Antonio Candido morre aos 98 anos – e o Brasil fica menos sábio

12 de maio de 2017 at 14:14 1 comentário

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O escritor, crítico literário, sociólogo, professor e um dos mais importantes pensadores e ativistas sociais do século 20, Antonio Candido, morreu à 1h40 desta sexta-feira (12), em São Paulo, aos 98 anos. Seu corpo está sendo velado no Hospital Albert Einstein, em cerimônia que prossegue até as 17h. O hospital não informou a causa da morte.

Antonio Candido ingressou na Universidade de São Paulo (USP) no início dos anos 1940 tendo como colegas de universidade figuras como Florestan Fernandes e Aziz Ab’Saber. Pertence a uma geração que ajudou a construir leituras e pensamentos que formariam o Brasil resistente do século 20.

Há alguns anos, este redator o visitou em sua casa. Por sugestão do amigo Flávio Aguiar, professor aposentado de Literatura da USP e colunista da RBA, a finalidade da visita foi presentear Candido com exemplares da Revista do Brasil e conversar sobre o país. No encontro de 30 minutos, o anfitrião transbordou sensibilidade, sabedoria e lucidez. Não quis gravar entrevista – “Já falei o bastante, prefiro dar a vez aos outros” –, mas aprovou a iniciativa do diálogo e agradeceu com brilho sincero nos olhos o presente. A acolhida foi retribuída com atenção aberta e bloco de notas, caneta e gravador guardados.

Estudioso do marxismo e “tradutor” dessa ciência para todas as fases do capitalismo de Marx em diante, o professor militava naqueles anos 1940 no antigo Partido Socialista, ao lado de Florestan e Aziz. Dizia ele que a discordância teórica e prática dos comunistas do antigo PCB, seguidores do stalinismo e do real socialismo soviético, bastava para ser classificado como “trotskista”. “Era um xingamento”, ironiza ele, em depoimento ao documentário Marighela, de Isa Ferraz (2011).

O futuro do país e do mundo, dizia Antonio Candido, a construção de um novo modelo como meio de superação das inviabilidades do capitalismo para a humanidade passa por uma nova reconstrução teórica. “Seria algo como um ecossocialismo. Tanto movimentos ambientalistas quanto organizações socialistas ainda não se convenceram de que uma bandeira não tem futuro sem a outra, mas ainda não surgiram teóricos da linhagem da Marx para dar base teórica e sustentação prática para isso”.

Sem caneta, sem gravador, essas palavras são puxadas pela memória. Não foi necessário muito esforço. Aquela voz serena e lúcida permanece nestes ouvidos até hoje.

Em suas escassas entrevistas nos últimos anos, fazia questão de observar que não necessariamente o socialismo experimentado, mas essencialmente as lutas socialistas travadas pela humanidade, foram responsáveis por avanços civilizatórios. “A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar”, disse em entrevista de 2011 a Joana Tavares, no jornal Brasil de Fato. “O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.”

Observava ele que se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola – “não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for” –, não precisa ser o socialismo. “Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção.”

O ex-presidente afirmou em nota que o Brasil perdeu hoje mais do que um dos maiores intelectuais da nossa história. “Dedicou sua vida à cultura, à democracia e à justiça social. E o fez com excelência em todos os campos. Foi um corajoso adversário de qualquer tipo de autoritarismo e já nos anos 40 fundou a União Democrática Socialista. Lutou contra a ditadura militar e durante toda sua vida se manteve fiel aos ideais da esquerda democrática”, escreveu.

Nascido no Rio de Janeiro, em 24 de julho de 1918, o intelectual era professor emérito da Faculdade de Filosofia e Letras e Ciências Humanas da USP e ganhou vários prêmios importantes da literatura, como o Jabuti, em duas edições, de 1965 e de 1993. Também recebeu o prêmio Juca Pato, em 2007, o Machado de Assis, em 1993, e o Alfonso Reyes, um dos mais importantes da América Latina

Entre as suas obras estão a Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, 1959; O observador literário, 1959; Tese e antítese: ensaios, 1964; Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida, 1964; Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária, 1965; O estudo analítico do poema, 1987; O discurso e a cidade, 1993; Vários escritos, 1970; e Formação da literatura brasileira, 1975. Antonio Candido deixa as filhas Laura e Marina de Mello e Souza.

Com informações da Agência Brasil

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1 Comentário Add your own

  • 1. fernando pina  |  12 de maio de 2017 às 16:17

    A VIDA, que sempre morre,
    o que se perde, em que se perca?!
    Palavras duras de Antígona, heroína e mãe da tragédia grega, pranteando a morte de mais um de seus filhos. E pergunto: o que se perde, quando se perde a inteligência? Estrutura, eu diria! É o que me ocorre agora.

    Curtir

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