E Ciro Gomes tinha razão…

POR RENATO ROVAI

A carta que segue, divulgada pela Globonews, teria sido enviada pelo vice-presidente Michel Temer para a presidenta Dilma. É uma peça para a história e revela o nível de mesquinharia a que estamos submetidos.

Temer reclama que não foi convidado para uma reunião com o vice-presidente dos EUA, reclama que Dilma não renomeou seu amigo Moreira Franco e diz que ficou chateado porque ela falou diretamente com o líder do seu partido na Câmara ao invés de negociar com ele.

Dilma não é fácil e há inúmeros relatos de descortesias da presidenta, mas num momento em que o Brasil está correndo o risco de entrar numa crise institucional sem precedentes,  o vice-presidente da República enviar uma carta dessas à sua parceira de chapa é um escândalo.

Esta carta destrói Temer politicamente. Sua biografia está marcada daqui para diante como a de um político vaidoso, egoísta e de certa forma sem limites.

Dilma pode cair, mas Temer não sairá maior deste processo. Ele caiu hoje.

Leia  a carta:

São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.

Senhora Presidente,

“Verba volant, scripta manent”.

Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio.

Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.

Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos.

Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional.

Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo.

Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.

Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido. Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e menosprezo do governo.

Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.

1. Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.

2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários.

3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone.

4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas “desfeitas”, culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC. Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz parte de uma suposta “conspiração”.

5. Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a coordenação política, no momento em que o governo estava muito desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal. Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários. Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste, nada mais do que fazíamos tinha sequência no governo. Os acordos assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de 60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela coordenação.

6. De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido. Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.

7. Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento. Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8 (oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar.

8. Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden – com quem construí boa amizade – sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da “espionagem” americana, quando as conversar começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança;

9. Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma conexão com o teor da conversa.

10. Até o programa “Uma Ponte para o Futuro”, aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal.

11. PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.

Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais.

Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.

Respeitosamente,

\ L TEMER

A Sua Excelência a Senhora

Doutora DILMA ROUSSEFF

DO. Presidente da República do Brasil

Palácio do Planalto

8 comentários em “E Ciro Gomes tinha razão…

  1. Se entendi bem, acabou de dizer que assume a presidência se, e assim que, o cargo estiver vago. É uma declaração inescrupulosa, uma declaração de guerra. O último apoio manifesto ao golpe, antes velado. Se a dita já esteve entre Dilma e Cunha, agora é entre ela e o vice. Isso está muito claro. A recente declaração de Serra como estadista disposto a apoiar Temer num eventual impedimento de Dilma, como que pelo Brasil, chega a ser risível. E covarde. A turma do entreguismo está a toda. E não vai desistir de tomar o poder. Pelo visto, irão às últimas consequências. Na hora certa, o povo tem que unir-se pela democracia. Essa palavra, a democracia, significa que o poder que vem das urnas, emana do povo. A defesa da democracia é a defesa pela manutenção de decidir os próprios rumos, não de outorgar esse direito a terceiros. Afinal, consolida-se a cada dia um roteiro de golpe. Só não vê quem não quer.

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  2. O Ciro tem pretensões tão oportunistas quanto o Temer. A diferença é que, para o Temer, a oportunidade está mais próxima e aproveitável, nas circunstâncias, quase sem trabalho. Se é que a traição é ação que não demanda esforço.

    As intenções do Ciro sempre ficaram claras nos pronunciamentos que ele fez, mesmo naqueles proferidos supostamente para defender a presidente do golpe. Um excelente exemplo desta verdade é a entrevista que concedeu ao PHA na TVafiada, a qual inclusive foi abordada aqui no Blog.

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  3. Antonio, o fato que embasa o pedido de impedimento – e que é convenientemente esquecido ou não comentado por ambas as “torcidas” – é exatamente a liberação de recursos por meio de decretos “secretos”, ao que tudo indica, da caneta da Presidenta e do Vice. Segundo fontes confiáveis, isso esta exposto no processo que corre no TSE. A conferir.

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  4. Um homem chega do futuro. Uma viagem ao passado planejada. Ele gostaria de conhecer um pouco sobre o ano de 2015, já que assustou-se na sua última viagem… Os famosos anos de chumbo.

    Ao chegar, ele estranha as notícias de jornais e revistas.

    Apesar do veículo do tempo datar 2015, segundo o calendário gregoriano, ele, diante das notícias de salvar a democracia e destituição da presidenta, pensa estar no início dos anos 60.

    Afinal de contas, ele lembrava que os jornais, nos anos 60, colocavam os militares como os salvadores da democracia em frangalhos… “revolução” agraciada pela mídia da época.

    No entanto, não era João o presidente. A presidente era uma mulher, de nome Dilma. Realmente não estava em 1960. Apesar das situações parecidas, o ano era 2015.

    Ao pensar sobre a semelhança entre os anos de 1960 e 2015, o viajante percebeu que o Brasil parecia gostar de viver sob um vicio cíclico.

    Pois, toda vez que o pobre começa a galgar espaço e a desigualdade começa a diminuir, a foice dos mais poderosos vem manipular a pobre massa com o discurso da defesa da democracia.

    Ele cansou de rever tudo aquilo… Resolveu retornar para um lugar em que Imagine de Lennon faça sentido…

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  5. Amigo Celira, o Temer, e outros tantos, já declarados ou a se declarar no futuro, são todos uns traíras. Traíras da pior qualidade.

    Mas, o desvalido nunca esteve tão próximo do que ele sempre esteve, em termos de abandono e sujeição à violência, ao descaso na saúde e na educação (só pra ficar no mínimo), como está agora no governo destes últimos anos.

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  6. O Temer disse, que o PMDB teria candidato próprio em 2018, nada mais conveniente para ele assumir o governo agora, principalmente por que a maioria dos parlamentares envolvidos em corrupção são do PMDB, é a conveniência do gângster lesa pátria que querem continuar roubando e se perpetuando no poder. Égua, vou vomitar não aguento mais, deixem o meu Brasil e seu povo viverem em paz.

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