Vendo o futebol de olhos fechados: uma homenagem a Willy Gonser

22 de agosto de 2017 at 23:30 Deixe um comentário

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POR MURILO ROCHA, em O Tempo

Por muitos anos, durante a minha infância e toda a adolescência, o domingo à tarde seguia sempre o mesmo ritual no apartamento térreo, de fundo, no número 212 da rua Monte Sião, na Serra, bairro da zona Sul de Belo Horizonte, onde morei com minha família até os 20 anos. Na sala, de frente para um prateado aparelho três em um, da Sony (LP, cassete e rádio), com o dial estacionado na frequência 610 AM, eu e meu irmão, três anos mais velho, ficávamos sentados no sofá da sala “vendo”, de olhos fechados, o Galo jogar.

Todo o jogo, com suas cores, ruídos e tensão, chegava para nós através de uma voz rouca, ecoada por duas imensas e potentes caixas de som. Quando a TV calhava de transmitir a partida (não havia pay-per-view), o jeito era abaixar o volume do televisor e deixar só o rádio falando. A gente confiava era no Willy Gonser. Os olhos, às vezes, nos enganavam. O Willy, nunca.

Éder Lopes, volante do Atlético entre 1987 e 1994, media apenas 1,76 m, era lento, tinha poucos recursos. Visto friamente, um jogador medíocre. Mas, na voz do Willy, o camisa 5 do Galo era imenso, o “Gigante de Formiga”. E ganhamos muitos jogos porque acreditamos nisso. Até o Éder Lopes acreditava. Uma das minhas primeira camisas foi justamente a dele – naquela época, você comprava o número separado e sua mãe o costurava nas costas.

Outro Éder, o Aleixo, ou melhor, o “Bomba de Vespasiano”, como foi batizado pelo Willy, chutava dez vezes mais forte naquelas transmissões de domingo lá em casa. Lembro bem, a cada gol dele ecoado pelas caixas de som, meu pai vinha correndo lá de dentro, invadia a sala – era impossível escutá-lo, mas pelo movimento da boca dava para perceber a sua fúria – e voltava aquela rodela, responsável por aumentar ou diminuir o som, do 10 para o 3. Mas o estrago já estava feito. Os vidros dos vizinhos já haviam estremecido, o João, cruzeirense gente boa do segundo andar já havia telefonado, minha mãe já havia sentenciado: “doentes”. A culpa não era nossa, mãe. Era da perna canhota do Éder e, principalmente, da voz estentórica do Willy.

Não bastava ouvir a transmissão ao vivo. No dia seguinte, na reprise dos gols, gravávamos aquelas narrações históricas em fitas cassetes. (Pagaria caro para reaver aquelas fitas. Leo, elas ainda existem?) Você se lembra daquele gol de empate contra o São Paulo, no Mineirão, pela semifinal do Brasileirão de 91? “Cléberrr, Cléberrr, Cléberrr. Subiu no terceiro andar e testou de forma IN-DE-FEN-SÁ-VEL contra o goleiro Zetti…”

E como esquecer aquele golaço do esforçado lateral-direito Dinho contra o Cruzeiro, em 95.“Dinho, o homem-coração, Dinho, o homem-força, Dinho, todo entrega, todo generosa luta, Dinho, o incompreendido, Dinho, o incompleto, mas um bom jogador.” Aquilo não foi a narração de um gol. Foi uma aula de Atlético.

E o Willy era mesmo um professor. Português perfeito, noção espacial acurada, repertório amplo, dicção precisa, entendia do jogo e da alma dos jogadores; por isso, narrava tão bem. Criado no Sul, descendente de alemães, nasceu gremista, se fez atleticano. O seu gol clássico era muito bonito de ouvir. Ele dizia, inicialmente, apenas “GOL”, de forma curta, como um estampido, depois, deixava propositalmente o barulho da torcida invadir o microfone por alguns segundos junto com aquela saudosa musiquinha “é gol, que felicidade, o meu time é a alegria da cidade”, para, em seguida, finalizar de forma arrebatadora, rasgando de forma poderosa e quase interminável um longo um grito de gol. Tudo isso, sem desafinar uma nota. Ficávamos, atônitos, esperando o gol terminar, mas parecia não terminar nunca. Seu fôlego, mesmo já depois de velho, era de dar inveja a qualquer jovem locutor.

Ironicamente, as grandes conquistas do Galo dentro de campo – a Libertadores de 2013 e a Copa do Brasil de 2014, além das atuações magistrais de Ronaldinho em 2012 – não foram contadas a nós pela voz forte do Willy. Ele já havia se aposentado. Mas, mesmo assim, dentro da cabeça de cada atleticano, em algum momento, a gente parou e imaginou como seria o Willy narrando aqueles momentos. Eu ainda faço isso e o escuto perfeitamente. Sempre fomos mais atleticanos na voz de Willy Gonser, “o mais completo do Brasil”.

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