruguai. Depois voltou, e seu pai, Gaspar Saldanha, deu continuidade à militância, elegeu-se deputado e foi um dos líderes da Revolução Gaúcha em 1923 contra o governador do Rio Grande do Sul Borges de Medeiros. A família se mudou para o Paraná, onde João Saldanha concluiu os estudos primários – tendo Jânio Quadros como colega de classe. A Revolução de 1930 levou Getúlio Vargas ao poder e a família Saldanha, que o apoiava, mudou-se para o Rio de Janeiro. Na então capital federal, João Saldanha começou a se envolver com a militância de esquerda. Em 1935, ano da Intentona Comunista, já na Faculdade de Direito, ele se filiou ao Partido Comunista.

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Enfrentou a polícia de Getúlio que reprimia os seguidores de Luiz Carlos Prestes – e acabou sendo expulso da faculdade. Depois da Segunda Guerra Mundial, encerrada em 1945, aprofundou ainda mais sua militância na esquerda. Foi para a Europa estudar marxismo-leninismo e, na volta, tornou-se secretário-geral da União da Juventude Comunista. Foi preso e fichado no DOPS em 1947 e, em 1949, tomou um tiro à queima-roupa no pulmão da polícia, que invadiu a sede da UNE (União Nacional dos Estudantes) no Rio de Janeiro. Foi visitar os regimes comunistas da Tchecoslováquia, Rússia e China.

Em 1950, liderou a guerrilha de Porecatu, defendendo camponeses em disputa com proprietários de terra no norte do Paraná. Chegou a se candidatar em 1985, com o fim da ditadura militar, a vice-prefeito do Rio de Janeiro, pelo Partido Comunista Brasileiro – ficou em quarto lugar. Até o fim da vida, defendeu os ideais comunistas. Segundo seu biógrafo André Iki Siqueira, o próprio João Saldanha dizia que, mais importante do que fez no futebol, era o trabalho que fez na política.

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O João técnico

Em 1957, o Botafogo, seu clube do coração, o convidou para ser técnico do time de futebol profissional. João, que já atuava como jornalista, topou. Comandou um time recheado de craques como Nilton Santos, Didi, Paulo Valentim e Quarentinha. Foi campeão carioca depois de bater o Fluminense do ponta Telê Santana por 6 a 2. Em 1959, deixou o cargo, insatisfeito com a rotina de treinos e concentração antes dos jogos. Dedicou-se à carreira de cronista esportivo nos anos 1960 – e acabou sendo convidado para ser técnico da seleção brasileira em 1969. Assumiu o time que vinha desacreditado desde a eliminação precoce na Copa do Mundo de 1966.

Ao anunciar seus convocados, disse que não eram “canarinhos”, como era conhecida a seleção, mas “feras”. O Brasil vivia a ditadura militar, João Saldanha era um notório comunista, mas, mesmo assim, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) apostou nele, para contemporizar as críticas da imprensa e do público. “As feras de Saldanha”, jogadores como Pelé, Gerson, Jairzinho e Tostão, formaram um time ofensivo que ganhou todos os jogos das Eliminatórias e se classificou com facilidade para a Copa do Mundo de 1970, no México.

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Às vésperas do torneio, porém, em março de 1970, Saldanha foi demitido. O motivo exato da demissão nunca chegou a ser esclarecido. Mas ela veio duas semanas depois de Saldanha ter peitado o então presidente do Brasil, general linha dura Emílio Garrastazu Médici. É que o presidente pedia a convocação do atacante Dario, do Atlético Mineiro. Saldanha respondeu: “O general nunca me ouviu quando escalou o seu ministério. Por que, diabos, teria eu que ouvi-lo agora?”. A ideia de ver um comunista levantando a taça no México assombrava o regime militar, e Saldanha deu lugar a Zagallo – que acabou convocando Dario, e sendo campeão. Saldanha comentou a Copa do Mundo pela TV Globo, apoiadora do regime militar, mas que abrigava “os comunistas de Roberto Marinho”.

O João cronista

O escritor Nelson Rodrigues inventou para João Saldanha o apelido “João Sem Medo”, em razão do destemor e franqueza do gaúcho botafoguense. Os dois eram os principais cronistas esportivos do Brasil nos anos 1960. Mas tinham estilos  – e opinião política – opostos.

Como cronista, João Saldanha jogou nas três posições: jornal impresso, rádio e TV. Passou pelos principais veículos de comunicação do país.Trabalhou no “Última Hora”, de Samuel Wainer, em “O Globo”, “Jornal do Brasil” e na revista “Placar”. Comentou para as rádios Guanabara, Globo e Tupi, além das TVs Rio, Globo e Manchete. Com bordões como “vida que segue” e um estilo direto, objetivo, tornou-se muito popular. Na Rádio Globo, suas falas eram anunciadas pelos locutores com a chamada: “vem aí o comentarista que o Brasil inteiro consagrou”.

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O João polemista

João Saldanha não media comentários. E se envolveu em diversas polêmicas e brigas ao longo da vida. Em 1970, quando era técnico da seleção brasileira, foi criticado pelo treinador do Flamengo, o ex-goleiro Dorival Knipel, conhecido como Yustrich. O Brasil havia se classificado para a Copa com uma ótima campanha em 1969, mas não estava jogando bem em amistosos preparatórios no início de 1970. Yustrich disse que Saldanha não tinha condições de treinar o time para ser campeão. Saldanha então foi até o campo do Flamengo, em São Conrado, com um revólver calibre .38, à procura do “canalha”. Yustrich teria fugido pelos fundos ao saber que estava sendo caçado por Saldanha.

Mais conhecido é um outro episódio que envolve Saldanha e revólveres. É que em 1967, atuando como comentarista, questionou a atitude do goleiro Manga, do Botafogo. Saldanha levantou a suspeita de que ele havia sido subornado pelo presidente do Bangu, o bicheiro Castor de Andrade. O Botafogo foi campeão carioca vencendo o Bangu naquele ano. Manga não gostou do comentário e disse que, se Saldanha aparecesse na festa do título do Botafogo, “veria sangue”. Teria sido preparada uma emboscada, armada por Castor de Andrade, para que Manga desse um soco em Saldanha.

O jornalista soube do plano e levou dois revólveres à festa. Logo que chegou, viu Manga, deu dois tiros no chão. E, segundo contou em entrevista no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, em 1980, disse: “Vai sair sangue, mas é o teu, seu filho … Dei dois tiros, mas sem muita vontade, nem de errar nem de acertar. A minha intenção era a seguinte: ele vai correr para onde? Para onde estavam os seguranças. Aí eu dava um tiro na bunda”. Manga fugiu. Segundo Saldanha, pulou um muro de três metros para escapar do “João Sem Medo”.

João Saldanha se dizia abertamente contra o futebol feminino. E teria certa vez mostrado profunda indignação com o fato de sua esposa usar um maiô de duas peças, que deixava à mostra a barriga. (Com informações do Nexo)

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